Um arquiteto com H maiúsculo

Cândido Palma de Melo nasceu em 1922. Tornou-se arquiteto e marcou com o seu traço a paisagem urbana lisboeta. Foi pioneiro no modernismo e na luta contra as barreiras arquitetónicas que impediam igualdade de acesso aos edifícios. Mas é pelo H, a sua peça mais emblemática, que vai ser recordado numa exposição que inaugura esta semana em Lisboa, na Galeria do Diário de Notícias.

«Não gosto de Lisboa porque, quando a uso, tropeço com ela», dizia Cândido Palma de Melo ao extinto DNA, suplemento cultural do DN, numa entrevista com pretexto, no mínimo, original: aquela edição, de 7 de junho de 1997, era toda dedicada ao amarelo e o arquiteto Palma de Melo, então com 75 anos, era o homem que decidira plantar, bem no centro da capital, o prédio daquela cor, que ainda hoje atrai os olhares de quem passa entre a ruas Braamcamp e Alexandre Herculano. Não havia, pois, melhor forma de abordar as várias nuances de um tom controverso e vibrante: chamar à fala um homem que desafiava a monotonia e jogava tudo na criação artística. Tanto que, quando o projeto do prédio da cor do sol foi chumbado, com a recomendação de que fosse «fazer experiências noutro sítio da cidade», respondeu apostando a carreira no sucesso urbanístico do edifício, ao propor que lhe cancelassem a licença se não fosse possível ir avante.

O prédio amarelo construiu-se e o arquiteto, sem abrir mão da sua identidade, admitia ao jornalista que o entrevistava em 1997 que, afinal, até admirava as colinas, as paisagens e os ambientes lisboetas. Mas ressentia-se das estruturas mal realizadas, das «avenidas que desembocam em ruas pequeninas» e que justificavam os tropeções e obstáculos que sentia como afronta.

Na irreverência dos seus desenhos arquitetónicos, houve uma dimensão que Palma de Melo nunca descurou: a das acessibilidades, que deviam permitir igual mobilidade a todos os cidadãos. As suas razões, embora pessoais, foram determinantes para colocar em marcha um movimento que envolveu outros atores da sociedade portuguesa da década de sessenta do século passado e que havia de culminar com a alteração do decreto-lei na origem do que hoje vigora, assegurando passagem aos cidadãos com mobilidade condicionada.

Palma de Melo era pai de três meninas, as duas mais novas com paralisia cerebral: enquanto cidadão, arquiteto e, sobretudo, pai, recusou confinar as filhas a quatro paredes e lutou para que pudessem deslocar-se sem limitações para além daquelas que o seu estado de saúde já impunha. Numa época em que as barreiras arquitetónicas não eram tema, e a Carta de Atenas, marcada pelas teses do suíço Le Corbusier, ditava aos modernistas que se concentrassem na «cidade funcional», Palma de Melo interessava-se pela experimentação. Mas estava preocupado com um urbanismo que era feito de degraus, com os prédios que não tinham elevadores, muito menos portas suficientemente largas para dar passagem a uma mãe empurrando um carrinho de bebé ou a um deficiente motor em cadeira de rodas. Quis tornar visíveis as suas inquietações e, por isso, criou a Pirâmide da Vida, um triângulo com degraus até ao topo em ambos os lados, em que cada degrau correspondia a uma etapa da vida do homem, ascendendo da infância à idade adulta - altura em que o homem está no topo da pirâmide - e, depois, descendo até à velhice. O objetivo era demonstrar, com este desenho, que só uma pequena faixa da população consegue deslocar-se sem qualquer dificuldade, subindo e descendo a escada. Na maior parte das fases das nossas vidas, seja porque estamos fisicamente debilitados ou até porque se leve uma criança ao colo, todos os cidadãos beneficiam de uma construção sem obstáculos. «Era sobretudo uma questão de igualdade», aponta Maria Oliveira, a neta de Palma de Melo. «Todos conseguimos aceder a um edifício onde existam rampas, mas se elas não existirem só alguns vão conseguir entrar», explica.

