«Porto e Gaia são um todo»

Acha que o Porto e Gaia precisam de mais pontes. Mas uma maior aproximação não é sinónimo de fusão, que se arrisca, diz, a gerar uma «polémica interminável». Das que bem conhece sempre que faz uma obra pública. O arquiteto mais famoso, prémio Pritzker, tem, apesar de tudo, pouca obra no Porto, a sua cidade. As encomendas que não surgem aqui, chegam por estes dias do Extremo Oriente.

Da janela do seu atelier desfrutamos de uma magnífica vista sobre o Porto, o Douro e Gaia. Tem havido discussão sobre as vantagens da fusão entre os dois concelhos. É uma hipótese que vale a pena discutir?

_É preciso saber se as pessoas estão interessadas, perceber se aceitam a fusão ou se isso vai dar mais uma polémica interminável. Porto e Gaia são um todo, mas um todo que também inclui Matosinhos, Maia, Gondomar. O Porto é uma região metropolitana que abrange várias cidades.

Porto e Gaia teriam a ganhar com a fusão?

_Não sei responder. O que acho é que ainda há um sentimento muito forte de autonomia entre as populações das duas cidades, embora já não tenha a mesma intensidade de há uns anos. Hoje é diferente. Basta pensar que grande parte da população ativa do Porto vive em Gaia.

Esteve associado, enquanto arquiteto, ao projeto de duas novas pontes entre o Porto e Gaia. Uma para o TGV e a outra para o metro do Porto. As duas cidades precisam de mais pontes, ainda que a próxima fase do metro fique na gaveta?

_Não fazer o metro é o pior de tudo. Foi projetada uma linha que percorria a Avenida da Boavista até Rotunda e que ligaria depois à Baixa. O projeto foi suspenso quando houve uma mudança política. Fiz esse trabalho com o arquiteto Souto de Moura, a convite dele. Alegou-se que era um disparate, que as pessoas da Boavista têm dinheiro, não usariam o metro. Mas aquela linha também serviria para ligar a Matosinhos, uma vez que a atual [Senhora da Hora/Trindade] está a rebentar pelas costuras. A linha da Boavista era muito importante e seguramente rentável. Surgiu depois a ideia de fazer essa ligação pelo Campo Alegre, mas teria de ser subterrânea, ou seja, o custo por quilómetro seria cinco vezes maior e cada estação custaria vinte vezes mais. Resultado, não se faz nem uma nem outra.

Voltaremos ao metro. Ainda no que respeita a novas pontes no Douro, Luís Filipe Menezes, no que parece ser uma espécie de corrida pré-eleitoral para a Câmara do Porto, já deu conta do seu compromisso de avançar com uma série de pontes e um túnel entre as duas marginais marítimas. Isto faz sentido?

_As pontes fazem todo o sentido, a ligação subterrânea não. Gosto pouco, a não ser quando é indispensável, de andar por baixo de terra. Já basta quando tiver de ir para lá...

Comparou o custo de fazer o metro à superfície e enterrado, argumentando que subterrâneo é muito caro. Mas também projetou estações de metro enterradas, nos Aliados e em São Bento, e foram muito caras. Não houve algum exagero?

_O Eduardo Souto de Moura tinha uma proposta para trazer a linha à superfície, mas a solução não foi aceite. Todas essas decisões deram lugar a polémicas intermináveis, mas as estações estão feitas.

Fugiu à pergunta. Não concorda que se tenha gasto dinheiro a mais nas estações enterradas?

_Fazer um metro subterrâneo é sempre mais caro. E foi uma decisão que nem sequer corresponde ao que pretendia fazer o projetista [Souto de Moura]. Em relação às estações, não estou de acordo.

Um dos argumentos recorrentes dos que criticam a obra do metro do Porto tem que ver com o montante da dívida: é uma fatura de 2,5 mil milhões de euros, que o Estado não assume. Surpreende-o que as coisas tenham chegado a este ponto?

_Em aspetos desses nada me deixa surpreendido. Independentemente de quem tem de pagar, ouvi outro tipo de críticas. Mas construir o metro foi um benefício enorme para a cidade. As intervenções feitas no espaço público transformaram a cidade e abriram perspetivas novas na cidade e para a cidade.

Há projetos do metro que começaram mas não terminaram. O que pensa quando passa pela Boavista e vê o troço final da avenida com ar de obra inacabada?

