Os criadores de edifícios perfeitos

Continuam a ser arquitetos, mas deixaram de projetar para passar a fotografar. Alguns dos maiores nomes da arquitetura, como Siza Vieira ou Zara Hadid, já não passam sem as imagens de Fernando Guerra tira e Sérgio Guerra vende para o mundo inteiro e são publicadas em revistas da especialidade. Na véspera do Dia Mundial da Arquitetura, uma história de sucesso em português.

Herdaram do pai o gosto pela arquitetura. Com ele, Fernando e Sérgio Guerra aprenderam a dar valor ao espaço e à forma e a decifrar a verdadeira essência da obra. Cresceram entre esquissos e maquetes de edifícios, e o inevitável aconteceu: os filhos do arquiteto seguiram a profissão do pai. Mas há 15 anos dispararam o flash que lhes mudou a vida. Trocaram os estiradores pela câmara fotográfica para registar obras de sonho e edifícios emblemáticos, em imagens que correm mundo. Hoje, os irmãos Guerra então entre os mais requisitados fotógrafos de arquitetura do mundo.

«Naquela altura, parecia uma loucura largar tudo para nos dedicarmos, em exclusivo, a um trabalho com pouco mercado e que poucos arquitetos queriam», diz Fernando. «Achava a fotografia de arquitetura a coisa mais aborrecida que existe ou, pelo menos, a mais aborrecida que poderia fazer com uma máquina fotográfica». Ele sempre gostou de outras coisas. Um passeio, uma viagem... Nunca lhe tinha passado pela cabeça disparar a objetiva para edifícios, sobretudo de outros colegas de profissão. Muito menos, fazer carreira de um hobby que alimentava desde os 16 anos. «Quando comecei, não tive logo o clique da paixão.» O dia da verdadeira revelação deu-se quando estava a fotografar um projeto do arquiteto Gonçalo Byrne, em Aveiro, em 1999. «Foi aí que acordei para um tipo de fotografia de arquitetura que nunca tinha visto.» E que lhe mudou a vida por completo.

Em 1999, Sérgio e Fernando abriram em Lisboa o atelier FG + SG Fotografia de Arquitetura. Na altura ninguém fazia ideia de quem eram e, sobretudo, do que eram capazes, mas a formação que tinham e o facto de conhecerem bem o outro lado - tinham olhar de arquiteto - ajudou bastante. São entendidos nas linhas, nas formas e sabem decifrar a verdadeira essência da obra. A tudo isto somavam o talento de Fernando com uma câmara, um autodidata que nunca tirou um curso de fotografia. «Sei fotografar melhor do que um arquiteto e sei um bocadinho mais de arquitetura do que um fotógrafo.» Se juntarmos a tudo isto um dia sem chuva, boa luz e um projeto incrível, melhor ainda. E boa dose de sorte, claro.

Fernando Guerra, 43 anos, faz o trabalho de campo pelo mundo fora e trata da edição das imagens. Sérgio, 37, passa os dias entre quatro paredes, a gerir a empresa sediada em Lisboa, a organizar a agenda das fotoreportagens, a dinamizar a página do Facebook e o site na Internet www.ultimasresportagens.com. São apenas os dois. O talento e as viagens de um, e a organização extrema do outro. «O meu irmão parte para cada trabalho como se fosse o primeiro», diz Sérgio. «De repente, levo com um telefonema dele num sábado ou domingo, pendurado num prédio qualquer, a perguntar-me se já fiz isto ou tratei daquilo. Como somos irmãos, a relação estica onde uma relação normal não iria. Existe um à-vontade especial».

Se fosse hoje, talvez bastassem o Facebook, um blogue ou uma boa página na Internet para divulgar o portfólio e esperarem sentados que o telefone tocasse. Mas quando começaram, os tempos eram outros e os irmãos tiveram de lutar por um lugar ao sol num negócio dominado, naquele tempo, por poucos fotógrafos, mas profissionais. Ainda tiveram que subir muitos degraus até chegarem ao patamar confortável onde hoje se encontram, com clientes internacionais, capazes de pagar bastante dinheiro por cada conjunto de fotografias - embora os irmãos se recusem a revelar os valores.

«O Sérgio tornou-se um verdadeiro comercial e tentava vender-nos, como quem vende lâmpadas ou mosaicos num atelier», recorda Fernando entre risos. Não havia tempo a perder e tinham mesmo de se fazer à estrada. Meteram a vergonha no bolso e fizeram-se à vida. Bateram de porta em porta para, literalmente, darem aos arquitetos fotografias das suas obras, algumas delas tiradas à socapa, sem autorização. «O Sérgio pesquisava novos projetos e eu fotografava sem pedir licença. Entrava na obra com um capacete, dizia que vinha da parte do arquiteto, construtor ou do dono da obra e fotografava.» A ousadia até lhes poderia ter saído caro, mas valeu-lhe o bilhete dourado de acesso aos gabinetes de arquitetura. «Ligava-lhes e quando do outro lado diziam "Não estamos interessados", eu gritava: "Mas já fotografámos a obra!"», lembra Sérgio. «Passavam logo a dar-nos atenção.» A batalha estava ganha. «Depois era continuar a trabalhar muito bem. Tinha de ser muito bom a fotografar...», continua Fernando, ainda emocionado com a volta que a vida deu.

