«Temos de aprender a valorizar o que é nosso»

É a mais famosa cantora lírica portuguesa - uma soprano «a la antiqua». Elisabete Matos saiu de Caldas das Taipas, perto de Guimarães, aos 19 anos, para ir estudar em Madrid, e hoje o mundo é o seu palco - actua nos melhores e com os mais importantes artistas. Voltou a Portugal para inaugurar a Orquestra Estúdio de Guimarães.

A Elisabete Matos é a mais importante soprano portuguesa e vive fora do país há 23 anos. Como é que se vê Portugal, hoje em dia, de fora?

_Neste momento, não há muita diferença entre países. Cada um está a olhar para o seu umbigo. A Espanha, a Grécia e a Itália, todos estão com uma grande crise.

Isso sente-se no palco?

_Evidentemente que sim. Todos os dias há uma produção que se cancela, teatros que não pagam. E porquê? Há aquela ideia de que a cultura não cria dividendos imediatos e então os cortes orçamentais são sempre feitos na arte. Estou de acordo de que, neste momento de crise, temos de fazer um ato de contrição...

Sentiu esse ambiente quando atuou em Guimarães e no São Carlos, em Lisboa?

_O concerto do Teatro de São Carlos foi de iniciativa minha, oferecido. Por ter pairado a hipótese de fechar o teatro e reduzir pessoal, lembrei-me de fazer este concerto. Em tantos outros países existe esta tradição de fazer o concerto de Ano Novo... E foi uma surpresa fantástica. O teatro há muito tempo que não encontrava uma sala cheia, ao rubro. Houve também um esforço da parte da orquestra, do coro, do maestro - estávamos todos a trabalhar em horários extraordinários, no caso deles. Isto quer dizer que existe vontade dos portugueses em ultrapassar esta crise e a mensagem para este ano novo é a de esperança, apesar da crise profunda.

Sentiu a crise nesta sua passagem por Portugal?

_Sim, senti. Estive no Norte e vi que se criava pela primeira vez um banco alimentar nas Caldas das Taipas, a minha terra, uma maneira de ajudar com roupas, alimentação.

Não pensa regressar a Portugal?

_Não posso dizer desta água nunca beberei, mas...

A sua carreira não lho permitia?

_Permite. Mas, repare, estou habituada já a outro tipo de vivência em Madrid, onde moro. Estou pouco tempo lá, mas quando estou, há o Teatro Real, o da Zarzuela, a Orquestra da Rádio Sinfónica de Radio Televisión, a Nacional de Espanha, a do Teatro da Zarzuela...

Durante o ano passa quanto tempo em Madrid?

Muito pouco. Se passo dois meses em casa... E não seguidos, porque estou sempre a viajar...

O que é que leva consigo para se sentir em casa?

_Muitas malas. Fotografias, algum objeto de que preciso para me sentir, de certa maneira, protegida. Não sou exageradamente supersticiosa, mas não custa nada levar um coral ou uma turquesa. E tento sempre não ficar em hotéis e sim alugar apartamentos. Há um circuito, para os cantores. Eu tenho um apartamento em Madrid que também alugo ao Teatro Real.

Quando está fora, cozinha?

_Sim. Gosto da nossa alimentação, da gastronomia portuguesa. É uma maneira de sentir que tenho uma vida o mais normal possível. Poder ir ao mercado, que normalmente são belíssimos e que nos permitem alienar um pouco a cabeça da questão da voz. Chegar a casa e cozinhar, uma pasta, uma salada. Isso até me permite ter cuidado com os quilos que são tão importantes para um cantor. Tomar o pequeno-almoço, almoço e jantar fora todos os dias implica incorrer em tentações.

Já houve tempos em que isso não era um problema para um cantor lírico...

_Mas é importante. Não creio que deva ser levado ao extremo, o mais importante num cantor é a sua voz e capacidade interpretativa. O resto pode ser sempre contornado. Mas é evidente que para fazer a Violeta Valery não é muito credível ser enorme.

Cada vez há mais atenção à aparência, também na música erudita, o que é uma novidade.

