'Gravei o meu primeiro disco após um telefonema de Amália'

Começou por não gostar de fado. Mas um mês em casa a contas com uma hepatite, quando tinha 7 anos, obrigou-o a ouvir os discos da família. Decorou-os e surpreendeu os pais a cantar numa casa de fados e na Grande Noite do Fado: foi voz revelação da primeira vez, ganhou na segunda e passou a adormecer os irmãos (hoje ambos fadistas, Hélder e Pedro Moutinho) a cantar. Depois veio uma adolescência em que escondeu dos amigos o que fazia, deixou a escola e foi calafetar barcos para o Arsenal do Alfeite. Até que as atuações em casas de fados lhe deram o ganha-pão, a experiência e também uma queda no mundo das drogas e do álcool. Mas o seu fado era outro: chegar aos 46 anos como uma das grandes vozes nacionais, com a bênção de Amália e Carlos do Carmo. As confissões de Camané, antes do seu novo disco, O Melhor, 1995-2013 , com três inéditos, e dos concertos no Centro Cultural de Belém.

Se tivesse de escolher uma música da sua vida, qual era?

_Eram muitas músicas. É muito complicado encontrar uma música que defina todos os meus gostos.

E seria um fado?

_Sim, podia ser um fado.

Qual?

_Há um fado tradicional, o Fado Cravo , do Alfredo Marceneiro, que é lindíssimo. Chama-se Triste Sorte , é lindíssima a forma como faz um retrato emocional, e não só, do que é ser fadista. É das coisas mais bonitas que o fado tem. Também o facto de essa música ser extraordinária. Normalmente canto-o com uma letra do João Ferreira Rosa, fantástica, porque faz um retrato do fado e do que é ser fadista. Muito verdadeiro e muito emocionado também. Mas há outros fados que foram cantados no Fado Cravo .

Sempre se viu a ser fadista ou, quando era pequenino, queria ser bombeiro, polícia, astronauta...?

_Quis ser muita coisa quando era pequenino. Mesmo quando cantava, em miúdo, dizia sempre que queria estudar e queria tirar um curso superior.

Em que áreas?

_Várias [ risos ]. Gostava de ter sido piloto, era um sonho, voar. Mas como não era lá muito bom a matemática... Tive também vontade de ser professor, qualquer coisa assim. Cantar era uma brincadeira, não era uma coisa séria nessa altura.

Quando é que se lembra de começar a cantar fado em casa? Foi só mesmo quando teve de ficar em casa com hepatite?

_Lembro-me de ouvir os discos de fado. E de o meu pai trautear alguns daqueles fados. Achava muito esquisito e não gostava nada daquela forma de cantar, irritava-me. Mas estive doente nessa altura e fiquei um mês em casa. Só tinha três discos que não eram de fados, o resto era tudo, Marceneiro, Amália, Carlos do Carmo... Havia um disco dos Beatles, um do Frank Sinatra, que tinha o Strangers in the Night e o My Way , e um do Aznavour. Ouvi esses discos compulsivamente, mas depois lá passei aos de fado. Achei mesmo muito esquisito, no início, confesso. Mas depois comecei a perceber que conseguia cantar aquilo. Cantava-os na minha cabeça. E comecei a gostar. E quando se começa a gostar é fabuloso.

Como é que os seus pais perceberam que os cantava?

_Com surpresa. Porque eu não cantava muito em casa.

E ainda não canta, já li sobre isso.

_Não, não canto em casa. É muito raro. Raríssimo, mesmo.

Nem no banho?

_Nem no banho. Nunca fui de cantar no banho. A não ser que esteja mesmo sozinho, mas não tenho essa vontade, sequer. Claro que canto muito na minha cabeça, idealizo as formas de interpretar, de organizar os fados, a minha visão sobre cada um e como é que me colocaria na interpretação de um determinado fado.

E depois o som, quando sai da sua cabeça, sai como o imaginou?

_Nem sempre. Mas a intenção, que acho que é importante, está lá. Depois é preciso praticar com os músicos, ensaiar, muitas ou poucas vezes, às vezes até nenhuma. Quando são fados tradicionais, às vezes acontece de um momento para o outro.

