«Sou horrivelmente impaciente e muito impetuosa»

Já leva mais de cinquenta anos a entrevistar, a escrever e a opinar. Na rádio, na televisão, nos jornais. Longe da reforma, tem em preparação um novo livro, mais íntimo, sobre pessoas com quem se cruzou. E foram muitas, desde o pátio da sua casa aos ecrãs e aos gabinetes mais privados. Maria João Avillez agradece a Deus a intuição e confessa: «A vida contagia-me tanto que chego a achar que sou uma mulher feliz.»

Que pergunta escolhia para abrir uma autoentrevista?

_Se valeu a pena.

E qual é, então, a resposta?

_Valeu. Valeu cada minuto, mesmo os duros. Sou jornalista desde os 17 anos, nunca deixei de sê- lo e durei. Estou aqui.

Desde quando começou o gosto pela escrita e pelo jornalismo?

_Desde cedo. A minha mãe estimulou em nós o gosto pela escrita, pela história, pela poesia. As minhas irmãs e eu crescemos com as histórias que nos lia, com a beleza das palavras, com a importância da poesia, o gosto pelos livros.

Foi uma criança curiosa?

_Em mim, a curiosidade é genética, incentivada pelo tipo de educação que nos deram. Digo sempre que quem se mantém curioso não envelhece. Não sinto um grama de idade, a minha energia não está afetada, nem mesmo a minha capacidade de trabalho. Devo isso a esta acesa curiosidade, ao meu permanente interesse pelas pessoas e pelas coisas.

Com 17 anos fundou um jornal académico. Foi a primeira experiência em jornais?

_Académico não, de todo, foi uma brincadeira com uns amigos. Juntos, fundámos o Companheiros, projeto que logo acabou por falta de meios. Mas o importante é que fomos capazes de fazer alguma coisa. Não nos instalámos. Convivo mal com a acomodação. Os portugueses acomodam-se muito. Em Portugal, tudo leva imenso tempo, nada se concretiza, hesita-se sempre. Nunca fui uma pessoa instalada. Desde muito jovem percebi que não era a minha natureza.

Foi essa necessidade de «fazer» que a levou a trocar a escola pelo jornalismo?

_Provavelmente. Não fui para a faculdade, frequentei um instituto de línguas e administração, que não terminei porque, entretanto, comecei a colaborar na RTP. Fui convidada a colaborar no Programa Juvenil. Depois no Feminino e por aí fora.

Em 1973, com 28 anos, foi para o jornal A Capital. Lembra-se do seu primeiro trabalho?

_Do primeiro não me lembro. Quando entrei, em 1972 ou 1973, o jornal era dirigido pelo Rodolfo Iriarte, um grande homem dos jornais, com quem me dei muito bem e que ainda hoje muito admiro. Tenho pena de não o ver, fazem-me a maior falta jornalistas assim e ele era formidável, muito lhe devo. Lembro-me de alguns trabalhos como, por exemplo, a primeira entrevista feita ao então primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, e essa entrevista foi minha. Consegui, ao longo da vida, muitas cachas, essa foi uma das primeiras. Muito antes, tinha entrevistado a Françoise Hardy para um outro jornalzinho, ela encantou a minha adolescência, fui das primeiras a entrevistá-la, nos bastidores, creio, do Teatro Monumental. Havia em mim o gosto de chegar primeiro pelos bons motivos. Chegar primeiro porque se lutou para chegar primeiro. Não houve borlas.

Entrou para o Expressoem 1974. Que relação tinha com Francisco Balsemão, a quem sempre tratou por tu?

_Quando cheguei ao Expresso, o jornal era dirigido por Francisco Balsemão. Trabalhei com ele alguns anos. É acima de tudo um jornalista. Pode ser dono de imensas coisas, administrador de imensas coisas, ter um grande grupo de imprensa, mas acima de tudo é um grande jornalista. Aprendi imenso com ele!

No Expresso, foi também dirigida por Marcelo Rebelo de Sousa. Entenderam-se bem, sendo ambos tão energéticos?

