Startiupi, o empreendedorismo explicado aos miúdos

Fernando Mendes e Ruben Melo gerem um espaço de cowork. Viam todos os dias as dificuldades dos novos empreendedores, que mal sobrevivem à crise. Decidiram que era preciso intervir, dar-lhes ferramentas para o sucesso. E, porque não, começar a estimulá-los ainda na infância? Foi assim que nasceu a Startiupi, uma associação que quer ensinar o empreendedorismo às crianças, para que se tornem melhores adultos. E ajudar os adultos, explicando-lhes tudo sobre negócios, como se fossem crianças.

«Também vamos falar de faturas?», pergunta Mariza Monteiro, segura do alto dos seus 10 anos, atarefada a dispor crachás no assento da cadeira que servirá de banca para os vender. O grupo inteiro solta gargalhadas, os maiores pela ironia do comentário, os mais novos porque, certamente, já ouviram os pais reclamá-la em restaurantes ou supermercados. Naquela manhã de sábado, os dez participantes do workshop Iupi Biz, da Startiupi, estão reunidos para as três horas finais de lições. Têm entre 7 e 13 anos, a maioria nunca se tinha visto antes de entrar no Cowork Lab Oeiras, no centro histórico da vila. No sábado anterior, já tinham começado a trabalhar os conceitos de preço, produto, promoção e praça (os quatro «P» do marketing, também conhecidos como marketing mix para entendidos da matéria).

Nesta manhã, finalizada a explicação sobre o preço e as suas variáveis, fizeram cartazes com o intuito de promover os produtos que tinham criado com as próprias mãos e, por fim, prepararam-se para a venda: trata-se do momento em que os pais, familiares e amigos aceitam juntar-se ao processo de aprendizagem, aparecendo na feira que encerra o workshop para negociar com os petizes os melhores preços e adquirir bijutaria artesanal ou origamis de «design exclusivo», como alguns anunciam. Em matéria de publicidade, pelo menos, e apesar da tenra idade, já ninguém os bate.

Rita Condessa está a terminar o quinto ano e veio de Albufeira com a mãe, de propósito até Oeiras, para frequentar o workshop. Decidiu juntar-se com a colega Mariza, do lado oposto da mesa, para formar uma parceria de sucesso, que é altamente incentivada pelos formadores. Constroem um preçário para as suas peças, porque, comenta Mariza, «o cabeleireiro lá ao pé de casa também tem tabela de preços». Óbvio. Antes, já tinham concordado no nome para escrever no cartaz colorido que identificava a banca das duas. E porque rimar nem era difícil, fizeram um slogan para ser mais apelativo: «Oeiras Criações, a criar emoções».

Duarte Abreu e Afonso Ricardo têm ambos 13 anos e já se conheciam. Optaram por não juntar na mesma banca as peças que tinham criado, entre elas o móbil do Duarte que prometia ser um sucesso e garantir pelo menos três euros na hora das vendas, já que não havia concorrência: mais ninguém tinha feito coisa igual. Foram os pais que descobriram o workshop, mas na verdade os filhos já levavam uma agenda, como Duarte explica: «Nós queremos formar uma empresa de videojogos quando formos mais velhos.» O programa Iupi Biz, que ensina aos mais novos o processo de criar valor, foi afinal o primeiro passo para o que se espera vir a ser um projeto de sucesso. Pelo menos, uma ideia ficou definida: «Viemos aprender como é o mundo lá fora e assim não vamos ter problemas de estoirar o dinheiro todo quando crescermos», garantia Duarte, com ar sério e grave.

Terminada a fase de preparação das vendas, Ruben Melo, um dos fundadores da Startiupi, associação responsável pelo workshop, lembrou os jovens formandos que não podiam, efetivamente, esquecer-se de passar as faturas, disponíveis para preenchimento nas últimas páginas do caderninho que é entregue a cada um dos participantes. Já vem incluído nos 25 euros que custa cada workshop, assim como os quinhentos iupis (equivalem a cinco euros porque, explica Ruben, «o iupi está ao cêntimo») que são entregues às crianças para gastar em matérias-primas disponíveis no local. Na prática, são os materiais com os quais vão fazer pulseiras, crachás ou decorar caixinhas de madeira que depois vendem aos mais próximos. O investimento é todo gerido por elas, sob a orientação atenta dos formadores que, já em abril deste ano, formalizaram a Startiupi como associação e têm vindo a desenvolvê-la a alta velocidade.

