Os novos agricultores

Foi um repto político e é uma tendência que está a crescer. Todos os dias, em Portugal, são aprovados novos projetos de investimento a jovens agricultores. Fomos conhecer cinco deles, que largaram os empregos e, com a crise, decidiram dedicar-se à agricultura. Um regresso à terra, na esperança de que a terra lhes devolva o esforço.

Alexandra Machado

De engenheira agrónoma a agricultora

Esteve para ser veterinária mas, como não entrou no curso, optou por ser engenheira agrónoma, vertente zootécnica. Quando acabou a licenciatura, Alexandra Machado, hoje com 34 anos, trabalhou alguns meses com cavalos, depois fez teledeteção (ver se as superfícies foram cultivadas ou não), trabalhou num laboratório de saúde animal e segurança alimentar, geriu uma quinta de enoturismo (Quinta do Vallado), fez uma pós-graduação em Enologia, deu várias formações na Católica, na Sincor, na Confagri.

Mas em maio do ano passado deu a última formação. Depois dessa, mais nada. O marido, com as mesmas habilitações, também tinha apenas trabalhos ocasionais. Entretanto, nasceu-lhes uma filha. Já não podiam pensar só em si nem em conformar-se com vencimentos esporádicos. Tinham de arranjar uma solução. Se calhar era mesmo desta que iam meter mãos a um projeto agrícola: «Já há dois anos que refletíamos nisso. Já tínhamos pensado em criar porcos bísaros, caracóis, já tínhamos pensado produzir cogumelos, vinha... decidimo-nos por mirtilos.»

Foi então que falaram com um amigo, que está a criar uma rede de pequenos produtores de frutos, e que lhes garantiu o escoamento do mirtilo: «Vai ser tudo para exportação, sobretudo para os países nórdicos.»

Alexandra e o marido vivem em Celorico de Basto e encontraram um terreno para arrendar, depois de uma busca que durou ano e meio. Descobriram-no por acaso, três hectares de terra ali tão perto, e foi uma alegria quando o viram e quando o senhor que desvenda se os terrenos são fartos em água chegou, de varinha numa mão e molho de chaves na outra, a dizer que sim, confirmava-se: ali havia água que era uma beleza.

O projeto foi entregue há pouco tempo no Proder e agora aguardam a aprovação (porque o Proder financia sessenta por cento a fundo perdido): «Lemos muito sobre o mirtilo e estamos a pensar plantar em outubro. Vamos comprar as plantas com dois anos e só daqui a dois é que dão fruto. Até lá? Vamos vivendo da generosidade dos pais... O meu pai, que é técnico agrícola, ficou receoso de nos termos metido nisto. Ele sabe bem o que é. Mas nós temos de arriscar. E quando andámos a tratar de tudo no Proder percebemos que há muita gente a virar-se para a agricultura, para a terra. Os empregos estão saturados, não há mercado para toda a gente. A agricultura é difícil mas possível. Tem-se um terreno, cultiva-se, colhe-se, vende-se. O nosso projeto é muito modesto, não dá para ficarmos ricos. Preferimos pensar nas coisas com calma para não perdermos tudo. Passo a passo. Grão a grão.»

Mirtilo a mirtilo. Serão cerca de três mil plantas, com uma colheita por ano. Espera-se que seja uma boa colheita, que dê para viver os restantes 365 dias. Eles acreditam. Agora só falta começar.

José Mendonça

De vendedor de gelados a produtor de laranjas

Primeiro, foram os gelados. Vinte anos de gelados. José Mendonça, 47 anos, trabalhou duas décadas no departamento de vendas da Olá. Foi crescendo dentro da empresa, até ficar responsável por toda a área do Algarve e Alentejo.

Depois, veio a crise. Primeiro devagarinho, como se chegasse com pezinhos de lã. Mas José percebeu. Percebeu que a vida, tal como a conhecia, estava prestes a mudar. Talvez para sempre. Lentamente, as empresas dentro da empresa começaram a juntar-se, a fundir-se e, claro, a deixarem de precisar de tantos funcionários, tanta força de trabalho. As rescisões amigáveis não se fizeram esperar. E José Mendonça preferiu aproveitar a onda. Antes sair a bem, com algum dinheiro, do que ficar a assistir ao fim de um tempo dourado e feliz. E, assim, em abril de 2007, disse adeus à empresa dos gelados e olá a uma nova vida.

