Thatcher, Mrs. Thatcher

Margaret Hilda Thatcher não foi apenas a primeira mulher em Downing Street. Foi também a primeira mulher a chefiar um governo ganhando eleições. Indira Gandhi (Índia) e Golda Meir (Israel) chegaram mais cedo à chefia do executivo, mas não disputaram eleições, foram antes apontadas líderes em processo restrito e hermético.

Margaret Thatcher teve a virtude de salvar o Reino Unido da bancarrota e de inverter por completo o declínio económico e moral em que o país mergulhou na década de 1970. Venceu a guerra das Falkland e contribuiu para a implosão da União Soviética. Foi a primeira-ministra com o mandato mais duradouro em todo o século xx britânico e conseguiu-o enfrentando um sistema barricado no poder dos sindicatos, na paralisação industrial, na cristalização social e no estatismo predominante.

A «era da transformação» de que fala com propriedade Giddeon Rachman (Zero-sum World), teve como expoentes Deng Xiaoping e Ronald Reagan, mas não houve no quadro europeu quem melhor a protagonizasse como Maggie Thatcher. Por ter ajudado a liberalizar as direitas europeias, influenciado ruturas com o sacrossanto estatismo, por ter contribuído para modificar o Partido Trabalhista inglês, agitando as esquerdas socialistas e sociais-democratas continentais. E por ter chegado onde chegou sem usar um argumentário feminista. Thatcher subiu ao topo da política pelas suas ideias, pelo seu carisma, mérito, vontade e disponibilidade. Como ela sempre disse, «o problema é que toda a gente quer ser qualquer coisa, em vez de fazer qualquer coisa».

«Dama de Ferro»?

Desenganem-se os que esperam que A Dama de Ferro seja sobre o thatcherismo. Não é. É um filme sobre Thatcher, o que não é exatamente a mesma coisa. Posso dizer-vos que é a ambivalência da sua história a marca do argumento. Obstinada a não ser uma dona de casa, entra na arena política dos homens para marcar uma rutura ideológica, não um combate de sexos. Trabalhou na loja do pai, figura central e recordada na magistral biografia de Hugo Young (One of Us), foi estudar química para Oxford, teve dois filhos, concorreu ao Parlamento, à liderança do Partido Conservador e chegou ao governo para mudar o país. O seu mote de vida é nítido: o que defendemos como indivíduos de sucesso pode e deve ser aplicado no exercício de cargos públicos. O que o filme nos revela é que a isto se junta uma tremenda fragilidade, igualmente individual, gerada pela demência dos últimos anos: uma mulher marcada por uma progressiva solidão e pela perda das figuras centrais da sua vida (o pai e o marido). Por uma noção clara de que a sua singularidade só poderia ser destruída por uma típica trama política, mas nunca pela adulteração do rumo em que acreditava.

A exposição à doença a que o filme a sujeita tem sido muito criticada no Reino Unido, sobretudo entre indefetíveis como David Cameron ou Charles Moore, seu biógrafo oficial. Talvez o ângulo escolhido pudesse ter suavizado esta vertente privada. Mas é exatamente por isso que o filme é sobre Thatcher e não sobre o thatcherismo. Sobre a ascensão e queda de um político singular que por acaso é mulher, mas que não fez do feminismo nem das solidariedades inerentes um argumento de poder. Como a própria disse numa entrevista em 1982, três anos depois de chegar a Downing Street, «eu não devo nada à emancipação feminina». De facto, nunca fez disso um tratado eleitoral: na campanha de 1979 chegaria a afirmar várias vezes que «uma mulher que conheça os problemas de governar uma casa está perto de perceber os problemas de governar um país».

