Recordações de uma miss

No mês em que se escolheu uma nova - e polémica - Miss Universo, fomos à procura das que foram as mais belas de Portugal nos anos 60, 70, 80, 90 e 2000. Eis as misses de Portugal, num tempo em que ser miss tinha todo um outro glamour.

Telma Santos - Miss Portugal 2000

Tinha terminado o 12º ano e trabalhava numa loja de roupa. Sonhava participar no concurso Miss Portugal e fez tudo pela calada, apenas com a cumplicidade da mãe. «Fui-me maquilhar a uma esteticista, fiz fotos numa loja de fotos e enviei. E pedi à minha mãe para não contar nada a ninguém, nem ao meu pai. Não gostava de perder e queria manter tudo em segredo.»

Quando soube que tinha entrado na corrida, continuou a fazer as várias etapas sem contar nada a ninguém. «Quando fiquei nas 16 escolhidas nem queria acreditar. Fazia atletismo, era muito magra, a minha auto-estima não era lá grande coisa. Sentia que estava com sorte.»

O ambiente, garante, era sadio. Não havia picardias nem mini-grupos rivais. Depois, veio a saber que havia lá manequins que já eram conhecidas e ninguém esperava que ganhasse. Telma Santos tinha 18 anos e pouco ou nada tinha saído de Setúbal, terra Natal. Ver como as tratavam em cada cidade que visitavam deixou-a exultante. «Sentíamo-nos importantes!»

Quem foi ver a final foi a mãe e o namorado da altura. O pai, que já sabia, achou que dava mais sorte se ficasse em casa. E, pelos vistos, deu. Telma ganhou o título de Miss Portugal e, no ano seguinte, disputou o Miss Universo em Porto Rico: «Tínhamos polícias para nós, estávamos protegidas como se fôssemos jóias. Ali, sim, havia glamour e era a sério! Eu parecia um passarinho que saiu do ninho e não sabia como voar.»

Depois, foi a moda. O primeiro desfile, o primeiro catálogo, as primeiras viagens sem ninguém a acompanhar. O ter de se desenvencilhar sozinha. «Cresce-se imenso porque passamos muito tempo sozinhas. Fiquei muito mais segura e mais forte. Nunca me vou esquecer da primeira vez que fui a Paris, em trabalho, a Londres, a Milão... Vivia uns tempos aqui, outros ali. A moda proporciona uma vida muito rica.»

Maria do Carmo Sancho, 67 anos - Miss Portugal 1965

Achava-se horrorosa. Magra demais. A sua auto-estima andava em frangalhos, para se dizer a verdade, muito por culpa do irmão mais velho que não se inibia de lhe dizer que era um camafeu. Assim, foi com muita surpresa (e uma pitada de orgulho) que recebeu o convite para se candidatar ao concurso de Miss Portugal (na época as candidatas eram escolhidas por uma espécie de "olheiros" da beleza). Os pais autorizaram e assim começou uma época cheia de boas memórias.

Maria do Carmo teve de passar por muitas provas, muito treino: postura, saber desfilar, saber estar. «Não tinha jeito nenhum para pisar a passerelle. Parecia desengonçada. Tive de treinar muito. Em casa andava assim, era um fartote.»

O grupo foi-se estreitando e ela sempre a achar que as outras eram muito mais bonitas e com outro à-vontade que ela não sentia ter. No entanto, quando ficou entre as finalistas começou a pensar que, se calhar, ainda ganhava o concurso. E ganhou mesmo, no Monumental, em Junho de 1965. «Fiquei muito emocionada e tinha uma lágrima quase a cair. Lembro-me que houve um fotógrafo que me disse: "não chores, sorri!" E eu sorri.»

Um mês depois estava no Brasil (as misses europeias tinham convite para assistir in loco ao Miss Brasil), e só depois foi para Miami, para concorrer a Miss Universo: «Os americanos não brincam em serviço e tínhamos de fazer tudo ao segundo. Chegávamos ao hotel mortas. Eram desfiles, anúncios, almoços, jantares, encontros... Tínhamos de saber dançar, cantar. Tive aulas de canto em Portugal mas tinha de cantar sempre no mesmo tom, para não me descontrolar. E lá nunca estavam satisfeitos. Era muito cansativo! Só conseguia pensar: pobre da rapariga que ganhar isto! Vai ter de andar linda e maravilhosa 24 horas por dia durante um ano inteiro!»

Desse tempo, não guarda saudade. Só boas recordações. E alguma pena pelo envelhecimento: «Custa um bocadinho olhar para o espelho. Sinto que o meu cérebro não corresponde ao que vejo.»

Ana Maria Lucas - Miss Portugal 1970

Antes mesmo de ser eleita Miss Portugal, já era manequim de uma das mais prestigiadas casas de moda de Lisboa, a Ayer. Quando a escolheram para candidata não quis ir. Achou que os pais não iam aceitar. Mas os pais não se opuseram e ela lá foi, ainda que sem confiança. E mesmo no dia da eleição, nunca acreditou que ganhasse: «Já me estava a despir para me ir embora quando o José Fialho Gouveia veio dizer que tinha ganho e que tinha de voltar ao palco. Era suporto que me sentasse no trono, num palco giratório, e que aparecesse já rainha. Foi por pouco que não apareceu o trono vazio!»

Depois de ter ganho o concurso luso, Ana Maria Lucas seguiu para a Grécia, para o concurso Miss Europa. O Diário de Notícias falava assim do seu regresso: «De regresso da Grécia chegou a Lisboa ao princípio da madrugada, Ana Maria Lucas, miss Portugal que, além da sua muita simpatia e um sorriso muito doce, trouxe consigo para Portugal um honroso e significativo miss Europa.»

