Rui L. Reis: «Gosto de competir, lutar e ganhar»

Esta é uma conversa que passa por células estaminais e materiais biomiméticos, mas mais vale não fugir das próximas páginas porque quem aqui está é um cientista capaz de se meter num avião na Austrália para não falhar uma final europeia do Futebol Clube do Porto e que pescou à amostra no lago Niassa. Ganhou prémios em todo o mundo, dirige instituições científicas de topo e perde desgraçadamente a jogar PlayStation com o filho. Foi por não conseguir nadar mariposa que teve o único chumbo e, como não podia ser o melhor, deixou a natação para trás. É por isso que gosta muito de que o filho não goste nada de perder.

Ganhou distinções científicas nacionais e internacionais muito importantes, mas tem em destaque a Medalha de Honra da Cidade de Guimarães. Porquê?

_Gosto de prémios, mas há uns que me dizem mais do que outros. Essa medalha tem que ver com a envolvente local, fez-me sentir que sou reconhecido por fazer alguma coisa pelas pessoas, pela região, por ter trazido alguma coisa para aqui, por oferecer trabalho, atrair pessoas de fora para cá e colocar as Caldas das Taipas no mapa. Faz-me sentir que o que fiz tem impacte nas pessoas.

No restaurante onde almoçámos há recortes de jornais sobre si nas paredes.

_O senhor Ângelo faz-me lembrar as minhas avós, que andavam com recortes na carteira. A certa altura começou a sair tanta coisa que elas já não seguiam tudo. Mas tinham orgulho. Isso é muito português, é uma das coisas positivas que temos na nossa maneira de ser - o reconhecimento que também gera situações como andar à guerra por um rego de água ou pelo nome da freguesia. Mas também conseguimos sentir-nos orgulhosos do vizinho ou do cliente que aparece na TV, que oferece emprego ou uma bolsa a pessoas da terra, ou que traz aqui o primeiro-ministro ou o Presidente.

Nada disso o faz mudar para o Vitória de Guimarães?

_É um clube que admiro e que tem a raça que um clube deve ter, mas cometeu um erro muito grave, ao tentar ir à Liga dos Campeões. Foi o único clube do mundo, juntamente com outro de que não vou dizer o nome, a tentar ir à Liga dos Campeões na secretaria, no lugar dos outros. Em vez de defender o que é a sua génese, a sua maneira de ser, o lutar muito mais no campo, ter adeptos que vibram. Foi o dia em que passaram a estar abaixo do Sporting de Braga, e nunca mais o conseguiram inverter. Podemos adaptar isso mesmo a tudo: quando se perde a génese e se tenta fazer algo não eticamente correcto, aproveitar uma oportunidade de secretaria, um advogadozinho que nos pode arranjar qualquer coisa, o que também é muito português, os outros vão pensar: afinal esta pessoa, este clube, esta instituição não é exactamente o que tínhamos na imagem.

Está a falar de meritocracia, então?

_Sim, é isso. Muitas vezes, a meritocracia em Portugal é inventada, a pessoa tenta convencer-se sabendo que não é verdade e tenta vender isso aos outros, até que alguma coisa corre mal e aquilo abate-se como um castelo de cartas. Isso nos países mais desenvolvidos é muito raro, particularmente na ciência e a inovação, em que as carreiras são tão difíceis de montar, demora-se tantos anos a conseguir fazer algo sustentável e competitivo no mundo inteiro, respeitado por toda a gente, e é tão fácil fazer um erro que descredibiliza.

Tem medo do erro?

_Não tenho medo do risco mas tenho medo do erro. Sou eu que defino os riscos. Tenho um conjunto de colaboradores mas quando decidimos arriscar um processo mais ambicioso, mais difícil, com menos probabilidade de sucesso, se vamos comunicá-lo, se vamos expor-nos, isso passa por mim e pelas pessoas mais estruturais no grupo. O erro pode vir de qualquer lado e muitas vezes é incontrolável. Nunca me aconteceu mas pode acontecer, tendo aqui 125 investigadores, que alguém falseie resultados ou faça qualquer coisa em que acredite mas que tem um problema. Temos um sistema que tenta bloquear o erro ao máximo, com protocolos online , com qualidade, com aprovações, com log books , com registos diários do que se faz. Já me aconteceu despedir pessoas porque vi que o que estavam a escrever não correspondia à verdade. Pode haver um resultado que interpreto de uma maneira e estou convencido de que é assim, e daqui a três anos posso estar a publicar um artigo que diz uma coisa diferente do que eu próprio disse. Mas aí não há um erro ético. Está sempre a acontecer na ciência. O erro também pode existir nas decisões estratégicas que tomamos. Foi um erro vir para o Avepark em vez de ficar no campus da Universidade do Minho em Braga ou Guimarães? É um erro lançar um projecto empresarial quando tenho tanto que fazer na investigação e isso já me ocupa tanto? Posso achar que não é um erro num momento e depois mudar de ideias mas não tenho maneira de recuar.