_Para o Marcelo fui sempre uma entre muitos outros. Nunca me deu a menor das importâncias - enganou-se, claro - e foi assim até hoje. Sabe, tenho um computador na cabeça, uma ótima memória, lembro-me de tudo. Por isso também lembro que o Marcelo, que tem qualidades admiráveis e defeitos pesados, é uma pessoa que nunca me privilegiou em público ou em privado. E muito menos alguma vez elogiou um trabalho meu.

Esperava ou ainda espera esse elogio?

_Nunca espero elogios. Mas noto quando vêm ou não vêm, o que não é o mesmo.

Segue-se uma década em que ganha destaque como jornalista da área política. É a década de ouro?

_Essa época foi extraordinária! Primeiro, porque o país estava em ebulição, lutava-se pela criação de um Estado de direito, de uma democracia civilista, pluralista, civilizada, europeia. Sob a égide primeiro de Balsemão, depois de Marcelo e Augusto Carvalho, fazíamos muito bom jornalismo no Expresso. A Revista do jornal era a melhor revista que se publicava em Portugal. Onde colaboravam António Mega Ferreira, Miguel Esteves Cardoso, Vicente Jorge Silva, Augusto Seabra, Nuno Pacheco, José Manuel Fernandes, Teresa Coelho, Eduardo Prado Coelho, Clara Ferreira Alves... Trabalhávamos a sério. Tenho umas recordações extraordinárias desses tempos. O país estava a reconstruir-se e nós contávamos como: entrevistando toda a gente, chegando a todo o lado, com um jornalismo vivo, de grande qualidade cultural e política.

Como jornalista, tinha uma enorme vantagem: conhecia muitos dos protagonistas.

_Não: fui-os conhecendo. Conhecia poucos dos protagonistas que surgiram após o 25 de Abril. Fui abrindo portas. Imensas portas.

Conta-se que no 28 de setembro de 1974 conseguiu entrar no gabinete do general Spínola, em Belém, e reportar dali. É verdade?

_Não. Reportei, entre outros lugares, do Palácio de Belém, mas não do gabinete do Spínola. Estive onde era precisa.

Trabalhou muito de perto com o Conselho da Revolução.

_Muito, muito, muito. Antes, durante, e depois de tudo. Com o Conselho da Revolução, o Grupo dos Nove, com grupos militares mais à direita. Consegui em primeira mão muitas notícias daquele período quentíssimo, entre setembro de 1974 e novembro de 1975. Havia muita coisa que era feita de noite, porque as reuniões acabavam já de madrugada. Era preciso esperar horas e horas, muitas vezes sem comer. Comíamos cigarros, fumávamos muito! É como se estivesse permanentemente no centro da fogueira: no RALIS, nos Comandos da Amadora, no Palácio de Belém, no edifício do Conselho da Revolução, nas sedes dos partidos. E mesmo em casa de alguns dos oficiais e dos membros do Conselho da Revolução.

E eles aqui, em casa da Maria João.

_Sim, alguns deles aqui. Aí onde está sentada.

Por que vinham eles a casa da jornalista?

_Pela mesma razão por que Álvaro Cunhal falou comigo algumas vezes, porque percebiam que valia a pena e que eu trabalhava a sério neste ofício. E depois gostava de alguns deles, convivi muito com o Vasco Lourenço, o Sousa e Castro, com o Victor Alves, especialmente. Todos eram excelentes fontes. Agora está na moda dizer mal deles, e embora discordando do que hoje dizem, não esqueço - e agradeço - esses tempos vividos com eles. Também entrevistei várias vezes Melo Antunes, fui a casa dele a Sintra. Enfim, não se parava um segundo. Publiquei dois livros carregados dessas histórias.

Em 1976, consegue o impensável reunindo num jantar, em sua casa, Mário Soares e Sá Carneiro, então desavindos, e ainda Freitas do Amaral. Como é que preparou esse encontro?

_Esse jantar partiu de uma aposta. Já os conhecia, já houvera encontros profissionais, sempre gostei do jornalismo vivo, feito olhos nos olhos. Então, fiz essa aposta. O meu marido achou-a divertida e eles, pelos vistos, também. O convite alargou-se depois a outras pessoas, nomeadamente ao diretor do Expresso, Francisco Balsemão, e ao vice-diretor, Marcelo Rebelo de Sousa, que, lembro-me bem, tomaram notas por debaixo da escada, a pensar na edição seguinte do Expresso.

