O frango dos ovos de ouro

Em 1987, Fernando Duarte, emigrante português de Joanesburgo, juntou-se a um sócio e comprou a Chickenland, um restaurante nos subúrbios. Especialidade: frango assado. É hoje um dos maiores empresários de África, graças a um negócio com um volume de vendas na ordem dos dois mil milhões de dólares

É um dos empresários mais bem sucedidos na África do Sul, onde vive. Chama-se Fernando Duarte. É português. Um multimiolionário que não perdeu a simplicidade e que não esquece as origens. É possível que passem por ele numa rua de Joanesburgo, «à paisana» entre a multidão, com a sua mochila às costas. Nasceu na Maia, mas é em Joanesburgo, cidade perigosíssima, que ele se sente em casa. Tem dois helicópteros, mas gosta de sentir o cheiro da rua, pois foi a rua e o cheiro a frango assado que o tornaram num dos homens mais ricos de África. É adepto ferrenho do Futebol Clube do Porto. A sede da Nando"s, em Joanesburgo, mais parece uma célula dos superdragões.

Fernando Duarte não corresponde exatamente ao perfil do emigrante português na África do Sul, também conhecidos por black fishermen ou, pura simplesmente, «porras». Os emigrantes portugueses nunca tiveram vida fácil neste país meridional. A esmagadora maioria da comunidade portuguesa na África do Sul, com origens madeirenses, vive ao sabor das leis da sobrevivência. É claro que há excepções que confirmam a regra e casos de sucesso para contrariar o velho fado do emigrante. Fernando Duarte é talvez o melhor exemplo. E só não é mais conhecido porque gosta de gozar o seu anonimato. Diz na brincadeira que esse anonimato é o seu melhor tesouro. Este, portanto, é um momento raro. Eis a cara do Nando"s: mister Fernando Duarte. Nando, para os amigos. Um homem com uma naturalidade quase desconcertante.

O símbolo da empresa é um galo de Barcelos, mas este negócio multimilionário envolve frango e piripiri. Fernando Duarte, português de nascença, estudou e viveu em Moçambique antes da independência, para não perder o trilho à língua e à cultura portuguesas. «O meu pai veio para Joanesburgo com uma mão à frente e outra atrás, como se costuma dizer. Tinha eu 4 anos», conta Fernando Duarte, que é atualmente um dos mais bem sucedidos empresários sul-africanos.

O Nando's, a sua cadeia de restaurantes, tem sucursais em 26 países, nos cinco continentes, da Austrália a Israel, da Malásia ao Canadá, de Londres a Singapura, do tradicional frango portuguese style, ao halal e ao kosher. Na África do Sul, o Nando"s quase faz parte da paisagem. Está em todos os lados, em qualquer ponto da cidade, seja na imensa Joanesburgo, seja noutra qualquer. Onde se vá, nem que seja pelo caminho, há um Nando's. E é muito provável que haja fila de espera. Não é por acaso que a empresa tem um volume de vendas que ronda os dois biliões de dólares ao ano. Fernando Duarte hesita: «Estava a tentar lembrar-me dos números exatos. Sim, é à volta disso, mais coisa, menos coisa.»

Atravessando os corredores estreitos da sede da empresa, em Joanesburgo, que tem dimensão familiar, Fernando Duarte quase passa despercebido, dentro de uma camisa aos quadrados, calças de ganga, sapatilhas desportivas, mochila às costas. Também não vai de férias. «Na verdade, nunca estou de férias. Estou sempre a trabalhar.» Quando se monta um negócio de raiz, crescendo com ele como Fernando Duarte cresceu, não é fácil delegar. Nando, o seu filho, em honra do qual nasceu o Nando's só agora é que começou a interessar-se pelo negócio da família. «Pode ser que daqui a uns tempos possa passar mais tempo a viajar. Embora conheça o mundo inteiro, como vou sempre em negócios não tenho tempo para ver nada», acrescenta.

O seu passaporte é português. «Nasci na Maia, Porto. Toda a minha família é do Norte e ainda lá está. Apesar de estar há tantos anos na África do Sul senti-me sempre português do coração. É por isso que nunca abdiquei na cidadania portuguesa.» Curiosamente, Fernando Duarte nunca equacionou seriamente a hipótese de trazer o Nando's para Portugal. «Uma vez isso passou-me pela cabeça, mas desisti logo. Não faria sentido. O frango do Nando's, que é tão apreciado por todo o mundo, é uma receita portuguesa. Ou melhor, afro-portuguesa, já que o ingrediente principal é africano. Não ia resultar. Há demasiada oferta em Portugal», explica.

Com a independência de Moçambique, em 1975, Fernando Duarte teve de interromper os estudos, razão pela qual nunca chegou a completar o ensino secundário. Quando voltou definitivamente para Joanesburgo, ainda no pleno do regime de apartheid, as coisas não estavam fáceis. «Nunca foi fácil ser português na África do Sul. Ainda hoje. Se calhar, sobretudo hoje.» Depressa percebeu que os estudos teriam de ficar para depois. «Tinha de fazer-me à vida e encontrar sustento quanto antes.» Não havia tempo para projetos, apenas para os classificados, numa cidade com oferta limitada.

E aqui começa um longo desfile de coincidências, que haviam de mudar a vida de Fernando Duarte. Um amigo de um amigo de um amigo do seu pai, falou num posto numa empresa de electrónica. Vistas bem as coisas, era na verdade a empresa de um grande amigo do seu pai. Com apenas 24 anos, Fernando Duarte chegou à chefia da parte técnica.