A seguir, Angola. O irmão já lá estava, a viver o sonho angolano, e rasgou-lhe elogios e sonhos, como castelos no ar. Fez mais do que isso. Arranjou-lhe lugar como gerente de vendas na Caterpillar. Bom salário, boas perspetivas, quem sabe quase enriquecer para depois voltar. Mas não. José Mendonça ficou cinco meses, ainda sem a mulher e os filhos, mas percebeu que não era lugar para a família. «As casas, mesmo as novas, têm a qualidade de barracas. Saneamento básico é mentira. A escola... benza-te Deus. A saúde idem. Os preços são exorbitantes. A renda de uma casa pequena ronda os 3500 dólares. Só enriquece quem ganha fortunas. E, claro, a corrupção. Um branco não pode andar de carro durante o dia. A polícia vê que é branco e está sempre a mandar parar e a estender a mão, para receber a nota. Não dava para mim.»

E é assim que chegamos à terceira parte da sua vida. Uma espécie de terceiro capítulo, terceiro ato. Porque primeiro foram os gelados. Depois foram as minas, em Angola. E, por fim, as laranjas, no Algarve. «Quando me vi de novo em Portugal, pensei que talvez o melhor fosse aproveitar o terreno que o meu pai tinha e que já não conseguia trabalhar. Resolvi matricular-me no curso de Agronomia, na Universidade do Algarve, em 2009, e virei-me para a agricultura.»

Depois das vendas, a agricultura. Porque em tempo de crise e com a falta de emprego, a terra ainda faz sentido. Tirar da terra o sustento. Uma espécie de regresso às origens.

José Mendonça criou, em 2010, a empresa Laranja do Algarve, que faz venda direta entre o produtor e o consumidor, e que tem um conceito atual: rapidez, qualidade, eficiência, sustentabilidade. No site pode ler-se: «Do pomar a sua casa em 24 horas». E a ideia é mesmo essa. José recebe as encomendas no site até ao meio-dia, do meio-dia às três da tarde vai apanhar as laranjas às árvores, e a seguir embala-as e envia-as por uma empresa de transporte até ao consumidor final.

José, que de agricultura sabia tanto como de medicina, aprendeu. Estudou. Arregaçou as mangas. E defende a sua dama como um vendedor, que sempre foi e continua a ser: «A fruta que se compra na mercearia ou no supermercado tem, pelo menos, oito dias de apanhada. Durante esse tempo, vai perdendo qualidades, para além do que lhe vão pondo para ela conseguir manter-se: fungicidas, ceras... e tudo isso entra para dentro da fruta. Tudo isso é ingerido por quem a come. Eu faço uma agricultura diferente. Sustentável. Controlo as ervas mecanicamente, sem herbicidas, combato as pragas com medidas biotécnicas, uso inseticidas biológicos. As minhas laranjas não têm químicos e chegam ao consumidor em 24 horas. Têm, sem dúvida, uma qualidade superior.»

O mínimo que se pode encomendar no site é uma caixa de dez quilos de laranjas. Custa 15 euros. Quanto mais se encomendar mais barato fica, porque o que faz aumentar o preço é o transporte. «Não dá para ficar rico mas é sustentável», garante. Na sua fazenda, há laranjas New Hall (novembro, dezembro e janeiro) e laranjas D. João (abril, maio e junho).

Em 2010, ano em que arrancou com a empresa, José Mendonça conseguiu vender tudo o que produziu. «Foi espetacular!» O ano seguinte, mais fraco em produção, continuou excelente em vendas. Este ano a coisa piou mais fino: «Houve muita produção mas uma grande quebra na procura. O pico da crise é agora e sentiu-se mesmo.» De tal maneira que dos sete hectares que tem de terreno José Mendonça vai trabalhar apenas um quarto. Das quatro mil árvores vai ficar só com mil: «No primeiro ano tinha duas pessoas a trabalhar comigo: um homem a apanhar as laranjas, uma senhora a embalar. Agora sou só eu: aponto as encomendas, apanho as laranjas, embalo, levo à transportadora. E vou ficar só com a área suficiente para o meu negócio. É preferível ter mil árvores bem tratadas para os meus clientes do que quatro mil ao abandono.»

Ainda assim, José está satisfeito com a sua opção. Anda pelo meio das árvores, um mar de bolinhas laranja a enfeitar o verde em redor, e apanha-as com um sorriso que não desmente a serenidade que lhe vai dentro. A ligação à terra trouxe-lhe uma paz que não tinha. Agora é esperar que a crise passe e que os consumidores optem por ter, à mesa, laranjas sem químicos e apanhadas da árvore, no máximo, há 24 horas.