Do que estava a falar antes era de vigarice, não era bem erro. Não é?

_Era uma questão ética. Também pode haver erro na contratação de recursos humanos. Há oitenta candidatos para um lugar e tenho muita experiência de entrevistas, tenho o perfil muito bem definido. Mas não acerto sempre. Quando são estrangeiros, faço com Skype e vídeo para ver a postura, como é a pessoa. Acerto mais vezes do que erro, mas erro e isso tem custos. Custos para a pessoa, que pode perder oportunidades, para nós porque esse projecto não vai ser desenvolvido como deve ser.

Chegou muito cedo ao topo, é muito jovem para ter prémios de carreira aos 44 anos. Desde criança que queria ser cientista?

_Por acaso, queria.

Mas não começou a estudar no mato, em Moçambique?

_O meu pai era professor universitário e a minha mãe decidiu desistiu de ser enfermeira para ficar connosco em casa. Ele foi mobilizado para a guerra quando eu tinha 6 anos, o meu irmão tinha 3 (tenho outro irmão que faz 14 anos de diferença) e o meu pai quis que fôssemos com ele. Era uma zona de guerra, numa povoação muito pequenina chamada Metangula, na zona do lago Niassa. Tenho mais recordações desse tempo, em que era tão pequeno e não tinha experiência de nada, da minha primeira viagem e do tempo que lá passei, do que de coisas que se passaram mais tarde. Foi a primeira vez que entrei num avião. Muitos colegas do meu pai, com a mesma idade e o mesmo currículo - currículos muito diferentes dos que temos hoje, a ciência em Portugal estava a anos-luz do que está - foram doutorar-se para Inglaterra, França ou Estados Unidos. As direcções das faculdades é que decidiram quem ia para doutoramento. Ele teve sorte, foi para Moçambique, porque podia ter ido para a Guiné, que na altura era muito pior. Isso teve um efeito brutal na carreira dessas pessoas. Os que se foram doutorar rapidamente progrediram na carreira e vieram a ser os grandes responsáveis pelas instituições do ensino superior e científicas e outros houve que nunca mais progrediram na carreira. O meu pai foi a primeira pessoa a doutorar-se totalmente em Portugal na Faculdade de Engenharia do Porto, em 1982, em Engenharia Química. Foi o primeiro doutoramento todo feito cá, numa das faculdades mais reconhecidas em Portugal. Aprendi muito em Moçambique, vi as dificuldades, o que se podia e não se podia fazer. Lembro-me de estar à espera de brinquedos no Natal e não havia: será que o Pai Natal aqui é diferente?

Porque não havia lojas?

_Não havia nada para comprar, as pessoas mandavam algumas coisitas mas o correio demorava. Mas também me ensinou as dificuldades e como era possível combater e tentar fazer coisas. O meu pai nesse aspecto foi muito importante, tive a vantagem de perceber cedo o que era um artigo científico, tal como o meu filho sabe, porque sou editor de uma revista científica e ele vê como eu aceito ou rejeito o artigo. Mas também me deu para entender as vantagens de ser mais ou menos protegido pelo sistema. Na altura não era ter mais ou menos financiamento, era ir para a guerra ou não ir, era outra escala. Sempre fui muito crítico com toda a gente, inclusive comigo. A lógica de tentar fazer ciência em Portugal, no Porto, naquela data, naquelas condições, em vez de viajar, ir aos congressos, sempre o prejudicou relativamente ao que ele podia ter sido. Ele morreu num acidente, mais ou menos com a idade que tenho hoje. Decidi que tinha de ir onde for preciso, viajar, buscar o dinheiro, fazer palestras para que sejamos um grupo. Não me interessa nada se estou em Braga, em Guimarães, nas Caldas das Taipas. Haverá mais dificuldades do que em óston, mas temos outras vantagens. Não vai ser por isso que não vamos fazer um grupo competitivo em termos internacionais. Foi isso que passei às pessoas que trabalham comigo.

Voltemos a Moçambique, onde foi criança. A escola era boa?

_A escola era um desastre, quando vim de lá para a segunda classe, era dos piores alunos. Depois tornei-me um dos melhores. Brincávamos no mato, aquilo que vemos nos filmes. Aprendi que a família pode fechar-se sobre ela mesma e existir apenas o núcleo duro. A minha família é a minha mulher e o meu filho. Depois vêm os avós, a minha mãe, toda a gente, mas o núcleo é restrito.

Aprendeu a pescar lá?