A exposição da doença não faz mais do que contrariar o cognome de Thatcher, dado inicialmente pelos soviéticos, e que supostamente faz dela uma «dama de ferro». Mostra-nos mais uma vez a fragilidade humana de cada grande líder político, a evidência da mortalidade, o poder dos fantasmas privados, vindos do passado, na construção da figura pública, a falta de disponibilidade familiar quando se assume um compromisso de lealdade com a política. Thatcher é tudo isto e tem tudo isto. A sua dignidade não é beliscada com a demência, tal como a dignidade de Reagan não saiu beliscada por, em 1994, ter publicamente assumido a doença de Alzheimer, dez anos antes de morrer. Os americanos continuam a pô-lo no altar da história, mesmo sabendo, pela voz de Nancy Reagan, que terá passado os últimos quatro anos de vida sem abrir os olhos. As ideias, as lutas, o carisma e o legado de Reagan estão para lá do seu declínio físico. Assim deve ser com Margaret Thatcher.

Há herança?

Mas será que há um legado de Thatcher? Na política britânica ele é evidente. Sem as suas decisões o Reino Unido não teria derrotado a hiperinflação dos anos 1970, gerado novos empregos, aumentado em mais de vinte por cento os salários médios, aliviado como nunca a carga fiscal (levando ao desespero da oposição de esquerda), terminado com a paralisação dos serviços públicos e indústrias através dos bloqueios sindicais, reduzido o peso do estado empresarial com uma política brutal de privatizações (British Airways, British Telecom, British Gas, British Airspace, Rolls-Royce), promovido um bigbang na City, desregulamentando a praça, aliciando o mercado financeiro a agir tão livre como libertino, ou incentivado a compra de habitação, acentuando o papel da banca.

Parte deste legado salvou o Reino Unido do declínio, da humilhação da ajuda externa, da irrelevância internacional. Tornou o país viável economicamente, um pilar liberal na Europa quando, por exemplo, França estava resgatada por um governo socialista/comunista e a Alemanha se mantinha dividida, e sobretudo despertou o interesse e a admiração nos governantes dos EUA que viram no Reino Unido um aliado forte, ideologicamente próximo e com uma líder inspiradora. Não surpreende, por isso, que a relação entre Reagan e Thatcher tenha sido um eixo histórico, pessoal e ideológico.

Mas há uma outra parte do legado levada de tal maneira a um extremo ideológico que conduziu a inúmeras bolhas especulativas e impunidades, cujas consequências se tornaram evidentes desde 2008. Porém, tirando as imprescindíveis correções, as inevitáveis punições e uma afinação nos modelos financeiros e políticos das economias livres, continua a ser relativamente aceite que estas são o melhor roteiro para a sustentação das liberdades individuais, políticas e dos modelos de bem-estar social que todos queremos salvaguardar. Se virmos bem, mesmo existindo pressão para que os governos gastem mais face às situações de pobreza, a maioria continua a considerar como correta a receita de que o peso do Estado deve ser reduzido, as suas despesas mais eficientes e o seu papel menos presente na vida económica. Também deste ângulo o legado de Thatcher resiste.

Por fim, tendo em conta que não há propriamente um traço feminino na governação Thatcher - desde logo porque ela não fez nada para aumentar a presença das mulheres na política nem deu particular atenção às suas reivindicações -, terá influenciado o exercício do poder de outras mulheres na política? Salvo as distâncias (carisma, ideias, contexto), parece-me que sim, talvez com a exceção de Ellen Johnson-Sirleaf, a primeira mulher presidente da Libéria e de toda a África. O seu compromisso eleitoral passou por ser um exemplo de futuro para as raparigas africanas e em formar um governo com um terço de mulheres, tornando-a não só um caso particular numa geografia extremamente difícil à participação feminina no espaço público, como na adoção de uma narrativa política muito centrada na figura da mulher. Mas será, talvez, uma exceção. Se repararmos em políticas de topo como Angela Merkel, Christine Lagarde, Michelle Bachelet ou Dilma Roussef, a narrativa feminista não se sobrepõe às suas ideias, percurso de vida, mérito profissional e qualidade dos seus projetos. Também aqui o exemplo de Thatcher se mantém vivo. E ainda bem.

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