Mentes brilhantes na casa dos 20

Um tipo que faz desenhos animados, outro que criou uma plataforma empresarial informatizada, Um talento musical, um produtor de talentos musicais, um rapaz que cria roupa com açúcar e uma rapariga que estuda células para fazer diagnósticos. Anthony McMurry e Ruben Carvalho foram descobrir os jovens génios portugueses.

Cláudio Sá, 21 anos, é realizador de desenhos animados

Interessado pelas artes desde que tem memória, Cláudio Sá começou a desenhar em criança, «sem nunca pensar vir a ser realizador de desenhos animados». Os blocos de desenho comprados pela mãe e os livros de ilustração da Disney oferecidos pelo pai faziam as suas delícias.

O gosto pelo desenho e a vontade de «perceber como as coisas se fazem» levaram-no a estagiar no Cineclube de Avanca, onde aperfeiçoou a técnica e criou o primeiro filme da sua autoria, aos 16 anos. Ganância, realizado em 2008, conta a história de um homem ambicioso que não olha a meios para atingir os fins. Em 2011 chega O Relógio de Tomás, uma história contada ao ritmo de um relógio que permite ao protagonista viajar no tempo. Em ambos os projetos, para além da animação e realização, Cláudio foi o responsável pela escrita de guiões que têm em comum o objetivo de levar os espetadores a refletir sobre a condição humana. Nos dois filmes o sucesso surgiu naturalmente: primeiro foram os prémios nacionais e depois a entrada no círculo de festivais de cinema estrangeiros.

Ainda em 2011, Cláudio realizou Lágrimas de Um Palhaço, uma história planeada ainda durante a licenciatura em Som e Imagem. A obra voltou a ser recebida com aplausos pela crítica, mas desta vez com um sabor diferente. A curta-metragem está indicada para a 65.ª edição do festival internacional de Cannes. Para o realizador este «foi o sonho tornado realidade, afinal é "aquele" festival».

Com apenas 21 anos, Cláudio já conquistou cinéfilos e amantes do cinema em todo o mundo. O animador considera que o reconhecimento da indústria é «fantástico e motivador» para continuar o trabalho desenvolvido até agora.

Neste momento, Cláudio trabalha em parceria com a Cavalinho, empresa que atua no ramo da moda e que patrocina «o maior presépio do mundo». A efeméride inspirou Cláudio, que propôs à marca «uma aventura mágica que faz lembrar o universo da Disney». A empresa aceitou e o filme estreia no próximo Natal.

Este prodígio da animação reconhece que não é fácil vingar na indústria do cinema em Portugal. Ainda assim, considera que é possível vencer e deixa a receita: «É preciso ambição, trabalho e fé no que se faz. Houve férias que não aconteceram. Trabalhei de manhã à noite para concluir os filmes» e não foi por causa do ordenado. Para Cláudio, o dinheiro é essencial mas o mais importante é «trabalhar por gosto, não só porque se é pago».

Para o futuro, esta mente brilhante tem apenas uma certeza: a vontade de desenhar para o resto da vida. Nos planos a curto prazo está a realização de um novo filme. Mandim é uma homenagem ao falecido avô com o mesmo nome.

Roberto Machado, 23 anos, é um engenheiro informático apaixonado pelo associativismo

Roberto Machado tem 23 anos, vive em Braga e é engenheiro informático.

Desde cedo percebeu o que queria fazer. As máquinas de jogos no café dos pais e o computador oferecido pelo padrinho aos 3 anos despertam a curiosidade de Roberto pela tecnologia. Ao longo da adolescência as ideias já fervilhavam. Mas foi a frequência da licenciatura e do mestrado em engenharia informática que libertaram o espírito empreendedor que reconhece ter. «Ser empreendedor não é criar um negócio novo, não é estar satisfeito com o ontem, é planear o amanhã», diz o jovem para quem o dinheiro nunca foi o principal objetivo.

