"Há bandas muito boas mas estamos muito mal de vozes e letras"

Lembra-se do primeiro disco que comprou, She Loves You , dos Beatles, e dos músicos emblemáticos que entrevistou. Foi um dos responsáveis pelo boom do rock português, no programa Rock em Stock , na Rádio Comercial, a partir de 1979. Experimentou a fama, deu autógrafos, correu o país a passar música. A série Os Filhos do Rock , em exibição na RTP, é parcialmente inspirada no trabalho deste homem, que ajudou a escrever a história da música e da rádio em Portugal.

Que disco já ouviu hoje?

_O single Rebel Rebel , do Bowie

Que CD tem sempre no carro?

_Steven Wilson, ex- Porcupine Tree , um continuador do rock progressivo, e várias compilações dos anos 80 e 90, feitas por mim. E os Led Zeppelin , sempre.

A RTP estreou este mês uma série dedicada aos anos de ouro do rock português. Em Os filhos do rock há uma personagem baseada em si e no António Sérgio. Reviu-se no que viu até agora?

_A série, da qual fui consultor, retrata o advento do rock português, os bastidores e como se desenvolveu aquela bola de neve criada com o Rock em Stock . Foi meramente circunstancial : saiu nessa altura uma lei que obrigava as rádios a passar X minutos de música portuguesa. E como eu não queria passar os habituais artistas da música nacional, porque não se enquadravam na nossa linha musical, comecei a dar voz aos miúdos que faziam música rock, pedindo-lhes cassetes e bobines. Em 1979, levei da onda média para o FM aquele estilo de locutor que falava disco a disco, com um programa que quebrou a formalidade. Julgava que ia ser um choque mas, felizmente, a aceitação foi total.

Vamos ao princípio: nasceu em Lisboa...

_Nasci em casa dos meus avós, na Duque de Àvila. O meu avô galego casou com uma madeirense. Nasci numa família da classe média, o meu pai era funcionário da Embaixada da Bélgica.

Consta que foi um menino muito mimado.

_Se fui. Eu e o meu irmão, Carlos Francisco. Deram-nos os nomes do Rei D. Carlos e do seu filho, o Príncipe Real Luís Filipe.

E não terá sido por acaso.

_Na família havia um lado monárquico, pelos vistos.

Em miúdo, já sentia o apelo da música?

_Por volta dos 10 ou 11 anos ouvi pela primeira vez Its Now or Never do Elvis Presley. Chamavam-lhe rei do rock mas eu achava a canção nada rock. Também ouvia Cliff Richard & The Shadows , mas só «despertei» com a chegada dos Beatles. O primeiro disco que comprei foi o She loves you .

Em casa « aristocrática» entrava rock?

_Sempre tive no meu quatro posters dos Beatles, que foi a minha primeira banda preferida. Logo depois, os Rollings Stones . Mal ouvi os primeiros álbuns fiquei fã. Aquilo eram blues. Mais tarde, Doors, Deep Purple , Kinks , Who e Led Zeppelin . No Liceu ou mesmo no Colégio Crisfal , falava sempre muito com os meus colegas de música e de rock.

E ouvia rádio?

_Num pequeno transistor. Em 63/64, apanhava, à noite, a Radio Caroline, uma estação pirata que funcionava num barco ancorado ao largo do Tamisa. Foi aí que comecei a ouvir Beatles, The Animals e outros. Mas eu só sabia os nomes porque comprava religiosamente, numa papelaria dos Restauradores, o New Musical Express , o Melody Maker ou o Disc , Music and Echo . Gastava o meu dinheiro nisso. Eram três jornais musicais britânicos que traziam o top de músicas que tocavam na rádio Caroline (a BBC não passava esse tipo de música) e com a lista à frente ia identificando o que tocava na rádio pirata.

E rádio portuguesa?

_Ouvia a Rádio Renascença. O Enquanto for bom dia , do Pedro Castelo e da Dora Maria. Ouvia o Radiorama , à tarde, feito pelo José Gomes Ferreira e, religiosamente, o João Martins, no 23ª hora . Tinha os meus 15, 16 anos e foi com ele que conheci os Doors , os Beach Boys , todas aquelas bandas da época de ouro da música pop rock e do blues-rock.

Nessa altura, já decidira que a rádio e a música seriam a sua vida profissional ?

_Ainda não tinha essa noção mas já me fascinava a forma como os disc jockey britânicos e americanos trabalhavam. Acabariam por influenciar-me.

Não quis ser músico?