_Isso é uma coisa que vem do marketing, de campanhas em que tentam fazer de homens e mulheres bonitos cantores de ópera e que, passados dois ou três anos, acabam. Eu costumo dizer que para cantar não é só preciso ter voz, é preciso ter inteligência, que vai à frente de tudo isso. Se para cantar bem tenho de ter cinco quilos mais, então que assim seja.

Até porque uma dieta pode prejudicar a voz...

_Pode. Se for bem feita e de uma maneira muito pausada, evidentemente que se consegue fazer. Agora, imagine que hoje está em Nova Iorque, amanhã em São Petersburgo, e que com o stress das viagens fica doente, precisa de comer... Aqui encontra um tipo de comida, ali outra diferente... É muito difícil de manter os hábitos de alimentação, de disciplina.

Tem algum sítio onde goste muito de estar, fora de Madrid?

_Nova Iorque foi um dos sítios mais importantes para mim. Em vivências, cultura, e também pela minha história no Metropolitan. Fiz lá uma récita de apresentação há dois anos, a La Fanciulla del West. Tive poucos ensaios, era uma produção muito complicada, com cavalos - eu nunca na vida montei a cavalo! E teve uma reação extraordinária, do público e da casa em si, da orquestra e dos colegas. Não falhou nada nessa noite. Foi um êxito tremendo. No dia a seguir, tudo quanto era blogue e jornal falava da minha prestação e, de imediato, convidaram-me para fazer a Abigaille. Foi outra grande presença no Metropolitan. E agora voltarei, estão coisas para ser agendadas, sobre as quais ainda não posso falar.

Põe a hipótese de se mudar para lá?

_Pode acontecer, mas não tenho necessidade porque Madrid está aqui muito perto, até para visitar a família. A minha família vive nas Caldas das Taipas. A minha mãe agora já tem mais disponibilidade, já me pode acompanhar.

Como é que uma família tradicional como era a sua, do Minho, viu a sua menina sair de casa aos 19 anos?

_Foi uma aprendizagem. A minha mãe não estava preparada, não conhecia este mundo. Mas ela tem aquela sabedoria que não sabemos de onde vem, e deu-me o espaço necessário. Seguramente teve muitas dúvidas. Imagino que terá pensado se não seria melhor eu ter outra profissão. Mas teve sempre uma posição de respeito.

Nunca se opôs quando teve a ideia de ir para Madrid, estudar canto?

_Não. A despedida foi muito difícil. A partir daí decidi que nunca mais ia chorar daquela maneira e nem ia permitir que as pessoas de quem eu gosto chorassem assim. Quando tenho de partir preparo tudo com normalidade. Senão estou sempre a despedir-me. Digo: «Mãe, quando eu chegar mando uma mensagem ou um toque.» E a partir daí tudo sossegado.

Quando é que descobriu a sua voz?

_Veio o violino primeiro do que a voz. Sou de uma família que, de uma maneira não profissional, sempre esteve ligada à música. Da parte paterna todos tocavam um instrumento, nas bandas tradicionais. Para mim, ouvir o Tchaikovsky, algumas aberturas de Wagner, era já algo presente... eles tocavam-nas. Eu ouvia nos discos, e ao vivo, assistia aos ensaios - o meu pai era trompetista. Daí vem o amor à música, e depois tinha uma vontade de me dedicar ao violino. Fiz formação no Conservatório de Música de Braga. Comecei, até, tarde, por volta dos 12 anos. Mas como sempre gostara de cantar, e por uma questão de cultura geral, decidi estudar canto. E o canto foi tomando maior proporção. Fui descobrindo no canto a possibilidade de interpretar, a capacidade dramática de ser diversas pessoas, sem ser a Elisabete Matos.

Era, um pouco, como ser atriz...

_É esse bichinho do palco. Que eu tinha desde miúda. Sempre fui muito lírica. Gostava muito de, em casa, fazer interpretações. É fantástico, sendo eu uma pessoa tímida. No papel de Violeta Valerie ou de Isolda, somos capazes de chegar a extremos. Depararmo-nos com a possibilidade e capacidade que temos, como seres humanos, de fazer coisas que seriam impensáveis sendo nós próprios.