Não temeu que o jantar corresse mal?

_Não, porquê? Sá Carneiro foi o mais reservado, alguma coisa o preocupava. Nunca soube o quê. Talvez já estivesse apaixonado pela Snu (Abecasis) e achasse uma maçada estar aqui e não com ela. Mário Soares esteve muito bem-disposto e Freitas do Amaral - muito mais interessado em Soares do que em Sá Carneiro - veio a seguir ao jantar. Com tanta coisa que havia a discutir, a perguntar, a falar e a debater, não podia correr mal.

A origem familiar e o nome facilitaram esse relacionamento com os protagonistas políticos?

_Ainda hoje me cobram o berço. Mais de cinquenta anos depois, cobram-me o berço. Respondo dando provas, senão diárias pelo menos semanais, de que estou aqui. Mantive-me, durei. Com ou sem berço.

Por outro lado, essa intimidade não criava constrangimento profissional?

_Não era intimidade, era conhecimento. Ainda hoje - três livros e tantos anos depois -não me atrevo a dizer que sou «íntima» do Dr. Soares. Seria um despropósito, as palavras têm um peso e um significado.

E como era a Maria João dessa época?

_A mesmíssima de hoje. Lutadora, intuitiva, trabalhadora, curiosa, enérgica. E avassaladoramente impaciente.

Descrevem-na ainda como muito bonita, sardenta, cabelo muito comprido arruivado, muito vistosa, capaz de criar uma impressão forte em todos. Revê-se na descrição?

_Prefiro dizer viva, com uma grande capacidade de entusiasmo e uma enorme dificuldade em desistir. Nunca desistia, gostava e gosto muito da vida. E isso é sempre contagiante.

Mas tinha noção de que se distinguia?

_Não havia tantas mulheres no jornalismo, eu praticava essa tal energia e ela não é muito associada aos portugueses.

No Expresso, cruza-se com Teresa de Sousa e Clara Ferreira Alves. Rivalizavam muito?

_A Teresa de Sousa é uma grande amiga, alguém de quem gosto e que muito considero profissionalmente. Conheci e convivi muito menos com a Clara. Chegaram depois de mim ao Expresso, quem já lá estava era a Helena Vaz da Silva. Brilhante, grande figura, grande personalidade, ótima jornalista. Ensinou-me muito.

Em 1980, a 4 de dezembro, morre Sá Carneiro. Como é que foi o vosso relacionamento?

_O nosso relacionamento, se assim me posso exprimir, foi tardio. Só o conheci depois de 1974 e, mesmo assim, só comecei a entrevistá-lo e a acompanhá-lo com mais espessura e relevo mais tarde. Quando o conheci melhor, causou-me uma fortíssima impressão. Não deixava ninguém indiferente, marcava coisas e pessoas, tinha ideias claras, dividia as plateias. Ainda hoje penso o jeito que faria à política portuguesa se estivesse connosco. A morte dele foi sentida por mim em dois tabuleiros simultâneos, igualmente fortes: como cidadã, pela falta enorme que obviamente iria fazer ao país; como jornalista, pela perda de um protagonista daquela dimensão.

Em 1986 cobriu a campanha presidencial de Mário Soares. Foi a melhor campanha presidencial de sempre?

_Foi, claro, é indiscutível. As presidenciais de 1986 foram absolutamente memoráveis, as campanhas estavam muito bem organizadas, havia alto profissionalismo em ambas. Quer Freitas do Amaral quer Mário Soares tinham a seu lado grandes políticos e grandes intelectuais. Havia uma imensa vitalidade política em ambos os campos Foi interessantíssimo. Debateu-se e falou-se sobre o país. Gostava de poder voltar a viver tudo isso. E a campanha com Soares também foi memorável. Lembro-me de atravessar Braga ao seu lado, ambos comendo castanhas assadas, no dia em que os jornais noticiavam que ele tinha oito por cento nas sondagens, atrás de todos! Parecendo olímpico, fazia contas «por dentro» e ensaiava estratégias. Queria ganhar, agiu como tal. Formidável. Acompanhá-lo era simultaneamente interessante e divertido: entrava e saía de lojas e cafés, trocava os itinerários, furava os protocolos, falava com toda a gente, seguia a sua intuição. Nunca se cansava, tinha um enorme sentido de humor, e à noite, quando chegávamos aos hotéis, exaustos, ele ainda ficava a contar histórias e a rever o dia!