_Nunca me ocorreu.

Na roupa, no penteado , imitiva a estética das bandas que ouvia?

_Sobretudo o John Lennon. Sempre fui um grande fã até porque era o mais roqueiro dos Beatles. Ainda hoje, todos os meus óculos são «à Lennon», tara que me ficou de miúdo. Eu e vários amigos aderimos a essa estética. Com 15 anos, adorávamos rock, música psicadélica, as nossas bandas preferidas eram os Kinks , os The Who , além, claro, dos Beatles e dos Rollings Stones .

Aos 15 anos, a decisão de ser locutor já estava tomada?

_Nessa altura, a rádio era muito fechada. Só existia a Emissora Nacional, a Renascença e o Rádio Clube Português. No FM, passava o Em Órbita , às 7 da tarde, feito pelo Cândido Mota que é meu ídolo português da rádio. A ouvir o Cândido decidi: «agora,é que tenho de meter nisto a sério. Tenho de ser locutor».

Qual foi a reação dos pais?

_A princípio, má. Depois, que remédio. Habituaram-se à ideia.

Em 1969 vai então para a Rádio Universidade de Lisboa.

_Um curso de três anos. Eu, o Henrique Garcia, o Luís Paixão Martins, a Dina Aguiar e muitos outros ainda hoje no ativo, com o Fernando Balsinha a professor. Fomos, por assim dizer, «sucessores» de grandes nomes da rádio formados na Rádio Universidade, como o João David Nunes, Adelino Gomes, Zé Nuno Martins...

E ainda como aluno ganha um programa. Destacava-se assim tanto dos outros?

_Não sei, mas notava-se que eu fazia o que gostava. No segundo ano fiquei então com um programa, o paralelo 70, doze minutos que a Rádio Universidade transmitia através da Emissora Nacional.

De música, claro?

_De música e já então, em doze minutos, passava quatro ou cinco discos, e falava pelo meio. Já muito «à DJ» das rádios inglesas. No ano seguinte fiz o paralelo 71.

Resultado?

O melhor possível: em 1971,ainda no último ano do curso, fui convidado para trabalhar no Tempo ZIP , um programa na Rádio Renascença do Fialho Gouveia e do Carlos Cruz, com o João Paulo Guerra e o Joaquim Furtado. E já me pagavam 3 contos de ordenado, que era uma pipa de massa. Entretanto chegou a tropa.

A mobilização para Angola veio pôr fim a esse início em força.

_ Muitos colegas da rádio ficaram nos serviços cartográficos mas a mim, apesar das boas cunhas, calhou-me Angola. Quando regressei, voltei à Rádio Renascença .

Acontece o 25 de Abril, e em 1975 a Rádio Renascença é tomada pelos trabalhadores. Estava lá e viveu esse tempo.

_Vivi e paguei. Eu era um miúdo, tinha acabado de casar, e fui logo conotado com a «extrema-esquerda». Fiquei desempregado e praticamente proibido de fazer rádio. Tive de me virar. Em 1976/77 trabalhei no Página 1 e, depois, no Extra , com Saramago, o Mário Ventura Henriques e o José David Lopes, os únicos que me foram dando emprego. Foi uma fase complicada.

Em 1978, trabalhava no gabinete do Consumidor do Ministério do Comércio e Turismo, com Beja Santos, foi desafiado para trabalhar como DJ numa discoteca.

_E aceitei. Aliás, em Inglaterra e nos Estados Unidos, os DJ da rádio vinham das discotecas. Em Portugal julgo que só a Cave Mundial tinha um DJ à inglesa, que além de cruzar discos tinha um microfone e incitava o público. Pagavam 15 contos por mês, um balúrdio em 1978. E cheguei a ganhar ainda mais porque a casa enchia todas as noites. Em 1979, pouco antes de começar o Rock em Stock , recebia 30 contos por mês.

E quanto foi ganhar no Rock em Stock ?

_14 contos. Perdia dinheiro mas o que eu queria era regressar à rádio. E devo dizer que era o tipo mais bem pago da Rádio Comercial, porque não era dos quadros.

Como aparece o convite para o Rock em Stock ?

_Foi feito pelo Jaime Fernandes. Fiquei satisfeitíssimo, ao fim de três anos havia quem acreditasse em mim para regressar à rádio e num novo projeto. Ainda tentei conciliar com a discoteca e o Ministério , mas andava muito cansado, trabalhava muito, bebia muito. Larguei tudo.

Como foram os primeiros tempos?