_Conheço muito bem o tema da obra inacabada, muito mais do que gostaria...

A sua obra no Porto suscita sempre grandes paixões. Há os que o veneram e há os que argumentam que o que faz não é o que a cidade precisa. A controvérsia gera-lhe desconforto?

_Olho para isso de forma natural, nunca pretendi estar acima da crítica. Mau sinal seria passar por absolutamente irrelevante. Mas não pode haver assim tantas críticas, porque tenho muito pouco trabalho no Porto.

Disse um dia que o Porto não gostava de si.

_Eu disse isso?

Disse...

_Não me lembro de ter dito isso.

Estaria a referir-se à Câmara do Porto?

_Conheci muitos presidentes ao longo da minha vida profissional. Não tenho um carimbo para os autarcas que passaram pela Câmara do Porto...

Mas quando diz que tem poucos projetos no Porto...

_É verdade, não tenho muitos projetos no Porto como não tenho muitos projetos em Matosinhos.

Essas são as suas cidades...

_Haverá razões para isso, não tenho de me queixar do assunto nem de me sentir perseguido.

Sendo um arquiteto do Porto, da Escola do Porto, seria natural que tivesse mais obras no Porto, tal como em Matosinhos, que é a sua cidade de origem.

_Talvez, mas não é nada de excecional que os arquitetos de uma cidade tenham mais trabalhos noutras cidades.

É o seu caso, apesar da sua dimensão enquanto arquiteto.

_A minha dimensão é de um metro e setenta. Estava a pensar no Corbusier que, em França, não conseguia fazer nada. Teve de ir para o Brasil, para a Argélia, para a Índia, e depois lá conseguiu fazer o bloco de Marselha, que aliás foi contestadíssimo.

O seu projeto para a Avenida dos Aliados previa a passagem de elétricos, como provam os carris que lá permanecem...

_É como diz o brasileiro, casa e descasa. Primeiro, achava-se que o elétrico perturbava o trânsito, fora com o elétrico. Depois, veio outra moda a dizer que afinal não prejudicava, resolveu voltar-se aos elétricos, mas com muito pouca perseverança e ação.

... fez-se o plano, fez-se a obra e puseram-se os carris, mas não servem para nada. Não acha natural que, com tanto desperdício, alguma da irritação dos cidadãos acabe por recair no arquiteto?

_Claro que é natural. Estou a lembrar-me, aliás, de outro exemplo lamentável que tem que ver com o programa de renovação de escolas. Decidiram colocar caixilharia fixa, mas quando as escolas começaram a receber a conta da eletricidade perceberam que não tinham dinheiro para a pagar e desligaram o ar condicionado. Vão ter de voltar a fazer obras, para mudar a caixilharia e poderem abrir as janelas. E por causa disso ouvi dizer mal dos arquitetos, que é onde a culpa cai quando os há... Mas a caixilharia fixa era uma imposição do programa.

Outro excesso de que se fala no que às escolas diz respeito é do uso de candeeiros desenhados por si.

_Só ouvi falar disso uma vez, e a despropósito. Não fiz nenhum projeto de renovação de escolas, mas o que posso dizer sobre esses candeeiros é que até são baratos.

Há muita demagogia nessa discussão?

_A maior parte da minha da atividade profissional respeita à habitação social, económica. Em Portugal e lá fora. Se há coisa a que estou habituado é a apertar o cinto.

Voltando aos Aliados, a praça está frequentemente transformada numa espécie de feira, com tendas de plástico e outro tipo de adereços. O que pensa disso?

_Isso significa que há atividade nos Aliados, o que é bom. Mas é tudo muito mal feito. Uma barracada. Mas quando se fala dos Aliados é sobretudo para dizer que é muito triste, que não tem flores... É um fenómeno muito interessante, porque as pessoas vão de férias, as que podem, vão a Roma, a Paris, visitam todas aquelas praças e dizem maravilhas. Algumas nem uma árvore têm, já para não falar de flores! As praças importantes no tecido de uma cidade são salas de reunião da grande família que pode ser considerada a população da cidade, e portanto são para pisar.

Ainda fica triste quando vai à Baixa do Porto?