Estávamos a falar da descoberta dos seus pais de que cantava fado. Quando é que é?

_Fui aos fados com os meus pais a uma casa de fados, A Cesária. Tinha para aí 7 anos e meio. E, sem os meus pais se aperceberem, fui ter com os músicos e pedi para eles tocarem dois fados que tinha aprendido nos discos. Um era o Fado Isabel , uma música de Fontes Rocha que faz parte do fado tradicional, e o outro já nem me lembro qual era. Apagaram as luzes e cantei. Os meus pais ficaram... As pessoas acharam imensa graça, gostaram, e apercebi-me de que tinha imenso sentido rítmico, sentido de compasso, bateu tudo certo e afinado. Foi engraçado.

Era menos tímido, na altura?

_Era menos tímido, porque era mais inconsciente.

E nessa fase já achava que o fado podia ser a sua carreira?

_Nessa altura não. Achei que era uma coisa que podia aprender e aprendi muito, aprendi a ouvir os outros. Com 10 anos o meu pai perguntava-me os fados todos tradicionais, e eu sabia-os todos! E são muitos! Sabia-os trautear, nem sequer era com as letras. Havia poetas populares nas coletividades que escreviam quadras, sextilhas, quintilhas, decassílabos, a falarem da mãe, do pai, da escola, aquelas coisas que tinham que ver com a minha idade. E eu construía os meus próprios fados com isso.

E escrevia alguma coisa?

_Compor não, não escrevia nada. Era só intérprete, mas interpretava as coisas da minha maneira. Esse é um trabalho bastante criativo dos fadistas, pegarem numa música do fado tradicional e colocarem uma letra nova, darem-lhe uma interpretação. Às vezes as coisas parecem completamente diferentes. Lembro-me, por exemplo, de que a Amália cantava o Estranha Forma de Vida , fado bailado, em que a música era do Alfredo Marceneiro e ele tinha-a cantado com outra letra. O Marceneiro cantava [ começa a cantar ] «à mercê dum vento brando, bailam rosas nos vergéis, e as Marias vão bailando, enquanto vários Manéis, nos harmónios vão tocando». E a Amália cantou «foi por vontade de Deus». Parecem músicas completamente diferentes, porque ela deu-lhe uma interpretação que tinha que ver com o registo emocional da poesia de que ela gostava, era uma letra que ela mais tarde assumiu que era dela. É lindíssimo o fado dela. O Marceneiro tinha feito aquela música e cantava-a de outra forma, com outro tempo, a letra era mais descritiva.

Adaptava as letras desses poetas de bairro?

_Adaptava-as ao fado tradicional. Em vez de cantar as letras dos adultos, as minhas tinham que ver com a minha idade. Aprendi as músicas a ouvir esses fados antigos, mas depois transportei-os para a minha forma de cantar.

Quando chega à primeira Grande Noite do Fado, em 1977, quantos fados já sabia de cor, quantos já tinha decorado?

_Decorava os fados todos! Ao fim de uma hora já tinha decorado as letras todas que me escreviam, as palavras todas. Hoje em dia demoro imenso tempo e às vezes... Estou sempre com medo! Normalmente nem olho, mas tenho sempre uma estante de lado no palco, para de vez em quando lá ir se me esqueço de alguma letra... É um seguro, é para não haver problema nenhum. Mas naquela altura tinha uma memória...

Tem alguma formação musical?

_Não.

Toca algum instrumento, aprendeu?

_Toco um bocadinho de viola, mas nada de jeito...

Nunca sentiu falta dessa formação vocal, musical?

_Não. Há pessoas que tocam mesmo muito bem e eu só se fosse para tocar realmente muito bem. Como não toco...

Isso é o seu lado perfecionista?

_Sim, sim.

Li que o seu bisavô cantava, o seu pai trauteava, você e os seus irmãos cantam.

_O meu pai também cantava! Mas fê-lo já depois de mim. Acho que fui eu que os influenciei a cantarem.