_Era um programa para miúdos dos 15 aos 22 anos e os primeiros tempos não foram fáceis porque não havia muita música disponível. Comecei com os discos que a Valentim de Carvalho me dava e, mais tarde, os próprios ouvintes passaram a emprestar-me discos. Porque a adesão foi imediata. A malta aderiu logo ao programa.

Como é que se foi apercebendo dessa adesão?

_Tive feed back imediato. Sobretudo vindo dos estudantes de liceu. Começaram a pedir-me para ir ao vivo fazer discotecas, tocar a música do programa aos fins de semana. Andei por todo o país, até Vigo. Mudei as discotecas do país. Até aí só passavam música de dança.

O Antonio Sérgio tinha na altura O som da frente, programa icónico. Como era a vossa relação?

_Foi sempre boa. De tal modo que acabámos por fazer um programa juntos ( Rock em Stock & Som da Frente ) e algumas discotecas pelo Norte do País. Mas o nosso primeiro programa de autor foi em 1974 na Renascença, o Zero/Duas .Com a luta na RR, separámo -nos. Ele continuou sempre a trabalhar com o pai (o querido «velho» Ferrão), fazia o Encontro para Dois com a mãe, Odete Ferrão, onde passava música comercial e, à noite, o Rotaçao , onde passava o punk rock. Mas. de facto, a grande explosão dá-se com a chegada do Rock em Stock , em 1979, com três horas diárias, das 1500 às 18h00.

Havia alguma rivalidade entre os dois?

_Só se fosse por ele ser do Benfica e eu do Sporting. Tínhamos públicos diferentes. Sempre fui do blues-rock, hard -rock, heavy metal, e de alguma música electro pop. Não queria nada com alternativos. Eu sou muito pouco europeu musicalmente falando.

Ficou surpreendido com o sucesso do programa?

_Completamente. E só mais tarde me apercebo da dimensão exata da bola de neve. Nessa altura, o programa já recebia amostras em primeira mão e os meus colegas na onda média, vendo que eu tinha uma grande aceitação junto da juventude, começaram a mudar a música deles. Quando aparece a lei da obrigatoriedade de passar música portuguesa, fiquei um bocado assustado. Achei que iria estragar-me o programa. Não fazia qualquer sentido num programa de música rock dizer «agora tomem lá Fernando Tordo ou Sérgio Godinho». Então lembrei-me que os miúdos do liceu mandavam-me informação sobre bandas que iam tocar nos bailaricos deles. E fui por aí: divulgava os bailes, festas, concertos, e eles mandavam-me bobines que eu ia mostrando às editoras.

Qual foi a primeira banda a surpreendê-lo mesmo?

_Os Speeds . Pedi a um amigo que gravasse aqueles miúdos para eu passar no programa. Cantavam em inglês. Tiveram uma boa aceitação. A partir daí nunca mais parei de passar rock português. E mais: bastava que um disco tivesse o carimbo de primeiro no top do Rock em Stock para vender muito mais.

Os ouvintes participavam? Iam à rádio?

_Uma loucura. Em 1980, quando os Devo foram ao programa estavam cinco mil pessoas na Rua Sampaio Pina, com polícia e tudo à espera deles. E todos os dias, juntavam-se à porta miúdas e miúdos de 15 e 16 anos, que nos pediam para assistir ao programa. E logo a mim, que se tenho alguém dentro da cabine já não consigo sentir-me à-vontade. Mas lá tive de conviver com isso.

E como era o aparato dentro da cabine?

_Uma montanha de discos, o cinzeiro e arrancar.

Quantos discos por programa?

_Uns sessenta ou setenta. Mas era capaz de passar duas ou três vezes o mesmo disco nas três horas de emissão .

E quantos cigarros?

_Doze, treze, catorze...

Com a fama, o que mudou na sua vida?

_Mudou muito. À noite, saía com o Rui Morisson , que fazia as minhas folgas, íamos beber copos mas não pagávamos um tostão em lado nenhum. E bebia-se muito. Apanhávamos cada uma.

Bebia durante o programa?

_Não, mas já ia bebido dos almoços. Se não, talvez não fosse capaz de fazer aquilo.

Qual foi a reação dos colegas ao seu sucesso?

_Alguns olhavam de lado. Começaram a inventar algumas coisas, enfim, era muito rock and roll para algumas cabeças.

Cartas, telefonemas... Como lidava com os fãs?

_Milhares de cartas e de telefonemas. E ainda hoje, 35 anos depois, há pessoas que recordam tudo. O próprio Rui Veloso conta episódios desse tempo relacionados com o programa, quando passava férias na Ilha de Faro.

