O autarca escritor

Como se transforma um presidente de câmara em escritor de sucesso? O segredo está num achado arqueológico, que fez de Alberto S. Santos, atual presidente da Câmara Municipal de Penafiel, um autor de romances históricos que se tornaram best-sellers.

É o mais velho de quatro irmãos, natural de Paço de Sousa (Penafiel). Até aos 17 anos, frequentou o seminário, mas a paixão pelas leis fez dele advogado. Alberto S. Santos exerceu Direito durante dez anos, mas em 1991, com apenas 25 anos, foi eleito vereador (PSD) da Câmara Municipal de Penafiel, mantendo-se na oposição ao executivo socialista até 1997. Foi nesse ano que conquistou a presidência da autarquia, função que desempenhou durante três mandatos e que abandona agora por imposição legal. Entretanto, a meio destes 12 anos de liderança autárquica, Alberto S. Santos aventurou-se numa paixão antiga: escrever o primeiro romance histórico. A Escrava de Córdova (Porto Editora) foi lançado em 2008.

A paixão pela História, sobretudo pelas histórias que a História encerra, haveria de revelar um novo escritor nacional de ficção histórica, tendo a descoberta de um achado arqueológico sido fundamental para o nascimento desse primeiro romance.

Na freguesia de Croca, Penafiel, foi encontrado no início da década de 1950 um candil árabe do século X [ver caixa] e essa circunstância inquietou-o. Alguns investigadores acreditam que a peça aponta para a passagem de Almançor - governador do al-Andalus (designação árabe da Península Ibérica) no final do século X e início do século XI - em direção a Santiago de Compostela, para destruir a cidade e a basílica. «Andava há muito tempo a imaginar essa história, mas não tinha nada onde me agarrar para escrever. Comecei a imaginar a passagem dos exércitos sarracenos por estas zonas, a querer saber o que existia nesse tempo e a imaginar um cenário de encontro entre os exércitos e o povo local. Foi esse candil que me deu o motivo para a aventura.»

Mas o escritor sentia algum receio em apresentar-se ao mercado, sobretudo por ser um autarca em funções. «As editoras poderiam reagir mal à pretensão de um presidente de câmara em assumir-se romancista.» Por isso o primeiro esboço de A Escrava de Córdova foi enviado para algumas editoras assinado pelo pseudónimo Júlio Maresia. «Como o livro mereceu crédito, assumimos que deveria colocar o meu nome.» O sucesso do livro (cinco edições, vinte mil exemplares vendidos e atualmente integrado no Plano Nacional de Leitura) abriu caminho para a segunda obra, A Profecia de Istambul, publicada em 2010, já com quatro edições, e também com vinte mil exemplares vendidos.

Preocupado em separar o autarca do escritor, e agora que, aos 46 anos, está prestes a deixar funções públicas e de regresso ao Direito, Alberto S. Santos diz que a sedução não está propriamente na política, mas na paixão pelo serviço público. «Sinto-me bem ao entregar-me à causa pública e saber que aquilo que faço tem resposta do outro lado. Se a minha única vida fosse escrever, tornar-me-ia um escritor mais profícuo a contar mais histórias. Sendo assim, vou procurando fazer o melhor que sei.»

Presidente do Conselho Científico da Rota do Românico, o mais importante projeto cultural do Tâmega e Sousa, que passa pela regeneração e conversação de vários monumentos do românico e zonas envolventes, o autarca foi o responsável por um dos mais destacados eventos literários do país, o Escritaria, em Penafiel, um ponto de encontro e de divulgação de escritores nacionais vivos. Entretanto, dinamizou o Museu Municipal (galardoado internacionalmente e eleito pela Associação Portuguesa de Museologia como o melhor museu nacional em 2009, a par do Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra) e recuperou danças e cantares medievais, alguns já esquecidos da população local.

«Tudo o que fiz como autarca é da comunidade. Portanto, muitas coisas que fizemos, nomeadamente a Escritaria, devem continuar a dar um contributo para o todo nacional. Espero que o que foi feito nos vários domínios culturais possa ser continuado e melhorado. Esse é o meu desejo, para que não se perca esta força que Penafiel ganhou em termos culturais.»

