Regressar a casa

Já não é «apenas» um escritor português reconhecido no estrangeiro. Agora, José Rentes de Carvalho, a viver na Holanda há sessenta anos, assiste à reedição da sua obra em Portugal. Onde regressa frequentemente, para uns meses de silêncio em Trás-os-Montes.

Acorda todos os dias às seis da manhã, pontualmente, sem despertador. «É um hábito de décadas.» Escreve até às 11 horas ao computador, sem internet, sobre uma pequena secretária. O espaço já foi uma adega. À volta dele está a cama da adolescência, armários da cozinha dos pais, que agora têm livros, poucos, porque «um escritor não tem que ter muitos livros». Também há um banco de cozinha da avó materna e um relógio. Em Estevais, concelho de Mogadouro, é isto que rodeia José Rentes de Carvalho, o autor radicado na Holanda, quando escreve.

Na aldeia de Trás-os-Montes, com oliveiras seculares em redor, «o mais jovem tem 37 anos, depois há um tempo sem ninguém e há os de 70, 80 e 100 anos». Ao todo são cerca de setenta habitantes. Sente-se bem em solo transmontano, mas é um homem da cidade. «O campo interessa-me como paisagem, não como habitat. A minha presença aqui tem que ver com razões de alma, de saudade, de uma ideia do passado a que não se retorna, e também uma espécie de homenagem à gente a que pertenço. Quando estou cá é como que para lhes dizer que não os esqueço.»

Na Holanda passa mais tempo «na horta». «Escrever é a minha horta.» Até porque no país dos moinhos e dos diques «não há esta coisa do almoço que se prolonga pelo dia». Acorda e vai para o computador, faz uma pausa ao meio-dia e meia, para um café e uma sanduíche. «A coisa despacha-se num quarto de hora.» E retoma o trabalho até às seis da tarde. «Em Portugal, fazemos como toda a gente e lá se vão duas horas à mesa, agradáveis, sim, mas nocivas para a produtividade, pois uma digestão pesada não favorece o trabalho. Seja a escrever ou outro.» E, esteja onde estiver, em Amesterdão ou Estevais de Mogadouro, deita-se sempre às dez. «Leio até cerca da meia-noite e durmo como um justo.» E qual a disciplina da escrita? Desengane-se quem pensa que escreve mais lá do que cá. «Um sujeito pode passar meses com meia página de texto.»

Os seus textos despertam vivências, as que teve e as que tem. Relata-as, todos os dias, no seu blogue, tempocontado.blogspot.com. Não porque esteja a contar o tempo, mas porque o tempo serve para contar o que vê, o que lê, coisas sem ordem nem prioridade. E há mais de meio século que escreve romances e contos com memórias e muita imaginação. As memórias são as rurais de Trás-os-Montes e as urbanas de Paris, Rio de Janeiro, Amesterdão, São Paulo, Nova Iorque, Porto, Lisboa, as cidades onde viveu e trabalhou. A primeira crítica à sua obra recebeu-a de José Saramago, quando o nobel era crítico literário, em 1968, na revista Seara Nova. A propósito do primeiro romance, Montedor, Saramago escreveu: «O autor dá-nos o quase esquecido prazer de uma linguagem em que a simplicidade vai de par com a riqueza.»

Nasceu em Vila Nova de Gaia mas as raízes dos pais levaram-no para Estevais, Mogadouro. Há 12 anos que se divide, a períodos de três meses, entre Amesterdão e a aldeia. «Houve um tempo em que ainda levávamos bolo-rei e marmelada, mas era mais para oferecer do que para nós próprios.» Viaja sempre de carro, nos dois mil quilómetros que separam a grande cidade e a pequena aldeia. E sempre com a mulher de há 46 anos, holandesa, tal como as três filhas, advogada, bancária e artista gráfica, que «dizem que Portugal é um país romântico». «Chegam cá, gostam muito, mas depois ficam um bocado aborrecidas porque aqui em Trás-os-Montes nada acontece. São muito discretas. Leem o que escrevo, acham bem e adoram o pai, que é o mais importante.»

Rentes de Carvalho foi jornalista e professor de Literatura Portuguesa durante quase trinta anos, na Universidade de Amesterdão, onde já se tinha licenciado com uma tese sobre O povo na obra de Raul Brandão. Espalhou, pelo mundo, a cultura portuguesa. Por isso, o presidente da República Mário Soares distinguiu-o, em 1991, com o grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Chegou a Amesterdão em 1955 para fazer um trabalho na Embaixada do Brasil. Era para ser duas semanas, foram 57 anos. E não quer voltar. «Se me desse uma coisa no coração ou nas pernas a probabilidade de ficar curado era maior na Holanda do que em Portugal. Nada contra os médicos de cá, mas lá há uma melhor organização hospitalar.» Arriscou e não teve medo. Com receio de ser preso pelo regime por ter amigos de esquerda, «mais ou menos comunistas», aos 20 anos foi sozinho para Paris com uma enorme vontade de correr mundo. Esperava-o uma amiga de família. Esse e outros factos, como o contrabando no Minho, relata-os no livro La Coca, de 1994, reeditado em Portugal pela Quetzal, no ano passado. Foi a primeira vez que foi convidado a estar presente nas feiras do livro de Lisboa e Porto.

Mora numa casa que o avô construiu sozinho e onde os seus pais viveram durante quarenta anos. José Rentes de Carvalho deixou de ser o português que faz sucesso só lá fora, mas foram precisos muitos anos para que o mestre (como lhe chamam) visse a sua obra nas livrarias nacionais. A próxima sai em abril. Na Holanda, onde vende milhares de livros, chegando a ser bestseller, estão editadas 16 obras, em Portugal apenas seis.

Vários críticos literários portugueses já o comparam a clássicos como Camilo Castelo Branco ou Eça de Queirós. Ele sente-se honrado. Sobretudo porque «para mim chegam três escritores: Camilo, Eça e Fialho de Almeida». Rentes de Carvalho escreveu, aliás, os posfácios da edição em holandês das principais obras de Eça. Agora tem dois romances em mãos. Um sobre um angolano educado na Rússia e uma bailarina russa. Para o outro está mais difícil de encontrar o enredo: «Há um cadáver e agora não sei o que fazer com ele. Dou voltas ao morto, mas não sei o que hei de fazer-lhe.» Aguardemos. Aos 81 anos, imaginação e memórias não lhe faltam.

O português holandês

José Rentes de Carvalho nasceu em 1930, em Vila Nova de Gaia, onde viveu até aos 15 anos. Mudou-se para Trás-os-Montes, estudou no Porto, Viana do Castelo e Vila Real. Por ter amigos comunistas deixou o país de Salazar para correr mundo. Passou por Paris, Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque e instalou-se em Amesterdão. Com ele viajaram as raízes e as memórias, que passou para a escrita. Professor universitário e jornalista em publicações holandesas, belgas, brasileiras e portuguesas, publica romances e contos há mais de meio século. É um dos escritores mais reconhecidos na Holanda. Em 1991 recebeu a comenda da Ordem do Infante D. Henrique pela sua «contribuição para a cultura portuguesa».

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