Maria João Palma de Melo Carreira, a mãe de Maria e filha mais velha do arquiteto, hoje com 65 anos, acrescenta: «Ele era uma pessoa muito contestatária mas, ao mesmo tempo, um romântico e um idealista. Talvez um anarquista no sentido de não admitir bem nem mal, de achar que as pessoas podiam conviver umas com as outras e respeitarem-se, sem haver a segregação de que ele falava muito. Ele acreditava que esse mundo podia existir e, no fundo, era o que queria para as minhas irmãs, que houvesse um mundo melhor sem que elas fossem segregadas», afirma.

Na senda desta luta, o arquiteto Palma de Melo havia de presidir durante anos à antiga Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral, assinando o projeto do Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral de Lisboa - Centro Calouste Gulbenkian. O edifício faz-se pela justaposição de estruturas hexagonais que, vistas de cima, se assemelham aos favos de mel das abelhas. Uma construção original e, à época, única nas suas caraterísticas de harmonia e na funcionalidade das suas instalações: tudo fora planeado para que uma eventual expansão do centro não lhe retirasse coesão, bastaria para isso «encaixar» novo hexágono nos que já estavam terminados.

Palma de Melo não ficou por aí: empenhou-se em conceber mobiliário adaptado a todos, imaginando a mesa recortada em meia-lua, que permite melhor apoio a uma criança com ou sem dificuldades motoras, ou a estante que serve de biblioteca e pode ser deslocada onde for necessário. Esta dimensão da sua obra valeu-lhe até o prémio Hélios, no início da década de 1990, atribuído então pela Comissão Europeia e que premiava o trabalho ao nível das acessibilidades e destruição de barreiras arquitetónicas. Foi a filha Maria João quem o inscreveu. E este foi o único prémio que aceitou com gosto. «Ele nunca quis ser galardoado nem reconhecido. Achava que tinha nascido com aquelas aptidões e que cada um era bom dentro das suas competências. Dizia sempre que tinha a sorte de fazer aquilo de que gostava e ainda ganhar dinheiro com isso», revela. «Sempre preferiu ser um outsider.»

De tal modo que, já no final da vida, quando a família quis entregar o seu espólio ao museu de Setúbal, de onde era natural, não viu utilidade, apesar de não se ter oposto. E nunca quis deixar nada escrito. Recusou passar ao papel mais do que traços, com a mesma obstinação com que recusou os galardões que o Estado Novo lhe oferecia, por ter trabalhado para a Aeronáutica de então - projetou, por exemplo, as gares do aeroporto de Lourenço Marques, hoje Maputo, e as da Beira, também em Moçambique. Demitiu-se no dia em que soube que Salazar queria distingui-lo.

Nunca se filiou em nenhum partido, porque não queria, provavelmente, «sentir-se cerceado», diz Maria João. Mas fez parte do MUD juvenil e até tinha ficha na PIDE, porque nunca se coibiu de participar nas tertúlias de esquerda nos vigiados cafés da Baixa lisboeta, junto com Natália Correia, Teotónio Pereira, Keil do Amaral ou Conceição e Silva. Muitos deles eram presença habitual na casa da família, em reuniões que ficaram registadas na memória da filha. «Lembro-me das noites com o escultor Martins Correia, com o Gil Teixeira Lopes. Eu levava o giz do meu quadro de brincar e eles desenhavam. O meu pai passava a vida a desenhar, tanto que em casa tenho retratos da minha filha, da minha sobrinha... só não tenho das minhas netas porque já não foi a tempo», lamenta Maria João. «Era uma pessoa que se projetava sobretudo na criação. A reabilitação vem por acréscimo.»

