Tudo certo, portanto

O senhor Voltaire pega numa foto e comenta:

Eis um arquivo e aqui, precisamente nas minhas mãos, uma ficha que nos conhece bem. É um documento, um papel com tinta por cima, mas esse papel com tinta por cima parece conhecer-te melhor do que a tua própria mãe. Tem os teus dados, os teus números, os teus nomes. Se tem a tua matemática - os teus números - e a tua literatura - os teus nomes - então, neste arquivo, o que falta de ti senão o que sentes?

Poderá dizer-se, então, que os sentimentos são estados intermédios entre os números e as palavras. Entre a matemática e a literatura está um senhor que sente. E como ainda não foi inventada a terceira ciência, esse documento de arquivo falha porque não tem números nem palavras para definir as emoções do senhor que ainda está, apesar de tudo, vivo.

A ficha de um cidadão, o documento que o identifica, além dos números das datas de nascimento e da altura, grande ou pequena, e além dos nomes próprios e de família e do sítio onde vive... em suma, além dos números e das palavras, deveria ter versos. É uma proposta - disse o senhor Voltaire. - Uma proposta.

(o senhor Voltaire pega noutra foto)

As crianças são bonitas e têm calções. O pai tem chapéu e o cigarro na boca substitui as palavras (ele fala pouco). As mulheres têm a responsabilidade de fazer o relato da História do Mundo e da Família. E têm ainda de fazer o relato da história da própria casa e do próprio bairro. No Século XX são as mulheres que fazem a história.

(outra foto)

Como se vê aqui, depois da Segunda Guerra Mundial, três pessoas são felizes numa cozinha. O homem em pé sorri como um parvo. As duas mulheres sentadas, a trabalhar, sorriem como se estivessem ao lado de um parvo. Tudo certo, portanto.

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Adriano Moreira

Navegantes da fé

Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.