Pilar com (e sem) Saramago

O amor deles foi tardio, apaixonado, visível, até ostensivo. Mas depois da morte do marido, Pilar del Río tomou em mãos a memória de José Saramago. E quase se esqueceu de si. Neste encontro, responde a todas as questões: qual a sua influência na obra do marido e no Nobel, se gostava de ter tido um filho dele, porque abandonou a religião. Agora a sua vida vai girar em torno da abertura, em breve, da Fundação que vai funcionar na Casa dos Bicos, em Lisboa.

Pilar está num quarto de hotel, a meio de um dia de agenda cheia. Amplo, mas fora de moda, só o portátil de Pilar marca a modernidade desta divisão. O dossel faria rir José, pela sua falsa imponência, folhos, almofadas cor de rosa. Se fosse um livro distrairia o leitor do essencial. Pilar não usou a cama por muitas horas. Não consegue dormir muito tempo de seguida. Prefere levantar-se e ficar ao computador. Mas não está com papos ou olheiras. Na sua face, não se contam os anos facilmente. Não que use toques femininos para disfarçar os anos - coisa pouco habitual em mulheres nascidas e criadas em Espanha. Pilar só não perdoa o batonzinho nos lábios, que põe como um tique.

Pilar del Río não para por um minuto sequer desde que José desapareceu. Nem era preciso conversar com ela para confirmar o espírito de missão em divulgar a obra e esquecer-se da sua própria vida. Bastava ouvir o que dizem os conhecidos, amigos e escritores - muitos invejosos - sobre a sua indomável atitude em manter José sempre no primeiro lugar do pódio. Não é por acaso que os seus colaboradores, em Lanzarote e Lisboa, ficam de língua de fora cada vez que Pilar aterra no espaço saramaguiano. É habitual que os telefones de artistas, literatos ou políticos de todas as áreas toquem constantemente para serem convidados a marcar presença na longa lista de iniciativas que Pilar cria em torno do escritor. Há sempre um nome sonante que vai aparecer; um grupo coral que dará o sentido musical que José apreciava; a declamação e a invocação de uma personagem esquecida pelo tempo mas que o casal considerava importante voltar a pôr na praça pública. Qualquer pretexto serve a Pilar de justificação para divulgar a obra e o pensamento de José Saramago. É a recordação do seu nascimento, da morte, de uma data redonda sobre um livro ou até o romance guardado na gaveta durante mais de cinco décadas, após ter sido ignorado pela editora até ao reconhecimento internacional de um sucesso literário que acabaria num Prémio Nobel.

Curiosamente, sem José, Pilar adotou Portugal para viver a maior parte do tempo. Pediu que lhe fosse concedida a nacionalidade portuguesa e faz questão de pagar os altos impostos sobre os direitos de autor nas finanças nacionais. Mas deixou de tentar falar a língua portuguesa por considerar uma estupidez arranhar um portunhol em vez de fluir corretamente na sua língua mãe. Nem ao participar no programa de Herman José se inibiu de espanholar, veloz e prolixamente. Como é seu hábito.

Quando não está ninguém por perto é impossível não haver lágrimas. Ao pequeno almoço, disfarça a voz embargada com o pedido de um café com leche, depois de se ter apercebido como a oliveira que cobre as cinzas do marido parecia estar a morrer, desgosto que a fazia ao mesmo tempo soluçar e irritar. Numa leitura pessoal do romance inédito, escrito num tempo em que a futura mulher era ainda bebé. No quarto com o dossel, esperava-se um encontro mais técnico e desapaixonado. Coisa impossível de acontecer, quando a pergunta que se coloca é tão estúpida - como necessária - e posta sem rodeios: como é Pilar sem José?

Colocar aos portugueses uma imagem de Pilar del Río diferente daquela que lhe foi colada ainda é difícil. Afinal, ela defendia-o a duzentos por cento e, depois de morto, subiu a parada para um valor indefinido, de modo a não deixar esquecer o Nobel. Os que se irritavam com a palavra dura do escritor em vida ainda têm dificuldade em ver a sua mulher receber a chave da Casa dos Bicos para a levantar das próprias cinzas. E, já agora, das que estão enfiadas ali à frente, entre as pazadas de terra trazida da ilha onde José podia ter ficado se não fosse a determinação de Pilar em o devolver à beira Tejo. «Eu gostaria que o sítio onde estão os restos de Saramago estivesse muito cuidado. Se houver uma beata no chão que alguém a recolha! Espero que os lisboetas assumam como património este desejo. Porque Saramago queria ficar em Lanzarote, no jardim de casa e debaixo de uma pedra negra. E eu forcei a história, porque era português, foi português sempre e pagou muito caro o facto de ser português. Tinha de ficar em Portugal, com terra de Lanzarote e connosco ao lado. Também é verdade que devia estar onde eu estivesse e, se vou estar em Lisboa, não o quero longe. Se queriam a Casa dos Bicos para outro nome mais universal - só me ocorreu o de Sá Carneiro - que me digam, porque para mim a Casa dos Bicos vai ser um presente envenenado.»

