Os limites do corpo... e da mente

Em julho, Carlos Sá foi o primeiro a cortar a meta. Depois de correr 217 quilómetros da prova mais dura do mundo, no vale da Morte, na Califórnia, debaixo de temperaturas de 50 graus, o atleta de Barcelos chegou à frente de cem corredores de trinta países. Na próxima sexta-feira, Carlos arranca nos Alpes para tentar vencer pela primeira vez uma competição que nunca conquistou: os 166 quilómetros da Ultra Trail du Mont-Blanc, entre Itália, Suíça e França, e com um desnível acumulado de 9400 metros. A correr em estrada, no deserto ou na montanha, ou a nadar em mar aberto, o que motiva este e outros super-heróis a testar os limites do corpo humano? E como conseguem fazê-lo?

Quase um mês e meio depois de surpreender o mundo com o triunfo na Badwater, «a mais dura prova do mundo», Carlos Sá ainda regressa mentalmente ao vale da Morte, na Califórnia, para recordar alguns dos momentos mais cruciais da competição de 217 quilómetros. Como aquele quilómetro cinquenta, quando esteve muito perto de desistir devido à elevada temperatura (50º C). Ou o primeiro grande desnível que ultrapassou. Ou o fortíssimo vento de frente. Ou a «incrível» dor de estômago. Apesar das contrariedades, o atleta de Barcelos superou as dificuldades e escreveu o nome nesta prova de resistência. Ninguém diria que nunca tinha corrido uma maratona de estrada (correu o equivalente a cinco, naquelas mais de 24 horas de julho).

São alguns desses momentos que refletem o seu lado psicológico, um trunfo crucial para feitos desportivos deste nível. «Se não formos extremamente fortes a nível mental, não vale a pena aventurarmo-nos numa prova destas», diz. Carlos Sá acredita que a Badwater foi a competição mais dura que realizou até hoje. Mas não foi a mais extrema. Em janeiro deste ano, o português esteve próximo de ultrapassar «o limite do aceitável», no monte Aconcágua, na Argentina. Felizmente, ao tentar bater o recorde mundial de subida e descida da montanha mais alta da América do Sul (6962 metros), o ultramaratonista teve a lucidez de recuar. Faltavam apenas quatrocentos metros para alcançar o ambicionado cume. «Fui apanhado por uma tempestade que não estava prevista. Continuar poderia custar-me os dedos dos pés, que estavam praticamente congelados.» O que o fez parar? O que lhe deu a lucidez de tomar a opção certa? «Em situações de stress tenho muita calma e penso muito nos meus dois filhos. Raramente desisto, mas para nos superarmos é preciso muitas vezes dar meia volta para depois voltarmos mais fortes, com mais conhecimento e confiança.» Três dias depois, Carlos superou o recorde: 88 quilómetros em 15h42.

Apesar da admiração que provocam ao comum dos mortais, que olham para os ultramaratonistas como «loucos» ou «super-homens», a maioria desses atletas, tanto os profissionais como os amadores, têm uma grande noção de até onde podem ir, de quais são os seus limites. Estão habituados a ler o que o corpo diz. E este tem sempre alguma coisa a dizer. Ou a reclamar, quando é preciso. Atletas como Carlos Sá e outros ultra runners convivem constantemente com a dor, que acaba por fazer parte das suas vidas. Tal como a noção de autopreservação. E isto tanto é válido para as provas extremas a que se sujeitam, como para os treinos intensivos que as antecedem.

João Hora Faustino, de 39 anos, começou a correr há dez anos. Primeiro, pequenas provas de estrada; depois, maratonas, ultra trails, provas com mais de cem quilómetros, como a Madeira Island e a Ultra Trail du Mont Blanc, a prova-rainha da modalidade. Este ano espera terminar os 167 quilómetros da Ultra Trail Ehunmilak, em Burgos, Espanha. «No meio da gestão de todos os recursos, existe um importante: a gestão da dor. A dor acaba por se tornar parceira de treino. Há que aprender a lidar e a conviver com ela. Por vezes, pode até tornar-se um desafio treinar durante longos períodos com ela», diz o consultor informático de Lisboa.

