Portugal Um país com imensa energia

Cerca de metade da eletricidade produzida e um quarto da energia consumida, em Portugal, têm origem na natureza, sendo o nosso um dos dez países do mundo com maior produção elétrica a partir das renováveis. A água e o vento são as fontes de energia mais exploradas, mas o sol e o mar têm um enorme potencial para o futuro. Um sinal verde para o ambiente e para a economia que corre agora o risco de ficar intermitente.

Desde os anos cinquenta do século passado que Portugal produz eletricidade a partir de uma fonte renovável, a água, com o desenvolvimentos das grandes centrais hídricas. Um caminho natural para um país pobre em combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão. Foi, no entanto, na última década que se deu o grande salto no que ao aproveitamento das energias renováveis diz respeito. Às grandes hídricas juntaram-se os parques eólicos, explorou-se a utilização de biomassa, fizeram-se as primeiras apostas na energia solar térmica e fotovoltaica e desenvolveu-se a investigação no ainda embrionário aproveitamento da energia das ondas. Uma estratégia consentânea com as exigências mundiais no combate às alterações climáticas através da redução das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera estabelecidas pelo Protocolo de Quioto e adotadas pela União Europeia, que traçou metas concretas relativamente ao peso das fontes de energia renovável no consumo final de energia, mas também essencial para a diminuição do peso económico das importações neste setor, que é enorme (cerca de três por cento do PIB) dada a dependência energética de Portugal face aos países exportadores de petróleo, carvão e gás natural, cujo preço tem vindo a aumentar exponencialmente.

A aposta nas renováveis levou a que em dez anos cerca de metade da eletricidade produzida em Portugal e cerca de 25 por cento de toda a energia consumida passasse a ter origem em fontes endógenas, com grande vantagem para a água e o vento, colocando o nosso país entre os melhores do mundo em resultados absolutos neste domínio. O que se traduziu numa das mais baixas taxas de emissão de dióxido de carbono per capita da União Europeia (UE), em 2009, na poupança de cerca de quinhentos milhões de euros em importação de energias fósseis, em 2010, assim como num honroso quarto lugar, apenas superado pela Suécia, Finlândia e Áustria, no maior cumprimento das metas estabelecidas pela UE para a integração das energias renováveis no consumo final de energia.

Estamos no bom caminho, mas António Sá da Costa, presidente da APREN, Associação Portuguesa de Energias Renováveis, teme que este venha a ser travado pela crise e pelas soluções do atual governo e da famigerada troika para a enfrentar. «Os sinais que têm sido dados até ao momento relativamente a este sector são de congelamento, o que é negativo, dado o enorme investimento que foi feito, grande parte dele estrangeiro. As renováveis são parte da solução e têm dado um contributo importante para o desenvolvimento da economia portuguesa. Aumentar o emprego, diminuir as importações e aumentar as exportações são três elementos essenciais para sair da crise e é nisso que se tem traduzido a aposta nas energias renováveis.»

Água: a mais antiga renovável portuguesa

A exploração deste recurso para fins energéticos remonta ao século passado e é talvez por isso que, apesar dos períodos de seca, o setor hídrico ainda é o que mais pesa na produção bruta de energia elétrica, com 22 por cento, em 2011, segundo as Estatísticas Rápidas das Renováveis, participando com cerca de cinquenta por cento do total de produção de energia renovável. Com cerca de 5000 MW de potência atribuída, entre mais de sessenta barragens e 150 mini-hídricas, tem ainda margem para crescer, uma vez que Portugal só explora cinquenta por cento do seu potencial hídrico. Estimando-se em mais de 3,3 mil milhões de euros por ano a poupança que significaria em importações de combustíveis fósseis, não é líquido que o crescimento previsto pelo Plano Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico - aproveitamento de 75 por cento do potencial, com 8625 MW de potência instalada, até 2020, o que elevaria para quarenta por cento a energia de origem hídrica -, aprovado em 2007, seja atingido, dada a polémica à sua volta.

Vento: a energia que sopra mais alto

Os portugueses já se habituaram àquelas grandes torres equipadas com uma hélice, perfiladas nas zonas de maior relevo, os chamados aerogeradores, que transformam a força do vento em eletricidade, conduzida para os utilizadores, através da rede de distribuição.

Desde 2003, o setor eólico, no qual foram já investidos cerca de 7,7 milhões de euros, tem vindo a consolidar-se em Portugal, que tem mesmo uma das mais elevadas taxas de produção eólica no mundo. Tendo atribuída atualmente uma potência de cerca de 4300 MW, distribuída por 218 parques, com um total de 2250 aerogeradores, um deles offshore, ou seja, instalado no mar, contribui em cerca de 17 por cento para a produção bruta de eletricidade no nosso país. Segundo a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), por cada Mwh (MW hora) de energia eólica é evitada a emissão de cerca de 0,8 toneladas de gases com efeitos de estufa que seriam provocados pela utilização dos combustíveis fósseis na produção de energia elétrica. Além disso gera cinco vezes mais emprego por euro investido do que as tecnologias associadas ao carvão ou ao nuclear. Vantagem: é um recurso nacional, fiável e inesgotável. Desvantagem: a sua intermitência, nem sempre o vento sopra quando a eletricidade é necessária.

