Portugal - Espanha: uma história de amor?

Ele é calmo, orgulhoso, bem-educado, mas talvez um pouco formal. Tem a seu favor o facto de ser muito hospitaleiro e tolerante e ter jeito para as línguas. Podia sair mais de casa e aproveitar o bom tempo, não ser tão pessimista nem derrotista e arriscar mais. Partir à aventura e à descoberta, como quando era novo. Ela é espontânea, dinâmica, enérgica, explosiva, por vezes. Não para em casa, fala alto e muito depressa e não tem qualquer talento para as línguas estrangeiras. Conhecem-se há séculos e ora se zangam ora fazem as pazes. Já viveram juntos durante um curto período de tempo, mas sempre souberam que o melhor é viverem em casas separadas, o que não quer dizer que não unam esforços e partilhem o que de bom têm para partilhar. Esta podia ser a história de Portugal e Espanha, a partir do olhar de quatro espanhóis que vivem no nosso país ou com ele têm uma relação muito próxima: Teresa Rainha, Alfonso Renart, Virgínia López e Manuel Moya.

Filha de um português e de uma espanhola, Teresa Rainha, 41 anos, é a síntese dos dois países. Nascida em Espanha e criada em Portugal, manteve sempre presente a cultura materna, falando castelhano em casa e estudando no Instituto Espanhol de Lisboa (onde hoje também as suas duas filhas estudam). O curso de Relações Internacionais levou-a até Bruxelas, onde viveu e trabalhou 15 anos e onde conheceu o marido, espanhol. Há três anos regressou a Portugal com a família para dirigir a Delegação da Extremadura em Lisboa.

Viver entre duas culturas foi para ela enriquecedor. «É uma sorte! O mais complicado é tentar tirar o que de melhor tem cada uma, mas ser bilingue e conhecer duas formas de vida permite uma melhor adaptação a outros meios e desenvolve o respeito por outras culturas. Provavelmente, há uns anos, poderia ser mais difícil a adaptação. Hoje, já podemos encontrar praticamente de tudo em qualquer sítio e para quem tiver "saudades", em pouco mais de duas horas está do outro lado da fronteira.»

Ninguém melhor do que Teresa, que em Espanha se sente espanhola e quando está em Portugal é portuguesa, que lê, fala e pensa em ambas as línguas, que tanto aprecia fado como flamenco e tanto gosta de comer um bom bacalhau como um gaspacho ou uma tortilha, para descortinar as diferenças, e semelhanças, entre os dois países vizinhos e as suas gentes. «É certo que, embora tão próximos, há diferenças significativas, mas a convivência não é difícil, pelo contrário, julgo que portugueses e espanhóis se complementam. Temos mais coisas em comum do que com qualquer outra cultura e as duas formas de encarar a vida, mais calma pelo lado português e mais extrovertida pela parte espanhola, de alguma forma, são o êxito dos muitos casais luso-espanhóis.»

Os portugueses, do seu ponto de vista, «são um povo acolhedor, que faz os estrangeiros que cá vivem, entre eles os espanhóis, sentirem-se em casa. São amáveis, pacatos, tranquilos, educados, falam bem outras línguas e são abertos a tudo o que vem de fora, mas falta-lhes algo do dinamismo e da vitalidade que os espanhóis têm. Basta atravessar a fronteira e há gente na rua, nos cafés, nas esplanadas, as pessoas saem e relacionam-se umas com as outras, há espontaneidade, e isto é algo que não se vê tanto em Portugal.»

Essa energia e essa garra são aquilo de que sente mais falta, vivendo cá. Quando passa a fronteira, as saudades são do clima, do café, das praias, do Tejo e daquela luz especial que Lisboa tem. Nada a irrita especialmente no nosso país, que também é seu e que adora, mas reconhece que às vezes a demora e a lentidão nacionais a incomodam, assim como continua a surpreender-se com a mania de as famílias portuguesas irem passear para os centros comerciais no fim de semana, deixando as ruas e os centros das cidades desertos.