Ruben Melo, de 27 anos, e Fernando Mendes, de 36, são os responsáveis por este projeto inédito: formaram-se ambos em Gestão e conheceram-se quando faziam parte da AIESEC, a maior organização mundial gerida por estudantes. A primeira experiência profissional conjunta aconteceu em 2011, quando Ruben se juntou à gestão do espaço de cowork - escritório partilhado por trabalhadores independentes ou freelancers - que Fernando já tinha aberto em Oeiras e que, entretanto, se expandiu para Faro e Maputo, em Moçambique. Este ponto é importante, porque foi precisamente da experiência que tiveram - e ainda têm - com os profissionais que frequentam o espaço de cowork que lhes surgiu a ideia em que assenta o projeto que se seguiria. «Começámos a identificar os diversos tipos de empreendedores que lá se encontravam», conta Ruben. A verdade, acrescenta Fernando, é que viviam «rodeados de ideias e talento, mas nem todos tinham sucesso. Por qualquer razão, não conseguem viver do que gostam».

Refletiram sobre a questão e perceberam que talvez faltassem competências, mas eram caraterísticas que facilmente podiam ser trabalhadas e estimuladas, sobretudo por quem estudou Gestão, tem espírito de iniciativa e uma vocação natural para o ensino. A partir daqui, começaram a trabalhar. Identificaram a necessidade e puseram em prática a fórmula que haveriam de criar para simplificar o significado da palavra empreender: problema + solução + ação. Para eles, é destas três componentes que nasce um empreendedor.

Outro ponto importante nesta história: «Pensámos que seria mais fácil e mais vantajoso se essas competências fossem trabalhadas desde pequenino», explica Ruben. Por isso, decidiram focar-se primeiro nos mais novos, ainda que a oferta que hoje têm seja transversal e útil a todas as idades. Mas já lá iremos.

Primeiro, foram também eles aprender como funcionava o mercado escolar, as técnicas e as dinâmicas de formação de crianças, mesmo que a área não fosse completa novidade para nenhum dos dois. As competências que queriam desenvolver já estavam delineadas: identificar oportunidades, organização e planeamento, parcerias ganha-ganha, saber ouvir, autoconfiança, apresentação e, por fim, responsabilidade e trabalho de equipa. Começaram por montar um programa de nove semanas, vocacionado para a infância, e foram bater à porta de escolas para apresentar as suas atividades, assim como as três personagens que criaram e que explicam a sua própria visão do empreendedorismo para crianças e, porque não, também para adultos: empreender é resolver problemas.

Assim, imaginaram o Queixinhas, menino educado mas refilão, que aponta o problema sem o resolver. A Bueblablá é uma menina dinâmica e cheia de ideias para resolver o problema, mas nunca chega ao ponto de as concretizar. Já o super-herói Startiupi é quem vai resolver o problema, com a sua ação. Este trio e as suas aventuras é pontapé de saída para as atividades que criaram e que preveem, precisamente, ajudar as crianças a empreender, sem que isso signifique necessariamente ajudar um pré-adolescente a montar um negócio, mas sim a sensibilizá-lo para a sua capacidade de ação e intervenção no mundo que o rodeia. «Para nós, sempre foi muito claro que ser empreendedor está mais ligado a uma ferramenta para sermos aquilo que queremos ser, ou seja, alcançarmos os nossos sonhos», explica Ruben. E Fernando completa: o objetivo é termos adultos e crianças mais satisfeitos, não necessariamente empresários milionários. «Queremos formar pessoas realizadas, seja na música ou na pintura», esclarece.

Fizeram um projeto-piloto na escola EB 1 Joaquim Matias, em Oeiras, e incentivaram os alunos a ser empreendedores, ou seja, a tomar as rédeas da situação e mudar algo que os incomodava. No final, tinham muros pintados de fresco, campanhas a promover reciclagem na escola e até um desfile de animais, porque uma das alunas lamentava não poder levar o cãozinho para a sala de aulas. «A nossa única tarefa era coordenar, tentar agilizar o processo, mas todas as ideias e soluções eram das próprias crianças.» Tudo isto em setembro do ano passado, ao mesmo tempo que começavam a definir programas one shot, ou seja, sessões de seis horas destinadas a faixas etárias específicas, desde a infância à idade adulta. As atividades que entretanto tinham concebido, para realizar com os alunos nas experiências-piloto, decidiram compilá-las em livro. Um manual para pais e professores trabalharem estas competências e aplicarem a filosofia do empreendedorismo explicado às crianças. O Startiupi - Fazer Coisas saiu em dezembro do ano passado e desvenda toda a metodologia da dupla, que prefere dar a conhecer os meios para que outros possam beneficiar dos fins.