Seguiu-se o concurso Miss Mundo, em Londres, e depois Miss Universo.

O seu carisma e personalidade fizeram com que, ainda hoje, sempre que se pensa em Miss Portugal, o primeiro nome que vem à ideia é o dela: Ana Maria Lucas. Eram outros tempos. A visibilidade que o título lhe deu teve o seu impacto mas, depois, teve que se fazer à vida: continuou como manequim, um ano depois apresentou o Festival da Canção, trabalhou numa empresa de roupa, foi designer, participou em telenovelas, casou com o cantor Carlos Mendes, de quem teve dois filhos.

Em 2009, a menina bonita de Portugal sofreu um AVC, que lhe afectou a mão direita e a fala. Um susto brutal que ultrapassou com a mesma garra e elegância com que sempre viveu. Hoje lastima não ter trabalho porque sabe que ainda tem muito para dar, à frente das câmaras ou nos bastidores.

Ana Sobrinho, 39 anos - Miss Portugal 1989

Quando ganhou o concurso de beleza inter-escolas, em Setúbal, o irmão, Luís Sobrinho, então futebolista, achou que ela podia ir mais longe. A sua beleza deveria ser apreciada para lá de terras sadinas, devia ser exibida ao mundo. E foi assim que a inscreveu no concurso Miss de Portugal, sem a avisar de nada.

Ana Sobrinho não se zangou com ele, pelo contrário. Gostou da surpresa e viveu tudo como quem vive um sonho inesperado e feliz. «Participei sem estar à espera e foi tudo uma grande surpresa e tudo muito natural. Talvez pelo facto de não ter sido algo planeado por mim me tenha corrido especialmente bem. Sem nervos, pressões, stress. Ganhar foi a cereja no topo do bolo.»

O concurso de Miss Universo foi dois dias depois, em Cancun. «Cheguei ao México depois de 18 horas de viagem. Nunca tinha viajado de avião. Estive um mês no México e foi muito enriquecedor para mim. Estavam 76 países representados, onde conheci misses de todos os cantos do mundo, de culturas e realidades completamente distintas da minha. Foi fantástico.» Ana Sobrinho não ganhou o título de mais bela do planeta mas, na verdade, não o esperava.

Um dos prémios de ter sido miss Portugal foi um curso na Show Time, uma escola de renome, do estilista José Carlos. Nesse curso, Ana Sobrinho conheceu Carlos Castro e passou a estar na produção de espectáculos de moda pelo país. Meses depois, entrou na Central Models, onde começou um longo percurso de modelo. «Trabalhei na Central durante 12 anos, muito felizes e compensadores.» Depois, deixou de pisar passarelas e posar para as câmaras. Ficou-se pelos bastidores e pela terra que a viu nascer e crescer. Ana Sobrinho promove eventos de moda em Setúbal, mas confessa ter saudades da vida agitada de Lisboa.

Marisa Ferreira, 35 anos - Miss Portugal 1998

Nem era tanto ser miss Portugal. O seu sonho era mais alto do que isso. Marisa Ferreira queria concorrer a Miss Universo. Desde pequenina que ficava presa às televisão, sempre que era o dia da eleição da mais bela. «Eu e a minha mãe não perdíamos aquilo. Era um fascínio. Aos 9 anos, a minha mãe inscreveu-me numa agência, fiz o meu primeiro book e comecei a ir a castings.»

Obstinada com a ideia do concurso para Miss Universo, tentou por três vezes concorrer a Miss Portugal (era preciso ser a mais bela do país, para depois tentar ser eleita a mais bonita do planeta). Só à terceira conseguiu. Tinha 20 anos

Durante um mês andou com as outras a passear por Portugal e não guarda assim grandes lembranças: «Havia concorrência a sério e hostilidade a sério. Havia umas que olhavam para mim e diziam que eu era baixa e que não estava ali a fazer nada. Foi tipo bullying. Muitas vezes chorava, à noite. Desistir? Nunca na vida!»

No dia da eleição, teve uma surpresa. O vestido lindíssimo que Zé Carlos tinha desenhado para si não estava lá. «Houve uma das concorrentes que mo roubou. Como eu era a primeira a entrar enfiaram-me um vestido branco que me ficava enorme e que tiveram de encher com tule, no peito. Quando entrei caíam bocados de tule, pareciam pensos higiénicos a cair, uma coisa horrível.»

Ainda assim, ganhou. Tornou-se Miss Portugal (e Miss Simpatia). E, assim, já podia cumprir o seu sonho: concorrer ao universo. «Fui sozinha e foi sozinha que me amanhei. Ninguém me ligou a perguntar se cheguei bem, ninguém me desejou boa sorte. Foi muito estranho. É por isso que digo que não guardo saudades.»

No concurso dos seus sonhos, não ganhou o título mais importante. Mas também não o esperava: «Nem sequer era esse o sonho! O sonho era ir, era estar lá, entre as candidatas. E isso estive. E ainda trouxe o título de Miss Simpatia. Foi um espectáculo. Lá, sim, éramos tratadas como princesas.»

Quando chegou ao aeroporto, tinha uma comitiva à sua espera. Com o seu feitio particular, rejeitou fotografias e palmadinhas nas costas. «Então só depois de trazer um título é que sou boa? E quando fui? Ninguém quis saber de mim. O meu marido diz que eu tenho mau feitio e que perco muito por ser assim. Eu acho que sou só justa. E, no que toca a justiça... não tenho mesmo grandes recordações da minha participação nas misses.»

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