_Não sou eu que fico triste, é toda a gente. A tristeza na Baixa reside na falta de população. Há ruas inteiras vazias. E há uns esforços, condenados a não resultar, para animar a cidade. É uma ideia que detesto, não se animam as cidades, animam-se as pessoas. E faltam pessoas.

A animação da Baixa não está a resultar?

_Estou a pensar no que se passa nas noites de fins de semana, com uma série de concertos. Normalmente à sexta-feira, que é quando vêm os galegos, até às seis da manhã. Isso só serve para afastar as poucas pessoas que ainda habitam na Baixa. Não é por aí. Com a Avenida dos Aliados é a mesma coisa. Quando estiverem habitados aqueles magníficos prédios, haverá vida.

Que período lhe agradou mais enquanto arquiteto e cidadão: o consulado de Fernando Gomes, em que a cidade fervilhava de projetos, que custaram muito dinheiro, provavelmente mais do que aquele que havia; ou a presidência de Rui Rio, um período de maior contenção, com uma gestão contabilística?

_São facetas diferentes. Rui Rio tinha no seu programa, desde o início e de forma claríssima, que queria pôr as finanças em ordem. E concentrou-se nesse trabalho.

Nessa altura ainda ninguém dizia que o país tinha as finanças em desordem.

_Que era assim nas câmaras já se sabia. E os arquitetos melhor do que ninguém, porque fazem projetos para as câmaras e...

Não recebem...

_Não recebem. Foi a opção de Rui Rio e isso fez pouco. E teve uma relação agressiva com certas instituições. Na fase anterior, houve dinheiro mal gasto, mas também se fez obra de qualidade e interesse para a cidade. Mas ainda relativamente a Rui Rio, há uma coisa que ele fez e que não é muito mediática: fez muito trabalho de recuperação de habitação económica. Um trabalho muito meritório, ainda que não seja um trabalho brilhante...

Quer dizer, não é um trabalho que dê nas vistas?

_Bem, dá nas vistas de quem lá mora, de certeza absoluta.

Ao apostar nesse espírito de maior contenção, Rui Rio teve razão antes do tempo? O espírito do país, hoje, é esse em todo o lado.

_Ao menos no Porto a austeridade foi aplicada por alguém em quem votámos, portanto, em próximas eleições, podemos emendar e escolher outra direção. É melhor do que a ditadura em que hoje vivemos no país, em que nem sequer sabemos quem é o ditador. Nós votamos, mas na altura devida chega a ordem para fazer assim e assado. Isso é que é preocupante.

Uma das mais recentes e mediáticas decisões de Rui Rio aconteceu aqui ao lado do seu gabinete. Assistiu à implosão da torre do Aleixo?

_Não assisti porque estava fora. Mas até tinha interesse em ver, pelo prodígio técnico. Não tinha prazer por outras razões. Destruir é sempre mau.

Rui Rio foi acusado de estar a afastar os pobres para dar mais tarde lugar aos ricos.

_Não sei o que está no seu espírito. Sei que há um projeto, embora nunca o tenha visto, para construir no Aleixo e é evidente que se trata de um negócio apetitoso, porque é um sítio extraordinário da cidade.

Será um negócio condenável, se for para conseguir dinheiro, que não há, para resolver o problema das pessoas noutro sítio?

_Não é condenável nesse aspeto, mas, mais uma vez, é um problema de medida. Ouvi por estes dias uma notícia segundo a qual, em Inglaterra, baixaram os impostos aos ricos para evitar a fuga de capitais. E temos esse exemplo em Portugal. As empresas vão para outros sítios onde pagam menos. É a lógica do capitalismo. Mudar isso é um parto muito difícil. Acho que já começaram os trabalhos de parto, mas vão ser seguramente muito longos.

Acha que a mudança está em curso?

_A mudança não está em curso. A evidência da necessidade de mudança está. É uma questão de tomar consciência dos problemas. É o primeiro espasmo.

Há pouco referiu-se à limitação da nossa liberdade de escolha. A uma ditadura em que não conhecemos sequer o ditador. Estava a referir-se a quem?

_À troika. Ao FMI. É uma evidência.

A receita que Portugal está a adotar é a mais indicada?

_Lá está, é uma questão de medida. Quem sou eu para falar de remédios? Mas posso dizer, em termos gerais, que se está matar o doente com a cura. Mas qual será a forma de atingir o equilíbrio? Estão os políticos todos, os economistas, os prémios Nobel, todos a tentar encontrar uma solução...