A ideia de uma União Ibérica, lançada por José Saramago há uns anos e que tanta polémica causou, é para Teresa Rainha uma questão sensível. «Deixando para trás a história e o que poderia ter sido e não o foi, julgo que o mais importante é que Portugal e Espanha partilham um espaço comum, que é a Península Ibérica, em que temos interesses comuns. Partindo deste pressuposto e respeitando a identidade nacional de cada um, interessa reforçar as nossas relações, já que juntos somos mais fortes, tanto na Europa como no resto do mundo. Os nossos maiores êxitos foram quando Espanha e Portugal caminharam lado a lado, em sintonia.»

Sendo para ela Portugal um país cheio de potencialidades e oportunidades nem sempre aproveitadas, devido ao pessimismo nacional, Teresa escolheu ser fotografada junto à Fundação Champalimaud, a imagem do que Portugal pode ser no futuro, apostando no conhecimento e na investigação internacional. «Esse é o Portugal que todos queremos.»

No topo da ciência

E é na Fundação Champalimaud que o madrileno Alfonso Renart, 38 anos, investigador e neurocientista, trabalha há um ano e meio, depois de ter passado por várias universidades e centros de investigação em Boston, Alicante e Nova Iorque, onde esteve seis anos. Dos EUA voou para Portugal, para criar e dirigir um laboratório do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud. Consigo trouxe a mulher, Liad, israelita, e o filho Itamar, 2 anos e meio, nova-iorquino. A filha Sibel, 7 meses, já nasceu em Lisboa. A família vive em Belém e tem o Mosteiro dos Jerónimos como lugar de eleição. Já tinha estado em Portugal e gostou muito de Lisboa, mas foi o desafio profissional que o fez trocar Nova Iorque pela capital portuguesa. «Estou a montar um laboratório de investigação em que estudaremos como é que os circuitos neuronais participam em processos como a perceção sensorial ou a memória de trabalho e também coordeno o programa de doutoramento em Neurociências. Desde o ano passado que estamos a pôr em marcha entre todos o projeto de investigação da Fundação Champalimaud no Centre for the Unknown. É um trabalho intenso, mas muito gratificante, porque sentimos que estamos a participar na definição do caráter que a instituição terá no futuro.» O trabalho não lhe deixa muito tempo livre, mas o pouco que tem aproveita para conhecer a cidade com a família, sendo os jardins da Estrela e do Príncipe Real os escolhidos para passear com as crianças.

Também a Alfonso chama a atenção o facto de em Portugal as pessoas desfrutarem menos da rua. «Em Espanha saímos muito para a rua, quando o tempo permite, para passear, comer, beber uma cerveja. Cá dá-me a impressão de que as pessoas se recolhem mais. Os horários também são muito diferentes. Em Portugal são mais europeus.»

É estranho olharmos para nós através de outros olhos e sentirmo-nos quase ingleses, formais, rígidos nos horários, introvertidos e caseiros. Não é que Alfonso, como os outros espanhóis com quem falámos, não nos aprecie. Pelo contrário. Considera-nos muito agradáveis, sente que nos relacionamos muito correta e amavelmente com quem vem de fora, particularmente os espanhóis, verifica que falamos um inglês irrepreensível e não somos nada «chauvinistas», tanto que reconhece que, talvez por isso, o seu domínio da língua portuguesa, passado um ano e meio, «é bastante pobre». No entanto, define-nos como um pouco formais: «Não expressam as suas emoções tão abertamente como os espanhóis.»

Alfonso, que crê que a sociedade portuguesa é muito mais coesa do que a espanhola, já fez amigos portugueses, não só através do trabalho, mas também da escola do filho, aprecia o facto de não sermos muito nacionalistas e de admirarmos aqueles que se destacam por aquilo que fazem. Adora a comida, sobretudo o polvo, as lulas e as pataniscas de bacalhau, e apaixonou-se por Lisboa, que considera uma cidade linda. O que lhe faz mais falta é entender melhor «a cultura popular, as coisas mundanas de que as pessoas falam. Mas acho que para isso teria de viver aqui mais cinco anos e dominar muito melhor a língua. É isso que faz que sintas que pertences a um lugar.» Nada que não possa vir a acontecer, uma vez que Alfonso espera ficar cá por muito tempo: «O mais possível.»

