T-shirts com alma

Ajusta-se ao corpo, ajusta-se às modas, ajusta-se às tendências mais vanguardistas. Tapa o corpo e mostra o que pensa quem a usa. A T-shirt é, possivelmente, a peça de roupa mais versátil. Por isso, convidámos 12 músicos, habituados a palavras e a interpretá-las, a pensarem numa frase para usar nas suas T-shirts. E pedimos a 12 empresas especializadas para criarem estas peças de roupa exclusivas.

Simples. Barata. Padronizada. Estes são os três segredos do sucesso da T-shirt, uma peça de vestuário que não sai do armário há mais de cem anos. Ganhou o nome pela sua forma (aberta, parece a letra T) e, como os jeans, começou por ser uma peça de roupa das classes mais baixas. No caso, a roupa interior que usavam mineiros e estivadores. No fim do século xix, foram os soldados americanos que a massificaram durante a guerra com Espanha pelo território de Cuba e, mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial.

«Há sempre um modelo que fica bem a alguém e chega a muita gente», diz Alexandra Moura, designer de moda e professora na Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco.

Decorá-la também não é coisa recente. A primeira T-shirt estampada já passou o meio século de vida. O Museu Smithsonian, nos Estados Unidos, reclama para si ter o primeiro exemplar conhecido de uma T-shirt estampada. Um exemplar feito para a campanha presidencial do governador Thomas Dewey, em 1948. Nos anos 1950, ao mesmo tempo que Marlon Brando e James Dean as usavam, simples e brancas, em Um Elétrico Chamado Desejo (1951) e Fúria de Viver, em Miami começam a imprimi-las em massa. Com personagens da Disney. Na década seguinte, também do outro lado do Atlântico, dá-se a união entre a peça de roupa e o rock n" roll. Os músicos começam a tingir T-shirts e a usá-las como tela de protesto (e começam a ser também usadas como forma de promoção comercial). Woodstock, em 1969, estava cheio delas. E o rosto de Che Guevara impresso populariza-se por esta altura também.

Não é apenas criatividade. «Os processos de tratamento do algodão e os métodos de estampagem evoluíram», frisa Alexandra Moura. No fim dos anos 1970, as T-shirts de bandas de música tinham vindo para ficar. Hoje, um original dos Rolling Stones com a famosa língua ou uma edição vintage dos Led Zepellin do início dos anos 80, pode custar quinhentos euros.

Contestação, promoção ou merchandising, Alexandra Moura tem uma certeza: «São publicidade andante». O melhor dos outdoors. Servem a todas as pessoas, chegam a toda a gente. No caso dos músicos, dá ainda mais frutos. «Usada em palco amplifica ainda mais a mensagem», nota a designer. E, por outro lado, o que vestem também compõe a identidade artística de quem a usa.

E se começou por ser uma peça de roupa menor, hoje faz parte das coleções de todas as marcas associadas à alta-costura, como a Givenchy ou Armani. «Pessoas que nunca pensaram usar uma t-shirt, hoje podem comprar uma Vuitton», diz Alexandra Moura. Mas uma criação própria, nos dias de hoje, fica bem mais em conta: entre dez e vinte euros. Já para trabalhos gráficos mais elaborados, como alguns dos que temos nestas páginas, o preço pode aumentar significativamente. Só há uma regra: quanto mais exclusiva melhor.

Luísa Sobral

O slogan: «Ama as tuas rosas», excerto de um poema de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa. Como apareceu? A frase faz parte de um poema que conheço desde pequenina. A minha mãe tinha um CD da Maria Bethânia a cantar poemas de Fernando Pessoa, e sempre gostei. Lembra-me a minha família, estarmos juntos, irmos de viagem. Porquê: Sou bastante ambiciosa, quero que aconteçam muitas coisas na minha vida, tento sempre dar valor ao que já tenho. «Planta as tuas flores, ama as tuas rosas» é essa a ideia de continuarmos a dar valor às coisas, a tentar que elas cresçam. O que tem que ver com a sua vida? Tem um analogia com o meu disco novo, There's a Flower in my Bedroom [«Há uma flor no meu quarto»]. Escrevi o disco de volta a Portugal [Luísa estudou música em Inglaterra e viveu em Londres durante vários anos], pensámos em casa e depois numa parte casa. Pensei em bedroom. Gosto muito da palavra. E é um disco primaveril, dá para ver flores a nascer. O início de alguma coisa.