_Fazíamos pesca de amostra, com uma espécie de insecto de metal, num barco zebro como os dos bombeiros, e o peixe vem atrás daquilo. Um conduz o barco e outro vai com a cana. Lembro-me de fazer uma ou a outra coisa. Aprendi lá a questão das hierarquias. Não fiz o serviço militar porque fiquei responsável pela minha família quando o meu pai morreu, mas percebi que as pessoas, gostando ou não, tinham de seguir ordens, e uns estavam acima dos outros, e aquilo só funcionava, sobretudo nas situações de maior crise, com organização. Em Portugal, temos dificuldade em pôr as pessoas certas nos lugares certos. Costumo dizer que somos os campeões mundiais do miscasting , pomos num lugar a pessoa que não devia estar, e arranjamos argumentos para não pôr lá a pessoa certa. As instituições, governo, clubes, o que for, funcionam melhor quando têm as pessoas certas. E a tendência é para piorar: quando sai um, entra outro muito pior.

Também temos a cunha...

_Mesmo em países que achamos muito organizados e meritocráticos também existe a cunha. Havia dez pessoas para aquele lugar e só três tinham condições, mas se a cunha for para um desses três, pronto, acontece. O nosso problema é que é capaz de entrar o décimo. A nossa cultura não se regenera porque temos sempre uma maneira de justificar que correu tudo bem, pelo que fizemos no passado, pela maneira de ser de povo do Sul, amigável, hospitaleiro. Não muda nada enquanto não percebermos as questões da organização, de não termos de ser todos simpáticos para toda a gente mas pôr as coisas a funcionar. Isso é que me preocupa. É o que acontece a todos os níveis, políticos, empresariais, desportivos, somos sempre favoritos, mesmo quando as evidências dizem o contrário. E como os que têm acesso aos media estão sempre a dizer isto, os outros coitadinhos ouvem e queixam-se muito mas acabam por levar com aquela cultura.

Passou de mau para bom aluno porquê? Por ter capacidades e um ambiente propício?

_Temos muito a ideia de que o ambiente familiar é muito importante na educação, mas se fosse só isso eu tive sempre o mesmo ambiente, tinha um professor universitário e uma mãe que podia ensinar-me. Não é bem verdade que somos o resultado do meio físico e social. Nem toda a gente que vem para os 3B"s vai ser bom porque está num sítio muito bom. Alguns vão continuar a ser maus, são os tais em que me enganei. Em média, a maioria deles melhora, tem todas as condições, mas não podemos garantir que isso acontece sempre, porque a pessoa tem de trabalhar, querer, ser ambiciosa, e num ambiente muito competitivo há cem que querem a mesma coisa.

Quando é que começou a achar que queria ir para uma área científica? Imagino que fazia outras coisas em miúdo, jogava futebol...

_Sempre fui mau em todos os desportos. O único que fiz a sério foi a natação e foi a única coisa em que chumbei em toda a vida, na mariposa. Só queria no FC Porto, houve um teste para a passagem a pré-atleta e eu fiz muito bem bruços, crawl , costas, mas mariposa, com o meu físico, era impossível, tentava e não conseguia. Chumbei e quando cheguei a casa disse: não sou bom para aquilo, não quero continuar. Foi o que fiz sempre na vida. Desisti. Faço natação a brincar, gosto muito de snorkeling , mergulhar, ver corais.

Era daqueles alunos que estudam muito?

_Até ao 12.º ano nunca peguei num livro. Tinha uma memória prodigiosa, ouvia um professor dizer uma coisa e lembrava-me. No 12.º ano fui um médio aluno. Pela primeira vez era preciso trabalhar e eu não tinha nenhum hábito de trabalho. Entrei para a universidade com média de 14 e tal, o que era estranhíssimo para mim. Depois tive a melhor classificação de sempre daquela licenciatura, no mestrado a mesma coisa, mas eu não acredito que as notas são tudo. Tinha orgulho nas notas e achava-me mais interessante, mas notei imediatamente, quando era preciso estudar, saber estudar, perder tempo, que não estava minimamente preparado porque nunca tinha precisado. Isso tem muito que ver com o sistema de ensino. O meu filho anda num colégio privado extremamente exigente, tem trabalhos de casa, muitas provas, e isso cria uma cultura de exigência pela qual eu não passei. Mas duvido se isso vai fazer que ele no fim saiba mais e tenha mais hábitos de trabalho. Sou um cientista de sucesso, sou reconhecido, professor catedrático, director de um grupo, ganhei prémios, era fácil sentar-me e dizer: estamos em crise, estão a cortar-me o salário, estou chateado com tantas coisas neste país, vou aliviar o meu ritmo de trabalho. Era uma decisão só minha, podia fazê-lo. A questão é que eu ponho metas a mim mesmo, gosto muito de competir e de ganhar, de lutar, fazer coisas que eu próprio sei que são quase impossíveis. E isso é simples: é preciso trabalhar mais do que os outros, prescindir de fins-de-semana, de vida familiar. Não basta ter capacidade de trabalho, é preciso querer usá-la. Não me lembro de faltar um ou dois ou três dias por estar doente e estive doente muitas vezes, mas vinha trabalhar. E viajo para o sítio onde me comprometi a dar uma palestra e foi anunciado que lá vou estar.