Desenvolveram então quatro programas Iupi: o Iupi Pro é dedicado a adultos que, simulando a gestão de uma empresa, aprendem conceitos de literacia financeira que podem não ser claros e que agora entraram no vocabulário corrente, desde a dívida às taxas de juro. O Iupi Life destina-se a alunos do ensino secundário e trata-se de uma simulação sobre escolhas, que procura incutir nos jovens a noção de que as opções que fazemos no presente condicionam o futuro. Já o Iupi Play reserva-se aos adolescentes, dos 12 aos 16 anos, e é essencialmente uma simulação de gestão que permite compreender melhor a economia, já que os próprios alunos assumem o papel dos agentes económicos. Para os mais pequenos, finalmente, o Iupi Biz, que tem ocupado as manhãs de sábado do Coworklab de Oeiras e onde crianças dos 6 aos 12 anos, sensivelmente, passam pelas fases de criação e lançamento de um produto.

Fernando e Ruben têm-se desdobrado para acudir as múltiplas solicitações, uma vez que, além do Iupi Biz que mantêm regularmente no seu próprio espaço, têm levado os Iupis a escolas, ATL e até empresas, no caso do programa para adultos. Laura Soares, mãe da Rita, trouxe a filha a Oeiras de propósito ao Iupi Biz porque a Startiupi ainda não vai ao Algarve, mesmo que já estejam a trabalhar na formação de mais pessoas que consigam assegurar também estes programas noutras geografias nacionais e internacionais.

Laura dá formação de empreendedorismo para adultos e viu na Startiupi um poderoso instrumento para «estimular o espírito de grupo e a iniciativa» da filha. Garante que a Rita, dias depois da primeira sessão (o Iupi Biz divide-se em duas sessões de três horas cada uma), já aplicava naturalmente conceitos que muitas vezes escapam aos mais crescidos, desde a concorrência às estratégias de diferenciação. «O empreendedorismo é uma questão de atitude. Há pessoas que nascem com esse espírito de empreendedoras, é nato, mas outras, quando chegam à idade adulta, são o que nós chamamos empreendedores à força, por necessidade. E sem dúvida que a diferença no sucesso dos negócios que depois têm está nesse espírito e ele acontece se trabalharmos com as crianças, desde pequeninas, nesse sentido», resume.

Marta Monteiro, tia da Mariza, valoriza o mesmo espírito e acrescenta mesmo que este tipo de atividade devia ter lugar obrigatório na escola: «Hoje em dia, as crianças querem um computador, o pai dá. Esta é uma oportunidade para que saibam também o que a vida custa, é o futuro delas que está em causa», sublinha.

Democratizar o acesso a este tipo de programa é, precisamente, um objetivo para o futuro e uma das três frentes em que a associação quer alargar a sua atividade. Fernando e Ruben até já foram ao Ministério da Educação pedir a homologação dos seus programas. «O desafio em Portugal», sublinha Fernando, «é que a atividade consiga penetrar nas escolas públicas, porque já temos aceitação nos programas abertos de escolas privadas, que já o fazem.» O outro caminho para a Startiupi passará, certamente, por conseguir gerar e manter uma «rede grande de implementação» no país, chegando a mais crianças e maior número de participantes. O terceiro grande objetivo passa pela internacionalização, que até já está em curso: o Instituto de Capacitação do Empreendedorismo de Moçambique está a implementar o Iupi Pro em Maputo e a Startiupi tem mantido contactos com o Brasil com vista a exportar conteúdos para o outro lado do Atlântico.

«Cada um destes programas tenta tirar os obstáculos do caminho entre cada pessoa e aquilo que ela quer ser», reforça Fernando. Numa visão do empreendedorismo algo inédita, mas relevante, Fernando e Ruben querem continuar a conquistar crianças e adultos, desenvolvendo competências mas, sobretudo, estimulando sonhos e ambições. O que os move nesta empreitada? A resposta, diz Ruben, é fácil: «Termos pessoas mais felizes.»

Últimas notícias

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • NM
Pub
Pub