Sapateiro de luxo em Nova Iorque

Carlos Mesquita transformou uma banca de engraxador num império de reparação de sapatos. Em Nova Iorque, é o homem de eleição para casas como Chanel e estrelas como Jennifer Lopez.

Quando o pai lhe sugeriu que começasse a engraxar sapatos na barbearia, Carlos Mesquita teve uma ideia diferente. Agarrou nas poupanças e comprou uma mala de engraxador. Montou um banco, colocou a mala com as tintas e ceras, de um lado, e um frasco para as gorjetas, do outro. E ficou à espera. "Nunca engraxei um sapato", lembra. "Os clientes engraxavam e deixavam a gorjeta. E eu fiz dinheiro à mesma."

Aos 63 anos, o empresário garante que nunca se sentiu «nem mais nem menos do que ninguém», mas soube sempre que o seu caminho era outro. «Dou a mão a um presidente assim como dou a todos os meus empregados. Conheço-os todos pelo nome. Só que, já em criança, sabia que não tinha de engraxar aqueles sapatos.»

Passados mais de 50 anos, é dono das Leather Spa, as lojas onde os mais exigentes nova-iorquinos reparam e personalizam os seus sapatos e outros acessórios em pele. Elogiado na GQ, Esquire, Vogue, The New Yorker, InStyle e New York Magazine, a revista Time Out garante que Carlos «é o Dr. de sapatos escolhido e celebrado pelos ricos e exigentes» da cidade norte-americana.

Além de barbeiro, o pai de Carlos era mestre de confecção numa fábrica em Vila Nova de Famalicão e levava o filho muitas vezes consigo. "Foi lá que comecei a ganhar o gosto pelas coisas bem feitas", lembra Carlos. Aos 17 anos, emigrou para Vigo e começou a trabalhar como pintor. Dois anos depois, mudou-se para Clermont-Ferrand, em França, onde trabalhou na Michelin e depois numa empresa de reparação de sapatos e outros serviços ao minuto - como carimbos, chaves e cartões de visita - com lojas espalhadas por todo o país.

Passados alguns anos, o português era supervisor das lojas da zona centro. "Tinha 21 anos e era responsável por 18 lojas", garante. "Coordenava a abertura de novas lojas, treinava os gerentes, os funcionários e assegurava que se mantinham certos critérios. "

Trabalhou 16 anos para a mesma empresa e acabou por tornar-se sócio de algumas lojas. Mas diz que "depois chegou o socialismo, com o presidente Mitterrand, e tudo mudou." França deixou de fazer sentido para o português e para o seu pensamento liberal. "Mitterrand reduziu o horário de trabalho, mandou fechar as lojas aos sábados e domingos, mesmo nos centros comerciais, e tudo isso começou a estragar o negócio."

Nessa altura, decidiu visitar os Estados Unidos à procura de novas ideias de negócio. "Percebi rapidamente que não tinha nada para aprender. Tudo o que faziam era 80% abaixo do que fazíamos em França. Pensei logo: "Tenho é de vir para cá ensinar.""

Carlos alugou uma loja numa das zonas mais caras de Nova Iorque, na Rua 55, entre a Quinta e a Sexta Avenida. Decorou o espaço como se fosse uma boutique, desde os tapetes de qualidade, aos sofás de pele, ao balcão de madeira e terminando nos espelhos, que multiplicavam o ambiente de luxo. Contratou um funcionário apenas, que trabalhava de camisa e gravata.

Quando a loja abriu, "foi uma surpresa, ninguém estava à espera." Mas o negócio não foi um sucesso. Carlos tinha importado o conceito europeu de serviços no minuto, que o público norte-americano não entendeu. "Os americanos nunca perceberam essa ideia, de uma loja que pudesse fazer varias coisas."

O emigrante também falava mal inglês - "Só sabia dizer: yes, yes, yes" - e existiam outras diferenças culturais. "Os americanos não tinham o hábito de arranjar sapatos. Quando os estragavam, deitavam fora. Os que arranjavam sapatos era porque não tinham dinheiro. Estavam habituados a espaços nas caves, com cheiro a fumo, onde uma pessoas de alta sociedade não entrava."

Nesses primeiros meses, Carlos passou muito tempo a observar o restaurante Carnegie Deli, que consegui ver da sua casa na Sétima Avenida. "Tinha sempre uma fila enorme de pessoas", lembra. O empresário comeu no restaurante e achou que "era semelhante a centenas de outros delis." Perguntou, então, a outro cliente porque o espaço estava sempre cheio. "Porque criou fama já há muitos anos", responderam-lhe. E Carlos decidiu: "É disso que eu preciso."

"A partir desse dia, trabalhei apenas com esse objetivo. Sou muito teimoso. Nunca pensei no tempo que ia demorar, apenas qual seria o destino", explica.

O empresário percebeu que os americanos que compravam sapatos baratos continuariam a fazê-lo - os seus clientes era quem investia em calcado de luxo. Percebeu também que tinha de esquecer os outros serviços e concentrar-se nos sapatos, mas insistiu em tudo o resto: insistiu em manter a loja, com a renda caríssima, no mesmo local; insistiu que o funcionário colocasse a gravata todos os dias; insistiu que a qualidade do serviço fosse a melhor, mesmo que tivesse de perdesse dinheiro. Ao mesmo tempo, combatia as saudades da mulher, francesa, e dos dois filhos, que esperavam em França para se juntar ao pai.

