Peripécias do fundador de Portugal

Quando o conde D. Henrique morreu, faz este ano nove séculos, o condado portucalense era apenas mais um domínio senhorial entre centenas na Europa feudal. Mas passados poucos anos, a sua capital, Guimarães, converteu-se na cidade-berço de um novo reino independente. Para lá dos mitos, D. Afonso Henriques deu provas de bravura guerreira, de capacidade de liderança política e sagacidade diplomática. Portugal é disso testemunha.

Passados mais de novecentos anos sobre o nascimento de D. Afonso Henriques [1109-1185], a vida do primeiro rei de Portugal continua cheia de mistérios por desvendar e mitos por esclarecer. De uma coisa, ao menos, não há dúvida: cresceu em Guimarães, foi aí que tomou as rédeas do poder que conduziu à fundação da nacionalidade e foi daí que partiu, com os cavaleiros minhotos, para alargar as fronteiras do Condado Portucalense - território que haveria de formar o núcleo de Portugal independente.

Mesmo às portas de Guimarães ocorreu o que está na origem de um dos mitos mais arreigados da História de Portugal: a batalha de São Mamede, a 24 de junho de 1128. O mito foi o filho ter batido na mãe, o que nunca aconteceu mas que por alguma razão foi contado/inventado pelos monges crúzios autores da IV Crónica Breve de Santa Cruz de Coimbra.

Filho do conde D. Henrique, nobre borgonhês bisneto de um rei de França, e de D. Teresa, bastarda de Afonso VI de Leão e Castela, D. Afonso Henriques tinha 19 anos quando tomou as rédeas do governo do Condado Portucalense, após ter derrotado os fiéis de sua mãe na batalha de São Mamede. A seguir ao combate, os documentos oficiais da chancelaria de D. Afonso Henriques passaram a exibir uma espécie de selo com uma cruz e a palavra Portugal, embora a independência do novo reino só viesse a ser reconhecida muitos anos depois: pelo rei Afonso VII de Leão em 1143 e pelo papa Alexandre III em 1179.

Apoiado pelos nobres de Entre Douro e Minho, o jovem guerreiro afirmou a sua autoridade em sucessivas vitórias sobre leoneses e muçulmanos, mas logo de início sobre os apoiantes de sua mãe. Viúva do conde D. Henrique de Borgonha, D. Teresa teve um papel político ativo raro naquele tempo - e malvisto, sobretudo pelos clérigos. Além de defender os seus domínios, atacados pelas ofensivas dos mouros, D. Teresa contestou a sucessão da irmã Urraca (Afonso VI morreu em 1109, por altura do nascimento do seu neto D. Afonso Henriques, deixando como rainha a filha legítima) e opôs-se de armas na mão ao arcebispo Diego Gelmírez, apostado em impor o primado da diocese galega de Santiago de Compostela à portucalense de Braga.

Nessa luta D. Teresa teve como aliada uma fação da nobreza da Galiza que se opunha a Gelmírez, encabeçada pelo conde Pedro Froilaz de Trava. A condessa portucalense tornou-se amante dos dois filhos do nobre galego: primeiro de Bermudo Pérez de Trava e depois de Fernão Pérez de Trava, com quem viveu e de quem teve duas filhas. Em 1121, Bermudo casou-se com uma filha de D. Teresa, Urraca Henriques, irmã de D. Afonso Henriques. O relacionamento posterior da rainha (título usado por D. Teresa, por ser filha de rei) com Fernão Pérez de Trava, casado com uma dama galega, suscitou a condenação do clero - mas há relatos que mostram que terá sido aceite pela sociedade portucalense: um documento de finais do século xii usa as expressões coniux e viro meo (cônjuge e meu homem) para falar do matrimónio entre D. Teresa e Fernão Pérez.

São Mamede

A influência e o poder dos Trava, designadamente de Fernão Pérez, no território portucalense desagradou aos ricos-homens (alta nobreza) de Entre Douro e Minho, que conspiraram para afastar D. Teresa. Chefiou-os na revolta o jovem D. Afonso Henriques, que em 1125, aos 14 anos, se teria armado a si mesmo cavaleiro em Zamora - relato que o historiador José Mattoso considera pouco verosímil. O facto é que já em São Mamede D. Afonso se fazia chamar infante ou príncipe pelos nobres minhotos. E quis expulsar a mãe e os Trava porque eram um obstáculo à sua vontade de poder.

