Quarenta anos de palco

Fundada no Porto em setembro de 1973, a companhia de teatro Seiva Trupe está a completar quatro décadas. Durante anos foi a única escola profissional de teatro no Norte do país e pela sala da Rua das Estrelas já passaram 127 espetáculos, 7432 representações, cerca de 1,35 milhões de espetadores. Uma vida de «coisas loucas, que valeram a pena», diz o ator, diretor e cofundador António Reis.

1973-1977

NO RESCALDO DA DITADURA

A ambição por um teatro independente que se aproximasse do público levou um grupo de jovens atores, entre os quais António Reis, Estrela Novais e Júlio Cardoso, a fundar a companhia de teatro Seiva Trupe a 11 de setembro de 1973. Musicalim na Praça dos Brinquedos, de Stella Leonardos, foi a primeira encenada. No ano seguinte, no rescaldo da revolução, levaram à cena Catarina na Luta do Povo (Luís Alberto). Numa dessas apresentações, num salão paroquial de uma igreja de Vila da Feira, receberam-nos com protestos, confrontos, agressões e petardos. As atrizes, em pânico, choravam. Os atores, armados de cacetes, faziam a segurança do palco. A certa altura, o ator João Guedes quase bateu no padre da freguesia que, munido de uma moca, ali estava a defender o espetáculo e lhe confidenciou: «Já varri dois.» Nas digressões, levavam duas carrinhas velhas: uma para os atores e outra para os cenários. Os acessos às povoações eram penosos e difíceis devido às más estradas. Em 1978 estreiam Perdidos numa Noite Suja (Plínio Marcos), na Cooperativa do Povo Portuense. Foi considerado pela crítica «o mais violento espetáculo levado à cena em Portugal». Com António Reis e António Capelo no fundo de um fosso, os espetadores debruçavam-se para assistir ao que ali se passava: detritos, velhos jornais, garrafas vazias, lixo e «dois imundos» marginais à espera de um par de sapatos. Nesse mesmo ano estreiam A Confissão, de Bernardo Santareno. A Seiva Trupe foi a última companhia a levar à cena uma obra do dramaturgo ainda em vida. A peça viajou para Barcelona e, numa das sessões, um oficial da Guardia Civil irrompe em palco. «Alto! Hay bomba!» O local foi evacuado mas era falso alarme.

1979-1983

POETAS, BICHOS E UM PRÉMIO

Em 1979, Quanto Vale Um Poeta sobe a palco, reunindo textos de Damião de Góis, Diogo do Couto, Sá de Miranda, Luís de Camões, entre outros. No final da rampa de acesso ao teatro, estava a personagem Camões «velho e cego». Um espetador aproximou-se e disse-lhe em sussurro: «Desculpa, Camões, odiava-te, porque não me souberam ensinar quem tu eras. Sou operário da Alumínia e estou-te muito grato. Desculpa!»

Um Cálice de Porto (Benjamim Veludo, Manuel Dias e Norberto Barroca), a peça que mais sucesso fez na Seiva Trupe, estreou-se em 1982 e manteve-se dois anos em cena. A atriz Josefina Úngaro é mordida por um bicho antes do espetáculo, e o seu pé aumentou de volume. Amparada por dois colegas, aproxima-se do público e diz: «Há bocado fui mordida por um bicho e não posso pôr o pé no chão. Olhem para isto. Acham que posso fazer o espetáculo?»

Em 1983, institui-se o prémio bienal Seiva Trupe, «para a dignificação e o prestígio das Artes, das Letras e das Ciências do Porto». Na primeira edição, distinguiu-se o cineasta Manoel de Oliveira (Artes), o médico e investigador Corino de Andrade e Eugénio de Andrade (Letras). Júlio Resende, Álvaro Siza Vieira, Fernando Lanhas e José Rodrigues contam também com a distinção no currículo.

1984-1987

TRAGÉDIAS DE PALCO

A memória traiu Júlio Cardoso em 1984, durante uma das apresentações de Mistério Cómico (Dario Fo). De acordo com a disposição do ator, o monólogo poderia demorar 01h30 a 02h45. Confessou ao público o que estava a acontecer e gritou pelo responsável técnico: «Ó Américo, Américo!» Segundos depois foi acudido: «Pronto, o que se passa?» O ator: «Por favor, traz-me o texto que me perdi.» Retomou. No final, um espetador felicita-o entusiasticamente afirmando que gostou, sobretudo, da parte em que o ator «representa» que se esqueceu do texto.