Quando Pilar se deita, já de madrugada, fá-lo após ler os e-mails recebidos, confirmar se a frase que escolheu do romance Claraboia está inserida no site da Fundação, ver os comentários enviados, responder e atualizar a agenda. Em Gijón como em Lanzarote ou Lisboa. Há constantes solicitações para eventos que celebram o escritor em todo o planeta. «Fui sete vezes à América no último ano.» Diz que a razão destes pedidos não é Pilar del Río, mas a obra do português. Por isso Pilar se levanta pelas seis da manhã, incapaz de continuar a dormir, levanta-se e repete a rotina. Só assim se acha capaz de manter a emoção e o ritmo, como se entende do que revela sem ferir a sua intimidade. «Fizemos o luto juntos e preparámo-nos para o momento em que um dos dois faltasse. Todos os temas estavam sobre a mesa e acostumámo-nos à ideia de que poderíamos viver um sem o outro... E, se calhar, tomo muitos comprimidos.»

Se tudo o que o casal fazia era polémico, agora o fardo parece ser maior. Ao pintar a casa de Lisboa de outra cor, Pilar soube que a vizinhança questionou o novo tom, mesmo obedecendo ao padrão da paleta que caracteriza o bairro do Arco do Cego. A casa não deixou de ter vida social após a morte, há sempre visitas da Fundação a receber e participantes de iniciativas com quem conversar, para além das visitas da família grande de 15 irmãos. Pilar não tem medo que lhe chamem viúva alegre. Em Lanzarote também era assim, casa cheia, mesmo quando José mantinha o seu olhar sisudo, sentado no sofá da sua preferência, a observar o mundo. «Era frequente termos amigos em casa, não só espanhóis, pois passaram por lá muitos portugueses. Carlos do Carmo, Mário Soares, Fernando Tordo... Nos últimos tempos, foi o Cláudio Magris, Mário Vargas Llosa... Na minha casa estiveram Bernardo Bertolucci, Pedro Almodóvar, Eduardo Galeano, Ernesto Sabato, Torrente Ballester... Quando chegava uma invasão de escritores, cantores, músicos, realizadores ou atores, Saramago ficava imerso e dizia sempre "isto não pode estar a acontecer-me" de tão surpreendido.»

Na véspera da celebração do 89.º aniversário do escritor, um dos que lá estiveram uma vez recordou no Cinema São Jorge as palavras de Saramago. O cantor espanhol Luis Pastor que, num desses encontros, descobriu na poesia do escritor os versos para fazer um disco inteiro. Depois de cantar as primeiras canções, acompanhado de um cavaquinho que competia com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, fez questão de referir a ordem de Saramago para cantar em português correto. Pastor assim o fez e, para aperfeiçoar o canto, ouviu repetidas vezes a gravação onde o escritor lia os seus próprios poemas. Com o rosto numa posição muito caraterística, Pilar, sentada na assistência, ouvia e sorria a cada verso.

A casa de Lanzarote mantém-se aberta e quem lá vai pode beber um café Delta oferecido pelo comendador Nabeiro, ver parte da residência do casal e a biblioteca por inteiro. Pilar garante que continua a sentir-se acompanhada na biblioteca, agora pelos livros e pelas memórias do que lá aconteceu. «Voltei a pôr tudo no sítio como era antes da doença e esforço-me por suportar o custo de uma aventura falida, porque manter sozinha sete postos de trabalho apenas para mostrar o espólio de Saramago é tarefa quase impossível. Estou a fazê-lo, por quanto tempo não sei.»

