«Hoje em dia, ser alternativo é ser mainstream» (com vídeo)

Nasceram na mesma altura que a Notícias Magazine, há vinte anos. Há dez separaram-se, mas vão voltar este ano aos palcos para cinco concertos. Ricardo Cruz Andrade, Sandra Mesquita e Sofia Serrano conversaram com os Ornatos Violeta. Falaram da crise, de Portugal, dos choques entre gerações. E perceberam que o sucesso da banda portuense começou depois de ela terminar.

Os Ornatos andam desde o início do ano a ensaiar num estúdio da Rua da Alegria, no Porto. «É preciso estarmos afinados para o palco», avisa no início da entrevista Manel Cruz, o vocalista da banda que começou há vinte anos e acabou há dez. Este reencontro faz-se a cinco tempos. A 17 de Agosto vão estar no festival de Paredes de Coura, a 25 e 26 de Outubro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. E a 30 e 31 do mesmo mês, no Coliseu do Porto.

No folheto que acompanha o vosso primeiro álbum, Cão, fazem um agradecimento ao Abel da Nazaré, «o maior frique do mundo». Quem é o Abel da Nazaré?

Manel Cruz: É um gajo que enrolava charros só com uma mão.

Peixe: Conhecemo-lo numas férias que fizemos juntos na Nazaré. Na altura tínhamos o hábito de levar os instrumentos acústicos e às vezes tocávamos na rua, assim num espírito freak, e foi numa noite dessas que conhecemos esse Abel, que era um gajo que era pescador e apanhava perceves. Nunca mais falámos com ele, nem ele faz a mínima ideia de que o seu nome está no disco, de certeza [risos].

Porque é que decidiram reunir-se agora, depois de tantos anos inativos e com tantos projetos pelo meio?

Manel: Falando por mim, a pressão - se é que se pode chamar assim - foi crescendo, bem como a vontade das pessoas. De há muitos anos para cá vimos todo um movimento a acontecer, ao qual somos evidentemente sensíveis. Pessoalmente, não tinha grande vontade de voltar, isto era um caso encerrado. E ainda não tenho. Mas, por outro lado, a dada altura pensei que a única hipótese de as pessoas me deixarem de perguntar quando é que os Ornatos voltam era mesmo só se voltássemos. Assim desmistificamos este regresso e podemos depois seguir com as nossas vidas e com os nossos projetos.

Elísio Donas: Outra coisa que também poderá ter contribuído para isto acontecer neste momento específico foi o lançamento da caixa que contém a reedição do Cão e de O Monstro Precisa de Amigos, para além de inéditos e raridades, que nos pôs em contacto muito mais regular. Ao ouvirmos e trocarmos temas uns com os outros, ao decidirmos questões de design, etc., demos por nós a pensar: «Olha, e porque não fazer uns concertos?»

Manel: Evidentemente também há o prazer de revisitar este material, bem como muitas outras razões. Podemos tentar justificar, mas é algo que, acima de tudo, aconteceu intuitivamente e de um dia para o outro, um bocado como aquela coisa da prancha: vou ou não vou?

Referem que a insistência dos fãs era muita. Como é que as pessoas se manifestavam mais? E-mails, cartas?

Manel: Tudo. Pessoas com quem estás e que te dizem coisas como «o meu filho tem 9 anos, adora Ornatos e adorava ver um concerto. Quando é que voltam?» ou «curto muito o que tu fazes agora, mas Ornatos é que era».

Nuno Prata: O Facebook é o meio por excelência para termos esse feedback mais direto. A página dos Ornatos já vai em 177 mil fãs e foi por aí que comecei também a ter noção de que é uma realidade completamente à parte. Também me apercebi, com esta reunião, de que para além do prazer de estar nesta sala de ensaios e da perspetiva de tocar com eles, aliado aos pedidos dos fãs, esta é uma oportunidade única para tocar num Coliseu cheio, algo que eu acho que só é possível neste contexto e neste momento. Até porque nunca pudemos tocar em nome próprio nos Coliseus de Lisboa e do Porto. Pessoalmente, a possibilidade de a minha filha me ver a tocar nestas circunstâncias é também uma recordação que eu gostava de lhe proporcionar.

Vão quatro vezes ao Coliseu, onde nunca estiveram e onde têm casa cheia só para vocês. Mas depois também vão ao Festival Paredes de Coura, atuar no meio de outras bandas. Porquê?