Recuperar o espírito dos descobridores

Fala um português irrepreensível, mas à velocidade espanhola. Virgínia López, 32 anos, é a personificação da tal ideia de que a energia e a vivacidade se concentram muito mais do outro lado da fronteira. Nascida em Valladolid, a jornalista freelancer, correspondente do ElMundo e da Cadena Ser em Portugal, vive cá há nove anos, é casada com um português e tem um filho de 2 anos. O namoro com o nosso país, e com aquele que viria a ser o seu marido, começou em 2000, quando veio viver um ano para Lisboa ao abrigo do programa Erasmus. As suas escolhas tinham recaído em Bruxelas e Copenhaga, mas o destino trouxe-a à capital portuguesa. Ainda voltou a Madrid para terminar o curso de Jornalismo, mas acabaria por voltar, desta vez para ficar, em 2003. «Adorei Portugal e é tudo mais próximo, não só os países como a cultura. O facto de já namorar o meu atual marido também ajudou. Além disso, depois de ter vivido em Lisboa, Madrid parecia-me enorme.»

Diz que não é fácil vender notícias de Portugal a Espanha e considera que o seu trabalho é muito comparável ao de um embaixador do nosso país lá. «Vocês dão muito mais atenção ao que se passa em Espanha. Apesar de estarmos a aproximar-nos e de já não vivermos tanto de costas voltadas, ainda existe muito aquela ideia de que Portugal é o país pobre que está do outro lado da fronteira. O nosso trabalho é o de romper com essa ideia. A maioria dos correspondentes são freelancers e portanto os que ficam, como eu, é porque gostam tanto do país que já o sentem como seu.» Por estes dias, o trabalho de Virgínia será mais intenso, com a Cimeira Portugal/Espanha a decorrer, mas são as notícias da crise e das medidas de austeridade que têm levado ecos do nosso país à imprensa e à televisão espanholas. A jornalista, no entanto, prefere escrever sobre outras coisas. «Portugal é muito mais do que isso.»

O que é então? «Costumo dizer que como o flamenco simboliza o espírito espanhol, o fado simboliza o espírito português. Os espanhóis têm mais garra, falam mais alto, são mais extrovertidos, explodem mais, os portugueses são mais calmos, mais fechados.» A ideia repete-se. No início, Virgínia tinha muita dificuldade em lidar com essa bonomia, mas o tempo foi fazendo o seu trabalho. «Exasperava-me a burocracia e as filas e a passividade com que as pessoas lidavam com isso. Mas fui percebendo que tem o seu lado positivo. Como não explodem logo, têm uma capacidade muito maior de contornar as situações. Sinto que ao longo destes nove anos fiquei mais sossegada. O meu marido, pelo contrário, ficou mais vivo. Hoje reage muito mais fortemente às coisas. Acho que é no meio destas duas formas de ser que está a virtude: a calma portuguesa temperada q.b. com o picante espanhol.»

Outra ideia que se repete é a estranheza de as pessoas não passarem mais tempo na rua. Mas a análise da jornalista vai mais além: «Se calhar tem que ver com o próprio urbanismo, que não convida. Além dos postes no meio da rua, das calçadas irregulares, dos carros estacionados nos passeios, a maioria das pessoas não vive na cidade, vive em dormitórios que oferecem poucos motivos para sair.»

A adaptação que mais lhe custou fazer foi a dos horários. Em Espanha almoça-se e janta-se mais tarde do que em Portugal. Além disso, fazia-lhe imensa confusão aquela mania de ir beber café logo a seguir ao almoço em vez de ficar encostada no sofá. Sim, porque a história da sesta não é ficção. Os espanhóis gozam-na mesmo, sempre que podem. «Nas grandes cidades não, porque não dá tempo de ir a casa, mas nas pequenas sim. E, seja como for, encostamo-nos sempre um bocadinho depois do almoço, sobretudo ao fim de semana.»

