Lusofonia moderna

Os Buraka Som Sistema nasceram nas ruas da Amadora e tornaram-se um fenómeno mundial. São provavelmente a mais internacional banda portuguesa. Em parte porque falam a linguagem da lusofonia, praticam a batida africana, espalham o ritmo de dança e pensam... pensam muito.

João Barbosa (Branko) nasceu na Amadora, é filho de portugueses. Rui Pité (Riot) é filho de pai moçambicano. Kalaf nasceu em Angola mas mudou-se para Lisboa na segunda metade dos anos 1990. Conductor é filho de pai angolano e mãe cubana. Karla Rodrigues, mais conhecida como Blaya, nasceu no Brasil, mas desde cedo que vive em Portugal. Todos juntos formam o agrupamento que o mundo conhece como Buraka Som Sistema. São, muito provavelmente, o mais internacional grupo musical português. Fazem concertos no mundo inteiro que trauteia o Wengue, Wengue ou «bababá» das músicas deles na linguagem universal da música de dança, bem batida e com uma sonoridade africana, sem pensar muito no significado das palavras.

Na verdade, as palavras são quase tão importantes como a música, na vida deste grupo musical. A começar no nome: Buraka. Buraka como em Buraca, a localidade da Amadora onde todos têm raízes e que lhes serve também de espécie de ideologia. Porque os Buraka são os herdeiros assumidos dos mais de quinhentos anos de história de Portugal, no triângulo que se estende entre a Europa o Brasil e África. Da mesma maneira que os bairros à volta de Lisboa, como a Buraca, na Amadora, são a face mais moderna dessa história, através da imigração africana e brasileira em Portugal. Se existe forma de caracterizar Lisboa, hoje, é ouvindo uma música dos Buraka Som Sistema. A música que respira essa lusofonia do século xxi, moderna, e que se expressa, no caso dos Buraka, num kuduro de reminiscência angolana, mas eletrónico. Ou progressivo, como eles dizem.

O kuduro foi o estilo que deu o sinal de partida ao grupo. A história dos Buraka Som Sistema começou na Amadora, onde João Barbosa (Branko) e Rui Pité (Riot) eram colegas de liceu e produziam música juntos. Depois conheceram Andro Carvalho (Conductor) e Kalaf, o angolano. E o kuduro passou a ser uma peça fulcral. Nas míticas noites do antigo Clube Mercado, em Lisboa, os Buraka Som Sistema foram ganhando fama, primeiro entre os que nestas coisas da música andam sempre à frente. Nessas festas faziam misturas e remisturas dos discos de kuduro que se ouvia nesses bairros negros à volta da capital, e que compravam sobretudo nas bancas do mercado da Praça de Espanha, em Lisboa. «Eu cresci a ouvir quizomba, kuduro, drum"n"bass e muitas outras cenas sem me esforçar», conta Branko, o nome de guerra de João Barbosa. «Ouvir estas músicas nunca foi uma atitude propriamente consciente, elas iam-me parar ao carro. Se estamos aqui e somos daqui é bom que se use todo esse conteúdo porque temos algo que nos distingue do que está lá fora. Nós conseguimos essa diferença. Às vezes olhamos para o país e parece que estamos a pintar um quadro que é irreal, quando é o mais real possível. Pelo menos para quem cresceu na Amadora como nós.»

Kalaf é o ideólogo do grupo. E explica melhor esse conceito. «Se olharmos para a importância que Lisboa tem para esse mundo africano, é vital. Mas existe uma certa ignorância nesse sentido. Todos os artistas que estão fixados em Angola, em Cabo Verde ou até mesmo os brasileiros, para eles vir até Lisboa é vital porque Lisboa é o pivô para se perceber a Europa e entender o que se faz neste território.» Lembra casos como Cesária Évora ou Bonga, «que se descobriram na música aqui». «Paris soube comercializar isso e Lisboa não está a saber», diz o angolano, que também escreve. «Porque é que não existe uma espécie de carnaval de Notting Hill [um dos maiores festivais de rua da Europa, que se realiza todos os anos em Londres] por cá, que pegue no que cada comunidade tem, à nossa maneira, não imitando o Carnaval do Brasil que temos em Espinho, aproveitando uma forma de celebrar e viver a música que essas pessoas têm e que podia estar na rua e que até podia ser um ícone cultura?»

