O Chile entre as mulheres

Michelle Bachelet e Evelyn Matthei, são duas amigas de infância que estão frente a frente a disputar as eleições presidenciais chilenas. E logo na primeira vez que há duas mulheres na corrida para o mais alto cargo de uma nação.

A cena define o limbo vivido no Chile no referendo de 1988. Fernando Matthei, chefe do estado maior da força aérea e membro da junta militar de Pinochet, é um dos homens do regime chamados de urgência pelo velho ditador ao palácio La Moneda. Era preciso analisar os resultados e preparar uma reação. Mas o general Matthei, mergulhado numa imensidão de jornalistas à entrada do palácio, antecipa-se ao resto do regime: "Parece-me claramente que o "não" ganhou", disse com voz firme e sem receios.

Foi desta forma que o fiel general pôs um fim a Pinochet, sem recurso a sangue, retaliações à oposição ou recurso à fraude eleitoral. A sentença que usou passou a definitiva: era preciso assegurar que, fechado o ciclo autoritário, houvesse espaço à transição não-violenta e a um reconhecimento internacional dos bons ofícios "democráticos" do pinochetismo. De certa maneira, Fernando Matthei moderou os radicais da junta militar, antecipando-se na entrada do palácio. E a transição foi-se fazendo.

Recuemos no tempo. Setembro de 1973. O general Alberto Bachelet era um indefectível de Salvador Allende e da Constituição que jurara. Qualquer ato para rasgar a legalidade era para ele indefensável e, assim, quando se deu o golpe que virou o Chile da esquerda para a direita, Bachelet foi preso e passou à tortura durante meses. Acusado de traição à pátria, morreria em 1974 das sequelas do cárcere. Tinha 51 anos. Fernando Matthei estava em Londres quando se deu o golpe e regressou para assumir a direção da Academia de Guerra da Aviação, onde Alberto estava detido. Mais tarde, Fernando assumiria nunca ter mexido um dedo para o salvar, nem feito qualquer diligência para sequer o ir visitar. A política tinha-os separado de forma gélida e dilacerante.

Alberto e Fernando tinham sido bons amigos até 1973. Ambos permaneceram colocados na base de Cerro Moreno, na região nortenha de Antofagasta, unidos pelas as funções militares na força área. As mulheres de ambos privavam regularmente, tal como os filhos que com eles partilhavam as condicionantes da vida militar. Alberto tinha dois (Alberto e Michelle), Fernando três (Fernando, Evelyn e Robert). As filhas, Michele e Evelyn, passavam tempo juntas em brincadeiras exigidas pela tenra idade de seis e quatro anos, frequentavam a mesma escola primária e tratavam o pai uma da outra por tio. Depois dessa infância feliz e próxima, não chegaram a ser íntimas na adolescência e muito menos na idade adulta. Até que o boletim de voto as voltou a colocar, mais de cinquenta anos depois, lado a lado na segunda volta das presidenciais chilenas.

Isto tem ainda mais importância tendo em conta que é a primeira vez na história do Chile - e provavelmente na história política internacional - que duas mulheres disputam o mais alto cargo de uma nação.

Por lados opostos

Os percursos políticos de Michelle Bachelet e Evelyn Matthei são, em parte, herança paterna. Michelle, que seria presa e torturada em 1975, opôs-se sempre ao regime que lhe matara o pai. Ateia num país católico e conservador, formou-se em medicina, com especialização em pediatria. Em criança, tinha vivido dois anos em Washington DC, acompanhando o pai como adido militar na embaixada do Chile, mas já depois do golpe de Pinochet, passou pelo exílio na Austrália e Alemanha, em contacto com os meios universitários politizados de Leipzig, Potsdam e Berlim, estudando alemão e prosseguindo os estudos de medicina. Durante o exílio alemão casou com Jorge Cartes, de quem se divorciou em 1984, pouco depois do nascimento do segundo filho e cinco anos após ter obtido autorização para regressar ao Chile.

Nos anos seguintes, depois de especializada em pediatria com distinção, Bachelet trabalha com crianças cujos pais foram torturados ou estão desaparecidos. Envolve-se com ONG"s, é sensível aos movimentos de oposição à ditadura, namora com um militante de extrema-esquerda que planeou assassinar Pinochet. E quando a vitória do "Não", no referendo de 1988, tira Pinochet da arena e abre caminho à transição, Michelle assume o mesmo compasso. Vai trabalhar no ministério da saúde, faz consultoria para organizações de saúde internacionais e volta a apaixonar-se, desta vez por alguém de direita e que seria o pai do seu terceiro filho. Não casam e pouco tempo depois separam-se. Michelle cria os três filhos praticamente sozinha.