Sol: a energia do futuro

O sol será o recurso em que Portugal tem maior potencial, sendo um dos países da Europa com melhores condições para o seu aproveitamento, uma vez que dispõe de um número médio anual de horas de sol variável entre 2200 e 3000, no continente, e entre 1700 e 2200 nos Açores e Madeira. Talvez por isso, a DGEG tenha previsto que a nova vaga de desenvolvimento de energias renováveis passe pela aposta na energia solar, depois de uma primeira vaga hídrica e de uma segunda vaga eólica. Dos 150 MW de capacidade instalada em 2010 prevê-se chegar aos 1500 MW, em 2020, ou seja, dez vezes mais, o que evitará a emissão de milhares de toneladas de gases de efeitos de estufa anualmente e a poupança de milhões de euros em importação de combustíveis fósseis. De facto, o potencial do sol que pode ser transformado em energia através de tecnologia fotovoltaica ou térmica, está claramente desaproveitado, representando um por cento do total de produção de energia renovável e tendo um peso de apenas 0,5 por cento na produção bruta de eletricidade. O Alentejo é naturalmente a região onde se concentra a maior parte das centrais fotovoltaicas do país, com destaque para a da Amareleja, que já deteve o título de «maior do mundo». Segundo a APREN, se tivéssemos instalado em Portugal um milhão de metros quadrados de painéis solares, poder-se-ia poupar entre dois e três por cento das importações em combustíveis fósseis.

Biomassa: uma energia em afirmação

A biomassa é a fração biodegradável de produtos e resíduos provenientes da agricultura (incluindo substâncias vegetais e animais), da silvicultura e das indústrias relacionadas, bem como a fração biodegradável de resíduos industriais e urbanos. A energia da biomassa pode ser aproveitada de diversas formas, entre as quais através de processos de queima, em caldeiras e fornalhas, para produzir energia térmica, elétrica ou biocombustíveis. Em Portugal, o potencial de todas as formas de biomassa é estimado, segundo a Agência para a Energia, em seis milhões de toneladas por ano. Com uma potência atribuída de 250 MW e uma contribuição já de cerca de cinco por cento das renováveis para a produção bruta de energia, a biomassa poderá vir a representar 15 por cento da geração renovável, podendo a florestal vir a substituir cinco a dez por cento do carvão utilizado nas centrais convencionais.

Geotermia: o calor da terra

É no arquipélago dos Açores, onde confluem três placas tetónicas (americana, africana e euroasiática), o que dá origem a uma intensa atividade vulcânica, que a energia geotérmica, que consiste no aproveitamento, à superfície, do calor terrestre para a produção de energia térmica ou elétrica, tem sido mais explorada, com 30 MW de potência instalada em 2010. Em 2009, as duas centrais geotérmicas de São Miguel permitiam suprir em quarenta por cento a necessidade elétrica da ilha. Mas o potencial do arquipélago permite-lhe crescer e há até já quem fale nos Açores como o paraíso das energias renováveis. Segundo a Agência para a Energia, está em desenvolvimento uma nova fase de investigação hidrogeológica, numa tentativa de captar recursos a maior profundidade e, assim, aumentar temperaturas e caudais de exploração. O recurso às bombas de calor perspetivará um aumento considerável da utilização da geotermia.

Ondas: um potencial a explorar

Portugal é mar. A sua maior «fronteira» é a costa e segundo os especialistas a sua ondulação tem excelentes condições para produzir energia a partir das ondas, além de que tem infraestruturas instaladas para a ligação desta à rede elétrica. No entanto, apesar do enorme potencial natural, da sua posição pioneira na investigação desenvolvida neste domínio, nomeadamente pelo Instituto Superior Técnico (IST) e pelo Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (INETI) e de já ter sido criada e concessionada uma zona-piloto em São Pedro de Moel, que se prevê estar operacional em 2015, não passámos ainda da fase de investigação. Depois de projetos experimentais na ilha do Pico, em 1999; em Almagreira, Peniche, em 2007; e na Aguçadoura, Póvoa de Varzim, em 2008, está agora a ser finalizada a instalação no mar de Peniche uma plataforma com três módulos capazes de produzir 300 kilowatts-hora (Kwh). O projecto Waveroller, de tecnologia finlandesa, é financiado pela Comissão Europeia e tem como objetivo a investigação, experimentação e aperfeiçoamento de um novo sistema de transformação de energia das ondas em energia elétrica.

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