A primeira música que ouviu dele, recorda?

_ A Rapariguinha do shoping . Passei a música pouco depois de ter passado pela primeira vez o Cavalos de corrida , dos UHF . Tal como nessa altura, criou-se um acontecimento com a música do Rui.

A primeira banda?

_Foram os Speed. Mas o primeiro grande êxito foi Cavalos de Corrida . E logo de seguida entra o Rui Veloso. Depois, aparece uma série de bandas. Começam a mandar-me as bobines que eu mostrava às editoras. Quando as bandas iam tocar ao Rock Rendez - Vous eu avisava as editoras e as bandas: «Olhem que hoje podem assinar um contrato».

Tinha portanto acesso a essa música em primeira mão...

_Tinha acesso a tudo. As bandas que eu gostava menos mandava-as falar com o Júlio Isidro, que tinha o Febre de Sábado de Manhã no cinema Nimas e o Passeio dos Alegres , na RTP. Dizia-lhes que ele tinha mais força que nós e precisava de artistas ao vivo. Era uma forma de os desviar do Rock em Stock . Como o António Variações. Um dia apareceu-me na rádio com uma bobine. Era o meu cabeleireiro , gostava dele mas ouvi aquilo e achei que não se enquadrava. Fiquei tão embaraçado que fui ter com ele e falei-lhe no Júlio Isidro. Mas fiz questão de estar presente na estreia dele, no cinema Nimas. Mais tarde, em 1982, já no Café com Leite , fiz um programa só com ele. E lancei o disco Estou Além .

Outro exemplo.

_Diz-se. até em livros que dei cabo dos 'Corpo Diplomático' banda cujo disco foi até produzido pelo António Sérgio. Durante o cocktail, um deles começou com parvoíces e eu tive de dizer-lhe que aquilo que faziam era uma grande porcaria. Felizmente, apareceram um ano depois como Heróis do Mar e essa, sim, era uma banda do caneco.

Alguns artistas, entre eles Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, ainda hoje sentem que foram preteridos...

_Muitos artistas diziam mal de toda a malta nova que nós passávamos na rádio. Sempre lhes disse que não tinham porque queixar-se e eles lá me foram aturando. O Paulo de Carvalho, de cada vez que me vê, faz uma festa.

Antes dos Heróis do Mar passou os GNR...

_Passei e não só: tive de explicar ao comandante da GNR do quartel do C armo que não eram praças nem elementos da banda da GNR mas sim músicos do Porto. O homem queria o nome dos soldados que tinham estado a tocar para agir em conformidade.

Qual é a banda que melhor resistiu ao tempo?

_Muitas das que lancei ainda hoje estão no activo : os Xutos & Pontapés, os Trovante - cada artista dos Trovante tem uma carreira - os UHF , Rui Veloso. Quando fez dez anos de carreira, o Rui Veloso convidou-me para o acompanhar numa digressão pelo Canadá e Estados Unidos. Foi, para mim, um dos melhores reconhecimentos ao meu trabalho.

Era um opinion maker . Como lidou com esse poder?

_Apercebi-me disso quando as editoras começaram a pressionar. Iam queixar-se ao João David Nunes, dizendo que eu não aceitava determinadas bandas. Por causa dessa pressão, e porque eu recusava passar bandas de que não gostasse, comecei a diversificar . Peguei no Baile no Bosque' dos Trovante, tocava 1m 30s da Balada das Sete saias , fui buscar o Júlio Pereira com o seu cavaquinho. A ideia era retirar alguma pressão, continuando sempre a aconselhar o caminho do Júlio Isidro às bandas que não me interessavam. Mas a partir de certa altura já não convencia os tipos. Começaram a acusar-me de ter preferências e isso foi muito desagradável. Estava a ficar cansado de tanta parvoíce .

Essa pressão resultava também do facto d e, entretanto, ter nascido uma indústria...

_Claro. O Rock em S tock teve uma papel essencial no nascimento dessa indústria. Apareceu o jornal O Sete , o Música & Som, o TV Top, p assaram a vender-se mais aparelhos com FM e mais gira-discos e, evidentemente, mais discos, passaram a realizar-se mais concertos, os pavilhões encheram, gerou-se uma indústria. Os jornais diários começaram a ter uma página dedicada à musica, a televisão foi atrás, enfim, tudo mudou, deu-se emprego a muita malta nova.

_E também lhe pediam autográfos ?