Não se lembra de nenhum hábito que ache particularmente estranho entre os portugueses, mas continua a surpreendê-la o costume de tomar o pequeno-almoço fora e de comer queijo e fiambre nessa refeição. «Mesmo com a crise, as pessoas continuam a fazê-lo e, de certa forma, é positivo, porque quando tem de se abdicar até das pequenas coisas da vida, perde-se tudo. Na verdade, acho que já estou muito portuguesa.»

Não fosse pela velocidade e um ligeiro sotaque, passaria facilmente por tal. Pouco usual entre os nossos vizinhos, este domínio de uma língua estrangeira, sobretudo a portuguesa, mas Virgínia fez questão de aprender, logo quando veio fazer o Erasmus. «Quando cheguei, as pessoas falavam comigo em espanhol (ou portunhol) e eu é que pedia para não o fazerem para poder aprender. Os espanhóis, como são percebidos, muitas vezes não se esforçam, mas há muitos que não conseguem mesmo porque em Espanha é tudo dobrado. Podem passar a vida toda sem ter contacto com outras línguas. A minha mãe, por exemplo, por mais que se esforce, não consegue falar português.»

A balança do que gosta mais e menos está equilibrada: o sinal positivo é dado à hospitalidade e à tolerância - «quando acolhem uma pessoa acolhem mesmo, nunca me senti uma estrangeira, sempre me senti em casa. Os portugueses viajaram muito e contactaram com outras culturas e respeitaram-nas, mais do que os espanhóis». Já o negativo fica por conta do espírito derrotista - «detesto quando me dizem "isso é muito complicado" ou "isso não pode ser". Esse atirar a toalha e desistir sem sequer tentar tão português é o que mais me irrita, até porque já aprendi que em Portugal nunca é muito complicado e sempre pode ser, é preciso é encontrar um plano B e pô-lo em prática.»

E, na opinião de Virgínia López, o plano B passa por contrariarmos este nosso espírito de resignação e sacrifício e não ficarmos à espera de ser salvos por um qualquer D. Sebastião. «Os portugueses têm de tomar as rédeas do seu destino e do destino do país. Juntarem-se, serem empreendedores e lutarem. Têm de recuperar o espírito do Vasco da Gama e dos descobridores que conquistaram o mundo. Por isso é que gosto do Mourinho e do Cristiano Ronaldo. Chegaram mais longe. São conquistadores.»

Gostar do orgulho português

Manuel Moya, 52 anos, não vive em Portugal, fisicamente, mas muito do seu imaginário atravessou fronteiras há décadas. Escritor e tradutor de autores portugueses como Pessoa, Torga, Saramago, entre outros, lançou no mês passado o romance Cinzas de Abril, uma história de amor que tem como pano de fundo a revolução portuguesa. Nascido em Fuenteheridos, Huelva, perto da fronteira portuguesa, cedo se apaixonou pela cultura, a literatura e, consequentemente, a língua, que considera irmã da sua. «As diferenças são basicamente fonéticas. O português é nasal, húmido e atlântico, enquanto o castelhano é seco, vocal e plano.»

Era adolescente quando se deu o 25 de Abril de 1974, mas foi esse dia inicial, inteiro e limpo, nas palavras de Sophia, que lhe abriu as fronteiras: «Os miúdos espanhóis de então não sabiam nada de Portugal. Era um troço de mapa que aparecia vazio, desconcertantemente vazio, nas escolas espanholas, mas a partir desse 25 de Abril o mapa encheu-se de coisas. Não sabia que essas coisas eram esperanças.» Só o soube depois, ao seguir a evolução política do país vizinho que, no entanto, só visitaria aos 20 anos. Não tem dúvidas que sem a revolução portuguesa não teria existido a transição espanhola e que foi naquele dia que a ditadura franquista começou a dissolver-se. E, confessa, gostaria que também o seu país tivesse passado por uma revolução semelhante. «Creio, aliás, que é necessário outro 25 de Abril, tanto em Espanha como em Portugal, contra a ditadura do mercado.»