A T-shirt

A Megaphone, de Barcelos, foi fundada por dois amigos, que já tinham experiência na indústria têxtil e decidiram em 2010 criar conteúdo original para T-shirts. Fizeram 1300 modelos. Só «existem» online.

www.megaphone.pt

Marco Rodrigues

A frase: «A cantar é que a gente se entende.» Porquê? Tenho raízes no Alto Minho [Arcos de Valdevez] e cantar é uma forma de estar mais à vontade e dizer algumas verdades, nos cantares ao desafio. Em vez de falarem, as pessoas fazem rimas. A cantiga é uma maneira fortíssima de expressar algumas coisas e nem é preciso chegar à canção que passa a ser revolucionária. O cantar é uma forma muito mais fácil para as pessoas. Como o cante alentejano. A cantiga é uma arma e dá para as pessoas dizerem a mesma coisa, mas de forma mais aberta. É o que procura com a sua música? A minha música tem a palavra como uma das principais caraterísticas, tem esse privilégio e a forma como o fado é construído, de forma muito simples, para que todas as pessoas pudessem cantar as suas saudades, o amor, o desamor, a paixão... Também o fado tem este «a cantar é que a gente se entende».

A T-shirt

A Kefixe, de Águeda, nasceu no ano passado. Os pedidos mais frequentes são estampagens a partir de estados de espírito, lemas de vida ou frases humorísticas. A ideia sempre foi personalizar vestuário em pequenas quantidades, a partir das ideias dos clientes.

kefixe.com

António Zambujo

A frase: «Lá para o ano 2000.» Porquê? Temos o hábito de solucionar tudo com o tempo e havia uma grande ilusão com o ano 2000, com as ideias que criávamos no nosso imaginário. Afinal, está tudo na mesma e algumas coisas até estão piores. O que piorou desde o ano 2000? As condições sociais são piores, as pessoas passam por cada vez mais dificuldades e não se vê uma solução. Houve uma coisa interessante há uns tempos no CCB: «Como projetamos o país em 2030?». O Ricardo Araújo Pereira dizia que achava um absurdo as pessoas dizerem que «vai ser melhor». Se não fizermos por isso, não vai ser melhor. Que expetativas tinha? Quando era pequeno pensava como seria a minha vida com 25 anos [a idade que tinha em 2000]. Provavelmente já estaria a trabalhar, teria uma família... aquelas coisas que nos incutem quando somos crianças, o que achamos que são o ciclo natural da vida. Achamos que temos de percorrer aquele caminho de terminar os estudos, ter uma namorada, casar, fazer uma data de moços... E depois percebemos que não é assim. Tudo muda. Não é uma desilusão, mas a realidade é um bocadinho diferente.

A T-shirt

Um especialista em informática e uma designer gráfica deixaram os empregos estáveis e fundaram a Wishirt, que trabalha desde 2006 a partir de Caminha. Vendem na loja e também online.

www.wishirt.pt

Boss AC

A frase: «Oh mãe fazias-me era rico em vez de bonito!» Porquê? É uma frase engraçada que as pessoas identificam imediatamente com o Sexta-feira [um dos temas do último álbum, AC Para os Amigos] Porque a escolheu? Tirada do contexto inicial, a canção ganhou um significado irónico. Além disso, achei que era uma frase bonita para pôr numa T-shirt. Tem um significado político? Aqui não foi com essa intenção. Se falamos da música, sim. Eu escrevo como se fosse uma fotografia. O Sexta-feira foi um retrato que tirei ao país e a música cresceu quando tinha de crescer. Cresceu porque se adequou ao momento. Uma T-shirt marcante no armário? Costumo usar T-shirts com mensagens, normalmente mais humorísticas. Também usei umas de Public Enemy e do Bob Marley, mas pouco. Nunca foi muito o meu estilo.