Dei autógrafos nos sítios mais estranhos, em mamas por exemplo. Ainda hoje estou parvo, como isso aconteceu na S.A. na Ericeira. Essa noite acabou com a GNR a tentar fechar a discoteca perante o público sentado no chão a gritar «não saímos!»

E chamavam-lhe 'O Berros'.

_Os meus amigos podiam tratar-me por Berros mas se fosse um desconhecido não gostava lá muito. Soava-me mal. Mas sou o único locutor que tem um nick name .

Em 1994 decidiu acabar com isso tudo.

_ Foi quando disse ao João D avid Nunes que queria fazer o programa da manhã. Fui substituído pela Ana Bola mas pouco depois o programa acabou mesmo.

Como reagiu o público à sua saída?

_Um abaixo assinado dirigido à administração juntou milhares de assinaturas. Não aceitavam a minha substituição .

E vai então para o programa da manhã, disputar audiências com o António Sala. Como era o vosso relacionamento ?

_Com o Sala sempre bem. Com a Ana Bola, idem. Havia respeito. Embirrava um bocado com o Júlio Isidro quando ele se referia ao «pessoal da pesada» Mas era a sua maneira de ser e cada um estava a dar o melhor que tinha. Com outros colegas a relação era assim assim, havia alguma inveja. Umas vezes aguentava a « provocação» e virava costas. Outras, nem tanto. Virava "brutamontes", respondia mal.

Do rock para um programa da manhã, Café com Leite. Porquê?

_Queria atingir mais público. Foi o primeiro programa a ser transmitido em OM e FM em simultâneo, na Rádio Comercial. Ia apanhar toda a gente.

E conseguia estar na rádio às 7 da manhã?

_Fiz algumas diretas . Creio que ninguém acreditava que eu chegasse às sete da manhã. E tinham razão. Nos primeiros tempos sim, mas depois de um ano passei a chegar às 7h10. Era muito engraçado porque a locutora de continuidade aparecia, pouco depois das sete da manhã, com voz solene a dizer que o locutor do programa ainda não tinha chegado. Mas as pessoas achavam que era a malta a gozar.

Não temeu perder o estatuto ligado ao rock?

_Adorava o Rock em S tock mas eu queria fazer algo diferente. No Cafe com Leite tinha um novo desafio, apanhar musicalmente o público de onda média e o mais exigente, da FM. E consegui juntar dois tipos de ouvintes distintos, indo à fonte: o rock dos anos sessenta que em 82,na radio, já ninguém se lembrava de tocar. Quanto à música portuguesa, agarrei no Fausto com o Navegar Navegar , do fabuloso Por este rio acima , no Vitorino, com o Menina estás à janela, no Variações com o Estou Além...

Em 1984, inaugura as Ondas Luisianas, o primeiro programa que faz à noite. Para além disso, que mais mudou?

_Nessa altura, começa a reviravolta musical para as grandes estrelas do rock a nível mundial. Saiu o Born in the USA do Bruce Springsteen. Outro que deu o salto para a fama é o Brian Adams. E a Tina T urner, mais a era dos maxi singles dos Frankie Goes to Hollywood e dos Depeche Mode . A malta que estudava à noite não perdia o programa. Aquilo era melhor que durante o dia.

Também lhe telefonavam?

_Sim, sobretudo depois de o programa acabar. Mas eu sentia-me muito sozinho. Àquela hora não está praticamente ninguém na rádio e não há vida na rua. Acabava o programa, ia para o Whispers ter com amigos. É desse tempo a paranóia de que ia morrer do coração. Nas férias, cheguei a levar um médico amigo para o Algarve.

É hipocondríaco ?

_Não, mas como andava sempre nos copos e comia como um desalmado - cheguei a pesar cem quilos - meti na cabeça que podia ter um ataque cardíaco . Mais tarde, comecei a fazer exercício.

Em 1987 retoma o Rock em S tock . Fez bem em voltar ao lugar onde foi feliz?

_Foi óptimo . Muitos julgavam que ia ser igual à fase de 79/82 mas, mais uma vez, enganaram-se. Logo de entrada, ataquei com Guns n" Roses, Judas Priest , Metallica , Iron Maiden e todo o glam metal na berra nos EUA... e zás! Foi até 93.

Fale-me do estado da rádio hoje .