Professor de Educação Física no Porto e mestrando de Fisioterapia, o atleta Marco Pereira, de 36 anos, não hesita nas comparações para o organismo. «Em termos simplistas, podemos olhar para o corpo como um carro. Se andarmos pouco, devagar, e tivermos todos os cuidados, o veículo, além de durar muito, normalmente está em bom estado e o risco de ter acidentes é pequeno. Se o carro andar muito, sempre a velocidades altas, mesmo que tenhamos cuidado, vai durar menos, o desgaste será maior e o risco de acidente, mais elevado. Mesmo que o carro dure o mesmo que na primeira opção, ficará mais desgastado. Ou seja, os excessos fazem sempre mal e deixam normalmente mazelas. Claro que um bom descanso, uma boa alimentação e um treino completo, bem programado e periodizado, ajudam a minimizar o sofrimento e os danos causados ao corpo.»

Outro denominador comum a estes «superatletas» é o de se terem encontrado, a si próprios, graças ao desporto. É o caso do jurista Miguel Arrobas. Em 2008, o nadador de 38 anos alcançou o melhor tempo mundial na travessia do canal da Mancha (9h30). E o feito não passou despercebido. Miguel foi agraciado com a medalha de ouro da Channel Swimming Association (CSA) para o melhor tempo mundial do ano, com a John Unicume Cup (para o homem mais rápido do ano) e com o Montserrat Tresserras Trophy (primeiro português reconhecido pela CSA). Ex-nadador olímpico, Miguel tem um objetivo pessoal: ser dos primeiros, senão o primeiro, a completar a Ocean's Seven, as sete travessias mais emblemáticas do planeta, um feito nunca concretizado por nenhum homem. A Ocean's Seven é a versão em águas abertas e maratonas aquáticas dos Seven Summits, as sete montanhas mais altas do mundo.

Além do canal da Mancha, entre Inglaterra e França (34 quilómetros), os aspirantes ao feito devem ultrapassar as marés do estreito de Gilbratar, entre Espanha e Marrocos (14,4 quilómetros), do canal do Norte, entre a Irlanda e a Escócia (33,7 quilómetros), do estreito de Cook, entre as ilhas do Norte e do Sul da Nova Zelândia (26 quilómetros), do canal de Molokai, entre as ilhas de Oahu e Molokai, no Havai (43 quilómetros), do canal de Catalina, na costa de Los Angeles, Califórnia (33,7 quilómetros), e do estreito de Tsugaru, entre Honshu e Hokkaido, no Japão (19,5 quilómetros). O plano é concluir tudo até 2015.

«Aprendi com o desporto uma forma diferente de estar na vida, a relativizar os problemas e a encontrar uma solução, por mais difícil que me possa parecer o problema», diz Miguel Arrobas. «Aprendi mais sobre a importância do autodomínio e da autoconfiança. Que só acreditando verdadeiramente nos meus objetivos é que os consigo alcançar. Os meus treinos são sempre bons momentos de introspeção e de encontro comigo mesmo.»

Pai de cinco filhos, muita da força psicológica que tem vem de casa. Ao contrário de muitos, não considera o desporto o eixo central da sua vida. A família ocupa esse lugar.

Nadar sem parar durante quase oito horas, ao longo de 52 quilómetros - como quando contornou a ilha de Manhattan, em Nova Iorque, nos EUA, em 2011 - não é definitivamente para qualquer um. Tal como não é para qualquer um correr duas maratonas no deserto, no mesmo dia, com temperaturas acima dos 40º C ou subir mais de duzentos quilómetros de trilhos pelas montanhas. Na realidade, são muitos os que desistem no limiar das situações extremas e outros cuja história reza pela sua memória. E as diferenças notam-se também entre os atletas de competição tradicional e os ultra-atletas, que têm uma necessidade de estar sempre no seu limiar, no seu limite - e muitas vezes fazem-no sem qualquer objetivo financeiro.