Alguma vez votou em Mário Soares?

_Uma vez. Sou de direita, não voto à esquerda. Mas votei - com muito gosto - uma vez em Mário Soares. Não, não direi quando.

Porquê?

_Porque é comigo.

Que impressão guarda das entrevistas com Mário Soares?

_Além de determinantes - para ele, politicamente, para mim, profissionalmente - eram uma coisa sempre muito afetuosa. Falámos mil vezes, a minha curiosidade estava sempre ao lume. Conversas que eram como grandes viagens...

E das conversas com Álvaro Cunhal?

_Álvaro Cunhal não era uma pessoa afetiva. Mas sempre me deu a entender que talvez valesse a pena conversarmos um bocadinho. E fomos conversando, entre 1976 e 2002, creio, até ele ficar mais doente e não me querer ver. Falávamos umas vezes em off the record, outras, on the record. Houve algumas boas entrevistas e mais tarde um livro de que gosto muito, Conversas com Álvaro Cunhal e Outras Lembranças. Por aquelas conversas passavam livros, o gosto que ele tinha pela pintura, o gosto pelo humor, o Benfica. E Herman José que, nessa altura, estava no auge da inteligência e do brilho. Cunhal era sensível a esse tipo de inteligência.

Como é que ele reagia a uma pergunta mais pessoal, intimista?

_Não chegava a reagir, não respondia. Foi sempre ele quem liderou o jogo. O meu papel era fazer as perguntas todas, mesmo que ficassem sem resposta. Nunca o levei a dizer uma coisa que não ele não quisesse e, ao todo, a resposta que obtive mais parecida com um desabafo ou um estado de alma foi sobre a queda do muro de Berlim. Perguntei-lhe se tinha sido uma derrota amarga e ele respondeu: «Amarga ainda é uma palavra muito pequenina para dizer isso.»

Depois de tantas entrevistas, recorde dois ou três momentos que considere memoráveis.

_Tenho alguns momentos memoráveis, silêncios, gestos, uma palavra aqui, outra ali, uma lágrima que rola e com que não se contava. Como ocorreu com Rui Vilar numa entrevista, quando se emocionou ao recordar o apoio de sua mulher no mau momento que então vivia por lhe ter sido diagnosticado um tumor, que felizmente curou. Outro momento memorável aconteceu quando Nuno Morais Sarmento, então ministro, me confessou em direto que tinha consumido drogas duras. Tinha deixado essa pergunta para o fim para não contaminar logo de início toda a entrevista, mas ele tomou a iniciativa.

Já lhe apeteceu deixar o entrevistado a falar sozinho?

_Apenas uma vez, com um deputado do PS, mas foi num debate. Já passou.

Em cinquenta anos deve ter havido pelo menos um gravador que não gravou.

_Aconteceu uma vez com o Nuno Abecasis, que era presidente da Câmara de Lisboa e dirigente do CDS. Telefonei-lhe, pedi desculpa, refizemos a entrevista. Pior ainda é ficar com o som da gravação inaudível! É um sufoco. É preciso martirizar a pessoa para que nos receba uma segunda vez, nem que seja pelo telefone, de noite, de qualquer maneira. Há que refazer a entrevista. Sim, tive imensos percalços.

O que torna uma entrevista especial?

_O trabalho de casa, a curiosidade, ser capaz de seguir o voo da pessoa, parar onde ela para, voar para onde ela voa. E depois o ritmo, o balanço, é «proibido» maçar o leitor. Há que levá-lo pela mão através de uma pessoa e não há nada mais interessante. A fidelidade e a nitidez do retrato são absolutamente essenciais.

Para se ser um bom entrevistador, além de muito trabalho, é necessário o que mais?