E exige o mesmo aos seus colaboradores?

_Temos uma grande exigência de horários e de organização do trabalho, de as pessoas terem de planear com documentos e reportar o que estiveram a fazer. Os doutoramentos só terminam quando tiverem um número mínimo de artigos em revistas internacionais, são avaliados sempre por dois cientistas internacionais de topo que vêm cá. Isto não dá para todos, porque as pessoas têm a sua vida, temos muita gente com filhos e vida familiar. Entendo tudo isto, mas quando estou a falar com eles estou a pensar: mas porque é que tu não fazes como eu, devias fazer porque é a única maneira de ires a algum lado. Há pessoas que acham que não e que podíamos reduzir um pouco. A questão é: queremos ou não? Hoje somos um dos três melhores da Europa nesta área e eu quero ser um dos três melhores do mundo. Se quero, tenho de continuar ou até aumentar o que estou a fazer. Tenho de aguentar, fisicamente e nos sacrifícios. Mas muito mais do que isto é a motivação e a capacidade de trabalho. Quanto mais vamos fazendo, mais temos tendência para nos aburguesarmos um bocadinho, baixar a capacidade de trabalho e sermos menos ambiciosos connosco. Não nos objectivos, que são sempre superiores aos que já atingimos, mas há tendência muito portuguesa: já fiz isto, para que preciso de mais, da cereja em cima do bolo?

Quando decidiu ir para a universidade, escolheu este curso porquê?

_Ia ser engenheiro químico como o meu pai, na mesma faculdade dele. Era um sítio onde circulava desde os 5 anos, conhecia as pessoas. E foi isso que me fez não ir. Conhecia os colegas dele, os bons e os maus, e ia ser o filho de. Tivemos mais tarde situações engraçadas, o meu pai passou a ser o pai de. É uma situação muito difícil, ele também não gostava. A Engenharia Metalúrgica e de Materiais era o que mais se aproximava, embora com uma componente mais mecânica, estudávamos materiais, plásticos, cerâmicas.

Como é que depois foi fazendo escolhas até chegar ao que faz?

_Não foi uma coisa muito escolhida. O único grupo de investigação forte nessa área trabalhava em biomateriais, ainda hoje trabalha, no Instituto de Engenharia Biomédica do Porto, ligado à Faculdade de Engenharia, hoje os nossos principais competidores. Era o único grupo produtivo em termos internacionais. Não era comparável com o que temos aqui, mas estamos a falar em 1990. Escolhi uma área que tinha sentido e futuro. A minha mulher, que foi minha colega de curso, foi comigo. Embora a trabalhar em coisas diferentes e com pessoas diferentes, tinha outputs internacionais, tinha pessoas treinadas em Inglaterra, uma outra visão da ciência. Depois foi um percurso natural, começou com o estágio de fim de curso, a seguir à licenciatura fomos trabalhar numa empresa na Holanda. A minha experiência profissional foi numa empresa ligada a próteses ortopédicas, implantes do colo do fémur, do joelho, etc. Cada vez aquilo era mais interessante, achei que o futuro estava aí.

Quando fala em plásticos está a falar daquilo a que chamamos plástico correntemente?

Estou a falar em polímeros, o nome científico dos plásticos. São macromoléculas que se organizam de determinada maneira, e tanto dá para fazer isto como para os materiais que usamos no dia-a-dia. Um polímero é um material orgânico, com carbono, hidrogénio, oxigénio, às vezes outros componentes, que tem uma determinada estrutura. São os plásticos que utilizamos no dia-a-dia mas há plásticos que têm propriedades muito especiais, como os que resistem a alta temperatura ou o teflon do revestimento das sertãs, mas também as suturas degradáveis que não precisamos de retirar os pontos depois de uma cirurgia. Os nossos são mais nessa linha, coisas de origem natural - de milho, de soja, de lagostas, de camarões, de lulas, e cortiça também. A cortiça é um polímero poroso, de origem natural, e é uma espuma, como a que temos num sofá ou num estofo de um automóvel. É dos poucos materiais do mundo que quando se comprime numa direcção não alarga na outra. Isso é muito confortável para nós caminharmos num piso, e dá aquela estanquicidade muito interessante nas rolhas. Como em 1993 só havia um departamento de engenharia de polímeros e era na Universidade do Minho, eu já tinha sido professor aqui. Depois voltei à Faculdade de Engenharia, na altura em que o meu pai morreu e precisava de ficar no Porto. Mas consegui convencer as pessoas da Universidade do Porto e da Universidade do Minho a fazer o doutoramento no Minho, e houve muita abertura. Foi nessa altura que arrancou a ideia dos 3B"s.

