Merkel: afinal quem é a mulher que domina a Europa?

A revista Forbes elegeu-a «mulher mais poderosa do mundo» sete vezes nos últimos dez anos. A universidade polaca de Wroclaw concedeu-lhe, em 2008, o doutoramento honoris causa «pelo seu contributo histórico para a unificação europeia e papel numa renovada cooperação internacional». No mesmo ano seria premiada com o Carlos Magno, o decano das distinções europeias e que glorificou no passado nomes como Jean Monnet, Konrad Adenauer, Robert Schuman ou Winston Churchill. Poder e liderança são as duas faces de uma moeda que faz de Angela Merkel uma das personagens políticas mais controversas dos últimos anos. Há quem a admire pela condução da chancelaria alemã e controlo da máquina europeia. Mas há também quem a pinte como a reencarnação dos piores males que a Alemanha deu ao mundo no último século. Afinal, quem é Angela Merkel?

Sabemos hoje mais sobre a chanceler alemã do que ela gostaria. Era tudo uma questão de tempo até o jornalismo fazer o seu trabalho, os académicos cruzarem informação e os arquivos darem à estampa histórias destapadas. Merkel foi sempre avessa à exposição e contra esse mediatismo tem pautado a ascensão política com enorme descrição. Está no seu direito. Acontece que essa reserva de identidade não pode explicar em exclusivo o seu perfil público. O político é, por definição, alguém que se entrega à causa pública e é sobre o manto que impera nesse espaço que deve ser analisado, percebido, escrutinado, idolatrado, odiado, eleito e corrido. Mais: um trajeto de vida pode ser um pré-retrato das caraterísticas políticas. Conhecê-lo ajuda a interpretar o estilo de liderança, a conquista do sucesso e o exercício do poder.

Só que, no caso de Angela, não chega. Para lá de Merkel está uma realidade permanente, geograficamente imponente e politicamente impactante chamada Alemanha. Dissociar Angela da Alemanha reerguida depois da reunificação é ver a árvore sem olhar para a floresta, é pessoalizar em demasia o que é sobretudo geopolítico, é reduzir esta Europa a «passageiros em trânsito», para citar Agualusa, em vez de olhar para ela como um entroncamento de velhas nações à procura de si mesmas.

A rapariga que chegou a chanceler

Nascida em Hamburgo, Angela Kasner logo rumou a leste para acompanhar o pai, pastor protestante, numa vila dos arredores de Berlim. A mãe, nascida na Polónia, era professora de Inglês e Latim e militante social-democrata. Angela seguiu as pisadas dos dois. Do pai, herdou uma disciplina metódica. Da mãe, o gosto pelas línguas. Aplicou-se no russo e é hoje fluente para conversar com Putin. Barra a matemática e pouco social durante a juventude, a política só se cruzou no seu caminho porque a RDA era mais forte do que os cidadãos e não deixava ninguém de fora das escrituras. Angela formou-se em Física, doutorou-se em Química Quântica e exerceu investigação na Academia de Ciências nos arredores de Berlim durante a longa década de 1980. Na noite em que o Muro foi derrubado, Angela seguiu a sua rotina e rumou à sauna. A política, a democracia ocidental e a luta por uma Alemanha diferente da que conheceu até aos 36 anos nunca a fez mexer um dedo de convicção. Angela Kasner (adotou o Merkel do primeiro casamento) estava destinada a passar ao lado da história. Em 2009 diria: «Nunca fui apolítica, só estiva politicamente inativa muito tempo.»

O turbilhão alemão que 1989 provocou levou-a, no entanto, a mudar o rumo. Aderiu a um novo partido, o Despertar Alemão, um movimento conservador na Alemanha de Leste criado no período da «revolução pacífica» (1989-1990) e que viria a fundir-se na CDU logo após a reunificação de Outubro. Merkel foi porta-voz do partido e braço-direito de Lothar de Maizière, o primeiro-ministro eleito na Alemanha de Leste que assegurou a transição pré-reunificação. Ao contrário do que muitas vezes se diz, não foi Helmut Kohl quem apadrinhou os seus primeiros passos na política. Merkel chegara no momento certo e pela mão poderosa de Maizière à grande família da direita alemã.