Então foi uma menina tímida que chegou a Madrid, com 19 anos. Como foi?

_Fui de armas e bagagens, com uma bolsa da Fundação Gulbenkian. Terminei os meus estudos no conservatório, o décimo segundo ano, e não existia ensino integrado - fazia o liceu, por um lado, e os estudos musicais, por outro. Estava no oitavo ano do curso de violino e, portanto, tinha acabado o grau superior do curso de canto. Surgiu a possibilidade da bolsa de estudo da Gulbenkian, que me foi atribuída e, então... vamos para a frente!

E nunca tinha saído de Portugal...

_Digamos que são esses momentos que definem se uma pessoa tem madeira, como dizem os espanhóis, se tem alma, capacidade, talento e força necessários para abraçar uma carreira de sacrifícios. Foi difícil, para uma pessoa que perdera o pai com 12 anos, e que tinha dois irmãos pequenos. A minha mãe ficou sozinha muito cedo, com 36 anos. Mas na vida, ou se tomam as decisões no momento certo ou o comboio passa.

Já tinha essa consciência, de que não podia seguir a carreira que queria, em Portugal?

_De uma maneira não totalmente consciente, tinha. Via muitas pessoas, principalmente no Porto, que até tinham tido a coragem de ir lá para fora estudar, mas que depois, com essa alma lusitana, da nostalgia, acabavam por voltar. E era um desastre. O país nunca teve mercado de trabalho. Voltar significava, muitas vezes, regredir.

Recentemente houve uma polémica em Portugal porque o primeiro-ministro disse que, se calhar, o melhor para os professores era emigrarem. Seria um conselho que daria aos portugueses?

_É difícil emigrar por emigrar. Uma coisa é emigrar por algo intrínseco à profissão, outra coisa é por obrigação. O ideal seria que todos tivéssemos emprego cá dentro e que não fosse necessário as pessoas abandonarem as suas famílias. Mas faz parte. Quando a necessidade obriga. Não estou a dar-lhe razão na totalidade. Esta é a melhor resposta que posso dar.

O seu caso pode ser dado como um exemplo daquilo que não corre bem em Portugal?

_Em parte sim. Depois há a parte que foi opção, porque eu podia ter regressado, como todos os outros. Mas não era esse o meu caminho.

O ensino era muito diferente, em Espanha?

_Quis ir para uma escola pública - a Escola Superior de Canto de Madrid. Estudei a fonética das línguas, preparei óperas no pequeno teatro da escola, antes de vir cá para fora, tinha aulas de cena lírica, de como afrontar o palco, tomei contacto com um maestro com quem fazíamos os oratórios, as óperas, e éramos dirigidos. Até tive aulas de esgrima - porque nas óperas aparecem papéis de travestis. Cá, no conservatório, tínhamos duas aulas de canto por semana, de meia hora. Foi uma formação completa. Saí de lá com cinco ou seis óperas montadas...

E depois, como é que se salta para o mercado de trabalho?

_Começamos a apresentar-nos em audições, a sermos ouvidos em teatros, por agentes artísticos. Apresentamo-nos em concursos. Não pelo prémio que se ganha - muitas vezes nem são os que ganham que fazem uma carreira -, mas, de repente, pode aparecer alguém que gosta daquela voz e que pega nela.

Como foi no seu caso?

_Eu apresentei-me no concurso de Belvedere, de Viena, e fui premiada e, de imediato, fui contratada para fazer mesmo em frente do palácio, no verão, um Don Giovanni, de Mozart, ao ar livre. A pessoa que estava na organização do concurso era também diretor artístico da ópera de Hamburgo, convidou-me para ir fazer de Donna Elvira.

Começou a viver logo da música?