O que vê quando olha do outro lado da fronteira? «Um país com uma identidade muito própria, às vezes construída contra o inimigo ibérico, mas identidade ao fim e ao cabo. Comparando com Espanha, Portugal é unido e orgulhoso da sua história, enquanto nós maldizemos a nossa, não sei porquê. Os portugueses, por seu lado, são tipos que me caem quase sempre bem. Como vivo neste território ambíguo que é uma fronteira linguística e cultural, o trato tem sido sempre natural, franco e harmonioso. Gosto muito de ir a Portugal e volto lá com muita frequência.»

Chegado há pouco tempo das Correntes d'Escritas, importante encontro literário na Póvoa de Varzim, Manuel Moya continua maravilhado com o interesse das pessoas pela cultura e pela literatura, «algo inconcebível em Espanha», e surpreende-se sempre com a capacidade dos portugueses em aprenderem outras línguas. Entre as palavras portuguesas de que mais gosta estão luar, devagar, miúdo, barragem... «Os espanhóis estão fascinados com saudade, que é uma palavra muito bonita, mas menos do que luar.»

Apesar de ser um apaixonado pelo nosso país e não descartar a hipótese de um dia o escolher como morada - «Tavira ou Lisboa são talvez as cidades que elegeria. Tavira pela sua beleza, tranquilidade e a sua luz fantástica. Lisboa porque é uma cidade onde sempre me senti em casa» -, confessa que o irrita a nossa tendência para o formalismo excessivo e descobre-nos defeitos: «Um certo derrotismo, a sua classe dirigente e essa sensação tão portuguesa de que o pior sempre chegará de Espanha, o que não é certo, nem quase nunca o foi.» Talvez por isso conclua: «Depois de séculos a viver de costas voltadas, Espanha e Portugal começam a conhecer-se. Vivemos uma espécie de enamoramento interessante.»

CRONOLOGIA

Portugal-Espanha: nove séculos de cimeiras

A história mostra que não há nada mais falso do que o provérbio «de Espanha, nem bom vento nem bom casamento»: os arrufos só provam que portugueses e espanhóis partilham muito mais do que o chão da Península Ibérica.

TEXTO DE ROSA FERREIRA

Há quase mil anos, antes de Portugal nascer e muito, muito antes de Castela se ter tornado a potência hegemónica nas «Hespanhas», que os povos peninsulares estão «condenados» a entender-se - da melhor maneira, na maior parte das vezes. Exemplos não faltam, incluindo o costume de os pais fundadores da literatura portuguesa escreverem em espanhol, desde os sonetos de Camões (Amor loco, amor loco, Todo es poco lo posible, De dentro tengo mi mal e muitos outros) e os autos de Gil Vicente, a começar pelo primeiro, o Monólogo do Vaqueiro, escrito e representado em castelhano no palácio real português.

1096 - Afonso VI, «imperador das Hespanhas», dá a mão de sua filha D. Teresa a D. Henrique de Borgonha, bisneto do rei Roberto II de França, e com ela o Condado Portucalense.

1143 - Na cimeira («Conferência») de Zamora, Afonso VII de Leão e Castela reconhece o primo D. Afonso Henriques como rei de Portugal independente.

1297 - Pelo Tratado de Alcanizes, entre D. Dinis e Fernando IV, Castela reconhece as fronteiras de Portugal, que se mantêm praticamente inalteradas até hoje, com exceção de Olivença: são as mais antigas da Europa.

1340 - Cimeira entre D. Afonso IV e Afonso XI de Castela permite a formação (também com Aragão) de uma ampla frente comum cristã que na batalha do Salado derrota a última ofensiva islâmica na Península Ibérica, reforçada por invasores muçulmanos vindos de Marrocos.