Um ano depois, em Os Amorosos da Foz (Camilo Castelo Branco), António Reis tinha de fazer o jogo do pau, como se faz em Fafe, mas o colega acertou-lhe num dedo e partiu-o. Ele aguentou todo o espetáculo durante mais de uma hora e meia e ainda hoje diz que se vê a diferença no dedo. Na altura, teve de cortar um anel que não saía.

Em 1987, quando António Reis fazia de Creonte, na peça Antígona, usou um fato que pesava 16 quilos. Durante o espetáculo, a tragédia ganhou forma quando o diretor da Seiva Trupe olhou para a cruz que fazia parte do cenário, onde estava um colega suspenso, e viu o ator desmaiado, apenas preso por uma corda. Mandou fechar o pano. Tentou reanimá-lo, pressionou a barriga, o ator vomitou e foi, de imediato, levado para o hospital. Durante 15 minutos Reis falou com o público, explicando o que pode acontecer em palco, para acalmar os ânimos. Recomeçou depois o texto. Naquele dia, muitas pessoas ficaram na dúvida se o que acontecera era real ou encenado. No final, com casa lotada, foram aplaudidos várias vezes. E o ator desmaiado ficou bem.

1989-1993

PÚBLICO PROTAGONISTA E UMA CONDECORAÇÃO

Em 1989, Gota de Água (Chico Buarque e Paulo Pontes) está já em digressão. Em Cádis, quando o protagonista da peça atira a bicicleta ao chão e corre para uma cabina telefónica e faz amor com a parceira, solta-se uma voz da plateia: «Coño, que tesura!» No ano seguinte, em Gijón, Espanha, o final do espetáculo Play Strind­berg (Friedrich Dürrenmatt), sobre a «guerra de um casamento», que levanta questões de moralidade, sobre ódio, oportunismo, paranoia, codependência e morte, um espetador aproximou-se dos atores que estavam de saída e disse: «Gracias por la lección.»

Encenar tragédias pode ser agoiro de várias desgraças. Foi o que aconteceu em 1993, quando Macbeth (William Shakespeare) foi a peça de eleição da Seiva Trupe: António Reis teve um problema na cabeça do fémur; o ator Alberto Quaresma partiu um tornozelo e não pôde continuar. Mário Viegas, crente e espantado com a lenda, aconselhava-os: «Jamais pronunciem Macbeth, digam só: tragédia escocesa.»

Nesse mesmo ano, a companhia é declarada utilidade pública, em reconhecimento da obra de teatro, debates sobre temas sociais, colóquios e concertos com que contribuíram para a formação de massa crítica cultural da região norte do país.

2000-2010

CÃES RAIVOSOS E NOVA CONDECORAÇÃO

Em 2000, durante os ensaios de Péricles, Príncipe de Tiro (Shakespeare), entre muita parafernália, atores, figurantes, cenário, havia cães de carne e osso. Num dos ensaios, um pitbull parou a olhar, sério e agressivo, para Péricles (Leonardo Brício). Perante esta ameaça, o encenador Ulysses Cruz sentenciou: «Pronto, acabou, o cão não entra!»

Em 2010, nas comemorações do Dia Mundial do Teatro, a Seiva Trupe foi condecorada pelo presidente da República com o grau de Membro Honorário da Ordem de Mérito. Nesse mesmo ano, na peça Eu Sou a Minha Própria Mulher (Doug Wright), no final de uma representação, um espetador emocionado esperava Júlio Cardoso: «Em 1970 abracei-te na Bernarda Alba e agora abraço-te nesta Charlotte von Mahlsdorf, nos teus 50 anos de carreira.»

2012-2013

EXPULSAR ESPETADORES

No ano passado, na peça Adivinhe Quem Vem para Rezar (Dib Carneiro Neto), o público voltou a ser protagonista. Os dois atores andavam pelos bancos de igreja na plateia e, de repente, um espetador: «Basta! Cristo já morreu há muito tempo e não vejo aqui qualquer sinal dele.» António Reis chama pelo responsável técnico:

«Ó Borges, por favor, ponha fim a este episódio.» «Como?» «Convide essa personagem a ir representar para a rua.»

A Seiva Trupe volta este mês aos palcos internacionais no Sesc Belenzinho, em São Paulo, Brasil, numa reposição da peça Adivinhe Quem Vem para Rezar, com António Reis e Jorge Loureiro. Por coincidência, um mês depois de ter terminado na mesma instituição a peça Ninguém no Plural, onde a filha do ator António Reis, Tânia Reis, 37 anos, representou.

[15-09-2013]

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