Os efeitos do mal e as cidades

A violência, o medo, etc., não são específicas de nenhum país, isso é evidente, caro senhor.

A desumanidade não é uma característica cultural de um determinado povo ou de uma determinada língua ou de uma determinada época. A desumanidade faz parte do humano. Onde há humano há a possibilidade de desumanidade. Só não há desumanidade onde não há humano.

Se temos um ser humano, temos dois potenciais: o potencial da grande bondade e o potencial da grande maldade. Os animais são mais incapazes ou incompetentes nessas duas acções, e é só. A racionalidade humana e a sua inteligência aumentam os efeitos das suas acções, nada mais. A racionalidade e a inteligência não tornam as acções dos homens bondosas, como se pensava até determinada altura. O ideal do iluminismo era um pouco esse: associava-se a cultura, o ensino e a inteligência aos actos morais. Infelizmente o que o século xx mostrou, com o Holocausto, é que inteligência e bondade/maldade são variáveis autónomas, por assim dizer. Porém, a inteligência não é neutra. Como somos cada vez mais aptos tecnicamente, somos cada vez mais fortes no exercício individual ou colectivo de exercer a bondade ou a maldade. Nunca se conseguiu ser tão eficazmente bom como hoje, ano 2013; e nunca se conseguiu ser tão eficazmente mau como neste ano de 2013.

A bondade e a maldade não aumentaram. Chegam agora é mais longe, mais alto, mais fundo.

Cidade e invenção

A cidade é a grande invenção humana. Numa cidade com milhões de habitantes - pense-se por exemplo em Buenos Aires ou, num extremo de densidade, na Cidade do México - o que é mais surpreendente é não existir mais violência do que a que existe de facto.

Uma cidade é uma grande máquina, ou melhor: uma grande tecnologia. E o surpreendente é que funciona. Há assassinatos, roubos - é evidente que há momentos em que uma cidade parece um local perigoso, e por isso parece uma má invenção. Porém, se virmos com atenção, é incrível como é que se conseguem juntar milhões de pessoas num espaço, apesar de tudo, reduzido: pessoas mais lentas, mais rápidas, pessoas que vão para um lado, outras que vão para outro, pessoas que querem excitação, pessoas que querem descanso. Pessoas que querem exactamente o oposto do que querem as outras; jovens, adultos, velhos, crianças, pessoas com os mais diferentes hábitos e o facto é que, na maior parte das vezes, não estão a cortar a cabeça uns aos outros. Isto, sim, é surpreendente - e é o resultado prático de uma grande invenção. Muito mais do que ir à Lua ou a Marte, a cidade é a grande invenção do homem, e o seu grande ponto de chegada; a sua grande descoberta na Terra. Em solo firme, neste planeta, conseguimos chegar à ideia de cidade. Com terríveis defeitos mas, ainda assim, uma invenção a celebrar.

GONÇALO M. TAVARES ESCREVE DE ACORDO COM A ANTIGA ORTOGRAFIA

[25.08.2013]

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