"Foi uma luta. Não quis sair deste sítio. Queria estar no centro, na rua principal, queria que os meus clientes fossem pessoas ricas, dispostas a pagar o serviço que queria vender. Tive de investir o tempo necessário, dediquei muito tempo a este negócio. Não se cria um negócio, para o qual quase não haviam clientes, de um dia para o outro." Passado algum tempo, no entanto, começou a resultar. "Demorou talvez uns 18 meses." Alguns anos depois, mudou-se para um espaço maior na mesma rua.

A loja chamava-se Shoe Service Plus, mas o nome começou a criar problemas. "Queria registar a marca e não podia por que era um nome muito comum." Mudou para Leather Spa e aproveitou para refinar a imagem. Forrou as paredes a cabedal, comprou balcões e prateleiras de madeira escura, com puxadores dourados, e acentuou tudo como pormenores num tom exato de cor-de-laranja, que escolheu depois de muita hesitação. Com a nova identidade, veio a gama de produtos Leather Spa: atacadores, ceras, palmilhas, cremes. Carlos admite que "foi um risco muito grande, um grande investimento", mas diz que compensou. "Deu me uma identidade que não tinha."

Quando tinha 12 funcionários, decidiu comprar uma fabrica em Queens. Disseram-lhe que era um risco, que ficava longe, que perderia dinheiro e tempo. "Mas estava a pensar para daqui a cinco anos", diz. "Sabia que ia crescer e que, com os preços de Manhattan, seria impossível ter uma fábrica."

Hoje, tem 73 funcionários e três lojas: uma na mesma rua 55 (num terceiro espaço, ainda maior), outra na Grande Central Station e uma última no hotel de luxo Plaza, junto ao Central Park. Em média, as lojas recolhem 450 pares de sapatos e outros acessórios em pele por dia. O preço médio de cada serviço são 40 dólares e tem um tempo médio de espera de 3 semanas. O melhor mês é Outubro, onde só na loja da Rua 55 fatura 700 mil dólares (mais de 510 mil euros). Todo o trabalho é feito pelos 55 funcionários que trabalham hoje na fabrica de Queens.

Nos últimos anos, chegou o reconhecimento, os elogios nas revistas, o trabalho com Jennifer Lopez e outras estrelas, que t personalizam os seus sapatos para concertos, videoclips e filmes. "Para esses clientes, não fazemos reparações", explica Carlos. "As produtoras vêm cá e pedem que mudemos a sala, para derrapar menos, ou que estreitemos uma bota, para ficar mais justa à perna, esse tipo de trabalhos."

Quando os clientes de lojas de luxo como Manolo Blahnik, Christian Louboutin, Jimmy Choo, Chanel, Gucci, Fendi, Fendi ou Salvatore Ferragamo querem reparar ou personalizar os seus sapatos, também é na Leather Spa que confiam. Todo o negocio está voltado para este mercado de luxo, cada pormenor, como as solas de um vermelho muito específico, que o português mandou fazer em vários países do mundo, para ser exatamente igual ao da marca Louboutin, e que apenas os chineses conseguiram imitar.

Agora, as propostas para lançar um franchise do negócio multiplicam-se. Além de outras cidades norte-americanas, Carlos tem propostas para abrir lojas no Qatar, no Dubai e na Argentina. Diz que, "por enquanto", não avança. "É tudo uma questão de imagem, não posso avançar sem muitas garantias, que ainda não estão asseguradas."

O empresário fala destes grandes negócios, com o mesmo entusiasmo que fala do espelho que desenhou e mandou construir para a nova loja da Rua 55, como explica a cor do cabedal que vai forrar a fachada. Há outros pormenores que o entusiasmam - no pulso, Carlos tem um relógio da Hublot que custa 18 mil dólares e pertence a uma coleção onde existem outras peças da Cartier ou da Breitling. Na garagem, tem cinco carros: três jaguares, um Bentley e um Land Rover. Em casa, tem 36 pares de sapatos, todos organizados num armário que mandou fazer à medida.

Carlos diz que passou a vida "a pensar em prazos de cinco anos", mas agora pensa apenas em prazos de 12 meses. "O meu objetivo para o próximo ano é ganhar o mesmo dinheiro que no ano passado, mas trabalhar menos", diz. Isso não significa que a sua ambição tenha diminuído: neste momento, está a construir um aldeamento turístico em Puerto Plata, na República Dominicana, que terá 380 unidades e duas marinas quando estiver concluído. "Estou a construi-lo devagar, por fases", explica. A primeira fase já tem data de inauguração: Marco de 2014.

Carlos garante que ainda nunca engraxou o sapato de um cliente. "Se o tivesse feito, ficava concentrado na costura, no polimento, e isso tornava-se o meu trabalho. Perdia a capacidade de ter visão, concentrar no crescimento." Isso não quer dizer que não saiba do oficio. "Engraxo os meus próprios sapatos. E estão sempre impecáveis."

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