O passado, uma definição

1 .

- Os tratamentos populares, que curiosos eram!

- Falava-se de uma medicina que até curava os mortos.

- Podemos inventar uma personagem: o senhor Cura-Mortos.

- O Cura-Mortos avança pela estrada e diante de cada morto diz: não estás morto, foi um engano. Levanta-te.

- As mortes por engano deveriam ser reversíveis, não lhe parece? Uma bala que vai contra uma pessoa por engano, etc. Apagar uma morte como se apaga o traço de um lápis, eis uma boa utopia.

- Mas não há borracha para isso.

- Pois não há.

2.

- O Cura-Mortos.

- O Cura-Vivos.

- O Cura-Saudáveis.

- O homem que Cura os saudáveis. Outro nome para Conselheiro, Moralista, Filósofo, etc.

- O médico como o homem que só cura os doentes.

- O filósofo como o homem que também cura os saudáveis.

- No entanto, o verdadeiro homem saudável dispensa filósofos e médicos.

- Ora aí está.

3.

- Quando Vossa Excelência não consegue ver, tem de caminhar até ao sítio... até perto do objecto que quer ver e aí, sim: pode tocar nele. Senti-lo através do tacto.

- Portanto, não é uma substituição simples da visão pelo tacto. A visão é substituída pelo toque e... pela caminhada. Vossa Excelência não pode tocar no que está longe de si, eis o evidente.

- Em vez de ver um objecto a dez metros, Vossa Excelência avança dez metros com as pernas e depois, sim, toca com as mãos.

- Substituir o acto de ver pelo acto de andar mais o acto de tocar. Pernas e mãos, em vez dos olhos.

- E a verdade é que ver um objecto a dez metros requer bem menos energia do que andar dez metros e tocar nesse objecto.

- A visão é, pois, uma forma económica de controlar o mundo... de perceber o mundo. Evitamos andar milhares de quilómetros. Graças aos olhos.

- A visão é uma forma de tocar nas coisas à distância, uma forma económica de tocar nas coisas.

4.

- Uma fotografia antiga.

- Sim.

- Um banco antigo de jardim onde está escrito: Europeans only.

- Apartheid na África do Sul.

- Um jardim público que é para todos - todos podem ver as plantinhas, porém só os europeus se podem sentar.

- Pensar em bancos de jardim para certas nacionalidades. Banco de jardim para franceses, banco de jardim para italianos. Etc.

- Ser necessário mostrar-se o passaporte para se poder sentar num banco de jardim.

- Já não estamos nessa fase, pois não?

- Mais ou menos, Excelência, mais ou menos. É que isso já foi há algum tempo. E sabe o que isso significa, Excelência? Que daqui a uns tempos se repete de novo.

- O passado é aquilo que vai acontecer depois de amanhã.

- Eis uma definição possível.

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