_Intuição, curiosidade, esforço. E alguma sorte, se bem que ela dê trabalho... A intuição é das coisas que mais agradeço - Deus ma conserve -, dou por ela todos os dias. Estou num lugar ou diante de uma pessoa e apercebo-me, pelo tom de voz, o olhar, a maneira como se senta, o gesto, se vai correr bem ou mal.

E gosta de pessoas?

_Gosto de pessoas, o que não quer dizer que goste das pessoas. As vezes não gosto, felizmente para mim.

Quais as entrevistas que lhe escaparam?

_As que ainda irei fazer.

Freitas do Amaral nunca lhe despertou a curiosidade que lhe mereceram Cunhal, Sá Carneiro e Soares. Porquê?

_Talvez porque como jornalista e como cidadã, me identifique mais com a maneira de fazer política e de estar na política de Soares ou de Sá Carneiro, para falar dos mais antigos.

Porque é que gosta tanto de Cavaco Silva?

_Gosto e gosto de dizer que gosto, porque agora não há nada mais «na onda» e mais in, do que dizer mal dele e não entro nessa. Era como se me virasse para o mundo e dissesse «olhem, afinal estive distraída nestes últimos trinta anos, não gosto nada dele». É alguém com um enorme sentido de Estado, cuidando do interesse nacional acima de todas as coisas e um patriota. Foi um ótimo primeiro-ministro e aí sim, posso concordar que o seu perfil o recomenda porventura mais para um cargo executivo, como é a liderança dos governos, mas não é por isso que vou execrá-lo. Como toda a gente, tem os seus bons e maus momentos. Recentemente, ouvi-lhe duas ou três coisas que considerei infelizes e politicamente erradas e não o escamoteei nos meus comentários escritos ou televisivos. Curiosamente só se «dá» por eu ser cavaquista - sou sim - mas nunca pela isenção e lucidez com que critico profissionalmente o que entendo dever criticar.

Esta proximidade física aos protagonistas revela fascínio pelo poder?

_Se as paredes desta casa falassem, ouviam-se vozes de fascistas, moderados, centristas, socialistas, comunistas, sociais-democratas, radicais. Está aliás tudo apontado.

Um dia, o que estas paredes conhecem será contado?

_O futuro a Deus pertence.

Nunca sentiu fascínio por esse lado da política ativa?

_Nenhum. Estou muito contente com a minha profissão.

Mas já foi desafiada?

_Colaborei dois anos com o então ministro da Educação, Roberto Carneiro, e nada mais. A pergunta é outra, com sua licença: quantos primeiros-ministros e quantos presidentes da República e quantos líderes da oposição, passaram no meu computador? Todos, ou quase. Fui testemunha de primeira fila. Não tem preço.

Foi muito crítica de José Sócrates. Alguma vez o convidou para jantar aqui em casa?

_Sim, após um programa que havia na Rádio Renascença de que eu era a pivot e onde ele intervinha, reuni aqui a equipa para um jantarinho. Sócrates tinha um compromisso - era ministro do Ambiente -, veio só ao café. Não comecei por ser crítica, passei a sê-lo e muito. De início, olhei até com muito interesse o que tentou fazer no país e aquele seu instinto reformador não tinha preço, era até caso raro entre nós. Não é agora que esta numa mó muito baixa que vou fazer de conta que sempre fui crítica. Quando descobri que mentia como quem respira, percebi que iria acabar mal. Acabou sem perdão.

Há quem considere que nas crónicas se expõe em demasia. Concorda?

_Sou uma impressionista e quando estou a fazer «opinião», apesar de ter alguns limites de privacidade (o que me contam, o que já sei e outros não, etc.), assumo o que sou e como sou. Toda a gente sabe que sou de direita mas quarenta anos depois ainda se tem de pedir licença para ser de direita.

Não teme parecer demasiado protetora do atual primeiro-ministro?

_Protetora? Mas eu não sou a Florence Nightingale. Nem ele precisa de protetores nem eu tenho alma de protetora. Quando escrevo sobre o governo, digo o que me parece: de bem e de mal. Está publicado.

Também é escritora. Em 1982 biografou Sá Carneiro, um livro que foi um êxito.