A T-shirt

É uma criação da dupla Marina&Art, de Marina Neto e João Mello. Ela é consultora de moda, ele é designer gráfico. art4uweb.blogspot.pt

Rui Pité, Buraka Som Sistema

A frase: «Fala baixo.» Porquê? Falar baixo, como a linguagem do drum"n"bass. Somos uma banda que está incluída nessa onda e é nome do nosso programa de rádio, mas há tantos trocadilhos que se podem fazer com essa expressão. Também tem que ver com essa vontade que nós temos de mandar falar baixinho quando vemos o telejornal e ouvimos os políticos e o nosso governo e nos sentirmos impotentes. A frase faz sentido dentro deste contexto. Uma T-shirt marcante no armário? Por acaso, sempre fui o que usou mais T-shirts nos Buraka, algumas com mensagem. Não gosto daquelas que toda a gente vai usar, mas comprei uma em França que fazia todo o sentido. O Kanye West fez alto escarcéu por ter perdido os prémios MTV como um puto chorão, birrento, e encontrei uma T-shirt que dizia «Kanye West is a whiny bitch». Tenho usado em todo o lado em que temos tocado e uma coisa é usar aqui, outra coisa é usar nos Estados Unidos e ele estar no palco ao lado a tocar. Em Nova Iorque nunca a usei, mas em Los Angeles sim.

A T-shirt

Uma produção da Baú das T-Shirts, nascida em 2010. Estão em Arcos de Valdevez e é daí que vendem para todo o país, através do site. Personalizam peças únicas e também fazem trabalhos em pequenas quantidades.

baudastshirts.com

Selma Uamusse, Wraygun

A frase: «Tudo é vaidade.» Porquê? É o nome de um projeto do músico Jónatas Pires em que estou envolvida e que tem este nome. Gravámos um disco cujos lucros de venda revertem a favor de jantares para pessoas sem-abrigo. Muitas vezes colocamos a vaidade, o lado materialista, à frente dos outros. A T-shirt tem que ver com o tempo que vivemos, com a crise, com a situação de pobreza extrema. Temos de estar sensíveis ao próximo, mas o amor ao próximo tem de ser uma coisa pragmática.

A T-shirt

A Albatroz, em Lisboa, está no mercado têxtil desde 1993. Tem a sua própria linha de roupa, mas também faz estampagem de T-shirts únicas e em pequenas quantidades, a pedido.

www.albatroz.com.pt

Catarina Salinas, Best Youth

A frase: «Descura a indiferença.» Porquê? Chama a atenção para o comodismo de ser-se neutro. Um pedido para não sermos indiferentes àquilo que nos rodeia e a termos uma posição ativa, seja numa decisão pessoal, política, prática, o que for... É uma frase política. Como vê o que se passa atualmente no país? Eu não consideraria uma frase política mas uma interpretação do que me rodeia. O que se está a passar no país e no resto do mundo é, de uma forma resumida, resultado de um poder mal distribuído, de uma democracia cheia de lacunas e de um capitalismo mal gerido. O pior é pensar que só atingindo um fundo ainda maior é que tomaremos uma atitude mais clara face ao futuro do país. Costuma usar T-shirts com frases? Normalmente, não. Tenho uma ou outra T-shirt antiga com frases ou palavras que me remetem para uma altura ou momento da minha vida, mas nada mais. Uma T-shirt marcante no armário? É amarela-clarinha, meio gasta, e diz «Malibu Beach». Não foi em Malibu que passei esse verão, mas valeu como se fosse. Das melhores férias que tive.