Kinörm: Desde já porque consideramos que Paredes de Coura é um festival de exceção e acho que qualquer músico adoraria tocar no palco daquele festival. Para além disso, a proposta foi muito tentadora e pareceu-nos adequado - embora não tenha havido uma consciência estratégica - darmos o nosso primeiro concerto em dez anos num ambiente em que nos pudéssemos familiarizar melhor com todas as emoções que uma reunião destas implica. Assim, sentimos que o público, a filha, a mãe, o irmão e todos esses elementos emocionais serão mais fáceis de encarar quando subirmos ao palco dos Coliseus, em Outubro.

Mesmo com o lançamento recente de um disco de inéditos e raridades, ainda têm muitos temas por editar?

Peixe: Gravados não, mas feitos sim. Quando saiu o Cão [1997], já tínhamos seis anos de música para trás, logo grande parte das canções que fizemos nunca foram editadas ou sequer gravadas, embora fizessem ainda parte da nossa busca por uma identidade musical. Estamos a pensar recuperar algumas dessas músicas para os Coliseus. Teria piada pegar numa ou outra coisa antiga que nos diz bastante mas que ninguém conhece.

Faz sentido os Ornatos voltarem com um novo trabalho de originais? Ou revisitarem alguns desses temas antigos em estúdio?

Elísio: Gravar os temas antigos não faria sentido nenhum. Não os gravámos na altura, quando ainda poderia fazer algum sentido, portanto 15 anos depois não faz sentido de todo.

Manel: E isso seria também assumir que todos os projetos em que estamos envolvidos acontecem porque não temos os Ornatos e então somos forçados a desenrascar-nos de alguma maneira. E isso não é verdade. São todos projetos extremamente válidos, gosto muito, acho que fazem todo o sentido e não os encaro como uma alternativa aos Ornatos.

Peixe: É que nem são projetos paralelos. São os projetos, a nossa vida atual, a nossa carreira. Isto [dos Ornatos] é que é um bocado paralelo.

Kinörm: Exatamente, isto é que é sair da norma e voltar...embora não seja propriamente voltar, mas sim estar, agora.

Quais eram as vossas influências há vinte anos, quando começaram, e o que é que vos influencia hoje em dia?

Manel: Cozinhar [risos].

Nuno: Para mim, no início, Beatles, Violent Femmes e Red Wings Mosquito Stings, uma banda que conhecemos num intercâmbio em França e à qual agradecemos no Cão.

Elísio: O que sempre apreciei nos Ornatos é que tínhamos pontos em comum - Violent Femmes acima de tudo -, mas cada um de nós gostava sobretudo das coisas que nos agregavam e de outras coisas que cada um trazia, no nosso instrumento, para a banda.

Peixe: Se ouvirem os discos com atenção, está lá tudo. Até porque nós não éramos grandes músicos e tocávamos com grande esforço, logo reproduzíamos aquilo que ouvíamos.

Kinörm: Concordo que os gostos individuais se foram compondo e condensando no som da banda. Ouvir os álbuns hoje em dia - algo que não fazia há já algum tempo - responde a essa pergunta, porque de facto está lá tudo: Violent Femmes, Faith no More, Radiohead, Red Hot Chili Peppers.

E falando do presente, tenho ouvido música muito diversificada. Ando apaixonado por Black Keys, mas também por música eletrónica, entre muitas outras coisas.

E porque é que decidiram pôr um ponto final nos Ornatos, há dez anos?

Kinörm: Estávamos todos cansados uns dos outros.

Nuno: As pessoas julgavam que a banda estava a começar, mas já tinha dez anos, portanto já estávamos a acabar.

Kinörm: Por outro lado, éramos também muito novos e esses dez anos de banda foram muito intensos, nos quais vivemos uns para os outros, de alguma maneira, e que culminaram em decidirmos viver juntos. Íamos de férias juntos, como dizíamos há pouco, com os instrumentos atrás, quase como um matrimónio. Isto se calhar também acontece com as bandas de hoje em dia, mas falando por mim, mais tarde, já tive outras bandas, nas quais também existia essa partilha e ligação, mas não era comparável ao que vivi com os Ornatos, até porque as idades são outras. Começámos numa idade em que as cores eram todas muito vivas e era tudo muito vibrante e vivido a duzentos por cento.