Lígia Luz

De assistente administrativa a produtora de orquídeas

Paphiopedilum.Phalaenopsis.Oncidium lanceanum.Coryanthes macrantha.Lígia fala das flores do seu coração como se falasse outra língua qualquer. Sabe os nomes científicos de cor e até os olhos lhe brilham por cada nome de orquídea proferido. E não é metáfora, dessas que se usam para embelezar textos. Não. Os olhos de Lígia brilham de facto. E o sorriso abre-se, como se estivesse a falar de uma pessoa que ama.

Lígia Luz, 31 anos, procura explicar o fascínio pelas orquídeas. Quer contagiar, espalhar a paixão como quem espalha a fé: «São lindas e têm formas exuberantes! Algumas parecem macacos, outras parecem aranhas (Brassia rex), há as que se assemelham a abelhas... é incrível. A minha orquídea preferida chama-se Polyrrhiza lindenii. O nome comum é orquídea-fantasma e tem origem na Florida É absolutamente perfeita.»

Este é um amor que começou torto. «A minha mãe sempre adorou orquídeas. Cuidava delas com todo o carinho, falava com elas e eu lembro-me de ser pequenina e de sentir ciúmes das flores. Parece parvo, não é? Mas juro que é verdade. Aquele tempo que a minha mãe dedicava às flores deixava-me enciumada. Quem diria?»

Quem diria que um dia - já lá vão dez anos - o namorado havia de lhe oferecer uma orquídea, a sua primeira? Quem diria que aquele presente havia de se tornar alvo de interesse, de curiosidade, de paixão, de amor? Quem poderia adivinhar que um amor que começou torto se endireitasse de tal forma que virou trabalho, vida, dia a dia?

Já lá vamos. Antes, dizer que Lígia trabalhou oito anos num escritório de advogados como assistente administrativa: «O Dr. Luís Diniz de Figueiredo era um excelente patrão. Aprendi imenso com ele. Fazia contratos, preparava a documentação necessária para escrituras... adorei. Estava a pensar seriamente em tirar o curso de solicitadora e continuar sempre a trabalhar ali mas, a 30 de dezembro de 2007 ele morreu, subitamente, com um ataque cardíaco, no Brasil. Foi como se me tirassem o chão. Um choque enorme. Ainda trabalhei no escritório até 15 de janeiro, mas depois fui à minha vida. Não me imaginava a trabalhar para mais nenhum advogado e fiquei sem saber o que fazer.»

Sem emprego mas já com a paixão pelas orquídeas, Lígia pôs-se a pesquisar ainda mais. Aperfeiçoou técnicas de reprodução das plantas, multiplicou-as, aprofundou conhecimentos e a paixão virou amor. Lígia descobriu um mundo. Vários mundos. Viciou-se nessa busca e não parou enquanto não soube mais. Tornou-se especialista. E, com a crise e com a manifesta falta de trabalho, uma ideia começou a tomar espaço: e se criasse orquídeas para vender? E se montasse um negócio a partir da sua recente mas crescente paixão?

Cristiano, o namorado, achou graça à ideia. Porque não? Pegou num terreno que tinha, em Barão de São Miguel, Vila do Bispo, e disse: vamos a isso. Candidataram-se ao Proder, para obterem financiamento, meteram papéis e mais papéis, esperaram, desesperaram, era preciso mais isto e ainda aquilo, e a autorização que não vinha, e a outra instituição que não se despachava, e o processo embrulhado pelas demoras deste e do outro, e o estômago às voltas, e ela a ameaçar mandar as orquídeas às urtigas, e ele a pôr água na fervura dela, calma, a coisa vai.

A coisa foi. Já lá está a estufa, já lá estão as sementes, já começa tudo a estar como deve ser. Ainda assim, Lígia não esquece as dificuldades: «É muito difícil tentar ser jovem agricultor em Portugal, especialmente para quem começa sem nada. Foram muitos os obstáculos e batalhas a ultrapassar, e é preciso termos uma grande paixão pela atividade, e muita persistência, para não desistirmos.»