-Sim. Não me posso queixar. Com a bolsa da Gulbenkian não tive de trabalhar para pagar a minha subsistência. Vivia em Madrid, numa casa partilhada com mais músicos. Comecei a trabalhar logo em 1996. Depois reabriu o Teatro Real e tive a sorte de encontrar o Plácido Domingo na estreia mundial da ópera Divinas Palabras, de Antón García Abril. Ele interessou-se pela minha vocalidade. Viu em mim essa voz que não era comum, que ainda hoje chamam «una voz a la antigua», com um timbre forte, que pode interpretar tanto o repertório italiano, pelo facto de ser latina, como o wagneriano. Normalmente ou se interpreta um ou outro.

Isso tem que ver com o facto de ser portuguesa - os portugueses têm facilidade com as línguas?

_Nesse caso, evidentemente coincidia a facilidade para os idiomas, mas não é só uma questão de língua, é a vocalidade. A voz que tinha uma maleabilidade.

Como é que o Plácido Domingo percebeu isso imediatamente?

_É a experiência e o já ter ouvido muitas pessoas. Foi uma situação muito engraçada. Estávamos muito nervosos com a chegada dele - eu contracenava com ele. E ele simpatiquíssimo, como sempre foi. Um colega extraordinário que se comporta como qualquer outro. Uma pessoa que tem sempre uma palavra de apoio para todos. Ele trazia o seu maestro, um pianista, o James Levine, que veio falar comigo e pediu a minha biografia, o meu repertório. Depois de um dia inteiro de trabalho disse-me: «O Plácido está lá em cima à sua espera, quer ouvi-la»... Eu disse «Hoje já não dá mais.» Mas claro que deu. Cantei um Puccini, um Mozart e qualquer coisa de Wagner. Quando cheguei disse-lhe que estava cansada, ele respondeu-me que também estava, que percebia perfeitamente. Quando sabemos que a vida é feita de luta, também sabemos que o comboio passa e, ou entramos, ou ele pode não voltar a passar - se é preciso fazer-se um esforço, faz-se um esforço.

E convidou-a logo?

_Sim, fez-me logo o convite: «Quer cantar comigo o Le Cid de Massenet?» Estreámos primeiro na Maestranza de Sevilha e depois gravámos, em vídeo, em Washington. Convidou-me também para estrear o Sly de Ermanno Wolf-Ferrari , com José Carreras. Voltei a fazê-lo, com ele, em Roma. E também cá, no Estádio do Restelo - estavam umas vinte mil pessoas, incluindo a Amália e o Eusébio. Foi engraçado. Ele tem muito esse savoir faire . Trouxe consigo uma cantora portuguesa para cantar em Portugal e soube explorar isso - foi ele que me levou ao palco.

Só que a Elisabete era uma desconhecida, nessa altura, em Portugal...

_Já tinha feito coisas. Mas só quando pisei o Metropolitan ou o La Scala, em Milão, é que... É desta mentalidade pequena dos portugueses de que me queixo às vezes. Temos de aprender a valorizar o que é nosso. Os espanhóis têm uma coisa diferente, em relação aos portugueses - apoiam o que é deles. Quando eu me apresentava, no início da minha carreira, a audições de teatro com grupos jovens, pessoas em início de carreira, entre uma portuguesa e uma espanhola, mais ou menos ao mesmo nível, iam sempre buscar a espanhola.

Isso aconteceu-lhe?

_Sim. Numa série de audições para uma produção, antes de entrar, eles avisaram-me de que não queriam que eu passasse porque queriam só jovens espanhóis. Senti-me mal, revoltada, porque acho que a arte é universal. Mas, por outro lado, agradeci a sinceridade de não me fazerem passar pela situação.

De resto, a sua carreira até parece ter sido fácil...

_O caminho é preciso conquistá-lo. Não é assim fácil. Quando já se tem um nome, a coisa muda completamente de figura. Mas quando se está a arrancar, se há alguém por detrás, um agente, tudo se torna mais fácil. Uma das coisas de que me orgulho na minha carreira é que nunca pertenci a grupo nenhum. Não sou de Lisboa, do Porto, sou das Caldas das Taipas. Foi sempre à custa do meu esforço que consegui o que consegui. Evidentemente aconselhada por pessoas que me queriam bem. Só com esforço é que as pessoas podem perceber que isto é uma carreira de fundo, complicada, que exige de nós uma maturidade e ideias muito claras - a voz é um instrumento que está dentro de nós, não vemos e cria um stress imenso. Um violoncelista está constipado e toma um antibiótico e, melhor ou pior, vai fazendo o concerto. Um cantor que amanhece com tudo tapado, com febre...

