O projecto para uma nova agricultura

«Uma mulher foi vista a estender uma corda entre duas árvores. Dizem que pendurou roupa. Dizem que estava descalça. Era de fora. Não sabiam que sabia ler. A mulher leu o chão e escondeu o calçado.»

in A Mulher Descalça, Jorge Fallorca

- Eis como gosto de marcar o espaço: com um carimbo.

- Que belo, esse seu instinto de domínio.

- Marcar um território como se marca uma vaca, bem no dorso e com muita força. Uma marca que nunca mais saia.

- Portanto Vossa Excelência, dono e proprietário e senhor e chefe e etc., no fundo, pois então, Vossa Excelência, dizia, como dono de um território, decide marcar o espaço que lhe pertence com um carimbo, é isso? Marca o espaço como se marca uma vaca.

- Exacto. Até pensei mesmo em assinar o espaço. A minha assinatura, o meu belo nome, num canto do espaço que me pertence. Que lhe parece?

- Parece-me inovador. Portanto, em vez de cercas e arame farpado, Vossa Excelência assina, por assim dizer, o chão que lhe pertence.

- Isso. Tal como se faz nos contratos. Em cada página uma abreviatura, a síntese do nome e, na página final, o nome inteiro, a assinatura que comprova que eu estive ali e concordei com todas aquelas frases do contrato.

- Vossa Excelência quer aplicar a estratégia da assinatura de contratos ao próprio espaço...

- Isso mesmo. Escrever o meu nome em cada canto do meu território. Assinar o espaço, eis o que me parece cada vez mais necessário. Para que as pessoas saibam a quem pertence este maravilhoso território.

- Vai escrever a caneta?

- Nada disso, você brinca comigo, não é verdade?

- O certo é que talvez seja mais eficaz Vossa Excelência ter um mapa do território e assinar no mapa a zona que lhe pertence. Assinar uma miniatura parece mais sensato, ou não?

- Nada disso, nada disso. Eu quero, repito e insisto, assinar o espaço como se marca uma vaca no dorso. Vou explicar-lhe o meu projecto. A metodologia.

- Vamos a isso!

- Vou começar por produzir um carimbo gigante. Esse carimbo gigante vai ser introduzido numa máquina do tamanho de um tractor. O tractor-carimbo avança cinco metros, pára e up: carimbo para cima. Aliás: para baixo. E assim o território que me pertence ficará todo carim-ba-do-zinho. Que lhe parece?

- Que beleza, sim, mas o carimbo - Vossa Excelência sabe - é feito de tinta e a tinta talvez se apague com a chuva.

- Talvez se apague, sim. Mas posso sempre voltar a enviar o tractor-carimbo para reforçar as marcas que se forem apagando. Que lhe parece?

- Parece-me bem.

- Eis então o meu plano: em vez de se cultivar a terra, em vez de máquinas ruidosas que revolvem a terra para plantar e produzir alimentos e outras coisas semelhantes, criar e desenvolver, em alternativa, tractores e máquinas agrícolas que estejam constantemente a marcar o território com o meu carimbo. No fundo, máquinas que estejam sempre a escrever no espaço (para que as pessoas o percebam até quando passam de helicóptero): este terreno é meu! este terreno é meu! este terreno é meu! este terreno é meu!!

- Parece-me um objectivo agrícola e nobre.

- Isso mesmo. Ainda bem que entendeu.

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