Desistir não é, de todo, uma palavra que figure no dicionário destas vidas. Para Miguel Arrobas, «a palavra que está no dicionário é "terminar"». «Se alguma vez desistir é porque o risco de continuar seria irresponsável», defende. João Hora Faustino concorda: «"Desistir" é uma palavra distante que provavelmente se encontra na última página do meu dicionário. Existe como uma decisão difícil e remota a ser usada se necessária.» Todos admitem que a intensa proximidade da fronteira dos seus próprios limites pode trazer, por vezes, uma relação de vizinhança com a morte. Porém, ao contrário do que poderíamos imaginar, essa aproximação acaba por ser determinante para os triunfos individuais no desporto.

E esses triunfos nem sempre podem traduzir-se em medalhas. No caso de Carlos Sá, por exemplo, foi o desporto que lhe deu um novo rumo à vida. Hoje reconhecido internacionalmente, respeitado e admirado por todos, um verdadeiro emblema nacional no estrangeiro, o português, que já pesou noventa quilos e fumou dois maços de tabaco por dia, esteve próximo de passar ao lado de uma brilhante carreira. «Há poucos anos, com a crise no setor têxtil e imobiliário, fiquei como muitos portugueses: sem trabalho e praticamente sem alternativas profissionais. Decidi então dedicar-me a duzentos por cento ao que realmente gostava de fazer, correr. Mas tinha a consciência de que teria de obter resultados imediatos para conseguir algum apoio financeiro, uma vez que as contas de uma família com dois filhos são elevadas e eu estava sem qualquer rendimento. Lá em casa, só tínhamos o ordenado mínimo da minha mulher.» Foi nesta ação de «tudo ou nada» que surgiram os resultados e o apoio dos primeiros patrocinadores.

António Carlos Correia, de 55 anos, professor, é outro exemplo de sucesso. Corredor amador desde os 25 anos, foi em 2011 o primeiro português a concluir a Maratona do Círculo Polar Ártico, uma prova em que teve de superar a neve e a temperatura próxima dos vinte graus negativos. Depois de disputar os cem quilómetros comemorativos dos duzentos anos das Linhas de Torres Vedras, em abril o último desafio foi a participação na maratona em trail Swissalpine, em Davos, Suíça. A maratona mais «próxima do céu», como foi designada pelos organizadores. E porque continua a correr em provas destas? «Procuro a resposta a essa pergunta de cada vez que saio para treinar ou vou a uma prova.»

A resposta não é muito diferente da de Carlos Sá à mesma pergunta. E, poucos dias antes da prova nos Alpes, confessava que dificilmente se sagraria vencedor da prova. Ao contrário dos seus rivais, o português não treinou especificamente para esta. «Este ano o meu objetivo era correr as provas mais emblemáticas do mundo, em ambientes distintos. Deserto, estrada, trilhos e alta montanha. Já concluí três destes desafios com sucesso, falta a última, agora nos Alpes. Penso que ninguém ousou fazer isto antes. Desde janeiro que faço uma ultraextrema com intervalos de apenas mês e meio. A Mont-Blanc será apenas mais uma. O meu objetivo é ficar entre os cinco primeiros, mas Portugal tem possibilidades de escrever o seu nome na prova porque teremos ainda Armando Teixeira, Luís Mota e Nuno Silva. Se nós os quatro ficarmos no Top 10, será um feito histórico, nunca alcançado.»

«Os atletas não lutam contra eles próprios»

João Ramos, psicólogo

Porque é tão difícil manter a motivação nos treinos de longas distâncias?

_Os aspetos relacionados com a rotina, a repetição e a utilização de recursos até ao nível das reservas obrigam a sair de zonas de conforto. Somente alimentando as necessidades básicas psicológicas é possível manter, ao longo do tempo, os níveis de motivação adequados. Há praticantes que o fazem com um rendimento elevadíssimo mas que se recusam a entrar em competição, apesar dos patrocínios oferecidos. Argumentam que assim perderiam o prazer de o fazer. De certa forma, este é um problema da sociedade, que cultiva regulações controladas da motivação (por exemplo, se passares de ano ganhas uma bicicleta) ao invés de promover formas mais autónomas da mesma, como promover a procura de aspetos que sejam benéficos ao próprio perante a realização de uma determinada tarefa ou mesmo estimular a prática por prazer ou desafios pessoais (as mais internas das formas de regulação da motivação).