Mário Soares defendeu recentemente que devíamos denunciar o acordo com a troika. Concorda?

_É uma daquelas coisas que apetece... Mas não sei quais seriam as consequências. Está a pedir-me uma opinião, mas seria instintiva, de acordo com o que observo. Não seria uma opinião fundamentada.

Faria sentido recuperar os princípios e os processos do projeto Saal [construção da cooperativa de habitação social no período que se seguiu à Revolução do 25 de Abril] num momento em que as pessoas estão a entregar as casas aos bancos?

_Isso é uma coisa horrível, as pessoas entregarem a casa e ainda por cima continuarem a pagar. Ouço dizer que as pessoas gastaram mais do que podiam. E se sair da boca da senhora Merkel, é porque fomos loucos, preguiçosos, inconscientes. Mas é preciso lembrar que as pessoas recebiam convites pelo telefone para contrair empréstimos. Havia um impulso geral a que as pessoas individualmente não conseguiam resistir, havia uma corrente de otimismo absoluto, de euforia. Concentrar agora culpas e críticas em determinadas pessoas, determinadas famílias, determinados povos, é miopia absoluta. Tal como dizer que os portugueses não trabalham. Trabalham mais horas do que os alemães e os franceses. E construíram muitas cidades nesses países.

Voltando ao Porto e a uma pergunta simples, qual é o seu sítio de eleição na cidade?

_Ui... não é uma pergunta simples, é complicadíssima.

Um sítio onde goste de estar.

_Bem.. um é aqui no atelier, outro em casa.

Para além desses...

_Todo o centro da cidade, e toda a paisagem do Porto vista de longe é maravilhosa.

Costuma desenhá-la?

_Não muito, tenho-a sempre sob os olhos. Terei um ou outro desenho, mas poucos, não vou muito para a rua.

Qual é o edifício mais interessante do Porto?

_Os melhores edifícios da cidade, e tenho pena de dizer isto, são os antigos. O barroco do Porto é maravilhoso. Na arquitetura contemporânea, há coisas boas e outras más.

Dê-nos dois ou três exemplos do barroco.

_Há mil. A Torre dos Clérigos, a Misericórdia, o Palácio do Freixo, o Paço do Bispo... Mas também há boa arquitetura, ainda que cada vez menos, dos anos 1920 e 1930. Essa geração teve um maior contacto com o mundo do que os que vieram depois.

Entre as suas primeiras obras estão a Piscina das Marés e a Casa de Chá da Boa Nova, ambas em Leça da Palmeira e num estado lamentável. A Câmara de Matosinhos tem feito o que deve para as preservar?

_Não tem. Fui chamado para fazer a recuperação da Casa de Chá da Boa Nova. Tudo o que era cobre, por exemplo, desapareceu. Está num estado desgraçado. Praticamente não ia lá, era incómodo ver os móveis todos partidos. Tudo muito mau.

Porque se deixou chegar esses edifícios ao estado em que estão?

_É um problema geral no nosso país e a começar pela obra pública. Em Portugal perdeu-se o hábito da manutenção, fosse nas famílias mais modestas fosse no Estado. Por exemplo, a Faculdade de Arquitetura do Porto [outro projeto de Siza] deve ter vinte anos, mas nunca levou uma pintura.

Voltando à Casa de Chá da Boa Nova, houve um problema com a construção de um bar de praia dentro da zona de proteção do edifício, que está classificado, o que obrigou à intervenção do Igespar. O problema está ultrapassado?

_Não está e é um assunto lamentável. As nossas praias estão a ser loteadas e privatizadas, cada um constrói um restaurante supostamente desmontável, que nunca se desmonta. Na Boa Nova foi permitido mais um. O que é estranho é que a câmara sabe que é uma zona classificada, sabe que não se pode fazer nada sem consultar o Igespar...

Para além da Piscina das Marés e da Casa de Chá da Boa Nova, foi também o autor do projeto da marginal de Leça da Palmeira, onde estão estes dois edifícios. Mas também aqui o seu projeto foi contestado. Chegou a argumentar-se que, com o seu projeto, Leça deixou cair a Palmeira...

_Esse é um tema muito engraçado. Sabem porque se chama Leça da Palmeira?

Não era por ter palmeiras, presumo...