_Não sou escritora, sou jornalista. O livro sobre Sá Carneiro foi um grande êxito, com mais de dez edições. A editora era uma brincadeira inventada pelo Marcelo Rebelo de Sousa e o Carlos Barbosa, que se sumiu como apareceu e eles ganharam mais do que eu. A convite da Leya houve uma reedição no ano passado, o que me permitiu fazer um novo prefácio, com outra visão, muito mais maturada pelo tempo.

Televisão, rádio ou jornais - o que prefere?

_Não tenho felizmente de escolher. Com uma arma apontada à cabeça, escolhia a escrita. Adoro jornais, mesmo sabendo que agonizam e que vou assistir ao enterro.

Olha hoje para o jornalismo e o que vê?

_Acho que o jornalista é muito endeusado por contraste com a classe política, que é imediatamente condenada. Não digo que a classe política esteja no seu melhor, temos assistido à gradual mas inexorável mediocratização do tecido político português. Recordo-me do primeiro parlamento, em 1976: o melhor de Portugal estava lá, o melhor da sociedade civil portuguesa acorreu à chamada, colocando-se ao serviço do que estava em causa - democratizar o país. Por qualquer misteriosa razão o jornalista é um ser incólume e intocável, que nunca pode ser nem negado, nem desmentido, nem contrariado mesmo quando diz uma inverdade ou age por transparente má-fé. Enquanto de uma forma geral a classe política é para condenar liminarmente. Com a exceção, claro está, dos «chuchus» do costume.

Que razão encontra para os atropelos ao código deontológico?

_Vale tudo. Acho que as dificuldades do momento podem ajudar a explicar - embora a mim não me sirva de modo algum como explicação - alguns desses atropelos. Os jornais estão a agonizar e, portanto, há uma espécie de corrida desenfreada às manchetes mais sensacionalistas e, por vezes, às mais imbecis. Tenho muita pena.

Que outro conselho daria aos seus pares, nestes tempos?

_Não dou conselhos aos meus pares, Deus me livre.

De que forma acha que é vista por eles?

_Não preciso saber. Interessa-me, sim, a forma como me vejo a mim própria: se estou a ser fiel, se estou a cumprir. Isso sim, interessa-me. E já agora, que os leitores me leiam e os espetadores me vejam.

E pelos portugueses?

_Quais?

Mas interessa-lhe o que as pessoas possam pensar de si?

_Não. Gostaria apenas que me vissem: 1) como uma pessoa que trabalha; 2) como alguém que ama a vida; 3) como alguém que faz bom ambiente e tem um pouco português sentido da festa. Embora hoje mais atenuado.

Cinquenta anos depois, o que é que ainda gostaria de fazer?

_Continuar a ser convidada para escrever, entrevistar, comentar. Continuar a ouvir «gostava de ser entrevistada por si». Continuar a ter eco de mim.

E vai reformar-se um dia?

_Não preciso. Consigo conjugar os felizes dias do «Oeste», na outra casa, com os afazeres e as solicitações do ofício, em Lisboa. Um privilégio, este sim, raríssimo e que muito agradeço a Deus. Como se tivesse duas vidas, uma cá, outra lá.

Nasceu em Lisboa, a 4 de fevereiro de 1945, nesta casa, no Campo Grande. Que recordações tem dos primeiros anos?

_As melhores. Paraíso perdido. Uma coisa fantástica, um jardim enorme. Nós as três com amigos e amigas aqui, sempre. Lembro-me de a minha mãe a pentear-me os caracóis, vestir-me um fatinho de ver a Deus e dizer «hoje vamos a Lisboa». Ao tempo, isto era um arrabalde. Íamos de elétrico, descíamos nos Restauradores. Ela fazia aquele percurso do Chiado, entrávamos em muitas lojas e, depois, voltávamos outra vez de elétrico. De cada vez descobria um bocado de mundo, fora do meu que era esta casa enorme onde nasci, aqui em frente, cor-de-rosa. E dentro desse mundo que era o nosso, cada uma das minhas irmãs tinha o seu.

E que mundo dentro desse mundo era o seu?

_Era um mundo mágico, encantado. Vivia a inventar histórias.

A infância foi já marcada pela tal energia?