Como encontrar motivação para ir a um treino que muitas vezes é doloroso?

_ Muitas destas situações passam por grandes desconfortos físicos e psicológicos, mas os processos de adaptação inerentes não só os tornam mais suportáveis, como por vezes levam à sua dependência, o «lado negro» do exercício, já que o desporto passa a ser o centro da vida do indivíduo e não uma parte de si.

Estes atletas «lutam» acima de tudo contra si próprios?

_ Mais do que ser contra deve ser visto como sendo em seu favor, numa perspetiva de evolução pessoal. A visão distorcida de lutar contra «mim» pode levar ao reconhecimento de que tenho limites que só poderão ser ultrapassados pelo uso de outras coisas (perigo de recorrer a substâncias para aumentar o desempenho). Quando trabalho para desafiar o que sou capaz de fazer, não só promovo formas mais autónomas (internas e controláveis) de regulação do meu comportamento como serei mais resiliente a obstáculos (derrotas e insucessos), persistindo mais tempo nas situações.

UM MUNDO DE COMPETIÇÕES

No ano passado, a exploradora e cientista britânica Felicity Aston, de 33 anos, foi a primeira mulher a cruzar a Antártida numa expedição solitária. No total, 59 dias e 1744 quilómetros. Apenas ela e o seu trenó. A britânica confessa que foi para a Antártida para descobrir onde estavam os seus limites, tanto físicos como mentais. «Penso que, pelo facto de ter viajado sozinha, ultrapassei muitos dos meus limites mentais, mas também percebi que as minhas próprias barreiras pessoais não são tão a preto e branco como simplesmente cair de joelhos na neve e dizer que não posso dar nem mais um passo. São mais complexas do que isso. Os limites pessoais e as barreiras têm mais que ver com a motivação e com a situação em si - muitas vezes, a conclusão é que pura e simplesmente não tens alternativas senão continuar.»

Felicity recorda que «a solidão foi muito dura» durante os cerca de dois meses e meio e que passou por várias dificuldades, mas não considera o que fez algo mais complicado de ultrapassar do que a vida em si mesma. «Nada daquilo que experimentei nesta expedição foi tão duro como os problemas diários que envolvem as relações com aqueles que amamos e a sua saúde e bem-estar. A vida diária pode ser tão dura mental e emocionalmente como qualquer coisa com que a Antártida nos ponha à prova.»

«A morte, o medo da morte, é bom porque nos ajuda a compreender os nossos limites e leva-nos a tomar as opções corretas quando estamos a competir. O medo é aquilo que me leva a parar, a pensar e a tomar uma decisão consciente. Nunca me senti invencível. Seria uma grande irresponsabilidade sentir-me assim. Devemos ser muito respeitadores e cautelosos em situações perigosas. Sentir-me invencível simplesmente não é possível», defende Kilian Jornet, de 25 anos, um dos principais atletas mundiais da atualidade, tanto no trail como no esqui nórdico. Desde 2012 está inserido no desafio SummitsofmyLife (www.summitsofmylife.com), com o desígnio de escalar e superar os recordes de algumas das maiores montanhas do mundo. O objetivo final é subir a montanha mais alta do mundo, o Evereste (8848 metros), em 2015.

Jornet, reconhecido como desportista de alto nível pelo Consejo Superior de Deportes de Espanha, garante que encontrou a liberdade que todos procuram através do desporto, muito devido ao contacto com as montanhas. E essa felicidade que encontra é crucial para a sua família aceitar os riscos que cada prova comporta.