_É porque havia ali um núcleo religioso, na dependência do Mosteiro de Leça do Balio, onde estavam os palmeiros, termo que depois se efeminou para Leça da Palmeira. Há alguns anos, realmente, plantaram palmeiras. Quando me cruzei com o autarca da altura disse-lhe que achava uma enormidade, mas que não faria grande mal, porque iam morrer. Foi o que aconteceu.

Já foi várias vezes anunciada, pela Câmara de Matosinhos, a Casa da Arquitetura, um edifício que seria projetado por si. Uma Casa onde seria reunido o seu espólio e o de outros arquitetos da Escola do Porto. Até já foram mostradas imagens, mas a obra não aparece.

_Não vejo que haja vontade de a executar. Se houvesse, o projeto teria sido candidatado ao financiamento do QREN [fundos comunitários] e não foi.

Mas se a Casa da Arquitetura não avança, o que pode acontecer ao seu espólio?

_Há mais arquivos. Não são é em Portugal. Sei que está em formação um projeto alternativo. É uma coisa que acontece sempre em Portugal, quando surge um projeto público, aparecem logo outros ao lado com o mesmo propósito. Mas não está em causa o meu espólio e sim o espólio da arquitetura portuguesa, fundamental para as próximas gerações. A arquitetura é um contínuo. Cada geração depende da geração anterior.

Mas esse património, não indo para a Casa da Arquitetura de Matosinhos, pode ir para onde? Isso não o preocupa?

_Preocupa-me mais eu mesmo do que o meu espólio...

Está a ser modesto...

_Não é uma questão de modéstia. Pode ir para fora do país, por exemplo.

Esse desinteresse pelo legado dos arquitetos não é coerente com a defesa da importância da Escola do Porto.

_Isso são histórias.

Não existe uma Escola do Porto?

_A Escola do Porto é um corpo docente de qualidade que trabalha num edifício. Não estendo a Escola do Porto mais longe do que isso.

Como é que a arquitetura pode contribuir para um uso mais racional dos escassos recursos disponíveis?

_Nesta altura não há como poupar. Não há trabalho e, não havendo, não há onde poupar. Há muitos gabinetes a fechar, ou a despedir gente.

Já despediu colaboradores?

_Dispensei alguns colaboradores. A dimensão do atelier não garantia trabalho para tantos.

A necessidade de poupar levará a uma arquitetura de menor qualidade?

_A qualidade da arquitetura não depende de ser cara ou barata. Depende só de ser bem feita. No exercício da profissão, já havia uma crise anterior à atual crise económica. Houve medidas em relação ao exercício da profissão que puseram em causa a qualidade.

O senhor arquiteto não é barato.

_Nunca levei mais do que a tabela que existia e que estava longe ser exagerada. E continuei a pedir honorários de acordo com essa tabela. Antes, um arquiteto que não levasse à tabela era chamado à comissão de ética da Ordem dos Arquitetos e penalizado. Hoje não há comissão e ética também há pouca.

O mercado de trabalho da arquitetura é bastante precário.

_Sabe quantas escolas de arquitetura há em Portugal? São 32! Sabe quantas há em Espanha? São 32! E os espanhóis queixam-se que é de mais, apesar de serem cinco vezes maiores do que nós. Sabe quantos arquitetos se estavam a formar por ano? Dois mil!

Em que é que o prémio Pritzker [uma espécie de Nobel da Arquitetura] mudou a sua vida?

_Deu-me satisfação, mas não mudou a minha vida.

Não trouxe clientes novos?

_Trouxe o acesso a trabalho sobretudo fora de Portugal. Nesse aspeto mudou a minha vida, que passou a ser mais cansativa. Fazer um projeto fora não é a mesma coisa que fazer em casa.

Tem tido muitas encomendas no Extremo Oriente.

_Não diria muitas, mas ainda bem que as tenho, senão estaria atrapalhado. Acabei agora uma obra na Coreia do Sul e tenho um projeto na China, outro no Japão e um outro em Taiwan.

A construção em altura não é uma das particularidades da sua obra...

_Não construo muito em altura porque não me dão oportunidade.

Se lhe dessem essa oportunidade, onde gostaria, no Porto, de construir um arranha-céus?

_Já construi um em Roterdão, uma torre com 45 pisos.

No Porto onde haveria lugar para um edifício desses?