De Lanzarote sairão em breve vários dos caixotes que para lá foram por ocasião do episódio de censura a um concurso europeu do livro Evangelho Segundo Jesus Cristo, no governo de Cavaco Silva. Esse é um tema de que Pilar não quer falar, mesmo que faça no próximo dia 25 de Abril vinte anos sobre as declarações do subsecretário de Estado da Cultura Sousa Lara contra a inclusão do romance na lista de candidatos ao Prémio Literário Europeu. A justificação do governante foi sucinta: «Porque não representa Portugal.» A partir desse momento, faz agora exatamente vinte anos, iniciou-se o exílio em Lanzarote que Saramago nunca assumiu como tal.

Regressarão a Lisboa todos os livros das edições mundiais de José Saramago e muitos documentos originais para serem postos à consulta. Aqueles entre os quais se descobriram muitos dos dactiloscritos e manuscritos - esquecidos pelo escritor - que provavam uma constante tentativa de manter uma atividade literária. Quanto ao projeto de passar a livro muita correspondência enviada pelos leitores, ainda não sabe o que acontecerá. «De momento ainda estamos muito perplexos e quase não estamos feitos com a ideia da morte. Mas as cartas estão todas guardadas e espero que se organizem e que alguém venha que as trabalhe.»

Para se saber quem é Pilar del Río para além do mito, o melhor é interrogar quem a conhece bem. José Sucena é o administrador delegado da Fundação, ainda escolhido pelo escritor, que elege a frase «Saramago não está morto enquanto a Pilar for viva», para responder logo à primeira pergunta sobre o que mudou nesta mulher. «Talvez tenha mudado a sua preocupação com Saramago, que agora é fazer que a figura pública não se apague.» Sucena diz que Pilar «mantém uma vida familiar e pessoal intensa sem descurar nada e só espero que sem ela, num dia muito distante, a Fundação tenha pessoas capazes de continuar o seu exemplo». Se se lhe pergunta qual é a principal caraterística da presidenta, demora uns segundos a encontrar as palavras exatas: «Tenacidade e teimosia.»

Chega a hora de fazer uma pergunta incómoda a Pilar: o que lhe faltou viver com José? «Fizeram falta dez anos.» Outra pergunta sem jeito. Gostaria de ter tido um filho com ele? «Não», diz rápido, como se essa questão não fosse importante. Em seguida, acrescenta: «É igual.» Para finalmente concretizar: «Eu queria mais tempo com ele. Quanto aos filhos, a maternidade e a paternidade, aprendi com o Saramago o seu significado. Dizia que tudo são invenções culturais, inclusivamente a morte.» Em falta ficou, irá dizer depois, tempo de vida com José Saramago: «Fizemos a biblioteca para nos sentarmos e ler, para conversar e passar tardes juntos. Prometeu-me que não se metia em mais nenhum projeto literário e que iríamos ficar a desfrutar da nossa casa e da ilha.»

Pouco antes, durante uma conversa com o escritor Luis Sepúlveda e duas centenas de jovens de Gijón, Pilar referira que traduzir era um trabalho muito feminino e de mulher. Porquê esta afirmação? «As mulheres têm mais paciência.» Continua: «Dizer que Nabokov faz uma tradução magnífica do Guerra e Paz de Tolstói não é estranho porque era o escritor que era. Saramago fez umas traduções estupendas e maravilhosas, o que não era estranho também pelo facto de ser o escritor que era. Mas os homens têm um momento em que querem fazer a sua obra e aí não continuam a traduzir. As grandes tradutoras que conheci continuam a fazê-lo até ao último dia da sua vida.»

Nos primeiros meses deste ano, Pilar esteve a traduzir Claraboia para a língua espanhola. Foi a primeira vez que não teve o marido para esclarecer alguma dúvida, situação que nem sempre corria muito bem porque detestava quando José se punha a olhar para a tradução atrás das suas costas ou reclamava pela falta de palavras na outra língua ibérica. E ela, cara-metade, detetou erros na obra do escritor enquanto traduzia? «Não, nunca. Só uma vez é que lhe disse que o atendedor automático do telefone não podia funcionar se não houvesse energia. Ele contrariou-me; dizia que o telefone não tinha nada que ver com a luz, e eu teimei. Não, o telefone pode tocar mas sem energia não funciona o atendedor automático. Ele também teimou e, então, desliguei o quadro elétrico e fiz-lhe a prova. Foi a minha única intervenção numa obra de Saramago, que o obrigou a modificar um capítulo do Todos os Nomes!» Mas o caso não foi assim tão fácil de resolver, recorda Pilar: «Manteve que havia luz porque era importante ouvir a voz da mulher.»