Durante a vida académica envolveu-se em todo o tipo de projetos. Foi presidente do centro de estudantes de engenharia informática, colaborou com a associação de estudantes, e foi diretor do departamento de empreendedorismo da sua universidade. Na informática, os primeiros projetos provaram a qualidade do trabalho de Roberto. «Criei um projeto para um concurso da Galp, e a PT convidou-me para trabalhar com eles, mas não aceitei» porque os seus projetos eram outros. Em março de 2011 criou com um grupo de colegas a Group Buddies. A criação da empresa partiu de um trabalho da faculdade. A ideia seria responder a pedidos de organizações, mas Roberto e os amigos optaram por fundar a sua própria empresa. O resultado é um negócio que tem como objetivo criar uma plataforma que agregue a gestão interna da empresa, a sua carteira de clientes e a comunicação externa. «A ideia é vender em massa, mas com um atendimento personalizado e prolongado para cada cliente.» O projeto começou por ser destinado a núcleos de estudantes, mas hoje a Group Buddies tem como clientes clínicas de saúde, gestores de condomínios e até comunidades de emigrantes.

«Fazer um curso superior é fácil. Mas fazer um curso e ao mesmo tempo muitas outras coisas é mais difícil e assim é que fazemos a diferença.» E por isso Roberto tem em mãos mais quatro projetos, mas apenas falou em dois - o segredo é a alma do negócio. A Yy point é uma plataforma informática para gestão de agendas profissionais, e a Lazy U é um serviço de trocas dirigido a universitários.

Este jovem empreendedor reconhece que «não é fácil vingar em Portugal. Mas também não é difícil. As coisas vão acontecendo se tivermos persistência e acreditarmos no que fazemos». E isso é coisa que não falta a Roberto, que não esquecerá o Natal de 2011. «Passei-o a trabalhar, era algo que nunca tinha feito, mas houve um problema num website. Mas não quero assustar ninguém, ontem passei o dia a ver futebol!»

Roberto tem como objetivo «criar seis projetos até aos 25 anos». Neste momento falta apenas um, mas o mais provável será que esta mente brilhante supere o limite imposto a si mesmo.

Pedro Cardoso, 21 anos, é músico e um youtubber de sucesso

Pedro Cardoso tem 21 anos, vive na Maia e é uma jovem promessa musical que estuda Arquitetura Paisagística.

O fascínio pelo mundo das artes começou em criança. O desenho era uma das áreas que o atraía, mas foi na música que encontrou a sua paixão. «Sempre cantei mas nunca dei muita importância. Tive aulas de piano obrigado e não correu bem. Não queria que me ensinassem a descobrir a música, queria descobri-la eu.» Como tal juntou dinheiro e comprou uma guitarra, recusando-se a ter aulas para aprender a tocar. «Calquei as cordas e comecei a ver o que conjugava. Não sei os nomes de acordes nem de escalas.» O resultado foram os primeiros covers. Walk away foi a primeira música que aprendeu a tocar, um original de Ben Harper, que considera ser uma das suas referências a par de John Mayer, Jason Mraz e Amos Lee.

Apesar do amor pela música, Pedro acabou por escolher outra área para estudar. A licenciatura em Arquitetura Paisagística, que está a concluir, permite-lhe «conjugar a vertente criativa com a natureza». Apesar de gostar da área, o curso funciona como plano B. «Não me vejo fechado no escritório a desenhar o dia todo. O objetivo é viver da música. Mas prefiro fazer as coisas de forma racional e ter uma alternativa.»

Ciente das dificuldades que o meio atravessa em Portugal e determinado a «não ser apenas mais um», Pedro aproveita todas as oportunidades que surgem. Exemplo disso foi a sua passagem pelo concurso de talentos Ídolos em 2009. Apesar de não chegar à fase final do programa, a participação abriu-lhe algumas portas. O talento de Pedro levou-o a criar o seu canal no Youtube, onde publica músicas da sua autoria e de outros artistas. Ao todo, as suas interpretações já foram visualizadas mais de 1,3 milhões de vezes.

Sentindo-se cada vez mais à vontade com a guitarra, Pedro começou a compor as suas próprias músicas e a produzi-las com o apoio de Miguel Marques, baterista do grupo Easy Way. O primeiro EP surgiu aos 20 anos.