Manel: Além disso, com a idade surge a tendência para a individualidade. Começa a ter-se outro tipo de questões para além de «quando é que vamos ensaiar?» e «para onde é que vamos de férias?», questões que são levantadas individualmente, mas que, por força desse matrimónio que vivíamos, acabam por ser levantadas no seio do grupo. E à falta de respostas imediatas, começam a extremar-se as dúvidas e as coisas tendem a acabar por si. Portanto, assim que pressentimos uma certa tensão acumulada, preferimos afrouxar o laço.

Reveem-se na imagem de embaixadores da música alternativa portuguesa?

Manel: Não. Não sentimos que dominamos isso, só se fôssemos muito vaidosos é que acharíamos que somos embaixadores de alguma coisa.

Kinörm: Primeiro é preciso discutir esse conceito do alternativo.

Nuno: Não somos assim tão alternativos. Nós estamos mais para o mainstream do que para o alternativo. Trabalhamos com uma produtora, uma editora grande.

Peixe: Hoje em dia ser alternativo é mainstream.

Elísio: Nós somos alternativos na alma [risos].

Vivemos tempos de contestação social. Se por um lado se assiste ao surgimento de uma nova vaga de artistas fortemente influenciados por Zeca Afonso e Sérgio Godinho, temos também artistas já reconhecidos que também dão voz ao povo e refletem essa onda de protesto. Onde é que os Ornatos se encaixam neste panorama atual da música portuguesa?

Manel: Há pessoas com mais vontade de dizer determinadas coisas do que outras. Acima de tudo, existe uma vontade da pessoa se expressar criativa e artisticamente. Pessoalmente, nunca senti uma vontade emergente de cantar músicas de contestação social. Quando ouvia a minha voz, não era isso que ela me dizia.

Nuno: Isso é um reflexo dos tempos. A situação é propícia a que as pessoas se sintam indignadas e injustiçadas e, no caso de quem faz música, isso acaba por se refletir no seu trabalho, é natural.

Peixe: Acho que nós sempre tivemos essa caraterística nas letras do Manel. Lembras-te de eu te dizer uma vez que nós devíamos ter uma música de intervenção? Passados uns dias, ligaste-me a dizer: já fiz. Mas está no Foge Foge, Bandido [projecto a solo de Manel Cruz].

Manuel: A da cimeira? Não é bem intervenção. Mas piscava ali na situação social. Sempre senti que não era uma pessoa muito sólida a nível político. Nunca tive grandes certezas, sempre achei que a natureza humana era o que era, não me despertava muito interesse. Sempre vi ali pessoas como as outras, com ideias ou sem ideias, tal como eu.

Se tivessem de escolher uma canção vossa para descrever a situação atual do país, qual seria?

Kinörm: A Amor É Isto, porque se não fosse o amor já não estava cá ninguém.

Elísio:Débil Mental. O nome da música soa-me bem.

Peixe: Temos uma que não está editada, a Planos de Merda. Fala basicamente de que não adianta fazer planos, porque as coisas acabam sempre por ser diferentes do que aquilo que imaginamos. E, nessa linha, também não vale a pena preocuparmo-nos demasiado com a crise.

Falando agora da sociedade portuguesa e dos jovens, em particular, quais as maiores diferenças que encontram, em vinte anos, entre esta nova geração e a vossa?

Elísio: Quando nós tínhamos 20 anos, as pessoas mais velhas olhavam-nos com a mesma descrença e impressão com que eu olho agora para os jovens. Vejo uma certa futilidade nos jovens, mas eu tenho ideia de que as pessoas pensavam o mesmo de nós e nós não acreditávamos que era isso e víamos mais nas nossas intenções.

Manel: A questão é que não há só um prisma e o que interessa aqui é perceber o que existe na cabeça deles. Os jovens estão a descobrir o mundo e vão inventar a roda outra vez.

Peixe: Eu dou aulas de guitarra, convivo com jovens e aprendo com eles. Há uma tendência generalizada para dizer que a nova geração está perdida. Acho que a juventude está bem encaminhada. Nem podia ser de outra forma, porque a humanidade evolui. Eles têm a pica toda para aprender tudo e mais alguma coisa.

Mas há diferenças entre as gerações. Por exemplo, com que idade saíram de casa?

Ornatos Violeta: Nós saímos de casa precisamente para vivermos juntos, à exceção do Elísio, que deixou de viver com os pais aos 18 anos.

