Hillary vs Condoleeza: Candidatas em 2016?

Tampa, Florida. 29 de agosto de 2012, convenção nacional do Partido Republicano. Encontro de aclamação de Mitt Romney e Paul Ryan como fortaleza da direita que tirará Barack Obama e Joe Biden da Casa Branca. Sobe ao palco Condoleezza Rice, conselheira de segurança nacional de George H. Bush e secretária de Estado de George W. Bush. Todos esperam um tratado de estratégia internacional sobre a posição da América no mundo e a inspiração democrática que ilumina as nações perdidas. Condi faz o favor de começar por aqui, mas surpreende todos com um discurso sobre educação, economia e liderança. E traz nota pessoal: «Uma rapariga pequena cresce em Birmingham [Alabama], a mais segregadora cidade dos EUA. Os seus pais não a podem levar ao cinema ou a um restaurante, mas fazem-na acreditar que, apesar de não poder comer um hambúrguer, ela pode ser presidente dos Estados Unidos da América. Torna-se secretária de Estado.» A plateia exulta e aplaude de pé. A MSNBC, apaixonada por Obama, declara-o o melhor discurso da convenção até aí e a questão levanta-se: estará Condi Rice a dar o tiro de partida para uma candidatura à Casa Branca em 2016?

Batalha entre mulheres?

As convenções dos partidos norte-americanos são o palco mais apetecível para lançar trunfos para o futuro. Os discursos são acompanhados pelas televisões e todas as delegações estaduais dos partidos estão presentes. Barack Obama que o diga, quando na convenção de Boston que legitimou John Kerry à corrida pela Casa Branca (2004), aproveitou o momento para se mostrar ao país e às hostes democratas. Três anos depois dava início às duras primárias do partido derrotando a hiperfavorita Hillary Clinton.

Claro que Condi Rice tratou imediatamente de excluir a hipótese da candidatura, mas se ela seguisse a política portuguesa saberia que nenhum político no ativo (a dar aulas, a escrever, ou a comentar) pode correr o risco de dizer «nem que Cristo desça à Terra». Rice tem noção das suas condicionantes para 2016: nenhum cargo relevante de política interna no currículo (governadora, congressista, senadora), oito anos longe dos corredores do poder e, em parte, sem poder usar o argumento de vir a ser o primeiro afro-americano a chegar à presidência. Digo em parte porque Obama nunca chegou a usar esse fator como rampa eleitoral. Ele teve uma geografia multicultural como marca de infância, mas não esteve em ambiente segregacionista como Rice. E é esta a parte que ainda pode ser usada. Os grandes trunfos de Condi são, sobretudo, quatro: ser uma self-made woman, ser provavelmente a única mulher presidenciável entre todos os nomes sentados no banco republicano para 2016, não ter Mitt Romney a concorrer ao segundo mandato (assumindo a sua derrota) e poder ter uma mulher como rival à Casa Branca. Dar-lhe-ia um argumento forte na corrida interna: jogar também a cartada feminina. Claro que falo de Hillary Clinton.

No Partido Democrata há duas máximas e que a recente convenção de Charlotte não deixou passar. A primeira é que Bill Clinton é uma lenda viva, o político mais amado pelo partido e o mais inspirador. Não duvidem: numa votação sobre qualidades políticas entre Obama e Clinton, a esmagadora maioria dos democratas dava o prémio ao velho Bill. A segunda é que Hillary Clinton é a mais desejada para 2016. O banco de reservas do partido depois de Obama é, neste momento, inferior ao dos republicanos e a convenção não foi pródiga em lançar novos nomes. Se quiser, Hillary ganha as primárias a brincar. Contudo, tem três grandes adversidades. A avaliação que os americanos fizerem do segundo mandato de Obama (vamos assumir a reeleição), mesmo estando ela afastada dessa administração; a exigência que o cargo pedirá em 2016 (Clinton terá 68 anos) e, sobretudo, a sua vontade em cumprir um ciclo político de vida absolutamente triunfal. Advogada de sucesso, mulher de estrela política, primeira-dama, senadora, secretária de Estado. Clinton contra Rice: a apoteose de duas mulheres com tudo para nunca terem saído da sombra. Hillary da do marido, Condi das profundezas da América. Temos batalha. Teremos?

Que América em 2016?

Quatro anos é uma eternidade em política, mas vamos correr o risco. Obama é reeleito e Romney recolhe aos afazeres da família e das empresas. Começa a competição no partido. Marco Rubio, Jeb Bush, Paul Ryan, Chris Christie, Scott Walker, todos fazem trabalho de casa, alcançam notoriedade e trazem qualidade ao debate. São alternativas fortes a oito anos de Obama. Cansado e desgastado pelas lutas no Congresso, sem pulso para o caos no Afeganistão, com a Síria nas mãos, um défice que tarda em reduzir-se e uma economia que teima em crescer ao ritmo dos dourados anos de Bill Clinton, Obama viu-se condicionado pelos efeitos devastadores que a crise da zona euro teve no comércio transatlântico.

A China, mesmo com a contestação interna que fustiga a cúpula comunista e o arrefecimento económico via ciclone europeu, cresce ao dobro dos EUA, aproximando-se da fatia de riqueza que estes detêm no comércio internacional e nas relações de proximidade nas várias regiões. Integrar a China nesta dinâmica de equilíbrio sem gerar uma convulsão global entre as superpotências é o desafio mais importante para o candidato à eleições de 2016. Exige um conhecimento profundo das relações económicas internacionais, especial sensibilidade para os assuntos de defesa, a perfeita noção do potencial das alianças criadas por Washington nos quatro cantos do mundo, e uma capacidade de liderança interna capaz de enfrentar um Congresso cada vez mais dividido, áspero e desesperado.

A política americana, a exemplo de outras paragens, vive um radicalismo discursivo, um nacionalismo atroz e uma intolerância profunda. Os políticos olham cada vez mais para as coutadas de poder locais e fingem não ver todas as variáveis que, lá foram, condicionam como nunca o exercício dos seus cargos. Perante isto, republicanos e democratas pedem o mesmo perfil: uma mulher para marcar a história, um líder para impor a América, um negociador para lidar com o momento de agonia. Rice e Rubio são celebrados no Texas. Hillary Clinton e Andrew Cuomo levados em ombros no Missouri. Os EUA voltam a acreditar que o impossível acontece.

*Investigador do IPRI-UNL e da Universidade Johns Hopkins em Washington. Cronista do Diário de Notícias.

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