Tudo OK; por enquanto, claro

As personagens falam de relógios, catapultas e arte.

Profetas

- E há ainda os profetas que prevêem não o futuro afastado, não os dias mais próximos, mas o futuro imediato, digamos assim: conseguem adivinhar o que vai acontecer daqui a um minuto. Essa doença mental que é ver antes de o visível dar um passo em frente. Ouvir antes de o som existir. Sentir o cheiro ainda o aroma não se ergueu um milímetro acima da carne. Tudo ainda é matéria sólida e compacta e concentrada no volume exacto e nas fronteiras das dimensões das coisas e já o mestre olfactivo está a sentir o cheiro que se erguerá de um prato de comida. Eis o terrível: aquele que tem um corpo que vive já os minutos que ainda não existem. Um ansioso que fica nervoso antes do perigo, que fica saciado antes de comer, e fecha com força os olhos bem antes de chegar a luz forte.

Catapulta

- Vossa Excelência vê esta imagem? A catapulta também serviu para isto.

- Para quê?

- No tempo da peste negra, catapultavam cadáveres. De dentro do castelo para fora do castelo. Catapultavam os cadáveres para o campo do inimigo, para as cidades do inimigo. Para pôr no campo do inimigo a doença.

- Em vez de atirarem pedras, atiravam corpos mortos, infectados com a peste negra.

- Não é eliminar a doença, é pôr a doença no sítio certo. No espaço que não fala a nossa língua.

- Que estratégia terrível!

- Mas, se pensar bem, Excelência, verá que esta estratégia é tão antiga quanto moderna.

- Sim, tão antiga quanto moderna.

Relógios

Meu caro, conheço um homem que colecciona relógios. Tem uma parede cheia de relógios de todo o mundo. Relógios que funcionam, mas que estão a horas distintas. Relógios que funcionam mas não acertam sequer com o relógio que está ao lado. Uma forma exacta de estar certo. Uma forma exacta de estar errado.

Arte que sai das mãos, arte das mãos

E a escultura pode surgir nos lugares mais imprevistos. A mudança de uma lâmpada, por exemplo, é um acto de escultura; e ainda mais evidente é o arranjo das canalizações em que ocorre uma modificação de estrutura e dos materiais por efeito da acção da mão do homem e das ferramentas anexas à mão. Podemos, pois, dizer que os canalizadores, os mecânicos de automóveis e de televisores, são escultores; escultores não de obras de arte, mas de obras comuns, obras de casa, obras médias, não raras. Porém, os gestos são os mesmos e o material muitas vezes também é o mesmo. Se olhares para o gesto de quem repara um automóvel e não para o resultado, verás que estás no mundo da dança, do movimento. O movimento como obra de arte, em suma.

OK

Segundo um livro da especialidade, uma das explicações da origem deste OK está na Guerra da Secessão nos Estados Unidos. Quando voltavam contentes de um combate, sem nenhuma morte do seu lado, os soldados escreviam: O (zero) Killed (mortos); ou seja: «OK». Isso terá passado do mundo militar para o mundo civil.

OK, no mundo civil, como declaração mínima de optimismo.

- Como estás?

- OK, tudo bem, zero mortos... E tu?

- Não estou morto. Portanto: OK também.

Exclusivos