Na batalha de São Mamede surgiu um dos mais persistentes mitos da História de Portugal: o do filho que bateu na mãe. Depois do combate, o vitorioso D. Afonso teria mandado prender D. Teresa em condições que esta descreveu assim, na versão transcrita pela IV Crónica Breve de Santa Cruz: «Afonso Anriques, meu filho, prendestes-me e metestes-me em ferros, e deserdastes-me da terra que me leixou meu padre, e quitastes-me de o marido; rogo a Deus que preso sejades, assi como eu sou, e porque me metestes nos meus pés ferros, quebrantadas sejam as tuas pernas com ferros. E mande Deus que se compra esto.»

A praga assenta que nem uma luva aos factos ocorridos trinta anos depois, em 1158, quando D. Afonso Henriques, já rei de Portugal, estava a cercar Badajoz, a praça mais importante do ocidente da Península em poder dos mouros almóadas. O rei e o seu cabo de guerra Geraldo Sem Pavor tinham passado as muralhas e obrigado os sitiados a refugiarem-se na alcáçova. Os mouros apelaram à guerra santa e mandaram socorros de Sevilha. E do Norte, da hoje fronteiriça Alcântara, vieram tropas de Fernando II, rei de Leão, em apoio... dos muçulmanos. Os portugueses foram apanhados entre dois fogos e D. Afonso Henriques, ao fugir, partiu uma perna contra um ferrolho de um portão. Preso, o rei português teve de jurar ao rei de Leão (seu futuro genro) que renunciava às terras a norte do rio Minho, antes de ser libertado e curar a perna nas termas de São Pedro do Sul.

Na verdade, em São Mamede a derrota da mãe saldou-se por uma retirada em segurança para as terras dos Trava, em Límia, na Galiza, onde D. Teresa morreu em 1130. Antes disso, Fernão Pérez regressou em paz aos domínios de D. Afonso Henriques, para confirmar doações e fazer ofertas à Igreja. Afinal, nem o filho bateu na mãe nem ficou zangado com o padrasto. Porquê então a insistência na mentira? José Mattoso atribui a criação do mito a uma tentativa de explicação freudiana da tomada do poder por D. Afonso Henriques.

Mas há outros mitos sobre o primeiro rei que revelam interesse em valorizar o papel da nobreza do Minho na fundação de Portugal. Trata-se de episódios em que D. Afonso Henriques aparece repetidamente numa posição de fraqueza e que, segundo Mattoso, se explicam por uma vontade de sublinhar a dependência do rei em relação aos nobres.

Um desses episódios ocorre no próprio dia da batalha de São Mamede. No início do combate, a sorte das armas foi adversa para D. Afonso, ao ponto de ter sido obrigado a fugir. Quando já ia a uma légua de Guimarães encontrou um dos seus ricos-homens, com quem desabafou: «Venho mui mal»... para logo ouvir a reprimenda: «Nom fezestes siso, que à batalha fostes sem mim, mas tornade-vos comigo e prenderemos vosso padrasto e vossa madre co ele.»

O menino das pernas tortas

Outra lenda conta que D. Afonso Henriques nasceu tolheito - com as pernas tortas ou atrofiadas -, para grande mágoa de seu pai: na sociedade medieval, qualquer defeito físico que incapacitasse um homem para a atividade guerreira condenava-o, à partida, à morte política. Apesar disso, o rico-homem Egas Moniz ofereceu-se para ser aio do menino. Uma noite, a Virgem Maria apareceu-lhe em sonhos e disse-lhe que levasse o pequeno Afonso à igreja de Cárquere (Resende, perto de Lamego) e o deitasse no altar. Egas Moniz assim fez e o menino curou-se, por milagre. Esta lenda deu lugar a outra, menos miraculosa: o aio teria trocado o filho do conde D. Henrique por um filho seu, bastardo mas com as pernas saudáveis.