Isso é?

_Biomateriais, biodegradáveis e biomiméticos, que são materiais para implante, que se degradam no corpo humano e mimetizam uma determinada função biológica. Por exemplo, eu meter um material num goblet a 37 graus, a pH fisiológico, numa solução que simula o plasma sanguíneo, capaz de formar um fosfato de cálcio igualzinho ao que existe no osso. Ou o caso da folha de nenúfar, conseguindo mimetizar as características da textura superficial para que nenhuma gota de água o consiga molhar, totalmente hidrofóbico. Foi essa a génese dos 3B"s. Foi preciso criar do nada, não havia uma proveta, um equipamento para trabalhar nesta área. Não havia tradição, foi preciso criar com pessoas que vieram do Porto e já trabalhavam comigo. Tinha um grupo de investigação antes de eu próprio acabar o doutoramento.

Partiu daí para uma rede de investigadores que hoje se alarga a todo o mundo?

_A ciência faz-se muito de colaboração internacional e envolve muita confiança pessoal. Tenho a certeza de que o meu núcleo duro de colaboradores em Singapura, na Austrália, no Japão, no Canadá, nos Estados Unidos, é feito de pessoas que nunca me vão trair. Somos colaboradores e competidores ao mesmo tempo, o que é muito raro nas outras áreas. Qualquer um de nós quer chegar primeiro em tudo o que não fazemos juntos. Quando fazemos juntos, chegamos ao mesmo tempo. Sei que lhes posso dizer o que vou fazer nos próximos dez anos que aquilo nunca vai aparecer num trabalho deles no dia seguinte. E há outros que conseguem sempre fazer uma alteraçãozinha da ideia que nós tivemos... Essas são as pessoas com quem não quero colaborar. Na ciência existe o mesmo que existe na vida normal de cada um de nós.

Aqui faz sobretudo ciência aplicada?

_Temos uma base de ciência fundamental muito forte. Combinamos muita gente. Nunca contrato alguém para me explicar porque é que não sei quê, contrato para perceber como é que se pode fazer melhor qualquer coisa. Para conseguir fazer isso, tem de saber uma série de coisas, mas o objectivo não é perceber. Costumo dizer aos investigadores: só quero que me expliques isto quando isto funcionar. É uma abordagem diferente, se calhar é porque sou engenheiro. Temos aqui pessoas de mais de vinte áreas diferentes, desde médicos, dentistas, veterinários, bioquímicos, biólogos, biólogos aplicados, engenheiros de polímeros, de têxteis, de materiais, de colóides, químicos, físicos, informáticos... Temos cerca de vinte nacionalidades, não é fixo. Alguns já casaram cá e tiveram filhos. Mas não é aquela lógica típica de grupos portugueses de ter nacionalidades de emigração científica. Temos chineses, indianos, mas temos tido holandeses, irlandeses, coreanos, japoneses, alemães, americanos.

Por que é que vêm para cá?

_Somos reconhecidos, somos dos grupos que mais publicam e mais citados nesta área, estas instalações são faladas em todo o lado. Temos das melhores condições do mundo para investigar nesta área. Não há quase nenhum edifício que seja totalmente desenvolvido para fazer este trabalho, desde a síntese do material novo, à sua modificação, fazer o material poroso, modificá-lo, testá-lo com os mais diferentes tipos de células estaminais e depois fazer ensaios em animais e ainda se houver potencial tentar valorizar isso em termos industriais e tentar criar valor e gerar propriedade intelectual. O sítio em si não é extremamente atractivo, o pagamento também não, a maior parte são bolsas relativamente baixas de 12 meses e sem segurança social, mas as pessoas vêm, e já vinham quando tínhamos as condições anteriores que não têm nada que ver com estas. Vêem-nos nos congressos e percebem que somos dos melhores, vêem que sou um dos editores de uma das principais revistas da área, a Journal of Tissue Engineering and Regenerative Medicine . Um aluno de doutoramento aqui não aprende só o que é normal - fazer a investigação, planear o seu trabalho, publicar o seu artigo. Aprende tudo o que está ligado a gestão científica, é envolvido na escrita de projectos, no sistema de qualidade, no estabelecimento de protocolos, na escrita de patentes, na organização de eventos internacionais, vai a muito mais congressos do que os outros, publica mais. Claro que nem tudo são rosas, e esta imagem de que agora é mau vir para Portugal prejudica-nos imenso imediatamente, como em qualquer outra área.

Estão a ter menos candidatos?