A atividade editorial no que respeita à obra de José Saramago continua a passar pela sua editora de sempre, a Caminho, onde publica desde a peça de teatro A Noite e o primeiro romance que marca o estilo do Nobel, o Levantado do Chão. O editor Zeferino Coelho garante que a relação dele com Pilar é semelhante à que existia com o próprio autor. «É boa e de confiança, mesmo que não estejamos sempre de acordo. É natural que queira sempre mais promoção em cada livro e exija que a obra tenha o máximo de difusão possível, o que é um desejo comum.» Confessa que Pilar tem «um pouco mais de intervenção» nas questões editoriais, fruto de «uma militância constante», e que o que faz «é canalizar o rumo da pressão» na direção que acha mais certa. O verbo militar ainda é utilizado segunda vez pelo editor, ao definir Pilar «como uma militante seja em que causa for porque é a sua atitude na vida». Quanto às vendas dos livros, refere que a morte do autor não as interrompeu e que «os números em Portugal continuam bastante elevados», tal como a aquisição de direitos para muitos países.

A prestação internacional de José Saramago está em muito por conta da sua agente, Nicole Witt, que aponta o sucesso nos Estados Unidos ou até dos livros de poemas na Alemanha, bem como de vários títulos no Clube do Leitor dinamarquês ou em países que vão desde a Coreia do Sul até à Itália. Considera que a obra «vai permanecer porque são long-sellers com muito para dizer aos jovens». Nicole Witt afirma que a atividade da Fundação é fundamental porque «o marketing é o motor da venda de livros e é sempre preciso ajuda na divulgação da obra e do autor».

E é isso que a «presidenta», como faz questão de se chamar Pilar, faz até à exaustão, conseguindo iniciar a semana num festival de literatura em Espanha, a meio promover o novo romance e no final dessa semana embarcar para Nova Iorque e participar numa homenagem a Saramago no Museum of Modern Art (MoMA). Nos Estados Unidos, onde a obra do Nobel tem tido uma repercussão excecional, foi editado há poucas semanas o romance Caim, que, refere Pilar, serve de barómetro para a leitura futura da obra do marido. Tal como na Alemanha, país onde não esperava uma resposta tão positiva ao livro A Viagem do Elefante. Pilar diz que os alemães estão a adorar o livro devido ao seu caráter de «aventura cultural europeia» e, quando se recorda o estado de doença em que Saramago o acabou, logo recorda que «o livro tinha sido escrito num estado de bom humor e de prazer, daí esse sentimento de felicidade superior à morte».

Pilar ainda é uma mulher nova. Terá projetos pessoais de vida... «Não sei, agora estou tão preocupada com a Fundação, com a Casa dos Bicos, com a casa de Lanzarote e com a tradução que se há coisa que não me preocupa sou eu.» Mas, e os seus sentimentos? «Tenho, tenho. E estão todos nos assuntos que já disse. Tenho amigas que me dizem "não podes ter esta vida", mas de momento sou uma militante de Saramago e não vejo outra coisa à frente. Dentro de uns meses logo pensarei se tenho vida ou se me resta vida, logo veremos.»

Quando se pede a opinião a Pilar sobre se vai conseguir manter a chama da obra viva, não há hesitações na resposta, apesar de revelar uma consciência inesperada sobre o efeito da morte na divulgação da obra para quem a conhece: «Penso que os leitores vão continuar a ler Saramago. Penso que dentro de algum tempo vai-se referir pouco e, provavelmente, passará por uma etapa de esquecimento. Penso que depois voltará, porque Saramago é Saramago. Penso que a atenção que me dispensam é sensacional mas tudo voltará ao lugar e o único que predominará será Saramago, como predominou sempre e só.»

Agora que não existe Saramago para personificar a divulgação dos seus próprios livros, é obrigatório esclarecer a acusação de que Pilar obrigava o escritor a correr mais mundo do que a saúde do escritor permitia. Pilar recusa violentamente essa posição. «Eu nunca o desafiei! Podia dizer "vamos fazer a apresentação na Azinhaga" e ele responder: "Aí não, já não conheço ninguém lá." Ele era sempre muito "não"... Eu dizia "vamos fazer a apresentação no São Carlos" e ele logo: "Não, Pilar, o São Carlos é muito grande e não vai aparecer ninguém." Ou "vamos ao Teatro Colón, em Buenos Aires", e lá repetia: "Ai, já viste que são precisas quatro mil pessoas?" E depois, quando apresentou A Caverna, o teatro ficou a abarrotar, com tantas pessoas na rua como dentro. Tudo lhe parecia sempre muito! Mas não eram desafios, eram decisões que tomávamos, os editores e eu, e que ele sempre achava que era demasiado na dimensão. Mas, no final, estava sempre contente e feliz. Era a humildade pessoal que lhe era própria, mas que eu não tinha de aceitar como norma, senão ficávamos em espaços para oitenta pessoas. A minha obrigação, e dos editores, era apontar alto e depois logo se veria como ficava.»