Lígia não desistiu e vai, então, produzir orquídeas, plantas carnívoras e plantas verdes. Com maior enfoque, claro está, para as primeiras. Cristiano tem estado presente em cada fase, em cada pormenor, em cada pedra: «Ele tem sido canalizador, eletricista, carpinteiro, pedreiro. Ele tem sido tudo.» Ou não fosse ele, também, o impulsionador deste amor nascido dessa primeira orquídea oferecida, já lá vai uma década.

Quando estiverem crescidas e bonitas, as orquídeas serão vendidas às floristas e centros de jardinagem das redondezas algarvias. «Fiz um estudo, para saber se o projeto teria viabilidade, e todos me disseram que os transportes estão cada vez mais caros e que preferiam comprar-me as plantas a mim do que importar. Além das floristas há aqui no Algarve muitos estrangeiros colecionadores de orquídeas, como eu. Acho que tenho muito mercado.»

A mãe de Lígia, que chegou a provocar ciúmes na filha por culpa do seu amor pelas orquídeas, não viveu o suficiente para ver esta inversão na sua vida. Não chegou a ver a filha tornar-se agricultora, mas em 2002, quando a paixão da filha começou a despontar, conversaram mais do que muito sobre o assunto. «Ela ensinou-me muito mas tenho muita pena que não esteja cá para ver a realização deste sonho. Sei que iria ter muito orgulho em mim. Mas o meu pai está e apoia-me muito. Tenho a certeza de que está orgulhoso.»

Paphiopedilum.Phalaenopsis.Oncidium lanceanum.Coryanthes macrantha. Os olhos de Lígia brilham, mesmo, quando fala das plantas do seu coração. Ninguém diria que este é um amor que nasceu torto. O que importa é que agora vai crescer e multiplicar-se, protegido por uma estufa.

Joaquim Valadas

De construtor civil e agente imobiliário a produtor de morangos

A culpa de tudo é da Elsa. Foi ela quem roubou o coração ao Joaquim e que o fez mudar, de armas e bagagens, para o Algarve, mais concretamente para Silves. Ele, nascido em Mértola mas a viver em Lisboa e a trabalhar em informática, apaixonou-se por ela numa passagem de ano, de 1998 para 1999, bom auspício para uma nova vida. Um ano depois, foram viver juntos. «Vim trabalhar numa empresa de manutenção e, ao mesmo tempo, abri uma imobiliária. Eram os tempos dourados no mercado das casas!»

Em 2004, além da imobiliária, Joaquim Valadas decidiu abalançar-se, também, numa empresa de construção. Mas em 2009 começou tudo a quebrar. Devagarinho mas de forma consistente. Era a crise. E era preciso encontrar outro caminho.

Não foi preciso ir muito longe. Joaquim abriu a janela de casa, mirou o jardim e pensou: isto não é muito grande mas dá para produzir qualquer coisa. «Pesquisei na internet e descobri que havia a possibilidade de plantar morangos sem ser na terra. Também já tinha visto uma vez no hipermercado alfaces que tinham a indicação de ser produtos de hidroponia, ou seja, que não nascem da terra mas de soluções nutritivas e que, assim, poupam muito espaço. E foi assim que comecei o projeto dos morangos em hidroponia. Consegue-se produzir mais em menos área. Montei a estufa, os carreiros, comprei as plantas e fiz-me à vida.»

E é assim que tem 38 carreiros com quarenta metros de comprido cada um, num total de 22 800 plantas. E foi assim que nasceu a Quinta da Joia: «Fui eu mais três pessoas que as plantámos, numa semana, sempre a bombar. Foi em setembro de 2010. Depois começam a nascer em dezembro e duram até maio. Todos os dias, praticamente, temos apanha. Quando acaba a produção, temos de desinfetar aquilo tudo e comprar plantas novas.»

Joaquim Valadas vende os seus morangos algarvios a um hipermercado, a particulares e a restaurantes, tudo ali de terras algarvias. É ele quem embala e mete tudo no carro para levar aqui e além. O negócio corre bem, com a ajuda do Programa de Desenvolvimento Rural (Proder), e o novo agricultor tem ambições de continuar a crescer: «Quero chegar às cem mil plantas.»

Da sua vida anterior garante não ter saudades. Talvez alguma nostalgia, quando pensa nos bons momentos a vender casas, afinal sempre foram seis anos. Mas a agricultura está a dar-lhe um prazer acrescido: plantar, colher, vender e depois começar tudo do início. Como num ciclo de vida, de várias vidas.