Para Kalaf Lisboa tem a «sorte» que outros países não têm: mais uma vez, a língua. O português abre um canal direto com outros países, «porque ainda não falam o inglês perfeito, logo ainda precisam de Lisboa e de Portugal para uma expansão cultural». Os Buraka Som Sistema representam também esse ponto de contacto. Ou seja, de novo as palavras. Os Buraka cantam em português de Portugal, português do Brasil, português com sotaque africano. E também em crioulo. E em inglês. E cantam músicas que têm nomes como IC19 ou Lisboa-Luanda. Ou New Africas. Ou Kizomba. «Por vezes não é tão percetível quanto nós gostaríamos», confessa Kalaf. «Cantarmos em português é uma vantagem porque assim as pessoas estão como que a descodificar códigos do que significa Wegue, Wegue ou Aqui para Vocês [dois singles da banda]. É como se lhes tivessem dado um código secreto para um carnaval se estiverem no nosso terreno.»

E é assim que se trauteia a ideologia dos Buraka.

Ainda em novembro passado o grupo estreou-se na Índia, país pouco habituado a receber artistas do universo dos Buraka Som Sistema. Da Índia foram para Moçambique. «Faz sentido irmos a países onde se fala português, porque oitenta por cento das nossas músicas são em português e obviamente que, por isso, cria-se uma ligação diferente, comparando com outros sítios, onde as pessoas não percebem o que cantamos e ficam à espera de um som semelhante para poderem acompanhar», refere João Barbosa. Em Moçambique conheceram dançarinos e produtores locais. «Somos obsessivos a procurar coisas e o incrível é que toda a gente sabia do concerto, havia um "barulho" na rua interessante e isso faz que nos apeteça explorar esse mercado.» Mas salienta: «Não vamos mugir a vaca do mercado lusófono.»

Para os Buraka a lusofonia é a base, mas não o fim da linha. «A Buraca e Lisboa estão no eixo entre o Brasil, Angola e Londres», diz João Barbosa.O primeiro disco, From Buraka to the World, dizia isso mesmo. Mostrava como esta música de rua, vibrante e popular, tinha força para conquistar públicos além-fronteiras. Tinha como trunfo algo único, a apropriação do kuduro, mas com espírito globalizado e aberto a novas referências. E hoje, acompanhados pela voz feminina de Blaya (pelo seu lugar já passaram as cantoras Petty e Pongo Love), levam Lisboa aos quatro cantos do globo. Numa das atuações no festival na Índia os Buraka acabaram por protagonizar uma «revolução sexual ou cultural», como o próprio João Barbosa descreve: «A Índia é um país que funciona de outra forma, não recebe as mesmas referências que nós do Brasil ou até dos EUA. De repente nós chegamos ao palco e o nosso concerto tem um forte teor sexual, e todas as pessoas estavam focadas nisso, nos momentos da Blaya [atual vocalista] a dançar.»

Buraka inc.