Passados uns minutos, faz-se a questão sobre um dos mitos em torno de Pilar e de como a sua fé inicial chocaria com a atitude antirreligião de José. Pilar foi freira? «Teresiana. Não era exatamente freira nem, como dizia Vargas Llosa que era mais romântico, estive em clausura. Digo sempre que passei da caridade teresiana à solidariedade humana e quando conheci Saramago já estava no patamar da solidariedade. Era militante de esquerda, estava com Leonard Boff [teólogo da libertação brasileiro], com o Vaticano II, com João XXIII e Paulo VI, um intelectual magnífico até certa altura, e essa parte da vida não me magoou nada. Nem foi bem um abandonar. Perguntaram-me: "Estás empenhada em viver uma vida que não te faz feliz?" E eu pensei que se não era feliz não era a minha vida. Portanto, não fui eu quem a abandonou, mas é a mesma coisa porque para mim a caridade é um primeiro passo mas não é o definitivo.»

Quem conhece bem Pilar dos tempos de jovem é a sua amiga Lola Cintado, que há trinta anos cruzou com ela a vida e estava presente no momento em que nasceu a paixão de Pilar por José. Conta que o grupo de amigas estava na livraria Repiso, do livreiro Antonio, quando Pilar viu o Memorial do Convento: «Leu e gostou muito. Ofereceu um exemplar a cada amiga do círculo mais íntimo e depois quis conhecer Saramago. "Tenho de conhecer este homem", repetia Pilar. Ia viver uma história de amor. Não de um modo romântico como nos filmes, mas adulta.» Recorda que «Pilar era a mais velha do grupo e que estava sempre a dar a mão a quem precisava de ajuda» e descreve-a como uma «mulher valente». Pergunta-se-lhe se será capaz de viver sem José Saramago? «É preciso ser muito valente para viver sem ele, mas se José morreu Saramago não, e tem muito trabalho pela frente na Fundação.»

Dias mais tarde, o diretor do Jornal de Letras, José Carlos Vasconcelos, dirá de Pilar, que estava ao seu lado, num encontro público a seguinte frase: «A fundamental companheira.» Não será por acaso que faz essa consideração, que justifica a pergunta fatal. Saramago só ganhou o Prémio Nobel por causa dos conhecimentos de Pilar del Río? «Isso é um disparate porque ninguém influencia o Prémio Nobel. A Academia leu a obra de Saramago em vários idiomas, como fazem sempre, e quando publicou Todos os Nomes já estava mais ou menos decidido que o Nobel seria para ele. Sei, porque me disseram os académicos, que foram ler o livro e consideraram que o novo romance não desmerecia os anteriores.»

Vinte anos sobre o veto do Evangelho de Saramago

Soube-se do veto de Sousa Lara ao romance Evangelho Segundo Jesus Cristo, para integrar a lista ao Prémio Literário Europeu, em pleno dia 25 de Abril de 1992. O subsecretário defendeu que a sua atitude «nada tem que ver com estratégias de venda, nem sequer com opções literárias. E muito menos com as escolhas políticas de Saramago». Para o governante, o Evangelho tinha o seguinte problema: «A obra atacou princípios que têm que ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os.» Entre as muitas reações, esteve a do próprio Saramago, que afirmou ao jornal italiano La Stampa o seguinte comentário: «A Inquisição regressou a Portugal.» E acrescentava: «Sousa Lara tem na cabeça o Tribunal do Santo Ofício. Ele não condena o autor à morte, mas reduz a possibilidade de vida do próprio livro, o que é também um ato inquisitorial.» Em Portugal, referiu ao jornal A Capital: «Se tivesse vivido no século xvii não escapava da fogueira.» Mas o que mais lamentou foi o momento em que se soube da decisão do governo de Cavaco Silva: «Trata-se de uma triste coincidência o facto de a exclusão do Evangelho ter sido conhecido no dia 25 de Abril, Dia da Liberdade.»

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