Durante os anos 1990, aprofunda os seus conhecimentos em Defesa e depois de nova passagem por Washington regressa a Santiago para assessorar o Ministro da Defesa e concluir um mestrado em ciências militares. Em Março de 2000 é nomeada ministra da Saúde do governo de Ricardo Lagos, dois anos depois ministra da Defesa (a primeira mulher na história do Chile nesta pasta) e em 2006 vencedora das presidenciais. É a chegada ao topo de uma self-made woman, capaz de romper com todos os estereótipos do Chile tradicional. Em 2010, termina o único mandato permitido pela Constituição, com uma taxa de popularidade acima dos 80%. A social-democracia latino-americana de Bachelet foi reformista e não revolucionária, construiu pontes com o mundo em vez de o hostilizar e fechou o primeiro capítulo da transição pós-ditadura. É por achar que falta completar o segundo que volta a concorrer, como favorita, a novo mandato.

Pela frente reencontra a amiga de infância Evelyn Matthei, candidata inesperada da plataforma de direita, depois da desistência de Pablo Longueira. Nos seus tempos de menina, Evelyn começou por estudar piano e ponderou seguir tocando. Tal como Michelle, também ela acompanhou o pai em missão no exterior, quando Fernando Matthei foi enviado para a embaixada em Londres. Já com Pinochet no poder, formou-se em economia em 1979 e passou a dar aulas na Universidade Católica de Santiago, ao mesmo tempo que prestou consultoria sobre a privatização do sistema de pensões. Teve um casamento estável e três filhos: é uma mulher de família tipicamente enquadrada nos padrões chilenos, mas com um caminho autónomo de afirmação individual capaz de a projetar politicamente.

No final da década de 1980, subiu primeiro à comissão política e depois à vice-presidência do conservador Renovação Nacional. Tendo em conta o papel do pai e os compromissos ideológicos assumidos desde a militância nas organizações juvenis do regime, não surpreende que Evelyn tenha votado "Sim" no referendo de 1988, cadastro que ainda hoje a acompanha no debate público. Os anos 1990 são típicos de uma ascensão meteórica: eleita e reeleita deputada e senadora, corta com o seu partido, faz política sem filiação, reentra no sistema pela mão conservadora da União Democrática Independente e torna-se na primeira mulher a presidir à comissão de finanças do Senado. Em 2011 foi nomeada ministra do Trabalho e da Segurança Social com o presidente Sebastian Piñera, seu correligionário político de sempre, homem de negócios conservador e que ousou votar "Não" em 1988. No Chile diz-se que só quem o fez pode chegar a La Moneda. Esta eleição provará se Evelyn é a exceção ou a confirmação da regra.

Estrelas no sistema

Quem disser que as lutas estudantis começaram no consulado de Sebastian Piñera não esteve atento ao Chile de Bachelet. Se há um ponto cardeal que percorre os dois governos (de direita e de esquerda) foi a constante insatisfação dos estudantes. As manifestações de 2011 colocaram o sistema de ensino no centro do debate político, projetaram Camila Vallejo, 27 anos e mãe recente, e Karol Cariola, de 26, como líderes carismáticas do movimento. Tanto Karol como Camila foram eleitas deputadas pelo Partido Comunista, em outubro, partido que pela primeira vez faz parte da plataforma eleitoral de Bachelet. No caso de Vallejo, não se pense que aceitou de bom grado o facto: a sua doutrina é radical de mais para a social-democracia da antiga presidente, mas teve de se sujeitar às decisões da cúpula. No entanto, está ciente do passo: «É preciso entrar no sistema, só com manifestações nada muda».

O lema pode ser visto como uma lição para todos aqueles ativistas que, na Europa, querem influenciar o rumo da governação sem ir a jogo democrático, preferindo movimentos etéreos sem responsabilidades. Camila Vallejo, mais uma mulher chilena em foco nestas eleições, negou o infortúnio e arregaçou as mangas. Não é por acaso que Bachelet fez da «gratuitidade do ensino» uma das poucas bandeiras eleitorais para a reeleição (reforma constitucional e aumento de impostos para os mais ricos são outros temas falados): não é mais possível fugir à força da geração universitária, politizada até aos ossos e capaz de pôr em cheque a coesão social. Como na cena de Aprile (Nanni Moretti, 1998), em que o próprio Moretti, olhando impaciente um debate na televisão entre Massimo D"Alema e Silvio Berlusconi, grita ao primeiro: «reage, D"Alema, diz qualquer coisa de esquerda».

É assim que a favorita Bachelet regressa: com um programa bem mais à esquerda que o anterior, aceitando o ativismo de Vallejo como seu. O Chile é hoje um imenso palco político protagonizado por mulheres. A transição desde a ditadura só agora fecha o seu ciclo.

MULHERES NO PODER EM NÚMEROS

» 56% do Parlamento do Ruanda é composto por mulheres, a mais alta percentagem no mundo.

» 21 é o número de mulheres chefes de estado ou de governo no ativo, em 193 membros da ONU.

» 20,9% é a percentagem de mulheres nos Parlamentos da África Subsariana, apenas menos 1,8% do que na Europa (excepto Escandinávia) e menos 3,9% do que no continente americano.

» 37 é o número de países onde as mulheres contam menos de 10% nos Parlamentos.

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