Se eu fosse um peixe

Cinco chefs, cinco peixes. Convidámos cinco reputados mestres na arte de preparar e confecionar peixe a dizerem-nos como seria a sua metamorfose. Eles aceitaram e ainda explicam o que de melhor existe no peixe que escolheram.

JOSÉ PINHEIRO

Rascasso

«Se eu fosse peixe, seria um rascasso, pois melhor e mais saboroso não há. Comparável, só a lagosta. E, se eu fosse rascasso, seria dos mais fortes. Poderia camuflar-me sempre que necessário e teria grande capacidade de sobrevivência em condições adversas. Como peixe afrodisíaco que seria, relembraria o que dizem os velhos pescadores e os desejos das noivas: "Se queres ficar duro que nem aço, janta rascasso".»

José Pinheiro tem 44 anos e é chef há 18. É natural de Sagres e aos 10 já grelhava peixe.

Restaurante Eira do Mel, junto ao Mercado Municipal de Vila do Bispo. Tel.: 282639016/917555669

HÉLDER CHAGAS

Polvo

«Seria polvo. Bem sei que é um cefalópode, mas, como nos livros de receitas e nas ementas dos restaurantes continuamos a colocá-lo na rubrica "peixes", aqui lhe presto a devida homenagem. Como polvo seria uma das criaturas marinhas mais inteligentes e hábeis e conseguiria fugir dos meus inimigos com relativa facilidade - bastava surpreendê-los com um jato de tinta negra. Também teria a possibilidade de mudar de cor. Essa camuflagem faria que os caçadores não dessem por mim e permitir-me-ia caçar a meu bel-prazer - alimentar-me-ia sobretudo de crustáceos e bivalves e só na sua falta comeria peixes. Sei que depois de capturado faria as delícias de alguns gourmets e, para perceberem do que falo, lembro as variedades culinárias que me dão tamanha fama: assado, cozido, em pataniscas, com arroz, à Lagareiro, no forno com castanhas, em salada e, nos santos populares, seco e assado na fogueira. Não concordaria nada com as marteladas que me dão depois de morto e que estragam a textura dos braços. No que toca à popularidade, sou bem conhecido mundialmente e nem o cherne, com as suas manias da política, conseguiria fazer esquecer a honra que a minha espécie teve ao dar título à canção Octopus's Garden, gravada pela maior banda de rock de todos os tempos, The Beatles, no álbum Abbey Road

Hélder Chagas tem 62 anos e cozinha desde os 23. Sempre trabalhou com peixe.

Restaurantes Ribamar-Troia, na marina de Troia (Tel.: 265106944) e em Ribamar, Sesimbra (Avenida dos Náufragos, 29, Tel.: 212234853)

PAULO MORAIS

Lírio

«Se eu fosse peixe seria um lírio, um peixe que valorizo muito. Foi por um acaso que veio parar às minhas mãos pela primeira vez, mas foi amor à primeira vista. Corria o ano de 2000, estava no Algarve, num projeto na Quinta do Lago, e o nosso fornecedor deixou na encomenda um lírio que ninguém quis. Provei o peixe e descobri uma textura compacta mas macia e com um sabor excecional. O lírio é um peixe gordo, próximo do atum na consistência e por isso muito apreciado em receitas japonesas. O lírio gosta de águas mais quentes e é habitual frequentador da nossa costa durante o verão. Encontra-se sobretudo na costa algarvia e nos arquipélagos da Madeira e dos Açores.»

Paulo Morais, 40 anos, 23 de profissão.

Restaurante Umai, na Rua da Cruz dos Poiais, 89, em Lisboa. Tel.: 213958057. restauranteumai.blogspot.com

MIGUEL CASTRO SILVA

Robalo

«Se eu fosse peixe seria um robalo. Teria muita qualidade, existiria em abundância na nossa costa e gostariam muito de mim pela minha versatilidade. Como cozinheiro, gosto de preparar vários pratos com robalo. Por exemplo? Robalo com berbigão, com cogumelos shiitake ou com laranja e azeite, a lembrar a laranja azeitada de Trás-os-Montes. Atualmente, tenho na minha ementa robalo marinado com ervas frescas.»

Miguel Castro Silva, 51 anos, é chef desde os 31. Toda a vida profissional trabalhou com peixe.

Restaurante Largo, na Rua Serpa Pinto, 10 A, em Lisboa (Chiado). Tel.: 213477225. www.largo.pt

PEDRO AMARAL NUNES

Pescada

«Se eu fosse um peixe, seria decerto uma pescada. Não como a congelada da publicidade da minha infância, que adorava ir para filetes ou que queria ser assada. Não, seria sempre uma pescada esguia, prateada e "salgada". No fundo, e adaptando o que dizia Oscar Wilde, gosto de "peixes" com um futuro e de "pescadas" com um passado.

PS: Lá nos encontraremos, de preferência na lota - ou quiçá em algum frigorífico...»

Pedro Amaral Nunes tem 56 anos, é cozinheiro desde os 30 e começou a lidar com peixe aos 8.

Restaurante São Gião, na Avenida Comendador Joaquim de Almeida, em Moreira de Cónegos. Tel.: 253561853

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