O emprego está online

O Facebook já promoveu mais de 230 mil postos de trabalho nos países da União Europeia. O economista Filipe Carrera, especialista em networking e marketing digital e autor de Comunicar 2.0, a Arte de Bem Comunicar do Século XXI, dá algumas pistas sobre os novos comportamentos na internet e a procura de emprego nas redes sociais.

Segundo um relatório da consultora Deloitte, o Facebook já gerou mais de 230 mil empregos na União Europeia e contribui com cerca de 15 300 milhões para o PIB comunitário. A rede social já não é apenas entretenimento e tornou-se uma ferramenta de trabalho, promoção de serviços e procura de emprego.

_Há algum tempo que o Facebook deixou de ser visto apenas como entretenimento. Quanto ao emprego, normalmente, uma entrevista de recrutamento de trabalhadores tem duas componentes: a de perceber quais são as competências da pessoa e a sua experiência, mas também perceber quem é aquela pessoa, o que pratica, o que respira. Por isso é que nas entrevistas de recrutamento se pergunta sempre pelos hobbies. Eu preciso de ter pessoas a trabalhar que se conjuguem entre si. Neste momento, apesar de ser um segredo inconfessável, muitos recrutadores quando vão buscar alguém para trabalhar com eles não resistem e vão espreitar as pessoas ao Facebook.

E isso é legítimo?

_Há quem diga que não. Eu costumo dar este exemplo: num casamento, há um convidado que bebe de mais. Para piorar as coisas, começa a insultar toda a gente e bate na mulher. Na manhã seguinte, a pessoa que assistiu àquela triste figura, senta-se no gabinete e tem à frente vários candidatos para recrutar. Curiosamente, o primeiro é aquele que estava embriagado no casamento. Faz sentido que não seja considerado aquilo que se viu no dia anterior? Neste momento, temos de entender uma mudança: já não há vida privada separada da vida profissional. Temos de ter o cuidado de alinhar a nossa vida privada, que se torna pública, com a nossa vida profissional pública, para não sermos interpretados como esquizofrénicos.

Não é aconselhável ter um perfil profissional no Facebook e outro, completamente distinto, para a vida privada?

_Não. Acho que isso é uma moda. As pessoas começam a perceber que não têm possibilidade de atualizar bem os dois, às tantas já não sabem para quem estão a falar e começam a cometer erros. Nós somos pessoas, e toda a gente tem a sua parte pessoal. Se for ao meu perfil no Facebook, vê que eu também me divirto como qualquer outro. Um político, por exemplo, talvez tenha de ter mais cuidado, mas neste momento já não há privacidade. Em qualquer sítio alguém nos tira uma fotografia e coloca no Facebook com o comentário «lá está ele outra vez bêbedo». E se a pessoa não está nas redes sociais, não tem sequer possibilidade de se defender. A forma de contornar este tipo de situação é termos uma série de conteúdos que somos nós a colocar. Se essa fotografia aparece no meio de uma série de outras, em que há comentários positivos, aquilo é uma piada. Se não, essa é a única informação que eu tenho da pessoa.

Há empresas que estão realmente a fazer recrutamento no Facebook e no LinkedIn, ainda que não exclusivamente?

_A tendência é que a esmagadora maioria dos trabalhadores do conhecimento sejam recrutados por essa via. Vê-se um grande decréscimo dos meios tradicionais, até porque as redes sociais permitem fazer uma avaliação prévia dos candidatos, antes de eles saberem que estão a ser objeto de avaliação.

Quais são as áreas profissionais que mais recrutam nas redes sociais?

_Neste momento, todas as áreas estão disponíveis. Eu diria que apenas aqueles que eu chamo de trabalhadores que não são do conhecimento serão contratados fora disso.

Como podemos então utilizar as redes sociais para procurar emprego? Além da pesquisa online em sites especializados, como podemos recorrer a estas novas ferramentas para sair do desemprego ou mudar de local de trabalho?

_Não podemos vê-las como a única forma de procura ativa de emprego. Mas o perfil no LinkedIn, no Facebook ou no Twitter faz parte da nossa extensão profissional, devemos cuidar dele porque nos permite chegar mais longe. As pessoas devem preparar antes a sua empregabilidade, e para isso têm de trabalhar a sua imagem, quer em termos presenciais quer nas redes sociais.

E como é que se faz essa preparação, ao nível das redes sociais? Como se deve gerir o perfil, as fotografias, a atualização?

_Tenho uma regra de ouro: «Nunca coloques na web algo que não queiras que o teu chefe ou a tua mãe vejam.»Bom senso, nada mais. E a informação deve estar alinhada com o perfil profissional. E deve disponibilizar-se informação, o seu próprio conhecimento, ter disponibilidade para falar com as pessoas, aconselhar. Se alguém lhe der um conselho sem pedir nada em troca, a sua reação provavelmente é pensar que aquela pessoa é fantástica e vai recomendá-la aos seus amigos, à sua família.

Mas ao nível laboral, e se não for bem calculado, o uso das redes sociais pode trazer prejuízos?

_Sim. Não devemos pensar nas redes sociais como recurso só quando não temos emprego. A presença nas redes sociais não se constrói de um dia para o outro, vai-se construindo, é um processo que nunca está acabado. Num fim de semana não está feito o perfil, é preciso alimentá-lo, ir partilhando informações.

Resumindo, as redes sociais não são ferramentas a usar em caso de desespero?

_Exatamente. Senão, é como uma religião de recente conversão: não há milagres.

São uma boa forma de construir uma marca pessoal, sem custos?

_Perfeitamente. É importante mostrar que estamos dispostos a satisfazer necessidades que existem no mercado e assim podemos ter retorno. Se der algo, sem compromisso algum, a minha rede considera-me um especialista, uma pessoa que está efetivamente disponível para ajudar. E vou ser valorizado por isso.

Como é que se pode ser proativo numa rede social?

_Partilhar, partilhar, partilhar. Partilhar primeiro, ajudar os outros depois. É um pouco como a máxima bíblica: ajuda e serás ajudado. Aqui resulta, justamente. É quase a lei da atração: a pessoa deixa conteúdo, deixa conhecimento, ajuda outras pessoas e de repente as coisas acontecem.

E assumir posições demasiado polémicas ou tomar partido em questões pouco consensuais pode ser prejudicial?

_Infelizmente, a nossa sociedade está a caminhar para o politicamente correto, que é detestável. Pessoalmente, acho que é bom que as pessoas se definam porque se todos formos iguais ninguém se distingue. Podemos não concordar, há muita gente com quem eu não concordo, mas gosto de ouvir porque me desafiam.

A massificação do uso dos tablets e smartphones tem promovido os contactos através destas redes?

_Sem dúvida. Neste momento, muita gente faz a atualização do seu estado, das suas fotografias e conteúdos diretamente através desses dispositivos porque é muito fácil e convidam à partilha imediata.

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