A T-shirt

A Faz a Tua nasceu quando Fernando Gouveia chegou a Portugal, há cinco anos. No Canadá, onde esteve emigradado, já fazia T-shirts entre amigos e para músicos. www.fazatua.pt

Ace, Mind Da Gap

A frase: «Nunca aceites o inaceitável.» Porquê? Acredito que o povo português está a «esticar» o seu limite. A nossa resistência é uma qualidade, a nossa atitude de complacência é quase zen, mas tudo tem limites. Como se lembrou da frase? Coincidiu com o regresso do anterior primeiro-ministro e nas condições em que esse regresso aconteceu. Essa frase veio-me à ideia naturalmente. O que é inaceitável? A julgar pelo comportamento da classe política, nada é inaceitável e tudo é permitido. É fácil não se aceitar o inaceitável, porque é assim que é suposto ser: aceita-se o aceitável e não se aceita o inaceitável. Em termos práticos, há muita coisa que se pode fazer para demonstrar que não estamos preparados para aceitar a perversão dos valores, mas para isso é necessário desatarmo-nos de amarras, libertarmo-nos de medos e atavismos, darmos o grito do Ipiranga em relação a preconceitos e complexos herdados de muitos anos de ditaduras - umas assumidas e outras nem tanto. Uma T-shirt marcante no armário? Gosto particularmente das que tenho com um dos slogans da marca de roupa que me patrocina, a LRG («Education through imagination»). Acho a frase muito bem conseguida e julgo que esta atitude faz muita falta ao mundo.

A T-shirt

No lugar da T-shirts and All, na Baixa de Lisboa, estava até 2008 uma tradicional loja de roupa que o filho do proprietário converteu em local de estampagem e venda de T-shirts.

www.tshirtsandall.pt

Rita Redshoes

A frase: «O coração ajusta-se à vida e comporta-se consoante o seu tamanho.» Porquê? Escrevi esta frase para um texto que saiu na revista Cais. Tem que ver com a revista [uma publicação cujos lucros revertem a favor de pessoas sem-abrigo] e com um dos sentimentos mais difíceis para o ser humano, que é a bondade. Para viver esta vida é preciso alguma bondade, exige-se um coração grande em algumas situações. Tem que ver com a necessidade de nos adaptarmos às circunstâncias? Também. Mas como as situações são inesperadas, esse ajuste é mais feliz quando existe bondade do que quando são só zangas. Uma T-shirt marcante no armário? Nos anos 1990, eu e o meu irmão fazíamos T-shirts, com recortes de revistas. Uma coisa gráfica, mais pelas imagens do que pelas palavras. E T-shirts de bandas e músicos? Nem por isso. Não tenho aquela típica dos Ramones que toda a gente tem. Mas tenho uma da Patti Smith, só com a cara dela, que comprei num festival da Suécia onde fui tocar e onde ela também esteve.

A T-shirt

A Culto da Imagem está sediada em Alcabideche, faz produção de publicidade, trata do design e imagem, em vários suportes (vinil ou T-shirts incluídas), e tem trabalhado com vários programas de televisão, como o Querido Mudei a Casa ou Vale Tudo.

cultodaimagem.com

Aurea

A frase: «Live, love, music and candy.» Porquê? Numa viagem à Califórnia, vi uma placa de matrícula que dizia «Live, love and run», achei piada à mensagem e inspirei-me. O que quer dizer? Live, viver, é extremamente importante. Viver tudo o que nos é dado. Love, amar, que é muito importante. Amor pela família, pelos amigos... Music? Nem preciso de falar sobre isso. É a minha vida, sinto-me super-realizada, por poder fazê-lo, por poder partilhar com os músicos em palco. E candy, doces, porque o meu pecado é a gula. Adoro chocolates, gomas, Halls, Sugus. Se não fosse esta frase qual seria? «A day without laughter is a day wasted», do Charlie Chaplin [«Um dia sem gargalhadas é um dia perdido»]. Sou muito feliz naquilo que faço. Descobri o meu verdadeiro amor, sinto-me feliz, quero cantar, não penso no futuro, não sou pessoa de planos, penso no dia a dia, porque também não quero pensar na desilusão. Não posso garantir que vou cá estar e não gosto de tomar as coisas por garantidas. Uma T-shirt marcante no armário? Não tenho. Vestidos sim. O do concerto no Vietname, por exemplo.