«A minha família compreende e apoia-me, especialmente porque aprecia aquilo que faço e quer que eu seja feliz. É óbvio que por vezes temem que algo corra mal, mas a verdade é que eu próprio também tenho consciência dos perigos e não gosto de me colocar em situações arriscadas só para ver como é que corre. A montanha é perigosa e nós sabemo-lo, mas é assim que aprendemos a apreciá-la. A minha família gosta realmente da montanha e, como tal, partilhamos os medos e as emoções que ela proporciona.»

O CHEFE DOS CONQUISTADORES DO INÚTIL

Paulo Pires, professor de Educação Física, é o treinador por detrás do sucesso dos ultrarunners portugueses. Com um computador, uma ligação à internet e um plano de treino personalizado, é ele que os ajuda a ir mais longe.

Não há atletas sem treino nem treino sem treinadores. Os ultrarunners portugueses são dirigidos por Paulo Pires, nascido em Angola há 43 anos, homem dos grandes espaços como se diz serem todos os africanos, e que chegou às ultramaratonas vindo do montanhismo e do alpinismo.

«Costumo dizer que somos os conquistadores do inútil», diz este professor de Educação Física em Vagos e formado na Universidade do Porto, que insistia em dizer que neste desporto não havia glamour nem prémios. «Mas somos fazedores de desafios épicos.»

Paulo Pires não é um treinador como os outros. Não está com os seus atletas todos os dias. «Grande parte do treino é ao computador. Todas as semanas lhes faço o programa de treinos e embora os relógios sejam quase computadores que registam tudo, se não quiserem fazer não fazem. É preciso querer mesmo e esta gente normalmente quer. E muito.»

«Quando, há cinco ou seis anos, o meu amigo Carlos Sá, com quem fazia montanhismo, me pediu para lhe arranjar uns planos de treinos para corridas em montanha de oitenta quilómetros chamei-lhe maluco. Mas fui estudar e basicamente o que fiz foi arranjar uma nova metodologia de treino através dos relógios, que são PTC [personal training computers]. Eles treinam, chegam a casa e descarregam no computador os dados e aquilo dá tudo. E eu, em casa, controlo tudo. Sou o Big Brother deles.» Por isso, desenvolver novo software com empresas interessadas é um dos objetivos a curto prazo, porque Paulo precisa de mais dados que é possível extrair desses minicomputadores-relógios.

«A minha experiência profissional como treinador, os conhecimentos e a experiência de 15 anos de montanhismo e alpinismo, a formação continua na área do treino, da montanha, da nutrição e das lesões desportivas permitem-me ter uma visão muito abrangente e pragmática do treino de ultra trail

Em princípio, a definição de ultra runner ou ultra trailer é o de fazer corridas maiores do que a maratona e muitas vezes em montanha - corridas de cem e duzentos quilómetros pelos sítios mais incríveis. E geralmente sem prémios monetários. «O Carlos Sá conseguiu patrocinadores, a Sport Zone e a Berg, é até consultor deles para os produtos, mas os outros não, tiram disto apenas a satisfação própria da superação dos limites.» E há filosofia, claro: «Quem entra nisto comigo tem outros valores, procura outro sentido para a vida ligado à preservação da natureza e à própria superação e resiliência.»

E, perante tais desafios de teste às capacidades do corpo humano, é legítimo perguntar: e doping? A resposta é clara. «Quem vem do montanhismo não quer nada disso. Já quem vem do ciclismo muitas vezes acha que tomar remédios ajuda para qualquer coisa. Mas nós tiramos-lhes essas ideias.»

Carlos Sá é o mais mediático dos seus atletas. «Fazer dele o mais completo corredor de ultra trail era o grande projeto mediático deste ano e está conseguido, ninguém no mundo faz como ele estrada e montanha.» Paulo Pires tem também um lado de marketing bem vincado: «Há que encontrar formas mediáticas de chamar a atenção para isto. A ideia do corredor mais completo também foi isso.» E pelo meio, claro, é preciso garantir o necessário e merecido descanso do atleta. «A recuperação de provas como Badwater é terrível.»