O encontro com Kohl dá-se num momento escolhido a dedo. Na véspera do congresso da CDU e da reunificação alemã, Merkel pede ao amigo e candidato à cúpula do partido, Hans Geisler, que a apresente a Kohl. O chanceler chamar-lhe-á «a rapariga» desde aí. A partir desse momento a sua ascensão política torna-se imparável e nem mesmo a queda de Kohl a travou. Pelo contrário: Merkel fará rapidamente o luto pelo «gigante alemão», controlará a decadência financeira da CDU e seguirá mandando. Durante esse tempo, verá tombar adversários internos e promessas políticas do seu tempo sem nunca pestanejar. A Merkel política não seria assim tão diferente da Angela que estudou física, química e russo. Não se apagam 36 anos de vida civil só porque se descobriu uma nova vocação pública.

Durante o tirocínio político, não consta que Merkel fosse particularmente acesa em discussões partidárias ou nos círculos mais altos do poder. A sua postura é descrita muito mais como de «esperar e observar» do que de «agressividade crítica». Eleita deputada nas primeiras eleições da Alemanha reunificada, chega a ministra para as Mulheres e Juventude em 1991. A queda de Maizière, por suspeitas de ligações antigas à Stasi, leva-a nesse mesmo ano à vice-presidência da CDU em sua substituição. Até 1994, quando é nomeada ministra do Ambiente com a tutela do dossier nuclear, passa ainda pela presidência do estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e ganha experiência a todos os níveis da política federal alemã.

Observadora e cuidadosa nas solidariedades políticas, assiste à derrota de Kohl em 1998 tornando-se, dois meses depois, secretária-geral da CDU. Timing e vontade são duas das caraterísticas mais importantes dos políticos de topo e Angela Merkel cedo as aliou à ambição. Não há nisto nenhum problema ou excecionalidade: são vastíssimos os exemplos por esse mundo fora de percursos mais ou menos semelhantes ao dela, o ponto é que habitualmente não lhe atribuímos também esse calculismo refinado. Neste sentido, Merkel aprendeu a ser política com facilidade num percurso ascendente banal em democracia. Uma política que exerce o poder com todas as caraterísticas dos ambiciosos, num estilo muito particular, sem exuberâncias ou estados de alma, numa Alemanha em crescimento, autoconfiante e em mudança. Ou seja, podíamos ter uma Angela Merkel em qualquer governo europeu, mas não podíamos ter esta Angela Merkel sem ser nesta Alemanha.

A liderança alemã

Quando Kohl e a CDU são arrastados no escândalo do financiamento partidário e vivem a pesada derrota contra Gerhard Schroeder em 1998, Merkel é tão fria com o seu ídolo como pragmática com as consequências. Eleita presidente do partido em 2000, substituindo aquele que é hoje o seu poderoso ministro das Finanças, Wolfgang Schauble, não mereceu no entanto a confiança dos militantes para ser a candidata nas legislativas de 2002, perdendo essa luta interna para o líder bávaro da CSU, Edmund Stoiber. Não foi revés que a transtornasse. Stoiber foi derrotado por Schroeder e regressou ao Sul da Alemanha para não mais importunar Angela. Em 2005, Merkel chega finalmente ao topo tornando-se chanceler da Alemanha. A primeira mulher, o primeiro chefe de governo vindo de leste e também o mais novo.

Mas que Alemanha é esta que lhe cabe liderar? Há duas importantes dimensões que a caraterizam. A primeira é consequência direta da entrada em vigor do euro, o instrumento federalista mais avançado na integração europeia e que serviu de garantia aos europeus (principalmente França) de que a reunificação alemã seria feita de forma controlada e não ameaçadora. O euro acabou por ser, uma década passada desde o seu nascimento, o fator preponderante da ascensão económica alemã, da sua capacidade exportadora e do seu excedente comercial. Sem o euro a Alemanha não seria hoje o mesmo colosso económico, o mesmo Estado confiante na política europeia, o país da UE onde o desemprego jovem é mais baixo (8%) e onde trabalha o maior número de imigrantes fora do espaço comunitário (7,5 milhões).