O passa-palavra e o reconhecimento do seu talento levaram-no a conquistar um lugar na Optimus Discos, projeto que visa apoiar e promover os novos talentos nacionais. A contratação valeu-lhe a possibilidade de gravar um novo EP, que deverá ser editado em setembro.

Nos planos de Pedro estão agora a conclusão da licenciatura e a preparação do mestrado. O verão deverá ser passado a compor novas músicas e a produzir o próximo EP.

Se até aqui tudo aconteceu de forma natural, Pedro reconhece que «a partir de agora será difícil, vou ter de dar mais de mim». Mas esta mente brilhante já tem a estratégia definida. «A sorte é importante, mas não chega. O importante é nunca fugir aos meus padrões. É preciso trabalho e dedicação. Sem isso, não há sucesso.»

Filipe Blanquet, 28 anos, é o primeiro sugar stylist português

Filipe Blanquet é «o primeiro sugar-stylist português», tem 28 anos e vive em Setúbal.

Em criança o desejo de ser presidente da república deu lugar a uma incerteza permanente. Filipe conhecia apenas o seu interesse pelo desenho e pela pintura, mas nunca sonhou vir a ser estilista.

Depois da licenciatura em Arquitetura e Design, trabalhou como designer gráfico durante dois anos. A experiência não correspondeu às expetativas de Filipe, que decidiu mudar de vida. Sem saber cozinhar - «nem fazer um bolo sabia» - aventurou-se num curso de cozinha avançada. A formação em pastelaria foi a que lhe despertou mais interesse pela possibilidade de «conjugar os trabalhos do paladar com a criatividade visual do design». Com as mãos na massa, Filipe prefere deixar as tortas e os pudins em banho-maria e lançar-se aos bolos, em particular à sua decoração.

Em 2010, um grupo de clientes do hotel Troia Design, onde ainda trabalha como pasteleiro, pediu um bolo com uma decoração diferente: uma escultura comestível. Foi então que Filipe começou a pensar na aplicação da técnica de pastilhagem, típica da pastelaria, noutro tipo de produtos, nomeadamente, na roupa. Mas como fazer roupa de açúcar? «Há uma base de tecido onde se aplicam as peças em açúcar com técnicas de pastelaria. São dois trabalhos: o de estilista e o de pasteleiro», explicou o sugar-stylist.

A primeira coleção de Filipe surgiu nas comemorações do réveillon de 2010. «Iam inaugurar o casino do hotel e propus à diretora fazer um vestido de açúcar para uma modelo. Acabei por convencê-la a criar um desfile com oito vestidos.» Aos 25 anos nascia a primeira coleção.

Determinado a apostar nesta doce atividade, Filipe abriu o seu atelier, onde viria a criar mais duas coleções: uma inspira-se nos bordados portugueses; a outra recupera o glamour das pin-ups dos anos 1940, e aposta na lingerie e nos acessórios açucarados.

Quanto a consumidores gulosos, «há clientes que têm de ver para acreditar, e há outros que ficam logo interessados». Filipe guarda na memória o primeiro vestido de noiva encomendado: «Era coberto de peças de açúcar e no final do casamento os convidados comeram o vestido.»

Filipe reconhece que é difícil vingar na moda em Portugal, mas o negócio vai de vento em popa. O estilista-pasteleiro abriu a sua primeira loja em Setúbal, onde estão disponíveis as suas criações e de outros estilistas e artesãos.

Para o futuro, o desejo é deixar a pastelaria e dedicar-se a tempo inteiro à moda de açúcar. O processo não será fácil mas esta mente brilhante tem os seus trunfos: «Gosto de arriscar, sou persistente e muito dedicado ao que faço. Não consigo passar um dia sem fazer nada.»