E nessa empresa encontrou também ele um amigo para a vida: Robert Brozin. Formou-se uma dupla inseparável, que resistiu até um take-over nessa empresa, que no início parecia pacífico. «A empresa foi absorvida por uma multinacional, que lentamente foi impondo regras e políticas que não nos agradavam», recorda. E, mais uma vez, Fernando Duarte encontrou-se numa encruzilhada. «Decidi tomar outro rumo.» E nesse momento, «equacionei muito a sério regressar a Portugal, embora fosse um risco muito grande». Até para lhe falar disto, convidou o seu amigo Robert para almoçar, como tantas vezes faziam quando trabalhavam na mesma empresa e aproveitavam para explorar os restaurantes portugueses das redondezas, para discutir convenientemente as particularidades das suas crises. Foram a Rosettenville, um subúrbio no Sul de Joanesburgo, onde ainda existe uma grande comunidade portuguesa. «Apetecia-nos frango», ironiza.

Sendo assim, a hipótese óbvia era o Chickenland, como o nome indica, o paraíso do respetivo, moda «peri-peri», à boa maneira moçambicana. Aparentemente, nem tudo ia bem no paraíso. Pelo menos a avaliar pela placa que tinha nas suas imediações, subtil quanto baste, para não afastar a clientela: «Aluga-se». Os donos da Chickenland, por razões que não queriam explicitar, estavam interessados em trespassar o negócio. Fernando e Robert estavam mais interessados na sua dose de frango assado.

E só quando chegaram aos digestivos é que se fez luz. «E porque não?!, disse ao Robert. Isto bem arranjado e bem organizado, pode resultar», recorda Fernando Duarte, sem conseguir disfarçar um brilho súbito no olhar.

A ideia, porém, nunca foi a de alugar, mas de comprar o estabelecimento. E para isso foi ainda necessário convencer o dono da Chickenland, que ficou de pensar, enquanto Fernando e Robert ficaram de fazer as suas contas. «É claro que visto a esta distância podia parecer um investimento irrisório. Mas, há que ver as coisas com a necessária proporcionalidade. Para nós, naquela altura, era um investimento muito pesado e com riscos altos para as nossas finanças. Quando não se tem nada, qualquer coisa parece muito.»

Nesse departamento, Robert estava nos mesmos lençóis do seu amigo, quase sócio. «Foi o pai de Robert que na altura teve condições para nos apoiar», conta Fernando Duarte. Em 1987, o Chickenland mudou finalmente de donos, de nome, de estilo e de política de gestão. «Fizemos uma autêntica revolução naquele espaço. Começámos a criar ali a nossa marca, que queríamos sólida.» Assim nasceu o Nando's de Rosettenville, que hoje é uma espécie de restaurante-museu. A estratégia foi muito simples: «Criar um produto excelente, diferente daquilo que se via na África do Sul e na maior parte do mundo, com capacidade para manter o nível de qualidade, sem quebras.»

Foi um passo de cada vez. «O nosso primeiro objetivo não foi o de conquistar as pessoas de Rosettenville, mas o de trazer pessoas de toda a Joanesburgo para Rosettenville para experimentar o nosso frango. Só depois de conquistar Joanesburgo pensámos em estender o negócio às outras cidades mais significativas da África do Sul. No início, lembro-me deque nem havia talheres. As pessoas recebiam uma caixa com o frango e comiam com as mãos, à maneira tradicional.» De uma coisa à outra, entre as mãos e os talheres, anos passaram. E, ninguém se iluda, «foram anos de muito trabalho e de muitas, muitas dificuldades para nós».

Com maior ou menor dificuldade, o segundo Nando's abriu. E a marca consolidou, atravessando o apartheid até ao fim, conseguindo manter a sua rota de sucesso. «A época que antecedeu o fim do apartheid , foi uma altura muito difícil e muito conturbada. Mas nós vimos nessa mudança, que era imprescindível, uma oportunidade.» O Nando's era à prova de regimes. E, conforme ficou provado, o seu produto era transversal. Fernando Duarte e Robert Brozin foram abrindo restaurantes atrás de outros, tantos que hoje o primeiro já não consegue ter de cor quantos são, só na África do Sul.

Atualmente, Nando's não é só uma marca, é uma máquina, oleadíssima, «que vai desde a distribuição nacional (sul-africana) para todos os cantos do mundo, os molhos, os diversos acompanhamentos, as embalagens, os produtos específicos para os diversos tipos de países onde estamos. E, como é evidente, a qualidade dos nossos frangos, que são sul-africanos», garante Fernando Duarte. O seu mercado? «É global. O Nando's começou a ter reconhecimento internacional. Recebemos alguns prémios pela nossa qualidade num certame em Nova Iorque. A partir daí não parámos de alargar a nossa rede internacional de restaurantes.»

A isto junta-se uma estratégia de marketing e uma publicidade bastante agressiva, que tantas vezes gerou polémica na África do Sul. Alguns anúncios do Nando's chegaram mesmo a ser proibidos. «Não pode haver melhor publicidade do que esta», diz Fernando Duarte. E agora, informou, tinha de ir andando. A brincar, utilizou uma expressão que todos os dias se multiplica nos seus restaurantes: Check please.

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