Depressa passaram de amadores desconhecidos a profissionais mais requisitados por arquitetos consagrados, como Álvaro Siza Vieira, autor de um complexo cultural Anyang, na Coreia do Sul, cujas fotografias de Fernando chegaram à revista Wallpaper, uma das referencias mundiais de arquitetura e design. «Foi uma ambição tremenda e consegui-la foi um marco pessoal. Depois vieram as capas da Casabella (Itália) e da Architectural Record (Eua)».

Aires Mateus, Paulo David, João Luís Carrilho da Graça, ARX Portugal, Manuel Graça Dias, Carlos Castanheira, Promontório Arquitetos, António Belém Lima, etc. A lista de arquitetos consagrados portugueses engrossa ainda mais a lista de cerca de duzentos clientes. Alguns deles passaram a fazer parte da esfera de amigos.

Também não demorou muito tempo até chamarem a atenção de arquitetos estrangeiros. A iraniana Zaha Hadid é, possivelmente, a mais conhecida, mas nomes como Primitivo Gonzalez, Pei Cobb Freed & Partners, Steven Holl, Jordi Badia e Márcio Kogan fazem parte da elite mundial. «Fotografo para os mais importantes arquitetos portugueses, faço artigos e capas para as principais revistas nacionais e estrangeiras. Dizem que reconhecem uma imagem minha sem ver a autoria.» Fernando tenta sempre incluir personagens nos enquadramentos para dar algum sentido e escala a um determinado espaço que está a documentar. Seja de uma casa, hotel ou de outro projeto. Talvez por isso tenha sido nomeado Canon Explorer, embaixador da gigante de equipamento fotográfico em imagens de arquitetura, e é representado por agências internacionais de fotografia.

A reputação é mantida porque quase todos os clientes lhes batem novamente à porta. E porque, além do trabalho publicado em revistas, têm milhares de fotografias de cerca de setecentos edifícios disponíveis para visualização no site www.ultimasresportagens.com, que criaram em 2004. «É a mais completa biblioteca online de imagens da arquitetura contemporânea portuguesa», diz Fernando. Depois veio a newsletter diária e, mais recentemente, criaram uma loja online para vender a particulares edições limitadas de fotografias de projetos de arquitetos, de paisagens ou rostos humanos captadas por esse mundo fora. «São para colecionar, para colocar na parede.» Cada imagem pode custar entre trezentos e 450 euros cada, dependendo do tamanho pretendido e dos portes de envio.

Por causa da fotografia, Fernando perdeu as contas aos países que já visitou. Espanha, França, Itália, Alemanha, Suíça, Dinamarca, Marrocos, Angola, Israel, Coreia, Japão, Brasil, Estados Unidos, etc. Muitas vezes, viaja com os próprios arquitetos. «Nestes últimos anos, já viajei mais vezes com o arquiteto Siza Vieira do que com a minha família.» E passa mais tempo na estrada e na casa dos outros a fotografar do que na sua própria casa com as filhas de 11 e 14 anos. «Estão habituadas às ausências desde que nasceram. Para elas, ter um pai em trânsito é normal.» Tal como é normal não ter férias há mais de dez anos. «Dá conta que é fim-de-semana, porque, de repente, as filhas estão em casa com ele», diz Sérgio que, ao contrário do irmão, já consegue passar mais tempo com as duas filhas, de três e oito anos.

Fernando licenciou-se em arquitetura em 1993, na Universidade Lusíada de Lisboa. Nos cinco anos seguintes trabalhou em projetos em Macau. Até 2005 deu aulas na Escola Universitária das Artes de Coimbra, mas acabou por se dedicar em exclusivo à fotografia de arquitetura. Ainda assim, se lhe perguntam a profissão, «sai primeiro arquiteto do que fotógrafo». Mas não pretende regressar à profissão. Embora os Guerra continuem inscritos na Ordem, ser arquiteto é coisa do passado, pelo menos para Fernando. «Não me interessa voltar à arquitetura. Só num ato de loucura poderia querer ligar o autocad, no atelier, em vez do photoshop. Vou fazer isto para sempre!...» Com Sérgio a história é outra: não vira as costas à possibilidade de voltar aos estiradores. «Considero-me arquiteto. Nunca se sabe o dia de amanhã. Posso até voltar a dedicar-me a tempo inteiro.»

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