1345-1355 - A seguir à morte de sua mulher, D. Constança Manuel, o príncipe herdeiro de Portugal, D. Pedro, assume a «união de facto» com a galega Inês de Castro, filha de um poderoso nobre envolvido nas lutas dinásticas em Castela. Para evitar que Portugal seja arrastado para o conflito, D. Afonso IV condena Inês à morte. D. Pedro, enlouquecido pela dor, põe o país a ferro e fogo. Os carrascos refugiam-se em território castelhano. Depois da morte do pai, D. Pedro I faz um acordo com o rei Pedro de Castela para obter a extradição dos assassinos de Inês e cobra a vingança com requintes de malvadez. Coincidência: na mesma época reinaram em Portugal e em Castela dois reis chamados Pedro e ambos ficaram para a História com o cognome de o Cruel.

1383 - Tratado de Salvaterra de Magos: depois de três derrotas sucessivas, D. Fernando desiste dos direitos à coroa castelhana e dá a filha, D. Beatriz, em casamento a Juan I de Castela. Segue-se a revolução de Lisboa e a guerra da independência que culmina com a vitória portuguesa em Aljubarrota.

1479 - Terçarias de Moura e Tratado de Alcáçovas: depois de uma guerra que terminou com a derrota portuguesa na batalha de Toro (1476), D. Afonso V faz as pazes com os reis católicos de Espanha (Isabel de Castela e Fernando de Aragão). É combinado o casamento do neto do rei português, o príncipe D. Afonso (filho do futuro D. João II), com a filha dos reis católicos, Isabel. Acabam por casar em 1490, mas D. Afonso morre de uma queda de um cavalo no ano seguinte, sem deixar sucessor.

1494 - Tratado de Tordesilhas divide o mundo por descobrir entre Portugal e Castela, com o acordo do papa Alexandre VI (Bórgia).

1498 - No ano em que Vasco da Gama chega à Índia, D. Manuel I e sua mulher D. Isabel (a viúva do príncipe D. Afonso, que entretanto se casara em segundas núpcias com o novo rei de Portugal) são reconhecidos nas cortes de Toledo como herdeiros da coroa de Castela. Mas as cortes de Aragão, que têm leis diferentes de Castela, recusam-se a aceitar a sucessão de D. Isabel: o trono tem de ir para um herdeiro masculino. Tudo parece resolvido com o nascimento do príncipe D. Miguel da Paz, filho dos reis de Portugal. Enquanto a mãe morre de parto, o pequeno D. Miguel fica herdeiro dos impérios português e espanhol... mas morre antes de completar 2 anos - e a coroa de Espanha acaba por ir parar ao futuro imperador Carlos V.

1576 - Encontro de Guadalupe. Nesta cimeira, D. Sebastião propõe ao seu primo Filipe II (filho de Carlos V, rei de Espanha e imperador da Alemanha, e de D. Isabel de Portugal) uma ofensiva conjunta contra os mouros de Marrocos. Filipe II recusa-se e tenta dissuadi-lo da aventura africana. Perante a teimosia de D. Sebastião, acaba por prometer ajudá-lo com homens e material: muitos espanhóis morreram ao lado dos portugueses na batalha de Alcácer-Quibir (1578).

1580 - Cortes de Tomar aclamam Filipe II de Espanha como Filipe I de Portugal. O novo rei promete manter as leis portuguesas e a autonomia da administração do reino e do império, para cujo governo se compromete a nomear exclusivamente portugueses. Promete (e cumpre) pagar o resgate de grande parte dos nobres portugueses cativos em Marrocos na sequência da derrota de Alcácer-Quibir.

Início do século XVII - Lobby português composto, entre outros, por militares (Luís Mendes de Vasconcelos), comerciantes (Duarte Gomes Solis) e intelectuais (Manuel de Faria e Sousa) ganha influência junto do rei espanhol. O sonho é convencer Filipe III (II de Portugal) a transferir a capital da monarquia luso-espanhola de Madrid para Lisboa, «os olhos da Europa».