_Sim, menos pessoas e particularmente de alguns países, mas estamos também a autolimitar-nos. Temos muito medo de que os nossos financiamentos não sejam renováveis, que possamos perder um conjunto das principais pessoas que estão contratadas ao abrigo de programas de compromisso com a ciência e que são pessoas críticas na estrutura. Um grupo normalmente tem quarenta a cinquenta professores universitários, nós só temos cinco. Temos um PEC interno com um sistema de gestão de recursos muito apertado. Não sabemos como podemos manter o sistema, porque a água, a luz, a segurança, todos os custos fixos mantêm-se ou aumentam, e temos de lidar com isto.

No entanto foi agora que se arriscou a criar uma empresa.

A empresa Stemmatters - significa Células Estaminais e ciência de materiais que realmente interessam, ou que realmente podem fazer a diferença, tem neste momento um conjunto de accionistas privados, desde capitais de risco a bancos, a pessoas ligadas ao desporto, a clínicas privadas, a centros de ensaios clínicos e empresas ligadas à informática e eu próprio e outras pessoas. A empresa foi criada em 2007 e ganhámos logo um dos principais prémios de inovação portugueses, o Start, da Microsoft, BPI e Universidade Nova de Lisboa. Mudámos para este edifício em 2008 e a componente industrial foi projectada em 2006 ou 2007. A comunidade nacional tem muita dificuldade em programas a médio prazo, ter a paciência de pensar: vou conseguir um edifício, estou a quatro anos de começar a construção, estou ainda a fazer acordos para fazer as instalações e já estou a pensar como é que vou desenvolver a componente empresarial, como vai ser financiada, que equipamentos lá vou meter. Fomos preparando tudo, tratámos das componentes operacionais, da parte legislativa e o regulatório todo que temos de passar, porque uma empresa deste género obriga a um conjunto de coisas que é partir pedra em Portugal, e entretanto tentar arranjar investidores que não poderiam ser quaisquer. Mais vale ter paciência e fazer as coisas bem feitas.

Aí está uma vantagem de ter chegado a esta fase da sua carreira científica tão novo. Tem a expectativa de participar activamente no resultado prático, na sua vida útil de cientista.

_Ser novo em Portugal sempre pagou um impostozinho. Ter sido sempre o mais novo nunca me beneficiou, sempre me fechou muito mais portas do que abriu. Sempre tive a imagem de ser contestatário e anti-sistema, de dizer coisas que não devia, mas muitas vezes é dito de propósito, é um discurso pensado. Há pessoas que têm medo do que vou dizer, onde vou dizer. Isso faz parte do folclore.

Viaja muito?

_Passo duzentos dias por ano fora, incluindo as férias com a família. Gosto muito da cultura asiática, da maneira de ser dos asiáticos, e gosto muito de praia. Sei que isto é politicamente incorrecto: gosto muito de passar três semanas sem ver portugueses, é uma coisa que ajuda muito ao meu equilíbrio. Também gosto das Caraíbas. Há sítios onde não vou, não tenho interesse nenhum. Para mim, o mais difícil é lidar com desorganização... Este ano fui à Índia em trabalho, o que foi importante porque é um país em grande desenvolvimento, mas não foi das experiências mais agradáveis. Vim muito bem impressionado com a ciência mas faz-me uma grande confusão diferenças tão exacerbadas entre cultos e incultos, pobres e ricos, excede o limite do razoável.

Quando pensa retrospectivamente, gostava de ter ficado a trabalhar no estrangeiro num daqueles centros de excelência que existem há muito?

_Recusei algumas propostas que na altura eram extremamente aliciantes, quando tinha graus de liberdade porque ainda não tinha filhos, a minha mulher poderia conseguir um lugar e irmos juntos. Hoje não só porque a vida familiar é mais difícil, embora esteja sempre aberto a isso, mas principalmente olho para uma estrutura que me demorou tanto tempo a criar, que depende tanto de mim, como é que eu ia dizer agora às pessoas, sabendo que já é difícil manter as posições? Penso bastantes vezes nisso, teria sido muito diferente, havia coisas que me iam custar porque gosto muito de ir ao meu futebolzinho, gosto dos vinhos e das comidas, mas há muitas coisas de que não gosto na cultura portuguesa. Mas noutro sítio eu se calhar era mais um entre quatro ou cinco, numa fase em que precisava de ser o único, e podia ter ganho ou perdido essa guerra.

As mulheres na ciência são diferentes dos homens?

_São mais dedicadas, mais responsáveis, mais cedo. Têm um plano de vida mais estabelecido, quando é importante, e estão à procura de alguma coisa. São às vezes menos ambiciosas e não têm aquela vontade de liderar, de mandar, ou de criar o seu grupo. Existem muitas excepções a isto, o que estou a dizer é genérico. Isso altera mesmo a maneira como gerem o currículo. Às vezes estão à procura de construir um currículo científico muito forte mas o seu objectivo não é ir dirigir um laboratório. Alguns homens fazem o currículo construído no sentido de ir à procura do lugar, da posição, porque são mais animalescos no ocupar aqueles espaços. Aqui nos 3B"s, grande parte dos colaboradores mais seniores são homens, professores da universidade, mas as pessoas que trabalham comigo há mais tempo começaram comigo a construir o grupo e são da maior confiança, quase todas mulheres. Eu sei que se lhes fizer algumas das perguntas que me fez agora, nas questões mais científicas, iam responder a mesma coisa. Sabem o que eu penso, o que hão-de dizer, o que não hão-de dizer, quando. Isso é muito mais fácil no cérebro da mulher cientista.