A ajuda do Laboratório de Biomecânica da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto tem-se revelado essencial. É lá que alguns dos atletas treinados por Paulo Pires fazem testes com maquinaria que mede as capacidades todas do ser humano. Na prática, é uma equipa pluridisciplinar a garantir o sucesso de estrelas promissoras. Profissionais como os médicos António Castro e Cunha, as fisiatras Maria Cunha e Rita Tomás, o meteorologista Vítor Baía, da Guarda, e alguns amigos do Clube de Montanhismo da Guarda e dos Amigos da Montanha, de Barcelos, contribuem para que os atletas de Paulo Pires se tornem mais completos.

Paulo recorda as primeiras corridas em que ninguém conhecia os portugueses e Carlos Sá e companhia apareceram logo nos primeiros lugares. Lembra o primeiro Ultra Trail du Mont-Blanc, na Suíça, que passou a ser o campeonato do mundo. Tudo sinais de que os métodos de treino que tinha seguido estavam certos - e não há nada mais importante do que isso para um treinador. Hoje é regularmente convidado para palestras internacionais para explicar os seus métodos. «Não somos profissionais disto, mas a atitude é de profissionais.»

Preparar uma prova de cem quilómetros, que pode durar 12 horas sob climas rigorosos na montanha está muito longe de se resumir ao treino físico. É preciso ter atenção a tudo o que se leva - os mantimentos, o peso das mochilas, o tipo de agasalhos que é preciso ou não levar.

«Aqui há tempos. Numa prova importante, um dos atletas telefonou-me às quatro da manhã. Que ia desistir, que não podia. Que tinha feito tudo bem, mas não podia. Lá estive a conversar com ele um bocado e o que se tinha passado era que ele não tinha levado os agasalhos corretos e o corpo não aguentou», conta o treinador. Preparar Badwater, que Carlos Sá ganhou recentemente na Califórnia, a mais dura de todas as provas, envolve muitas valências. Quando fomos ao Aconcágua, na Argentina, chegámos com umas mochilas e era essencial o apoio local do exército e da policia de resgate. Quando chegámos, olharam para nós e perguntaram onde estava o apoio. Claro que éramos só os dois. Quando o Sá fez o tempo recorde de 15h42, menos cinco horas do que o máximo anterior, ficaram com um respeito por nós...»

Paulo vive com a médica Maria Cunha, vão casar e estão a pensar ter filhos, mas as corridas não ajudam muito. Entre as aulas na escola e o computador para preparar os treinos dos atletas, mais as provas, não sobra muito tempo. Tem 17 ultramaratonistas a cargo «e metade luta pelo Top 10 em qualquer prova internacional.» Os outros? «Ainda ontem disse ao Carlos Sá: para mim tu não ganhaste a Badwater, tu foste o que sobreviveste melhor àquelas condições terríveis. Fazer corridas destas e chegar ao fim é uma vitória, sempre. O Sá e muitos dos outros estrangeiros e portugueses muitas vezes param para ajudar os adversários, para lhes dar ânimo. Mesmo em grandes provas.»

Paulo Pires confessa que alguns atletas pagam qualquer coisa, outros não. Sabe que tem uma legião de fãs espalhados pelo país que o convidam, a ele, a Carlos Sá e aos outros para jantar, para estar com eles umas horas, porque são ídolos desse grupo dos ultra runners amadores. Na semana passada fez um estágio com vários atletas na serra da Estrela: foi em parque de campismo, cada um paga a sua despesa. É comunhão com a natureza. «No fim de uma ultra , o importante é estarmos todos, de objetivo atingido e em condições físicas para voltar a casa, às famílias, ao trabalho... e a sonhar com o próximo desafio.»

Carlos Sá, a grande estrela de Paulo Pires, não tem dúvidas: «Um treinador e um atleta estão sempre em campos um bocado diferentes. O Paulo quer tudo direito, claro, mas sabe guiar-nos e compreender que boa parte disto não é competição a não ser connosco próprios. Que não é pelo dinheiro nem pelo reconhecimento público, é mesmo só por nós e pela superação dos limites, Uma das grandes qualidades dele é essa, é ter este espírito.» MANUEL QUEIROZ

[25.08.2013]

Últimas notícias

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • NM
Pub
Pub