Carla Lopes, 29 anos, é investigadora no Instituto Português de Oncologia de Lisboa

Carla Lopes tem 29 anos e está a viver em Lisboa. Vencedora do prémio do Journal of Cell Science, é uma dos investigadores de um projeto do Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPOL).Em criança, Carla queria ser veterinária, mas rapidamente percebeu que a medicina não seria a sua área. A curiosidade sobre o funcionamento do corpo humano levou-a a estudar Biologia na Universidade de Aveiro. No seu percurso académico, Carla teve a oportunidade de participar em vários projetos, nomeadamente na área da infertilidade humana, onde tomou o primeiro contacto com o estudo das proteínas e a sua relação com doenças. No final da licenciatura, teve a oportunidade de fazer um estágio de seis meses na Universidade de Leicester. A experiência aumentou ainda mais a sua curiosidade sobre o funcionamento dos centrossomas e dos cílios primários.

Decidida a explorar o mundo celular, em 2006 Carla candidatou-se à bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia para realizar o seu doutoramento, e conseguiu. Aventurou-se numa temporada de quatro anos no Reino Unido. Investigou as proteínas responsáveis pela formação dos cílios primários e o seu papel na origem da síndrome oral-facial-digital. A doença carateriza-se por malformações na cavidade oral, na face e nos dedos, e pode originar insuficiência renal. Os estudos de Carla ofereceram novas informações sobre os cílios e sobre o seu papel na origem de outras doenças para além da estudada.

Estes resultados foram publicados no Journal of Cell Science, que atribuiu a Carla o prémio para o melhor artigo assinado por um jovem cientista em 2011. A investigadora recebeu a notícia com orgulho por o seu trabalho ser reconhecido por um público tão exigente.

Hoje, Carla faz parte do grupo de investigadores do IPOL que tem como objetivo perceber qual o papel dos centrossomas, que estudou no seu doutoramento, na formação e proliferação de células do cancro. Com a investigação no Instituto Gulbenkian de Ciência, pretende descobrir novas formas de diagnosticar e tratar o cancro. «É motivante saber que posso contribuir para a melhoria da vida das pessoas», contou.

Carla não sabe o que o futuro lhe reserva, pois não conhece os resultados da investigação, mas tem a certeza do que quer fazer. «Quero continuar a fazer investigação aliada à vertente clínica, ajudar no tratamento e diagnóstico de doenças.»

Até agora, Carla venceu em todos os projetos em que se envolveu. Rejeitando que exista um segredo para o sucesso, esta mente brilhante garante: «Apenas faço o que me estimula mais e tento dar o meu melhor.»

Ivo Conceição, 28 anos, é humorista

Ivo Conceição sonhava ser mergulhador em criança. O fascínio pelo mar combinava-se com as partidas de futebol no Vitória Futebol Club. Contudo, a sua viagem viria a mudar de rota. O gosto pela música foi-lhe incutido pelo pai que o obrigou a frequentar o conservatório. Beatles, Queen e Beachboys faziam parte da playlist do pai e fizeram a banda sonora da infância de Ivo. Daí à estreia no mundo da música foi um pequeno passo. Primeiro foram as bandas locais, a venda de discos porta a porta e depois a gravação do primeiro álbum em Lisboa. Hoje é o produtor dos Homens da Luta.

Os projetos foram surgindo e o sucesso também, até ao dia em que um grupo de amigos decidiu juntar-se para unir a música com o «humor da rua para fazer uma caricatura da sociedade»: estavam formados os Homens da Luta. O projeto sem patrocínios ou financiamento de empresas privadas atingiu o sucesso com Vai Tudo Abaixo, o programa de televisão emitido na SIC Radical e produzido exclusivamente pela câmara amadora e pelo computador com «centenas de anos» de Ivo. Para tal contribuíram os ensinamentos da licenciatura em Multimédia.

Neste momento, Ivo frequenta a licenciatura em Relações Públicas e Publicidade, enquanto olha para o futuro otimista. «Há espaço para crescer e criar novos projetos em Portugal. É preciso ser inovador, diferente e ridicularizar as dificuldades do dia a dia. Para mantermos a sanidade mental, o melhor remédio é olhar em frente com um sorriso parvo na cara», disse bem-humorado.

Como verdadeiro «homem da luta», Ivo afasta as classificações de comunista ou anarquista e denomina de hipócrita «quem diz o que fazer e como fazer» no país. Descrente nos políticos, este autodidata considera que a solução para os portugueses saírem da crise é agirem por si próprios.

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