E nas perguntas científicas?

_No outro dia estávamos a fazer entrevistas para os grandes projectos do European Research Council e o painel era constituído por alguns dos maiores cientistas da Europa, dos mais diversos países. Os jovens candidatos apresentam um projecto científico que tem de ser muito inovador, porque aquilo é muito competitivo e há um momento em que fazemos entrevistas. E o responsável pelo painel disse uma coisa que eu nunca pensei ouvir mas que é a mais pura verdade: «Vamos descontar o facto de as mulheres não serem capazes de fazer bullshiting nas respostas.» Quando faço a mesma pergunta sobre uma falha no trabalho ou uma coisa que a pessoa nunca pensou, ainda não estudou, a mulher bem treinada consegue dar a volta mas nunca vai dizer uma coisa que é exactamente o contrário. Vai dizer: realmente não me apercebi disso mas vou tomar isso em atenção, se calhar é o meu próximo projecto. O homem vai dizer: já tenho dois alunos a trabalhar nisto, mais tarde ou mais cedo isto está feito... e nunca tinha pensado no assunto.

O que acha que vai acontecer com o FC Porto este ano?

_Vai correr muito mal, é o que estou a pensar. Geralmente, em Portugal, mesmo quando estamos piores costumamos ganhar, porque somos melhores do que os outros por definição. Quando está a correr mal, a probabilidade de o Porto ganhar é altíssima, mesmo em termos estatísticos. Às vezes, ao contrário do que as pessoas pensam, basta mudar uma pessoa num cargo de responsabilidade e a mesma equipa, e já sem falar de futebol, funciona completamente diferente.

Desde quando é portista?

_Desde que nasci, acho eu. Lembro-me de aos 7, 8, 10 anos, passar o fim-de-semana a ver hóquei em campo, básquete, andebol, futebol. Cheguei a ser, aos 17 ou 18, dos Super Dragões, pessoas completamente diferentes de mim. Cheguei a ir ver um jogo a Portimão de autocarro e voltar no mesmo dia. Mas continuo a ir aos jogos, com o meu filho. E vim de propósito da Austrália para ir a Genselkirchen, fui a Dublin, organizo-me para não falhar.

O que é que isso lhe acrescenta? Há um lado irracional na escolha de um clube?

_Irracional é uma pessoa que não é do clube do sítio onde nasceu, ou da cidade onde mora. O meu caso é muito racional. Aquilo representa exactamente os valores em que acredito, a maneira de ser das pessoas, o povo acolhedor que é a cidade do Porto, aberto, agradável, sofredor, dedicado, esforçado, representa exactamente tudo o que eu acho que são os valores do Porto e do Norte de Portugal. Não há pessoas de quem eu me sinta tão próximo como as que estão comigo no estádio. Não os conheço pessoalmente, não sei quem são, de onde são, o que fazem. Mas partilhamos o mesmo lugar anos seguidos, e depois encontramo-nos em Dublin e ele dá-me um abraço, não o conheço nem ele a mim.

E perde a cabeça? Grita?

_Perco. Grito. É o único sítio do mundo em que eu digo palavrões e muitos. Quando vou convidado de uma empresa ou para um camarote é uma dificuldade ficar calado, já não me dá gosto o jogo.

Há muitos desportos e não há esse fenómeno como no futebol. Sabe porquê?

_Há pessoas a estudar isso, livros a falar em coisas tribais. O jogo em si é bonito, é competitivo, é imprevisível. Portugal ganhar à Nova Zelândia em râguebi é impossível, nunca vai acontecer. No futebol, qualquer equipa pode ganhar a outra e isso é muito estimulante. Eu gosto de ver outros desportos, como o campeonato de râguebi, e mesmo coisas que as outras pessoas acham absurdo, como o wrestling , acho piada. Gosto muito de desportos de equipa e também gosto de individuais como o ténis, o atletismo. Mas de facto se há coisa que me diverte é o futebol. Penso, faço contas, o que é que acontece se perdermos ou ganharmos aquele jogo. Já me aconteceu ir a Lisboa reunir num Ministério e ter de sair às não sei quantas para estar no estádio a tempo. Tem de ser mesmo. Se o Porto for a uma final europeia, só não vou se não puder e é irrelevante quanto me vai custar, se vai ser difícil, se venho dali ou dacolá. Fico em estado de choque enquanto não conseguir resolver o assunto. O FC Porto é uma das poucas instituições que funcionam, faz coisas que teoricamente são impensáveis com os recursos que tem. Já cheguei a dar uma palestra baseada num livro do Mourinho, em que ele tinha princípios de gestão de equipas que são exactamente os mesmos que uso. As pessoas não têm ideia da pessoa que é o presidente, da maneira como o Porto gere os recursos financeiros, planeia. Ninguém consegue fazer aquilo. Isso é que é a explicação para um clube de uma cidade pequenina conseguir fazer o que os outros não fazem há cinquenta anos.