A segunda dimensão está diretamente associada às reformas estruturais promovidas pelo governo SPD/Verdes, entre 2003 e 2005, e que permitiram, entre outros aspetos, flexibilizar o mercado de trabalho, reformar a segurança social, reduzir impostos, mas também cortar pensões e subsídios de desemprego. Não vale a pena recordar a polémica que causou esta Agenda 2010, acusada por muitos alemães de ser a maior machadada no «Estado social» no pós-guerra. Sindicatos e maciças manifestações percorreram as principais cidades alemãs e o impacte das medidas foi sentido com violência na sociedade alemã. Para gerir este quadro, os resultados das legislativas de 2005 acabaram por ser o melhor dos desfechos, obrigando a CDU/CSU e o SPD a uma grande coligação capaz de conduzir o rumo das reformas. Neste sentido, a liderança alemã de Merkel só tem sido possível porque essas reformas adaptaram a economia alemã ao impacte da globalização económica, à emergência de potências fora da Europa e à cristalização de muitas economias da Zona Euro. O mérito de Merkel, tal como o de Tony Blair depois de Thatcher, foi não ter entrado em ruturas e apagões com as reformas do seu antecessor. Tivesse feito isso e a Alemanha não teria a mesma capacidade de resposta à crise mundial que se seguiu à queda do Lehman Brothers. É por isso que não surpreende a reeleição de Merkel em 2009. Os alemães gostam de liderança, confiam no seu modelo e muitos admiram a forma como exerce o poder.

A Alemanha que se reergue nas duas décadas após a reunificação provou estar mais preparada para os grandes desafios europeus do que grande parte dos Estados membros. Neste segundo mandato, já coligada com os liberais do FDP, e confrontada com o impasse nas negociações dos tratados, a crise financeira internacional, as dívidas soberanas na Europa, os resgates à Irlanda, Grécia e Portugal, e o perigo de colapso da moeda única, Angela Merkel emerge como líder em todas essas frentes. Não tanto com um intuito claro de se tornar czarina europeia - embora Catarina, a Grande, seja retrato de estimação no seu gabinete - mas com o objetivo de salvaguardar o euro como garantia do momento unipolar alemão. Se foi a moeda única um dos meios para a Alemanha crescer, não há razão para o derrubar. Nem que isso tenha de ser feito à custa das condições de vida de muitos Estados europeus sob assistência financeira.

Por outras palavras, é mais esta Alemanha que emerge (a par da centralidade política do Tribunal Constitucional) a condicionar as decisões de Merkel, do que a chanceler a definir um plano europeu articulado. Salvo nuances de estilo, outro chanceler teria respondido primeiro aos interesses alemães do que aos interesses de outros Estados europeus. Não é uma conclusão para ilibar a senhora Merkel de erros, exageros, teimosias, enganos, obcecações e danos causados ao longo desta interminável crise europeia: é um raciocínio que procura relevar mais uma condicionante política inultrapassável (o eleitorado germânico, as instituições teutónicas e o momento da história alemã) e menos uma leitura personalista isolada do seu contexto interno.

É da mais elementar importância discutir a renacionalização de muitas lideranças na Europa, o fechamento de muitas sociedades aos problemas que extravasam as suas fronteiras, a falta de diálogo entre a política e os cidadãos. Mas não é realista pensar que não é nesta Europa que Merkel decide e nesta Alemanha que procura ser eleita. Se quisermos disputar essa sua primazia e a hegemonia alemã na Europa devíamos começar por ser muito mais exigentes com quem realmente elegemos. E ainda não é no chanceler alemão.

*Investigador do IPRI-UNL e colunista do Diário de Notícias

[22-09-2013]

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