1640 - Em resposta à política centralizadora do conde-duque de Olivares, primeiro-ministro de Filipe IV (III de Portugal), que pretende impor a hegemonia de Castela e a anexação pura e simples, uma conjura de nobres portugueses restaura a independência. A coroa é entregue ao duque de Bragança, D. João IV. A atitude da mulher, a espanhola D. Luísa de Gusmão, serviu para acabar com as hesitações do duque: «Antes morrer reinando que viver servindo», terá dito. Decisiva mesmo para o êxito da Restauração portuguesa foi a revolta da Catalunha, ocorrida pela mesma altura. Sem dinheiro nem exército para reprimir as duas insurreições, Filipe IV foi obrigado a escolher: preferiu atacar Barcelona. Quando, esmagados os catalães, voltou as atenções para Portugal, já D. João IV se preparara para a defesa e conseguira importantes apoios diplomáticos. A guerra prolongou-se até 1668, quando, pelo Tratado de Madrid, Espanha reconheceu a independência de Portugal.

1706 - Exército português comandado pelo marquês das Minas entra triunfante em Madrid durante a Guerra da Sucessão de Espanha e faz aclamar rei o candidato apoiado por Portugal, arquiduque Carlos da Áustria. Menos de um ano depois, os portugueses sofrem uma pesada derrota na batalha de Almansa e a coroa espanhola acaba por ir parar ao neto de Luís XIV de França, Filipe V, que inaugura a dinastia de Borbón (Bourbon) no país vizinho.

1762 - Durante a Guerra dos Sete Anos, a diplomacia espanhola pressiona Portugal para aderir ao «Pacto de Família», que reúne os países ligados por alianças matrimoniais à dinastia reinante em França e Espanha. D. José é casado com D. Mariana Vitória, uma Bourbon, mas Portugal é o mais velho aliado da Inglaterra, adversária dos franco-espanhóis. O governo do marquês de Pombal persiste em manter a neutralidade e o país é invadido: é a «Guerra Fantástica», que atinge sobretudo Trás-os-Montes. Fala-se pela primeira vez da hipótese de, em caso de necessidade, fazer sair a família real para o Brasil.

1801 - «Guerra das Laranjas». A Espanha de Carlos IV, governada por Godoy e apoiada pela França de Napoleão, ataca Portugal, aliado da Inglaterra, e conquista Olivença. Apesar das reviravoltas militares e diplomáticas posteriores, com destaque para o Congresso de Viena de 1815, que reconheceu a soberania de Portugal sobre a cidade e o território vizinho, a Espanha não devolveu Olivença.

1807 - Invasão de Portugal por um exército francês, a quem a Espanha deu passagem. A família real portuguesa, incluindo a rainha louca D. Maria I e o príncipe regente D. João (futuro D. João VI), foge para o Brasil. Tumultos em Espanha: o rei Carlos IV é obrigado a abdicar pelo filho Fernando VII. Mas Napoleão chama os dois a Bayonne, «convida-os» a renunciar e prende-os no castelo daquela cidade na fronteira franco-espanhola. Depois entrega a coroa de Espanha ao seu próprio irmão, José Bonaparte. No Brasil, D. Carlota Joaquina, mulher de D. João VI de Portugal, filha de Carlos IV e irmã de Fernando VII, tenta, sem êxito, tornar-se rainha das colónias espanholas da América do Sul.

1812 - Em plena guerra contra os invasores franceses, a Espanha resistente reúne em Cádis representantes do país e do império e aprova uma Constituição liberal. É a primeira experiência constitucional na Península Ibérica e vai ter influência determinante em Portugal.

1820 - Revoluções liberais em Espanha (janeiro) e em Portugal (agosto). No ano seguinte, o rei D. João VI, a rainha D. Carlota Joaquina e o infante D. Miguel regressam a Lisboa e em 1822 é aprovada a primeira Constituição portuguesa, muito inspirada pela espanhola de 1812.

1823 - Contrarrevolução em Portugal (Vilafrancada, em maio) e em Espanha (intervenção francesa que derruba o governo liberal, em agosto). O regime constitucional é suspenso e o absolutismo regressa aos dois países.