_ De repente, apareceram miúdos de todos os lados que, acreditando no sucesso fácil, queriam ser locutores. Foram logo lançados às feras, em horários nobres. Por outro lado, a rádio foi perdendo a sua função. Formatou-se. Em termos informativos continua a ter um papel fundamental e importante; em termos musicais, está confusa. Por exemplo, agora vive-se a onda do fado. Qualquer tipo que apareça a cantar fado passa na rádio. Fazem logo um programa de meia hora com ele. Aceita-se qualquer coisa.

Os programas de autor estão a morrer. Porquê?

_Os opinion makers praticamente acabaram. A malta nova julgava que era fácil mas não é. Os canais de música da TV, a musica na Internet são os mais procurados pelos jovens e não só. De qualquer maneira, acredito que os bons projectos, com uma assinatura credível e considerada continuarão a existir.

algum sucessor?

_Gostaria de ver

A rádio pública faz sentido?

_Faz. A informação da RDP é um ponto de referência. Tem bons repórteres, bons jornalistas , os noticiários são feitos por malta que vive a rádio e gosta da rádio. A nível musical, as portas estão abertas ao Deus dará. Há muita música que não devia passar na rádio.

Se hoje mandasse numa rádio (e já foi diretor -adjunto) que primeira medida tomava?

_Estavam tramados comigo, porque eu conheço as pessoas que fizeram rádio e sei quem pode ser bom ou mau administrador. Algumas nomeações dececionaram-me muito. Vi a radio a definhar.

Que programas de rádio ouve?

_Oiço a minha rádio no carro, a 105.4 de Cascais. De resto, não tenho rádio em casa e para ouvir o meu programa tenho de recorrer ao telemóvel ou ao computador. Tenho uma aparelhagem a arranjar já há uns anos.

O que gostaria de fazer nesta fase da sua vida?

Há dois anos, despedi-me d a RDP para abraçar este projeto de ter uma rádio que só tocasse a minha música 24 horas por dia. Quero, portanto, continuar a ajudar a nossa rádio, a 195.4 Cascais, que conta também com o Augusto Seabra, o Rui Remix, o Nuno Santos. Quero continuar a fazer sossegadamente o meu programa, o Beat Club aos sábados e domingos das 10h00 às 12h00. E estar com a minha neta que, com dois anos, faz perguntas do arco da velha.

E como vai a música portuguesa?

Há bandas muito boas mas está muito mal de vozes e pior ainda de letras.

Quem era (ou é) a grande voz do rock português ?

_O Paulo Gonzo, tinha e tem um vozeirão, o A ntónio G arcês dos R oxigénio , também.

E o Reininho ?

_Para o tipo de música que canta continua em forma. Tem aquele timbre, não sai dali mas gosto do som deles. Ele é o D avid Byrne português .

Abrunhosa?

_Não gosto. Devo ser o ú nico que não gosta do Pedro Abrunhosa . Dizem-me ser um e xcelente professor de jazz ou de baixo, mas a cantar não me convence.

E o T im ?

_Não tem uma grande voz. Mas foi a que nos habituamos a ouvir nos Xutos . E sem a qual a banda não funciona.

David F onseca ?

_Outro de que não gosto. Parece -me rebuscado, como se cantasse depressões em inglês .

A banda da sua vida?

Led Zeppelin .

Que musica gostaria de ter escrito?

_ What a wonderful world.

Luís Filipe Barros

Nasceu em Lisboa em 1951. Com o curso de locutores na Rádio Universidade de Lisboa, estreou-se como profissional aos 20 anos no programa Tempo Zip , da Rádio Renascença. Entre 1974 e 1976, realizou o primeiro programa, Zero Duas , uma parceria com António Sérgio. Em Maio de 1975, assistiu à tomada da Rádio Renascença por um grupo de trabalhadores e pagou o preço - foi banido da rádio, apenas regressando três anos mais tarde, em 1979, para, a convite de João David Nunes fazer, na Rádio Comercial, o programa que o celebrizou, Rock em Stock . É responsável pelo boom do rock português ao lançar, UHF, Rui Veloso, Trovante ou Heróis do Mar. E m 1982, trocou o Rock em Stock pelo programa da manhã, Café Com Leite . Na televisão apresentou o programa Berros e Bocas com Manuela Moura Guedes . Em 1984 apresentou na Rádio Comercial o Ondas Luisianas . E de 1987 a 93 retomou o Rock Em Stock que terminou em Junho de 1993. Diretor -adjunto de programas da RDP de 1993 a 1995, apresentou na antena 1 O Sol da meia noite e, em 2004, regressou com o Ondas Luisianas . Em 2011, deixou a RDP para se dedicar à sua rádio, a 105.4 Cascais.

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