Para a neta Maria, no entanto, a sua peça mais emblemática nasce precisamente do trabalho que já tinha desenvolvido na área da reabilitação. Colocando a sua criatividade ao serviço da funcionalidade, Palma de Melo concebera uma estrutura de madeira em forma de H que, consoante o pretendido, podia servir de mesa ou de banco. Era leve e facilmente transportável. Quando Maria João, a filha mais velha, casou, em 1969, o pai arquiteto quis encher-lhe a casa vazia com móveis funcionais e aplicou novamente o H, concebendo um módulo em mogno, com 75 cm de altura por 75 cm de largura, e que podia ser posicionado na horizontal ou vertical, empilhado numa torre de módulos ou estrategicamente isolado, na sala ou no quarto de dormir. Sem parafusos ou complicações e completamente personalizável, o H está hoje em casa de muitos dos membros da família do arquiteto Palma de Melo e foi precisamente esta inovação - porque, à época, poucos se lembrariam em Portugal de inventar um móvel multiusos - que deu mote ao projeto de homenagem que a neta Maria impulsionou e que os familiares aprovaram.

Chamou-lhe «Arte com H» e, lembrando os modos pouco convencionais do avô, não quis torná-lo um mero tributo que enumerasse obras emblemáticas para completar uma biografia com muitos números e poucas histórias. Queria recordar o avô que, por ser «demasiado irreverente», com 5 anos e após a morte do pai, entrou para a Casa Pia, porque a mãe tinha dificuldades em controlar o seu espírito aceso. Que era para ser marceneiro, mas que por incentivo dos professores conseguiu bolsa para estudar na Escola Superior de Belas-Artes e trabalhou no atelier de Keil do Amaral antes de abrir o seu próprio negócio. Que atrasou duas vezes o casamento com Fernanda, que lhe sobreviveu e tem hoje 87 anos, a prima com quem brincara desde a infância, porque não chegava o pagamento do projeto que Keil lhe entregara: um chafariz em Nelas. Eram estas as histórias que a neta queria ver nas entrelinhas de uma homenagem que não devia ser escrita, que devia ser pintada no H que era tão seu. «Num almoço, lembrámo-nos de pegar nos desenhos do meu avô e voltar a produzir o H, convidando artistas contemporâneos, que eram amigos dele, para pintarem a peça.» Gil Teixeira Lopes, Matilde Marçal e Roberto Chichorro aceitaram o convite sem reservas: no total, há cinco peças exclusivas que irão fazer parte da exposição que inaugura a 10 de setembro na Galeria do Diário de Notícias em Lisboa, e permanece até 4 de outubro. Uma mostra que acabou por ser a concretização material do projeto de homenagem da família, que Maria iniciara há mais de dois anos e se estendeu até agora. Mas não é um trabalho acabado: a versatilidade do H permite jogar com a sua continuidade e abrir novos caminhos. O plano é que, em pouco tempo, a peça esteja novamente à venda e possa ser encomendada em cores e matérias-primas diferentes do mogno original.

A galeria do DN, por sua vez, estará divida em quatro ambientes distintos: dois dedicados às peças pintadas pelos artistas convidados, outro dedicado ao H, com uma parede forrada de móveis que irá expor as suas potencialidades, e um último que procura dar a conhecer a figura de Cândido Palma de Melo e as várias dimensões da sua atividade enquanto artista arquiteto. Serão enumeradas as suas obras mais emblemáticas, desde o já referido prédio amarelo em Lisboa aos estádios do Bonfim e de Pina Manique, a Associação Casapiana de Solidariedade, o complexo de edifícios nos Olivais Norte e Sul, em que colaborou com outros colegas de profissão. Um singelo olhar pela obra de um homem que, assegura a filha, «podia ter sido o que quisesse», mas escolheu a arquitetura para dar formas e cores ao seu pensamento. «Ele via o mundo de uma forma caraterística. Muitas vezes, ia até pelo lado cómico, fazia caricaturas. Tinha imenso sentido de humor.»

Em toda a vida, nunca perdeu a coerência, assim como nunca abandonou a longa barba que prometeu tirar quando Salazar morresse. Até na própria morte - há uma década - e como que por ironia, pareceu querer marcar uma posição: foi cremado no dia 1 de maio, o dia do trabalhador «que ele tanto prezava», recorda Maria João.

[08-09-2013]

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