_Lembro-me da minha mãe me contar que eu lhe dava trabalho porque era excessiva e sempre com pressa, queria tudo e ao mesmo tempo.

Contam que faz tempestades num copo de água. Desde criança?

_Às vezes faço, porque sou impaciente, horrivelmente impaciente, e muito impetuosa.

Dê-me um exemplo de alguma coisa ou de alguém que a levem a fazer uma tempestade num copo de água.

_Uma pessoa que promete entregar uma coisa e falha, pessoas que não cumprem e não se importam, alguém que não responde a um e-mail ou a uma mensagem que obviamente reclama resposta. Em resumo: pessoas com maus hábitos de trabalho! Espanta-me tanto que ainda consigo indignar-me. Odeio o desleixo e o deixa andar.

A mãe e as irmãs, já em adultas, lembravam-lhe que já em criança era assim, refilona ?

_Não é preciso que elas se lembrem, lembro-me eu: sempre me vi a refilar.

Foi educada numa época em que a afetividade nas relações entre pais e filhos era espartana. Como foi na sua casa?

_O contrário disso, fomos até muito mimadas, éramos só três meninas. Fomos e somos absolutamente o fruto da educação que tivemos. Muito cedo começámos a viajar sozinhas, a sair, a ver todo o tipo de gente, eu passei grande parte da minha adolescência com atores, por exemplo, queria ser atriz. Apesar de termos crescido numa casa conservadora, com pais salazaristas e educadas - felizmente! - no «Deus, Pátria e Família», havia abertura ao mundo, vinha muita gente a nossa casa. Depois cada uma de nós fez o que quis e como quis.

E também educou os filhos nessa trilogia?

_Sim, mas de modo algo diferente. Eles cresceram também amparados naquilo que eu e o meu marido tínhamos como bom e, mesmo se o país já não era o mesmo, há valores imutáveis. Educámos os nossos filhos com um sentido de pátria - não tenho vergonha da palavra - e, assim que pudemos, levámos alguns deles a ver restos do Império. E depois houve a bússola desses três ou quatro valores - não são precisos mais - seriedade, caráter, honra, trabalho, mérito.

E eles lidam bem com o facto de terem um pai e uma mãe com feitios muito diferentes?

_Felizmente, santo Deus! Uma caminhada a dois é feita da diferença. Se fôssemos iguais não estávamos juntos ao fim de 45 anos.

É uma mãe preocupada?

_Estou sempre a telefonar-lhes, há um lado meu, irritantíssimo, de mãe galinha, mas nós somos uma tribo. O nosso clã está cada vez maior, a minha mãe já tem 12 bisnetos. O clã é de aço. Aliás, é o que me vale.

Deus é uma constante indispensável?

_Indispensável.

Que relação tem com Ele?

_Íntima e sobressaltada.

No verão passado perdeu uma irmã, Maria José Nogueira Pinto. Que influência tem a dor, a perda, nessa relação com Deus?

_É o contrário: é por existir essa relação que vou tentando resistir às provas da vida.

Tem uma filha carmelita. Ela é por isso um interlocutor especial nessa relação com Deus?

_Falamos de tudo, a relação com a minha filha foi, é e será uma relação de mãe para filha. Naturalmente que Deus tem um lugar primordial mas não o «exclusivo». É uma relação tecida e cerzida pela vida de todos - os irmãos, a família, os nossos netos, o Campo Grande, o que acontece no mundo, as nossas vidas, tudo. Conversamos muito.

Foi uma decisão radical de uma filha, a única rapariga em cinco filhos. É uma vida de clausura, sobretudo contemplativa. De que maneira reagiu ao anúncio?

_Ela tinha 26 anos quando nos anunciou a sua decisão, mas já antes eu tivera a intuição, a perceção de que, dentro dela, havia há alguns anos uma espécie de combate entre Deus e o mundo. Ou seja, que ela estava entre o chamamento de Deus e o apelo do mundo. Deus acabou por levar a melhor. Quando ela nos disse, não fiquei surpreendida. Ao contrário do meu marido.

Não partilhara com ele essa intuição?