CAIXA - PERGUNTAS DE ALGIBEIRA

O livro da sua vida?

_O livro de poemas que o meu pai escreveu mas nunca conseguiu publicar. Ou então um bom livro técnico. Não há tempo para muito mais!

Uma cena de um filme que nunca esquece?

_A cena dos alunos a subir para as carteiras no Clube dos Poetas Mortos para defender o seu professor.

A última vez que chorou?

_No funeral da minha avó paterna no início deste mês. Sou mais emocional do que pareço mas não sou muito de chorar.

O que é que ainda vê na televisão?

_Desporto. Costumava ver noticiários mas ultimamente incomodam-me e deprimem-me. Algumas séries e filmes (via mais se tivesse tempo).

O lema da sua vida?

_O segundo é o primeiro dos últimos! Mas para conseguir ganhar é preciso que, como dizem os japoneses, se entenda que se aprende muito pouco com as vitórias mas muito com as derrotas.

Uma música para namorar?

_Nesta fase As Time Goes By (versão original). No início The Glory of Love .

Contra a crise?

_Emigrar! Se não for possível ter muita paciência para os governantes e tecnocratas europeus que ajudamos a criar.

Quantos minutos gasta a ler o jornal por dia?

_Num dia em Portugal, incluindo as diversas formas (papel, internet, iPad), cerca de trinta minutos. Quando viajo (particularmente em aviões ou aeroportos) ou quando estou de férias, muito mais. É óptimo poder comprar um jornal de um dado país em qualquer lugar.

De quantos em quantos minutos vê o seu e-mail?

_De dois em dois minutos! O e-mail é crítico para o meu trabalho e recebo tantos! O Blackberry ajuda muito. Mas corto nas férias e a partir de uma certa hora da noite.

Um lugar para passar a reforma?

_No Porto se a crise já tiver passado! Mas viajando muito se puder...

NOS BASTIDORES DE UMA ENTREVISTA

Primeiro almoçámos na praça principal de Caldas das Taipas, num restaurante de que Rui Reis é uma espécie de filho adoptivo. Depois, percorremos o novíssimo edifício onde estão instalados o Instituto 3B"s, da Universidade do Minho, a empresa Stemmatters e onde fica a sede do Instituto Europeu de Excelência em Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa. Nos diferentes laboratórios, não nos cruzámos com ninguém que aparentasse os 44 anos de Rui L. Reis e, além de muito jovens, os rostos eram de todas as cores.

Só então, já depois de uma curta conversa com Rui Amandi de Sousa, o CEO que acrescentou a gestão à formação científica na engenharia de materiais e com ele pôs de pé a empresa Stemmatters, é que nos sentámos na sala de trabalho do cientista. Ocuparia todo este espaço se referisse todos os prémios que já recebeu, nacionais e internacionais, num reconhecimento que vem dos pares, como o de Mérito Científico da Universidade do Minho ou o George Winter Award, o mais importante da carreira europeia em biomateriais.

O que ele faz é investigação no que ele simplifica como «plásticos», baseados em materiais naturais como a soja ou as lagostas, que terão aplicações clínicas cada vez mais sofisticadas. Está longe o tempo em que, num espaço exíguo da Universidade do Minho, deu nos primeiros passos no Instituto 3B"s (biomateriais, biodegradáveis e biomiméticos), mas ele continua a parecer exactamente o mesmo imparável miúdo de óculos fora do sítio desses tempos. Nem o facto de agora ser empresário o mudou, e por isso também se envolveu na criação de um laboratório associado, com o Instituto de Ciências da Vida e da Saúde, da escola de Medicina na Universidade do Minho, onde a investigação vai ficar de relações permanentes com a clínica do Hospital de Braga.

O currículo dele começa com a descrição da família, a mulher que se formou com ele na mesma área, e o filho Bernardo que o derrota orgulhosamente na PlayStation, sempre com uma regra de ouro: nenhum deles assume a equipa do FC Porto contra o outro. Porque ele é um homem que tem no gabinete fotografias da equipa do Dragão como fonte inspiradora. Diz que gosta muito de ver que o filho não gosta de perder. Porque ficar em segundo lugar é ser o primeiro dos últimos.

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