Nessa altura era muito jovem, certamente gostava de gozar a vida, ou teve logo desde cedo a noção dessa, digamos, responsabilidade da voz?

_Sempre fui um bocadinho diferente. Não sei se por ter perdido o meu pai muito cedo, mas tive de crescer de uma maneira precoce. Muitas vezes gostava de estar com os meus amigos e não podia. Se havia um concerto no dia a seguir, não havia saída para ninguém, não se frequentavam locais onde as pessoas fumassem, não se comia qualquer coisa, porque a alimentação é fundamental da vida de um cantor. A voz é logo a preocupação-base. Desde o acordar. A primeira coisa que faço é ver se a voz está no sítio.

Todos os dias?

_Sim, e muitas vezes acordo de noite, quando tenho um espetáculo. Temos sempre esse medo. E por vezes acontece ficar doente, como no primeiro concerto de Guimarães, capital da cultura.

Há alguma explicação física para a sua voz?

_Todos nós temos um determinado corpo. Tem que ver com o facto de ser alta, de ter uma determinada estrutura e de ter nascido numa determinada zona - as vozes do Norte de Portugal são diferentes, têm uma cor mais forte.

Tem pesadelos de perder a voz?

_Sim, muitas vezes.

Como a protege?

_Do frio, por exemplo. Tento não tomar bebidas frias ou exageradamente quentes. O pior de tudo para a voz são as mudanças radicais de temperatura. É isso que acontece no inverno. No concerto do São Carlos, por exemplo, dia 1 de janeiro, estavam imensas pessoas a entrar na sala de ensaios e a trazer imensos vírus... era um medo tremendo. No final há cansaço, a pessoa transpira, está sensível, o mais fácil é apanhar aquilo que está no ar. É sempre aquela paranoia. Depois, evidentemente que é preciso racionalizar as coisas e não deixar que isso tome controlo de nós. Temos de criar uma certa imunidade.

Tem superstições em palco?

_Normalmente benzo-me antes de entrar.

Entra com o pé direito?

_Tento.

Tem alguma coisa no camarim ?

_Não. Às vezes uma fotografia qualquer.

Nem tem exigências de diva?

_Não. Preciso sempre da Coca-Cola zero. É uma coisa que me dá energia. Também como bananas. Não consigo comer grande coisa antes de cantar.

A maneira como encara a sua profissão parece quase um sacerdócio.

_Sim, absolutamente. É um preço que se paga. Hoje porque é um ensaio importante, amanhã porque é uma festa igualmente importante.

É uma pessoa solitária?

_Esta é uma vida solitária e é uma vida que precisa de solidão. Uma das coisas que um cantor precisa de fazer é não falar demasiado quando tem de cantar. Às vezes as pessoas não compreendem isso. Somos nós que subimos ao palco e uma nota mal dada fica sempre registada. É preciso tempo para ler, não é só a música, mas também estudar. Como é que me vou comportar no palco se não sei como é que se vestia uma senhora daquela época? Qual era a postura? Qual era a maneira de estar? Todas essas coisas são fundamentais. Embora não esteja a cantar o dia todo, estou o dia todo a trabalhar.

Leva alguém consigo nas viagens?

_Não sempre, mas neste momento o meu namorado viaja bastante comigo.

Isso implica que a vida dele tenha de ser dependente da sua, o que para um homem não deve ser fácil...

_Sim e não. Depende da vida da outra pessoa, do que faz. Para muitos, sim. É preciso ser-se bastante seguro. Pelo facto de acompanhar, não se passa para segundo plano. Pode ajudar-me. O êxito também é dele. Uma coisa importante para mim é que cada um tenha a sua realização pessoal.

Tem pena do que deixou para trás para seguir esta carreira?