Hoje, três discos depois, após um prémio MTV de melhor artista português em 2007, e a participação nos mais importantes da música de dança do mundo, os Buraka já são um negócio importante. E assumem-no. «Acho que grande parte do grupo nunca viveu num mundo de fantasia de que ser artista era apenas andar pelo mundo a viajar e a tocar sem nenhuma preocupação. Sempre houve uma consciência de que tudo isto também tinha o seu lado de negócio, portanto, para nós nunca foi novo ter de perder algum tempo a gerir as coisas e a tentar maximizar uma possível receita proveniente da música», diz João Barbosa. Criaram uma estrutura interna, de forma a conseguirem absorver as necessidades burocráticas dos projeto: a editora e agência Enchufada. Para os concertos e venda de discos, têm agentes fora de Portugal. «Temos uma estrutura pequena, mas suficiente. A dimensão de Buraka é maior a nível dos concertos e do Youtube, mas quem pensa que estamos a ganhar milhões está enganado. Uma máquina de fazer dinheiro é o Tony Carreira. Eles têm de fazer concertos quase de dois em dois dias», diz Zumbi Ferreira, um dos sócios da Enchufada.«O que sempre fizemos foi gerir de maneira a fazer vários concertos, tendo assim um fundo de maneio cá em Portugal que nos permita ir para fora quando temos de o fazer.»

Cada território é encarado de forma particular numa estratégia de investimento e promoção. Daí que numa das primeiras digressões pelos EUA, a propósito do álbum Black Diamond (2008), tenham perdido algum dinheiro. «Achámos que devíamos investir porque os EUA são um lugar muito difícil de se voltar. Foi assustador, mas como tínhamos uma base suficiente, investimos.» Um palco leva a outro, é assim que as coisas se passam, e para os Buraka as ligações com pessoas do meio que vão conhecendo têm sido fundamentais para a difusão além-fronteiras.

Os Buraka Som Sistema e a sua Enchufada mantêm-se independentes de editoras multinacionais. Caminham por estradas menos conservadoras e na linha da frente de atuação. «Quando os Buraka começaram a ter sucesso as multinacionais já não compravam pequenas empresas e como já não havia dinheiro nessas multinacionais, seguimos o melhor caminho para nós, que é fazer apenas contratos de distribuição porque mantemos a nossa independência», explica Zumbi Ferreira.

O grupo tem consciência de que hoje os discos servem mais como uma carta de apresentação para conseguir fazer mais concertos. Daí que a Enchufada além de editora trabalhe também no agenciamento, tendo vindo nos últimos tempos a apostar em nomes internacionais emergentes, além de estar associada a outras editoras internacionais, como a norte-americana Mad Decent ou a francesa Headbangers. E sem as redes sociais os Buraka não seriam o que são hoje. «Não existia sem essa explosão, com MySpace, Twitter, Facebook, Soundcloud. O nosso canal de YouTube sempre foi importantíssimo.» Quando partem para a criação de um novo teledisco, pensam em primeiro lugar no YouTube, não na MTV. «Fazemos o vídeo já a antecipar os posts que vamos fazer e que comentários vamos ter. A nossa carreira é pensada para esses mecanismos», confirma João Barbosa.

Kalaf diz que «o consumidor digital está dois passos à frente de muitos canais ou meios de comunicação mais convencionais», daí que o grupo abra as janelas de sua «casa», contactando diretamente com os fãs. Hoje são mais de 167 mil os fãs no Facebook e os vídeos da banda já ultrapassaram as 24 milhões de visualizações no YouTube. Sem Buraka Som Sistema, a música de hoje não seria a mesma. À escala mundial.

Discografia

Há sete anos nascia o grupo Buraka Som Sistema. Em 2006 o rastilho começou a ser lançado com o EP From Buraka to the World. O que anunciavam confirmou-se literalmente e hoje o grupo não é só de Lisboa, é do mundo. Outros discos se seguiram, nomeadamente Black Diamond (em 2008) e Komba (2011). Este mês a banda decidiu reunir esses três discos, dos quais fazem parte grandes êxitos como Yah!, Kalemba (Wegue, Wegue), Aqui para Vocês ou (We Stay) Up All Night, numa caixa especial que traz um novo disco repleto de raridades. Assim sendo, R3W1ND - Mambos Raros traz não só gravações inéditas (como a canção Peaches ou Kizomba, numa colaboração com Gregor Salto), como remisturas dos seus temas por nomes de peso na música de dança, como são disso exemplo os Hot Chip ou Julio Bashmore.

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