_Não podia. Tratando-se de uma questão tão profunda, tão delicada, tão única, guardei-a para mim, podia estar enganada. Não estava, um coração de mãe não se engana. Depois, percebi que o meu lugar tinha de ser entre os dois, mas ao lado de cada um: ao lado dela, que foi capaz de corresponder a um chamamento tão radical, e sobretudo ao lado do meu marido, que não gostou, em absoluto, da escolha dela. Conciliar opostos é tão desafiador quanto difícil. Com grandes sentimentos à mistura, é ainda mais difícil.

Apesar de ter intuído o que se passava, o que sentiu quando ouviu a decisão?

_De início senti-me roubada, claro, hoje teria aqui comigo netos com vinte e tal anos, quem sabe bisnetos, mas sobretudo teria uma filha connosco, filha que a partir dos seus 26 anos passei a ter de outra maneira. Depois fui percebendo - muito emocionadamente - que era um dom ter uma filha capaz de corresponder e de dizer um dia «aqui estou» a um apelo tão profundo.

Ainda hoje pensa nesse dia?

_Recordo-me de tudo como se fosse hoje. Do lugar onde estava sentada, do dia que fazia, de tudo o que dissemos e fizemos. A conversa ocorreu num sábado ao final do dia, na nossa outra casa. Ela viera de Bruxelas - trabalhava na UE - para falar connosco.

Em algumas crónicas fala do pátio, desta casa do Campo Grande. Onde já se viveram episódios peculiares e várias cenas cómicas da vida familiar.

_Falo daqui, falo do Oeste, falo do nosso absolutamente extraordinário Algarve, onde tínhamos uma casa em Olhos de Água. Gostava muito de escrever um livro chamado «O Pátio». Ele merecia-me isso: no auge do PREC, o pátio dividia-se em dois: havia os contra-revolucionários, do lado de lá do pátio, e os da revolução, que vinham à nossa casa. Por vezes, nos mesmos dias e às mesmas horas. Conheciam-se, claro, uns aos outros, talvez até se cumprimentassem. Em Portugal há sempre um lado de «Lisboa em camisa».

Conta-se que anima muitos jantares com relatos de algumas dessas histórias. Quer fazer um?

_Direi apenas que gosto de comunicar, de mimicar, de contar histórias. E que as melhores crónicas que escrevi foram sobre o «pátio» e as suas histórias, ou sobre a nossa tribo nas suas diversas moradas.

Gosta muito de mar. E de água bem fria.

_Gosto do Atlântico, acima de tudo, onde sempre nadei. E por isso costumo dizer que tenho um doutoramento em água fria. Primeiro, foi Cascais e o Guincho, depois, a Foz do Arelho. Mas conservo um puro fascínio pelo Mediterrâneo, onde vou por vezes de barco, visitando diversos portos, ilhas e terras. Interessa-me muito a história daquele mar.

E com tudo isto e tanta viagem à volta do mundo, tanta África, tanta Ásia, Europa e América, onde sou mais feliz é prosaicamente nas Caldas da Rainha...

Porquê?

_É a retaguarda. Foi feita por nós numa idade em que já sabíamos muito bem o que queríamos. O Atlântico tão bem cantado pelo Manuel Alegre na Senhora das Tempestades está ali ao lado. O tempo passa mais devagar, oiço os cães ao adormecer e os galos de madrugada. Temos um grupo de amigos do peito que vão lá muito, a tribo passa férias e alguns fins de semana nas três casas da quinta - uma de cada irmã. A nossa casa é muito bonita, tal como o jardim, feito pelo Francisco, que além de jardineiro é cozinheiro. As rosas estão mais bonitas do que nunca. Espero ter descrito um sonho.

Não cozinha porque não gosta ou porque não sabe?

_É o Francisco (van Zeller) quem cozinha. Eu faço de ajudante. Não sei cozinhar, mas fazemos uma boa equipa.

É uma pessoa solar?

_Sou. E festiva. Tenho horror à sombra, ao escondido, à intriga, ao dissimulado. Vomito os dissimulados. Gosto da luz, da claridade. Da manhã. Tenho dias muito tristes, nunca deixei de os ter desde julho do ano passado, mas nos intervalos há esse lado solar e a vida contagia-me tanto que chego a achar que sou uma mulher feliz.

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