_Há momentos em que digo que já estou farta disto, mas depois subo ao palco e esqueço-me. Acho que nasci para isto. Na vida tudo tem um preço, não podemos ter tudo. É o que digo às pessoas que querem seguir esta carreira - não é fácil. Agora, se o fazem é porque amam esta profissão. Se o fazem só para ganhar dinheiro escolham outra. Há um preço grande a pagar, mas quando saio do palco e sinto-me concretizada só posso agradecer terem-me dado este dom.

Este mundo de cantores líricos, de divas e de divos, é um pouco fechado...

_A ideia do divo vem do facto de sermos pessoas, a maior parte tímidas, muito delicadas, muito vulneráveis, porque temos este tal instrumento que não vemos. É essa insegurança que às vezes cria um comportamento de «precisar de...». Eu tento sempre ter uma vida o mais normal possível.

Quem foram as pessoas com que mais gostou de trabalhar?

O Plácido, sem dúvida. O Carreras também foi uma pessoa que humanamente me demonstrou que era um senhor. Eva Marton foi fantástica comigo. Se cheguei onde cheguei foi porque sempre tive essa postura de observar. Quando uma pessoa se aproxima humildemente é ajudada por todos.

Com quem aprendeu mais?

_Aprendi tanto, mesmo com pessoas que não conheci. Pessoas que estudei muito através dos livros e dos discos, que tentei conhecer a sua personalidade através da sua voz e forma de se expressar. A Renata Tebaldi, Ghena Dimitrova, Magda Olivero ou Victoria de los Angeles...

E maestros?

_Foram sempre os maestros que mais assustavam por aquilo que significavam, como por exemplo o Lorin Maazel, com quem artisticamente é um encanto trabalhar, apesar de ser uma pessoa muito austera. É preciso ir àquilo que importa. Gergiev, também. Aquele com quem gostei menos de trabalhar foi o Ricardo Muti porque é um divo, uma pessoa que é sempre ele à frente de todos. A música não se faz com ninguém à frente de ninguém. Nós somos meros intérpretes e estamos ao serviço da música.

O que gosta mais de ouvir?

_Música barroca, entre outras obras de reportório mais lírico que eu já não interpreto. Não poderia delimitar, não posso dizer que é apenas Puccini, porque não é. É também Verdi, Wagner e Mozart. Estes são os quatro pilares.

E o que é que está sempre a ouvir em casa?

_Música orquestral. É a minha base e foi a minha fortuna. Foi a minha sorte ter tido uma formação instrumentista.

Nunca pensou passar para outras formas musicais?

_Não. Não, nunca esteve presente. Evidentemente gosto muito de fado e de o cantar.

Faz mal à voz?

_Não é que faça mal à voz. É outro tipo de colocação, evidentemente, como é o flamenco. Para mim vem sempre aquela deixa da formação lírica, e o fado tem de ser cantado como fado, genuíno, sem a voz encostada, com a voz no peito, rasgada... Há algo muito específico no fado. Os cantores do fado, primeiro, cantam com microfone e depois têm uma tessitura muito reduzida, praticamente de uma oitava. Evidentemente depois é preciso desenvolver a maneira de cantar o fado, como se o expressa e tudo isso. Mas nós, cantores líricos, precisamos de tantos anos de técnica e de trabalho... Porque a voz humana é para ser usada como usa toda a gente - uma oitava, e toda a gente canta nessa oitava. Para podermos cantar, primeiro sem microfone, utilizamos todo o nosso corpo. É importantíssima a parte do diafragma, para haver um apoio que permita que a voz ressoe por todo o corpo e que, com a garganta perfeitamente aberta, chegue aos ressoadores e que penetre através da orquestra, que se oiça por cima da orquestra, independentemente de a voz ser grande ou pequena. Ou seja, tem de estar uma voz completamente livre para que esse timbre seja o que vem cá para fora, que o público ouve sem microfone. Se nos colocam um microfone na boca, tudo se ouve. Sempre que há gravações, têm de me tirar os microfones - pô-los o mais longe possível, porque a minha voz faz sempre distorção. É uma voz dramática, com muito metal e, normalmente, quando há transmissões em direto para a rádio e tudo isso, por exemplo, peço sempre para retirarem os microfones o mais possível, para que a captação seja mais longínqua e natural.