O seu pai chegou a cantar em casas de fados?

_Não, era amador, cantava por brincadeira. Nunca cantou em casas de fados, sempre foi mesmo só por prazer. De qualquer das maneiras, eu é que o influenciei. E a minha mãe, mais tarde, também cantou uns fados na brincadeira.

Portanto, está nos genes da família?

_Está. O meu bisavô é que era um fadista bastante conhecido, na época. E, engraçado, há poucos dias encontrei um disco dele que tinha dois temas gravados em 1925. Pensava que estavam perdidos mas uma pessoa tinha esses dois temas com ele e mostrou-mos.

Vai cantá-los, um dia destes?

_É possível! São dois fados tradicionais feitos por ele. Um tem letra e música dele e o outro é só a música. São dois fados tradicionais. Ele era do Norte do país, daquela zona de Aveiro, Coimbra, portanto um ainda tem influência de fado de Coimbra. O outro foi feito mais tarde, já quando ele vivia em Lisboa, e já tem uma influência de fado de Lisboa, é um fado de decassílabo, tipo o fado corrido, fado mouraria, mas é uma música completamente desconhecida do público, porque esse disco desapareceu durante muitos anos. São mais dois fados tradicionais a acrescentar ao reportório de fados tradicionais, não é ao meu reportório. Não sei se vou incluí-los num disco, mas é possível.

Nunca pensou fazer um concerto, gravar um disco com os seus dois irmãos [Pedro e Hélder Moutinho]?

_Não. Nós temos percursos diferentes, formas de estar diferentes. Os meus irmãos estão a fazer um bom trabalho e espero que haja um crescimento da parte deles. Um dia mais tarde, talvez, mas agora não faz sentido.

Na primeira Grande Noite do Fado tinha 8 anos...

_Tive uma participação na Grande Noite do Fado em 1977 e outra em 1979. Esta é que é a verdadeira história. Em 1977 fui considerado pela imprensa a grande revelação do ano e em 1979 a mesma coisa e venci. Claro que eram só adultos que cantavam, era o único miúdo... Foi um sucesso enorme, na altura.

E quis ir lá ou alguém o convenceu?

_Foi um amigo do meu pai que disse que era muito giro, tinha muita gente. Achei muita graça sobretudo ao facto de ir cantar ao Coliseu. Mas depois tremi pela primeira vez a sério, de medo. Da primeira e da segunda vez. Era muita gente. Estava habituado a cantar em brincadeiras, matinés de fados com os meus pais, nas coletividades...

O Coliseu estava cheio, claro.

_Estava, completamente. Nessa altura a Grande Noite de Fado era um acontecimento. Tinha para aí cinco mil ou seis mil pessoas. Em pé, pessoas em todo o lado, não havia sítio onde não houvesse pessoas.

O que é que cantou?

_Cantei um fado, que é o fado Puxavante, tradicional, umas quadras a falarem da mãe.

Com ela na assistência?

_Sim. E depois, na segunda vez, acho que cantei... já não me lembro! Agora, por acaso, não estava preparado para isso, não me lembro o que é que cantei.

Alguém, dos grandes nomes que lá estavam, veio dar-lhe os parabéns?

_Sim, alguns. Mas estávamos numa altura em que o fado era uma música muito fora de moda.

Existiam uma série de preconceitos em relação ao fado.

_Havia preconceitos sim. Era fã do Carlos Paião, achava muita graça àquelas músicas. E lembro-me de ele me dizer que não gostava de fado. Perguntei-lhe, «não quer fazer uma música para mim?», e ele «não, não gosto de fado». Foi assim a resposta. E outros, de jornalistas a pessoas ligadas a outros estilos musicais que estavam na Grande Noite do Fado apenas para divulgar o seu trabalho, mas que me disseram na cara, quando eu tinha 9, 10 anos, que não gostavam de fado. Para começar, havia o preconceito de haver uma criança a cantar, o que não era normal. Acho que tal como um jogador de futebol vai para as escolas desde criança e um violinista desde miúdo que tem de aprender violino, que deve ser o mesmo em relação ao fado. Mas no fado é um preconceito muito maior. As crianças cantam para aprender, há umas que estão mal influenciadas, outras que são os pais que, de alguma maneira, influenciam, mas no meu caso era eu que queria. Foi uma fase até aos 13, 14 anos.

