Silêncio e tanta gente. Muita, mesmo muita.

A manifestação a que assisti no fim de semana passado - em Lisboa - foi particularmente tocante. Não, não foi pelos milhares de pessoas, cujo número concreto ainda não temos, mas já sabemos ser de certeza enorme: a maior manifestação depois do período quente do pós-25 de Abril. Não, também não foi pela enorme capacidade de mobilização que descobrimos no Facebook - de que suspeitávamos mas da qual ainda não tínhamos tido nenhuma prova concreta. Não foi sequer por ter sido uma manifestação convocada à margem dos partidos - dos mais tradicionais e até dos movimentos e grupelhos sociais. Não, não foi por nada disso. Ou antes, foi por tudo isso, mas foi muito mais pelo silêncio.

A manifestação do fim de semana passado não tinha sido convocada como marcha silenciosa. Mas, em muitos pontos do percurso - e assisti a toda ela de um ponto de vista fico, ou seja, ela passou toda por mim - esta foi uma manifestação muito silenciosa. É verdade de havia alguns slogans jocosos escritos em cartazes, é verdade que houve arremedos de palavrões atirados contra Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar - que, na maior parte das vezes, caíram em saco roto. É verdade que se gritou, por momentos, vários, alto e bom som, o clássico «O povo unido jamais será vencido». Mas se o ritmo desta manifestação fosse medido por um electrocardiograma, ele teria um ritmo muito calmo e regular.

O silêncio impôs-se, acabando por revelar o que estava por detrás de toda a mobilização a que assistimos. O desalento. A tristeza. A incredulidade. E uma certa falta de esperança. Tenho para mim que isso tudo se deveu à estocada final do novo regime da TSU, cujo ferro, depois de espetado nas nossas costas, foi rodado e escarafunchado pela fraqueza no discurso, pose e explicações de quem nos governa.

Esta foi uma manifestação séria, num país sério, de gente que decidiu mostrar, de forma séria, que está seriamente descontente com o que se está a passar. Do meu ponto de vista privilegiado, vi gente sobretudo da classe média urbana com muita vontade de dizer o que pensa, com muita vontade de exercer a pluralidade democrática, com muita vontade de fazer-se ouvir... mas com muito poucas forças para gritar. Gente de classe média, repito. Que lutou pela sua vida e, nessa luta, pelo progresso do país. Gente que trabalhou para um futuro melhor e agora está a vê-lo cada vez mais inseguro. Gente que foi até à Praça de Espanha e depois voltou para trás, dever cumrido, missão atingida. Gente de paz. Gente sem mais nenhuma ideologia que não fosse a do viver do dia-a-dia - e já é tanto.

Por isso, os polícias não tiveram muito que fazer, pelo menos no percurso da Praça José Fontana à Praça de Espanha. O povo imenso que saiu à rua no sábado estava muito pouco interessado na polícia que rodeava a manifestação. Queria mostrar toda a sua tristeza, mais do que raiva, ódio ou revolta, que costumam ser, normalmente, os rastilhos para a violência. De um lado e de outro. Vi algumas pessoas a falarem diretamente para alguns PSP na rua onde estava - não, não foi só a rapariga da foto que o fez - mas sempre a convidarem-nos, de forma cordial, para se juntarem a eles. Ao que eles sorriam, cúmplices do infortúnio, sabendo que, como os outros todos que desfilavam, também eles estavam ali para cumprir a sua função.

Se eu fosse membro do governo português, ou alguém que tivesse o mínimo poder político - deputado, presidente ou assessor - ficaria assustadíssima com o silêncio aterrador desta manifestação.

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