_Espaço há muito. Não digo que se deva fazer uma torre na Rua da Fábrica, mas o território é muito vasto e não tenho nada contra as torres. Quando as casas são baixinhas, os espaços podem ser mais apertados, quando as casas são altas tem de se alargar, senão sufoca-se. Cheguei a fazer um estudo prévio para umas torres em Alcântara, Lisboa.

Que também originaram grande polémica!

_Não deram polémica nenhuma. Foi feita uma apresentação e, no dia seguinte, gente que não viu o projeto começou logo a dizer que nem pensar. Houve um erro estratégico da parte do promotor. Eu preveni, mas insistiram em fazer uma apresentação aos políticos. Foram os políticos da maioria, da oposição ninguém apareceu. O projeto estava condenado ao insucesso.

É uma referência para os estudantes de Arquitetura. E as suas referências quais foram?

_Tive sorte. Quando entrei para a então Faculdade de Belas-Artes, houve uma mudança no corpo docente, entrou como diretor o arquiteto Carlos Ramos, que chamou uma série de jovens arquitetos: por exemplo, o Fernando Távora, um amigo que ficou para a vida e passou a ser um companheiro de trabalho.

E referências externas?

_Havia pouquíssima informação, isto era um país isolado. Ainda não havia internet... Quando comecei, a referência quase exclusiva era o Corbusier.

Há um traço caraterístico na sua arquitetura, a simplicidade, a luz...

_Havia um arquiteto americano que dizia que sem luz não há nada.

A igreja de Marco de Canaveses, ao contrário de outros templos, é um espaço invadido pela luz...

_Sim, tem a ver com os novos conceitos do espaço sagrado aprovados no Concílio do Vaticano II.

O padre que lhe encomendou essa igreja já não é padre.

_Não, já não é. Sem o Nuno Higino não se teria feito a igreja do Marco. É muito difícil encontrar quem, por convicção ou receio, não se deixe condicionar pela imagem tradicional.

Pode fazer-se uma igreja sem acreditar em Deus?

_Eu ainda não lhe disse se acredito ou não...

E também não lhe perguntámos...

_O projeto de uma igreja tem as dificuldades e exigências de qualquer outro. Tanto faço uma igreja como um quartel de bombeiros. Aliás, estou a terminar um.

Qual é o projeto a que está a dedicar mais tempo?

_Talvez o da China. As histórias da China são sempre extraordinárias, vou fazer um museu da Bauhaus. É numa cidade que fica a uma hora a norte de Xangai, com sete milhões de habitantes. A cidade comprou a um alemão, e ofereceu à universidade, uma riquíssima coleção de artigos da Bauhaus.

O que faz quando não está a trabalhar?

_Não tenho uma vida social muito intensa. Não sei se é um defeito, mas sou um viciado em televisão. Depois de um dia de trabalho, cansado, a melhor solução é ir para casa ou para casa de pessoas amigas.

É conhecido por ser um desenhador compulsivo.

_Compulsivo não, mas gosto muito de desenhar.

E a escultura?

_De vez em quando.

Onde estão as suas esculturas?

_Sei lá. Há uma em Madrid, outra na Coreia... Em Portugal acho que não tenho nenhuma.

O governo pôs à venda o Pavilhão de Portugal.

_Está à venda? Nem sabia...

A quem poderá servir aquele edifício?

_Serve para tudo porque não serve para nada. Foi feito sem ter um programa. Tanto poderia ser para escritórios como para um museu. Depois do fecho da Expo'98, fiz o projeto de organização interior para ser usado como sede do governo, mas o governo mudou entretanto e o seguinte desistiu. Isso caiu, a Parque Expo também caiu. Acho que está condenado, mas nem sequer dá uma bela ruína, essas são em edifícios de pedra...

Mas não o perturba que ninguém consiga encontrar-lhe um destino?

_Chateia, mas que posso fazer? Pôr um cartaz a dizer: aluguem o Pavilhão de Portugal? Encontrarão alguma solução. Pode não ser nos meus dias, seguirei lá de cima...

Afinal, acredita em Deus!

[Risos]

Vive numa casa desenhada por si?

_A minha casa foi desenhada pelo Eduardo Souto de Moura. Como achava que seria muito mau cliente não aceitei fazê-la eu.

Últimas notícias

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • NM
Pub
Pub