O que aprendeu com aquilo que cantou e com as personagens que interpretou?

_Aprendi a ser mais tolerante. É na pluralidade que está o interesse. Há histórias absolutamente diversas de uma ópera para a outra. O sentido do amor, da renúncia, o ser capaz de se renunciar àquilo que se quer muito porque vai ser primordial para essa pessoa, o ser capaz de abandonar por amor, por exemplo, é uma das coisas que aparece muito na ópera. Chegar à conclusão de que amar é algo mais altruísta.

Tem uma personagem favorita?

_A Isolda do Tristão. É um papel muito romântico. Quando se chega à conclusão de que na vida terrena já não se pode viver um amor ou a felicidade, de que é preferível morrer e encontrar-se numa atmosfera de luz, na qual haverá um mundo melhor.

Essa esperança que a ópera acolhe também nos pode dar algumas lições para estes tempos que estamos a passar...

_Sim. Se formos à Tosca , tanto Tosca como Scarpia morrem pelo poder da igreja. Tosca acaba por cometer um assassínio porque depende da utopia, porque acredita que aquilo que Scarpia lhe está a dizer, sendo representante do poder da igreja daquela época, é verdade. E, então, para salvar o amor da sua vida acaba por cometer um assassínio. A Tosca era uma maneira de Scarpia exercer o seu poder como homem. O poder é uma coisa que tantas vezes estraga tantas coisas.

E se tivesse de escolher uma ópera para nos inspirar neste ano?

_É difícil. Por exemplo a La Bohème . Todos os boémios eram pessoas de muito poucos recursos, viviam o dia a dia. Viviam na sociedade parisiense, mas viviam na mais pura miséria.

Qual vai ser o próximo passo na sua carreira?

_No dia 18 parto para os EUA para fazer o concerto do Rienzi, no Avery Fisher Hall.

E qual era o seu sonho agora?

Descansar.

Perguntas de Algibeira

O livro da sua vida?

_Ainda não o li, mas já comprei há algum tempo. Mas vai ser o livro da minha vida porque mexe com os conceitos da religião. É sobre Maria Madalena. Chama-se mesmo Maria Madalena . Tem que ver com a figura que ela representou. Mexe um pouco com os esquemas que nos foram ditos através da Bíblia. Há um testemunho que é apenas baseado na fé. Já estou numa fase em que não basta só a fé.

Uma cena de um filme que a marcou?

_O final de E Tudo o Vento Levou .

Quando foi a última vez que chorou?

_Ontem. No espetáculo.

O que é que ainda vê na televisão?

_Vejo única e exclusivamente uma série de época, porque não tenho tempo para ver mais nada, até tenho visto mais no computador. É espanhola: Bandolera .

O lema da sua vida?

_Amar, ser amado e ajudar. Que aquilo que nos regressa seja o fruto da ajuda que brindamos.

E uma música para namorar?

_Não preciso de ir para fora da música clássica. Se for baixinho e puser o «Vissi d"arte», mas muito baixinho: «Vissi d"arte, vissi d"amore, non feci mai male ad anima viva.»

E contra a crise?

_É entrar num espírito de ajuda, de sensibilidade. E que os que têm uma posição mais privilegiada tenham a iniciativa de ajudar e esse sentido de responsabilidade. Só com o esforço daqueles que podem dar podemos realmente criar naqueles que realmente precisam um sentimento de esperança.

Quantos minutos por dia gasta a ler o jornal?

_Um quarto de hora, quase sempre na internet. E também portugueses. Leio sempre o Público .

E de quanto em quanto tempo vê o seu e-mail ?

_Só se estiver à espera de receber algo de trabalho, se não, apenas uma vez por dia.

E um lugar para passar a reforma?

_Não quero falar da reforma. O momento mais imediato que quero viver são umas férias num sítio com mar, uma cabana e muito pouca gente.

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