Sobre uns versos e as formas de estudar o mundo

- Posso oferecer a Vossa Excelência uns breves versos de um senhor chamado Alexandre O"Neill?

- Pois sim, em frente!

- Aqui vai:

Com o hálito

Já desfiz alguns bailes

Afinal seria bem fácil

Dominar o mundo.

- ...

- Que lhe parece?

- Uma questão importante, essa.

- Como dominar o mundo?

- Como dominar o mundo. Há inúmeras metodologias, umas usam tecnologia de última hora; outros meios mais modestos, como no exemplo que Vossa Excelência referiu.

- Eu, por exemplo, quando estou prestes a dominar o mundo, a tê-lo por completo à minha mercê, quando estou a um segundo de ser rei, senhor, dono, mestre, chefe grande e máximo de todo o universo e de todos os bailes, sabe o que me acontece? Adormeço. Isso mesmo. Quando estou prestes a dominar o mundo, adormeço.

- Adormece?

- Sim. Bocejo e depois durmo.

- Isso é estranho.

- Pois não sei. Dominar o mundo sempre me aborreceu. Prefiro uma sesta.

- Quer outros versos de O"Neill?

- Vamos a isso. Mas como os devo ouvir - a esses versos? Descontraído, tenso, atento? Com ar sensato, taciturno? Relaxado mas com olhos vigilantes, com ar de quem não dá demasiada importância mas que afinal...?

- Por favor, ouça!

- Muito bem. Vou ouvir.

- Aqui vai:

Bem sei que muitos dos meus versos

nem para atacadores.

- Ora aí está.

- Ora.

- É um poeta bem-disposto.

- É.

- Poderíamos aproveitar este precioso momento para falar sobre a utilidade da poesia.

- Isso. De qualquer modo, conheci o mundo assim. Passo a exemplificar. Cabeça para baixo, pescoço curvado, marreco de mim mesmo e olhos no solo.

- A parte de baixo do mundo, eis o que conheceu Vossa Excelência com tal postura intelectual.

- Aquilo a que Vossa Excelência, com generosidade, chama de postura intelectual, eu designo como: marreca; uma corcunda, no fundo. Ou seja, pensam que eu investigo - mas tenho é um problema nas costas. Aqui. Quer ver?

- Deixe estar. Acontece a muitos.

- Para não reconhecerem a corcunda ostensiva, põem-se a pensar em direcção ao solo.

- Pois eu também conheci o mundo, mas actuei de uma forma completamente oposta a Vossa Excelência, se assim pode dizer-se.

- Então, como conheceu Vossa Excelência o mundo? Andando de costas?

- Nada disso. Conheci o mundo assim: pés bem sobre o solo e cabeça levantada em direcção ao alto.

- Vossa Excelência, com essa postura, não conheceu o mundo dos homens, mas o que fica acima do mundo dos homens. O céu, os deuses, os helicópteros...

- A questão é esta: há um meio-termo, parece-me. Nem olhar para o chão... pois conhecer o mundo não é conhecer o solo...

- Isso é para os agricultores.

- Exactamente... Nem olhar para cima, para o céu.

- Isso é para os astrónomos.

- Exactamente.

- Conhecer o mundo dos homens é então olhar em frente, é isso?

- Isso. Pescoço duro, como se este tivesse uma lesão definitiva que o impedisse de baixar ou subir. Um pescoço fixo como a peça de uma máquina, como uma mobília que, por herança, não podemos deslocar nem um centímetro. Assim, sim, se conhece o mundo. Como os grandes aventureiros, sem reflexão, sem flutuações do pescoço.

- Não olhar para cima, nem para baixo, nem para os lados. Só olhar em frente. Como os homens de acção.

- Como os comboios.

- Isso mesmo. Como os comboios! Eis a referência.

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