Nuno Luz

De professor a produtor de mirtilos

Durante dez anos viveu a vida a régua e esquadro. Rodeado de miúdos, a quem ensinava a graça da geometria, o fascínio da cor, o prazer das texturas. Nuno Luz, 42 anos, era professor de Educação Visual e Tecnológica (EVT) e gostava. Dos miúdos, de topar talentos à légua, de incentivar os que se queixavam da falta de jeito, de ensinar e de aprender com os mais pequenos. Mas - e parece que há sempre um «mas» quando se desfiam elogios -, em setembro de 2011, não ficou colocado. Ficou, como tantos professores do país, desempregado. Com dois filhos, um de 11 e outro de 8 anos.

Foi então que se pôs a pensar na vida. «O que é que eu faço agora?» O terreno que o pai comprara, anos antes, começou a passear-se na sua cabeça, insistentemente. «E se?» A ideia nasceu silenciosa, dentro da sua cabeça. Depois, um dia, disse-a em voz alta. Os amigos apoiaram de imediato e a ideia, que começou ténue, quase uma parvoíce, em menos de nada tornou-se um caso sério. «E se eu me dedicasse à agricultura?»

Em janeiro, o processo dava entrada no Proder. E no final de abril chegou a aprovação. Nuno Luz propôs-se produzir mirtilo, framboesa e amora, nos dez hectares que o pai comprou em Mirandela, já lá vão uns bons anos. Um terreno que estava ao abandono, entregue a ervas e silvas mas com uma árvore enorme, à entrada, que parecia dizer tudo: «Esta amoreira parecia conter o segredo do que viria a ser a minha vida. Sempre gostei dela, assim como sempre tive uma queda por amoras. Costumava vir para aqui, para este terreno, colher amoras silvestres. É curioso...»

A opção dos frutos vermelhos não veio, porém, desse gosto pessoal mas sim de muita pesquisa sobre qual o melhor produto a produzir. Nuno não queria falhar, agora que se abalançava numa nova vida. Não é que tivesse falhado como professor mas... «Mas já há uns anos que andava a pensar que isto de ser professor nunca me levaria muito longe. Não dá para ser muito ambicioso, sendo professor e, para ser sincero, neste momento acho que não ter sido colocado é bem capaz de ter sido o melhor que me aconteceu.»

O mirtilo tem a vantagem de poder estar ao ar livre e não precisar de estufa. «Basta uma rede antipássaros e já está.» Já a amora precisa de estufa e, por isso, será produzida em menor quantidade.» Para avançar com o projeto, Nuno Luz contou com um empréstimo familiar. «O meu pai, professor reformado, apoiou-me a cem por cento. De resto, toda a família e amigos me deram força porque sabiam que a única alternativa a isto era emigrar e todos me queriam por perto.»

Antes de avançar, o ex-professor e agora agricultor foi a uma empresa da zona, distribuidora de outro tipo de produto agrícola, e quis saber se lhe escoavam a produção. A resposta não podia ter sido mais positiva e, sendo assim, ficou descansado. Agora, mesmo antes de começar, quer ajudar os pequenos produtores da terra: «Há imensa gente a começar a produzir mirtilo mas isso não é mau para mim. Pelo contrário! Temos de deixar de olhar para as coisas com esta perspetiva do nosso quintal. Tenho o sonho de criar uma enorme rede de produtores de mirtilo. Quantos mais formos melhores preços conseguimos, melhores condições. Unidos poderemos vencer. Sozinhos... não passaremos da cepa torta. Por isso, antes mesmo de começar a minha exploração vou ser intermediário e, quando já tiver frutos para colher, a ideia é continuar a vender o meu produto e os produtos dos outros. Tenho os contactos certos e espero que, em breve, Mirandela esteja pejada de terrenos cultivados, bem tratados e a dar lucro a quem cá vive e trabalha.»

O seu discurso é mais do que otimista, é claramente vencedor. Dá vontade de voltar a Mirandela daqui a cinco anos, para verificar se o homem que viveu dez anos a régua e esquadro vai estar feito grande empresário do mirtilo, coordenando toda uma rede de pequenos agricultores e alterando assim o panorama de abandono em que muitas das terras hoje se encontram. Ele sorri com uma quase certeza e graceja: «Fazemos isso. Combinamos encontro daqui a cinco anos. Já vai é ter de falar com a minha secretária, mas eu asseguro-me de que ela arranja uma hora para si!»

Últimas notícias

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • NM
Pub
Pub