Os números, esses brincalhões

O melhor título do ano: Torturem os Números que Eles Confessam , de Pedro Nogueira Ramos. O livro é para se pôr na estante de literatura de ficção: é sobre estatísticas, econometria, e coisas assim, vagas. O título completo é mais longo, Torturem os Números que Eles Confessam - Sobre o mau uso e abuso das Estatísticas em Portugal, e não só , mas aquela frase inicial é que me interessa. Números é quando e o que um homem quiser... De assinalar que o autor desdenha da sua própria especialidade, é catedrático de Economia na Universidade de Coimbra e tem o saber da experiência, foi diretor do Departamento de Contas Nacionais, do Instituto Nacional de Estatística. Quem mais do que ele para saber que um número é para se tocar com a maior das desconfianças?

O assunto - algarismos, em geral - é da maior atualidade, pois, como sabem, os professores de Direito Penal que todos portugueses já foram (vai para dez anos, quando da Casa Pia), com a crise reciclaram-se em inspetores de finanças públicas. Desde 2008 que não há consoada familiar ou mero café entre colegas sem uma boa discussão sobre a maturidade dos empréstimos ou o programa de ajustamento. Antes nunca relacionaríamos os nossos calotes pregados ao Sr. Júlio da mercearia com o facto de a dívida estar madura. E por ajustamento só entendíamos a ida ao alfaiate para encurtar dois dedos nas mangas do casaco. Agora, é tu cá, tu lá com Keynes e Hayek, e ninguém os confunde. Daí que seja útil um livrinho que nos ensine (cito Mark Twain) que «há três tipos de mentiras: as mentiras simples, as mentiras sagradas e as estatísticas».

Vou deixar só um cheirinho das desconstruções que Pedro Nogueira Ramos faz de números que julgávamos inabaláveis. Em Torturem os Números que Eles Confessam escreve-se: «Em 2008 a dívida pública de Portugal era inferior quer à da Alemanha, quer à da França, quer à média da Zona Euro, obviamente em proporção dos respetivos PIB.» Quer dizer, nas consoadas, com os lá de casa e meus colegas da London School of Economics (nem todos, a empregada só andou no ISEG), discutimos a partir de um pressuposto errado. Nem sei como dizer ao Antunes, o dono de café que frequento e um acérrimo da Escola de Chicago (é incapaz de servir um abatanado sem citar o Milton Friedman), que, afinal, os portugueses não estavam tão endividados. Claro que, bem torturados, os traidores dos números podem virar a casaca outra vez e, amanhã, aparecer novo livro com números voltando à versão de Medina Carreira.

Como todos os economistas sabem, e Pedro Nogueira Ramos não esconde, a interessante confissão «torturem os números que eles confessam» é antiga. O economista francês Alfred Sauvy (o inventor do termo «Terceiro Mundo») escreveu, em 1965, Mythologie de Notre Temps , onde um dos mitos denunciados foi o da certeza dos números: «Os números são inocentes que confessam facilmente sob tortura, mas esta mesma facilidade permite-lhes a seguir pôr em causa as suas próprias declarações...» Nós já sabíamos que a palavra, o discurso, a escrita, a fotografia, o cinema, podiam dizer a verdade ou travesti-la. No verão de 1975, os patrões a sair das fábricas ocupadas eram filmados de baixo para cima. Logo, apareciam prepotentes - eram imagem, mas manipulavam. Com o tempo, todos aprendemos a desconfiar de tudo. Menos dos números, esses secos factos.

A novidade é que está a chegar cá a contestação a eles. Bem-vinda! Já percebemos que «nas estatísticas, a imprecisão do número é compensada pela exatidão das décimas». Outra vez, Sauvy... Mas se quiserem citação menos sábia, tenho Frédéric Dard, escritor policial francês nada popular entre nós mas um mestre da palavra: «Segundo as sondagens, os franceses consomem 54 rolos anuais de papel higiénico por cabeça.» A essa linguagem tão exata, ele acrescentou esta dúvida existencial: «Mas o que é que eles entendem por cabeça?»

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