Querer e não querer, e o tiro

Querer duas coisas, não querer coisa nenhuma

- Gostava muito de querer, mas não sou capaz.

- Não?

- Não. Tento querer, faço força para querer, mas no último momento... não quero.

- Não?

- Não.

- Pois, é um problema... Mas desculpe-me a pergunta.

- Sim?

- Vossa Excelência gostava de querer mas não quer... o quê?

- Esse é outro problema. Esse é um problema bem mais difícil. O meu problema não é esse. Vossa Excelência está a avançar rápido demais. Eu sou alguém que reflecte, entende? Sou aquilo a que se chama um filósofo. O meu problema portanto vem antes de qualquer problema real. Bem antes. Eu, de facto, gostava de querer, simplesmente, não interessa o quê, gostava de ter vontade de algo, mas nada. Entende?

- Entendo, sim senhor.

- Diante do mundo frio ou quente, encolho os ombros. Diante dos baixos e dos altos encolho os ombros, diante dos convites e dos ataques encolho os ombros. Enfim, começo a ter dores musculares.

- Onde?

- Nos ombros.

- Entendo. Mas sabe, o meu problema é diferente do problema de Vossa Excelência. Vossa Excelência, diante de um caminho que vira para a direita e um caminho que vira para a esquerda... não vira para lado nenhum. É isso? Senta-se, por assim dizer, a meio do cruzamento. É assim?

- Mais ou menos.

- Pois, comigo é o inverso: quero ir ao mesmo tempo para os dois lados; tenho duas vontades exactamente opostas exactamente ao mesmo tempo.

- Como? Como?

- Vou repetir: tenho duas vontades exactamente opostas exactamente ao mesmo tempo.

- Agora entendi. Vossa Excelência fala muito rápido.

- Mas é isso. Bem que facilitaria ter agora uma vontade e dois minutos depois a vontade oposta. Se fosse assim, apesar de tudo, resolver-se-ia. Mas assim: ter duas vontades exactamente opostas exactamente ao mesmo tempo... assim, é impossível viver.

- Impossível.

- É que eu viro os meus olhos para um lado e os meus pés para o outro. Tropeço, claro, e acabo por não ir para lado nenhum. No fundo, acabo como Vossa Excelência: no meio do cruzamento, imóvel.

- Eu diria que ter duas vontades opostas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter vontade nenhuma. Acaba sempre na imobilidade.

- É isso, excelência. É uma questão de matemática: duas acções com sinal contrário igual a... zero. Mais sete menos sete igual a zero.

- Portanto, como o final é o mesmo eu diria que a minha não acção é mais sensata: não faço força nem para um lado nem para outro, deixo-me estar.

- E está bem assim.

O tiro

- "Quem levou o tiro que conte os buracos." Que bela frase popular, não?

- Excelente, sim.

- Mas em termos concretos, é difícil... para quem levou sete tiros em cheio no corpo... contabilizar os buracos das balas.

- No cadáver... assistimos ao súbito fim da apetência para contar.

- Não é o mesmo que descobrir e contar nódoas depois de um jantar suculento. É até o inverso disso.

- Mas eis uma profissão: os homens que contam os buracos dos tiros no corpo dos outros. Não disparam, mas não assistem ao longe. Aproximam-se, debruçam-se sobre o corpo e contam pelos dedos: um buraco, dois, três, quatro. E depois apontam no seu caderninho: 4 buracos. Quatro.

- Uma forma de contemplar o mundo como outra qualquer. Contemplar os buracos das balas nos corpos dos outros. Eis uma forma de contemplação possível. Um pouco cínica, sim, mas possível.

- "Quem levou o tiro que conte os buracos." Que frase!

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