Kinörm: Saímos tarde de casa, com 23, 24 anos. Acho que foi tarde...na altura era tarde, senti que já devia ter saído.

Como é que viram o dia da manifestação da geração à rasca?

Kinörm: Para mim, foi um dia especial, uma manifestação em massa. Apenas lamento que estivesse tudo... imagina o que é pores todas as músicas a tocarem ao mesmo tempo. Não ouves música nenhuma, ouves ruído. E eu acho que essa manifestação produziu de facto a consciência de que as pessoas estão à beira do limite, mas que limite? Limite de quê?

Peixe: Mas não deixa de ser um indicador de que a juventude tem opinião e está mais interventiva.

Nuno: A questão está em perceber o que é que se faz com esta força. É incrível a quantidade de pessoas e a força que isso gera, mas é preciso saber como é que se canaliza isso para dar resposta aos problemas que temos.

Peixe: Portugal tem pouca atividade interventiva, mas pode ser um indicador de mudança mesmo que ainda não tenha muitos efeitos práticos. Fiquei surpreendido, por exemplo, com o caso recente da escola da Fontinha. Não só com o impacte mediático, mas também com as manifestações que se geraram em todo o país.

Nuno: Mas esse é um assunto em que percebes qual foi a questão de raiz. Na manifestação da geração à rasca, era teres muita coisa a funcionar ao mesmo tempo, sem saberes bem de que é que se trata.

Então qual foi a raiz do despejo da escola do bairro da Fontinha?

Manel: No que diz respeito à Fontinha, havia um projeto com bons resultados. Mas ia contra aquela ideia de que os jovens só por si não conseguem produzir alguma coisa válida, que precisam de uma parte institucional e legal. Eu acho que o papel da Câmara do Porto devia ter sido o de aproveitar o trabalho que já estava feito - e que gera orgulho entre os moradores - e dar-lhe um vínculo legal. É uma estupidez tremenda da parte desta Câmara aquilo que foi feito. O papel da polícia foi absolutamente ridículo e macaquesco, ao atirarem os computadores borda fora. Deviam ter tido um bocadinho mais de respeito pelo trabalho daquelas pessoas.

Kinörm: Isto é o nível do fascismo que temos nesta câmara. Estamos no ano europeu do voluntariado. O Estado está a dar dinheiro para as pessoas fazerem voluntariado e para lançarem campanhas e estas pessoas que estão lá há imenso tempo a fazer voluntariado são escorraçadas.

Manel: Foi o destruir de toda a aprendizagem que ali foi feita. Os próprios moradores levavam os filhos lá e ficavam contentes porque os miúdos se estavam a construir de alguma maneira.

O que é que veem como mais urgente de resolver em Portugal?

Manel: Para ser sincero, eu não sei por onde começar. Votar é a primeira opção.

Kinörm: Votar em branco. É dizer vocês não servem. As políticas estão condicionadas pelo mercado e pelas regras de mercado.

Manel: Eu acho que está nas nossas mãos conseguir algo para lá do governo. Está nas nossas mãos, com as pessoas à nossa volta, dar valor ao trabalho delas. Todos nós temos a tendência natural em subestimar o trabalho dos outros, como se o trabalho dos outros não desse trabalho nenhum. É preciso apostar no trabalho daqueles que te rodeiam.

Voltando à música, porque é que não temos boas bandas a representar Portugal no Festival da Eurovisão?

Peixe: A ideia do festival está conotada com a música ligeira, meio pindérica. Mas, há uns anos, o país parava para ver o festival. Hoje, tem um bocado de naftalina e não estimula as bandas a irem lá.

Elísio: Os Homens da Luta tiveram a sua piada. Nunca houve a ideia de que eles ganhassem e foi o público, quase por subversão, que acabou por votar, pela atitude dos Homens da Luta em si.

Peixe: A própria conferência de imprensa foi muito caraterística. Eles responderam em inglês mas com o sotaque e com a métrica em português [risos].

Hoje em dia, em Portugal, ainda é preciso conhecer as pessoas certas no meio da música para se chegar a algum lado?

Peixe: Em Lisboa acho que sim, mas aqui, no Porto, estamos a cagar-nos para isso.

Manel: As pessoas certas são aquelas que trabalham melhor contigo. É teres uma banda com gajos que curtes, com um agente que curtas e que te curta a ti e com uma boa equipa de estrada. Eu gosto de acreditar que a qualidade das coisas vende e impõe-se.

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