Em maio deste ano, o autor lançou O Segredo de Compostela, o terceiro romance, que adensa o mistério sobre quem está sepultado na Catedral de Santiago. «Se o primeiro livro foca a forte presença árabe e muçulmana na Península, quis contar depois, após a saída da civilização árabe da Península Ibérica, o que andavam a fazer os povos ibéricos na bacia do Mediterrâneo, de onde vieram. O que há de semelhante nos três livros são ficções históricas, não é uma trilogia sobre as mesmas personagens nem há uma sequência. O que, eventualmente, há de semelhante é a temática de três cidades muito importantes: Córdova, Istambul e Compostela. Todas têm uma energia histórica, identitária e espiritual muito forte, e todas elas contribuíram muito para a nossa civilização. No fundo estes três livros são uma homenagem a essas cidades.»

E quanto ao quarto romance? «Vou definir a espinha dorsal do novo livro, a estratégia narrativa, o enquadramento histórico e as personagens. Procuro escrever segundo o meu próprio padrão e tenho conseguido um público interessado, daí que o próximo livro estará dentro destas paisagens.»

OS TRÊS ROMANCES

A ESCRAVA DE CÓRDOVA (2008)

Ouroana é uma jovem cristã que começa a questionar a sua educação, as convicções e a fé que sempre orientaram a sua vida, mergulhada num caldo cultural e civilizacional celto-muçulmano. O livro revela a mentalidade, a geografia, o quotidiano, as conceções religiosas no dobrar do primeiro milénio e dá conhecer a civilização muçulmana do al-Andalus. Já na quinta edição conta com mais de vinte mil exemplares vendidos, integrando o Plano Nacional de Leitura (10.º, 11.º e 12.º anos de escolaridade).

A PROFECIA DE ISTAMBUL (2010)

As cidades de Istambul, Argel e Salónica do século xvi são cenários da luta entre o Bem e o Mal, onde nasce uma profecia que ameaça a humanidade. O romance conta as peripécias de prodigiosos seres que transformaram a bacia do Mediterrâneo num fervente caldeirão cultural durante o Século de Ouro. Pelo meio de corsários, cativos, renegados, conquistadores e judeus fugidos dos estados ibéricos emerge uma história de amor.

O SEGREDO DE COMPOSTELA (2013)

A partir de lendas e mitos, e tendo como protagonista Prisciliano, líder carismático do século iv, o romance adensa o mistério sobre quem está sepultado na Catedral de Santiago: o apóstolo Santiago Maior ou o próprio Prisciliano, patriarca da Igreja galega, decapitado em Tréveris, Alemanha, em 385.

O CANDIL

Este é um dos mais antigos exemplares de candis muçulmanos conservados em Portugal. Sobretudo a norte do Douro, estes vestígios arqueológicos são escassos. É proveniente do lugar de Pedrantil (Croca), uma das mais antigas povoações documentadas no concelho de Penafiel, já mencionada em documento de 950. À época, em plena Reconquista, a zona estava incorporada no reino cristão das Astúrias, integrando o território da Civitas Anegia, o que vem realçar o papel desta peça como testemunho dos contactos entre cristãos e muçulmanos.

ESCRITARIA: PONTO DE ENCONTRO DE ESCRITORES

O Escritaria, cuja primeira edição ocorreu em 2008, é um dos projetos culturais mais marcantes de Penafiel. A primeira edição «contaminou» a cidade com a obra de Urbano Tavares Rodrigues (recentemente falecido) e, no ano seguinte, o distinguido foi José Saramago. Em 2010, o evento literário dedicou a festa da cultura à escritora Agustina Bessa-Luís e em 2011 foi a vez de Mia Couto. No ano passado foi homenageado António Lobo Antunes. Este ano já tem data marcada para 4, 5 e 6 de outubro e será dedicado a Mário de Carvalho. Todos os escritores homenageados deixam um pensamento ou uma mensagem numa parede ou numa rua da cidade.

[15-09-2013]

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