1833 - Fernando VII «converte-se» ao liberalismo às portas da morte para garantir a sucessão à sua filha, Isabel II, ameaçada pelos «ultras» do absolutismo, partidários do irmão do rei, o infante D. Carlos: início das guerras carlistas em Espanha.

1834 - O ex-rei D. Pedro IV de Portugal e ex-imperador do Brasil ganha a guerra civil para os liberais e coloca no trono em Lisboa a sua filha D. Maria II como rainha constitucional. As campanhas do «exército libertador» foram financiadas pelo comerciante espanhol Juan de Mendizábal.

1847 - Intervenção do exército espanhol em Portugal, a pedido do governo cartista (direita liberal), para dominar a revolta da Patuleia (que se seguiu à Maria da Fonte).

1868 - Na sequência da revolução que expulsou de Madrid a rainha Isabel II, o novo poder oferece a coroa de Espanha a D. Fernando II de Portugal (viúvo de D. Maria II e pai do rei D. Luís I). Prudente e avisado, o «rei-artista» recusa, apesar da moda iberista que, nas últimas décadas do século xix, vai atrair seguidores entre alguma elite intelectual e as novas tendências socialistas e anarquistas.

1908-1916 - Afonso XIII de Espanha, que vinha acalentando o sonho da hegemonia ibérica desde o regicídio de D. Carlos e D. Luís Filipe, manobra no sentido de uma intervenção face à instabilidade da República portuguesa proclamada em 1910. Mas não se atreve a agir perante a intransigência britânica que, apesar de não ver com bons olhos os jacobinos no poder em Lisboa, considera inadmissível qualquer interferência. A entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial ao lado dos Aliados acaba definitivamente com qualquer pretensão do género.

1942 - Cimeira de Sevilha entre Salazar e Franco. A vitória nacionalista na guerra civil de 1936-1939 deveu muito ao apoio do regime português mas, em plena euforia alemã na Segunda Guerra Mundial, o franquismo agigantou-se. O germanófilo Serrano Suñer, ministro dos Negócios Estrangeiros e cunhado do caudilho, estava no auge do seu poder - e, desde o início do conflito, soprava ideias de hegemonia castelhanista ao ouvido do generalíssimo, contra a real ou suposta influência britânica junto do governo de Lisboa. No entanto, com a invasão da URSS no ano anterior, Hitler tinha posto no congelador o «Plano Félix» para a invasão da Península com o objetivo de tomar Gibraltar. E Franco estava agora mais preocupado com a eventualidade de uma invasão dos Açores pelos aliados. Por isso preferiu insistir junto de Salazar na necessidade de um acordo de defesa recíproco em caso de ataque (inglês). Mas Salazar, moita carrasco - só aceitou o «Bloco Peninsular» em dezembro desse ano, depois de o desembarque americano no Norte de África ter selado o destino da guerra. Ou seja, quando já era pouco mais que simbólico. A evolução do conflito e o instinto de sobrevivência de Franco ditaram a queda em desgraça de Serrano. Nos anos que vieram a seguir, a guerra fria foi o «abono de família» dos dois regimes autoritários peninsulares, como demonstrou a cimeira de 1949, quando Franco veio a Lisboa.

1975 - A 27 de setembro, a execução dos bascos Garmendia e Otaegui pelo regime de Franco (o caudilho já estava agonizante no hospital onde morreria dois meses mais tarde) provocou uma onda de protestos. Em Lisboa, onde a revolução estava ao rubro, militantes de extrema-esquerda invadiram e saquearam a embaixada, na Praça de Espanha, perante a passividade da polícia e da tropa. Nos dias seguintes, a Divisão Blindada Brunete, unidade de elite do exército espanhol, veio para junto da fronteira portuguesa, em manobras. O governo de Lisboa apressou-se a apresentar desculpas e prontificou-se a pagar os estragos. Os tanques da Brunete regressaram à base.

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