De corda ao pescoço

O mesmo Egas Moniz foi protagonista de outro episódio lendário que ilustra o seu ascendente sobre D. Afonso Henriques: a história segundo a qual se foi apresentar ao rei Afonso VII de Leão, acompanhado pela mulher e pelos filhos, todos com um baraço ao pescoço. Iam prontos para o sacrifício porque o jovem príncipe faltara à palavra dada por Egas Moniz, que tinha garantido a submissão do amo em troca do levantamento do cerco a Guimarães, em 1127. Todas estas histórias têm um objetivo comum: destinam-se a «dourar os brasões» das grandes famílias aristocráticas, descendentes dos ricos-homens de Entre Douro e Minho.

E há ainda outro grande mito fundador da nacionalidade construído à volta de um êxito militar inquestionável: a batalha de Ourique, travada em 1139, em local até hoje desconhecido.Os historiadores continuam divididos entre várias localidades do centro e do sul de Portugal (incluindo Lisboa). Um dos estudos mais recentes do historiador Miguel Gomes Martins, especialista em história militar medieval, localiza a batalha de Ourique no Baixo Alentejo, na sequência de um fossado (expedição prolongada de uma força poderosa com o objetivo de atacar um inimigo distante) à Andaluzia, lançado a partir de Coimbra. A vitória de D. Afonso Henriques sobre os muçulmanos do rei Esmar ficou a dever-se à superioridade tática da cavalaria pesada dos cristãos.

Mas segundo a lenda, a vitória teve origem divina: pouco antes da batalha, D. Afonso Henriques foi visitado por um velho que já tinha visto em sonhos e que lhe garantiu o triunfo porque Deus iria interceder por ele. O velho disse que D. Afonso Henriques deveria sair sozinho do acampamento mal ouvisse a sineta da ermida onde ele vivia. D. Afonso Henriques assim fez e foi surpreendido por um raio de luz que lhe mostrou o sinal da cruz e Jesus crucificado. D. Afonso Henriques ajoelhou-se e ouviu a voz de Cristo que lhe disse que iria vencer aquela e outras batalhas. No dia seguinte, com a alma cheia de coragem e fé, venceu os reis mouros no campo de Ourique.

Durante séculos foi aceite que, na sequência dessa vitória contra cinco reis mouros, os nobres portugueses aclamaram rei D. Afonso Henriques. Na verdade, como sublinha o historiador Joaquim Veríssimo Serrão, diplomas posteriores continuaram a referir-se-lhe como príncipe ou infante. Foi este o famoso milagre forjado no início do século xv pelos monges de Santa Cruz de Coimbra, durante a guerra da independência contra Castela. Trata-se de um período crucial para a afirmação da identidade nacional: Portugal tinha na sua origem uma batalha com intervenção divina. Só em meados do século xix a investigação positivista de Alexandre Herculano deitou por terra o mito, mas não sem dar origem a uma acesa polémica.

O que não é mito são os resultados bem concretos da bravura, da capacidade de liderança e sagacidade diplomática que consagraram D. Afonso Henriques como cabo de guerra e chefe político - que lhe permitiram ser rei durante mais de cinquenta anos e fundador de um país independente há quase nove séculos.

Guimarães, cidade-berço?

Mas, afinal, onde nasceu D. Afonso Henriques? Ninguém sabe ao certo e é difícil que alguém venha a descobrir uma prova irrefutável, uma certidão de nascimento datada de 1109...

Guimarães, sede do Condado Portucalense, corte de D. Henrique e de D. Teresa, centro do poder conquistado por D. Afonso Henriques na batalha de São Mamede, tem direito incontestável ao título de cidade-berço - de Portugal. Quanto ao berço de D. Afonso Henriques, os estudiosos dividem-se. Alguns, como Freitas do Amaral, seguem a tradição e defendem Guimarães. Outros, como o medievalista Torquato de Sousa Soares, avançaram com a hipótese de Coimbra. Em 1993, no livro Viseu, Agosto de 1109 - Nasce D. Afonso Henriques, o investigador Almeida Fernandes sustentou, com base em documentos quase contemporâneos, que D. Teresa passou em Viseu a maior parte de 1109, o ano do nascimento de D. Afonso. Na sua recente biografia do primeiro rei, o historiador José Mattoso diz que «a demonstração feita por Almeida Fernandes alcança verosimilhança suficiente para se admitir como possível, ou mesmo a mais provável, até que outras provas sejam apresentadas em contrário».

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