A T-shirt

A Citrus, em Miraflores, nasceu em 2009 com o laboratório de simulação de T-shirts personalizadas online.

www.citrus.pt

Márcia

A frase: «Começa agora!» Porquê? É uma frase apologista da mudança, antiprocrastinadora, para incitar à mudança. É imperativa e ao mesmo tempo informativa, porque há uma mudança a acontecer. Todo o sistema financeiro vai colapsar mas nós, as pessoas, não. Na manifestação que o [realizador] Miguel Gonçalves Mendes filmou, há uma frase de que gosto muito: «Pacífico não é igual a passividade.» Abomino a passividade. As pessoas estão mentalizadas que fazer política vem dos outros mas tu tens a tua política. Tens a tua resistência. As pessoas querem mudança mas esperam que seja alguém a mudar. Tudo começa com essa consciencialização: as pessoas não sabem o poder que têm. Qual é a política da Márcia? Evito proferir a palavra «crise». Não querendo subvalorizar o momento que se vive, a economia é a economia e a vida é a vida. Tem de se manter. Estar com os amigos, com a família, não ouvir o Passos Coelho... Dar valor às coisas simples. Uma T-shirt marcante no armário? Fiz uma T-shirt no meu disco anterior que se chama Dá, que é outra política, a política da partilha. Ou uma da minha filha que diz «mum+dad=me».

A T-shirt

O nome Tuca vem da alcunha do proprietário, designer gráfico. Existe há nove anos e há seis criaram a BerraBerra, uma marca que se dedica exclusivamente a T-shirts com expressões alentejanas.

www.tuca.pt

Mitó, A Naifa

A frase: «Não se deitam comigo corações obedientes», uma frase de um livro do António Lobo Antunes. Porquê? É o nome do nosso disco que não está à venda. Desafio-vos a encontrá-lo. Não se encontra. Somos independentes e quando é assim não temos grande hipótese. E eu estou fartinha de corações obedientes. O Portugal do século XXI é um Portugal de gente obediente. A maior parte das pessoas são carneiros, não são pessoas, não ousam, não questionam. Somos todos muito obedientes. Mas há limites para a obediência. A obediência e o medo são as duas coisas que mais cultivam nos meios de comunicação social. Os jornais e a televisão fomentam o medo, há uma espécie de diabolização da desobediência. Medo dos assaltos, de ficar sem emprego, que nos subam mais os impostos, dos emigrantes... Uma T-shirt marcante no armário? Não uso muitas T-shirts, mas as que tenho são só de música. Tenho três dos AC/DC, uma dos Clash e uma dos Sex Pistols, que já está muito velhinha e também tenho uma com a cara da Nico estampada. E tive T-shirts do Pixies, que adoro. Ainda hoje.

A T-shirt

Os 35 anos de experiência em artes gráficas da empresa-mãe evoluiu para o nicho específico da impressão em roupa da Printzone. Estão em São João da Madeira e também vendem online.

printzonedigital.com

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

"Corta!", dizem os Diáconos Remédios da vida

É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

Premium

Crónica de Televisão

Os índices dos níveis da cadência da normalidade

À medida que o primeiro dia da crise energética se aproximava, várias dúvidas assaltavam o espírito de todos os portugueses. Os canais de notícias continuariam a ter meios para fazer directos em estações de serviço semidesertas? Os circuitos de distribuição de vox pop seriam afectados? A língua portuguesa resistiria ao ataque concertado de dezenas de repórteres exaustos - a misturar metáforas, mutilar lugares-comuns ou a começar cada frase com a palavra "efectivamente"?