Chegou a esconder dos seus amigos que cantava fados?

_Escondi sempre. Os que sabiam, gozavam comigo.

Eles não sabiam que ia às coletividades?

_Não. Era um bocadinho isolado e esquisito, no fundo. Mesmo mais velho. Depois houve ali uma fase em que deixei de cantar fado, porque houve a transição de voz. Às vezes até cantava umas músicas diferentes com os meus amigos, ouvíamos AC/DC, Ramones, outras coisas. Mas depois escondia-me em casa sozinho a ouvir Tom Jobim, Caetano, Chico Buarque, Genesis, coisas que normalmente os miúdos da minha idade não ouviam. Eu ainda era Stones, Beatles, eles já estavam naquela fase um bocadinho mais Duran Duran. Aquilo a que eu achava graça, o jazz , ouvia paralelamente, mas sozinho, isolado. E o fado também. Às escondidas, e às vezes com a música baixa para não se ouvir na rua.

Mas tinha vergonha que eles soubessem?

_Tinha. Tinha vergonha porque sempre achei que o fado era uma música que tinha uma qualidade incrível. Então se formos olhar para a história do fado, para os grandes intérpretes... E os outros cantores, salvo aquelas exceções fantásticas dos festivais das canções, que cantavam música ligeira, aquelas cantiguinhas, diziam as palavras de uma forma para colar com a música e ficava tudo muito piroso. Os fadistas tinham um sentido da palavra, desde o Marceneiro à Amália, ao Carlos do Carmo, à Lucília do Carmo, à da Conceição, à Maria Teresa de Noronha. Eram pessoas com bom gosto e cantavam só coisas de grande qualidade. E eu estava habituado a ouvir isso. Claro que na rádio, por exemplo, o que passavam de fado era as coisas mais brejeiras, ligeirinhas, mas havia toda uma história que estava acostumado a ouvir e achava uma injustiça enorme dizerem que o fado era uma música menor. Chegaram a dizer-me isso! O fado é uma música de grande qualidade, talvez a música que melhor se faz em Portugal. Tem os melhores poetas, os melhores cantores, os melhores intérpretes.

Ia com os seus amigos a outros concertos, mandavam vir os discos de Londres?

_Sim, sim! Havia amigos meus que mandavam vir. À minha tia, de vez em quando, mandavam-lhe imensos singles dos Beatles e dos Rolling Stones. E um padrinho meu, que tocava baixo naquelas bandas de bar, tinha imensos discos do Aznavour, Passava os dias a ir lá a casa, ouvia aquilo, às vezes trazia um ou dois que eles me emprestavam. E ficava com os discos, se gostava de alguma coisa...

E as cassetes de fitinha?...

_Sim, também! Imensas cassetes, mesmo. Tinha um gira-discos pequenino, daqueles verdes, em que os discos de vinil saíam para fora. Ouvia aquilo compulsivamente. E à noite cantava fados para os meus irmãos. Tínhamos um quarto grande onde dormíamos todos, cada um na sua cama. Adormecia-os a cantar. Eu chegava tarde, às vezes, eles acordavam e eu cantava-lhes. Acho que foi também daí que eles começaram a gostar de fado.

Chegou a cantar em coros? Morava em Oeiras, coro de Santo Amaro...

_Não, fui lá uma vez. Desisti. Era muito distraído e a música, para mim, era outra coisa. A minha voz era diferente, não sei. Se calhar não ficava bem colada com as dos outros, se calhar tinha muitas irregularidades da minha parte, não sei. Não é que fosse melhor ou pior, não funcionava e era muito distraído. Não estava focado. A única coisa em que estava focado era no eu tinha aprendido e sozinho.

Antes da mudança da voz já cantava em casas de fados?

_Cantei por brincadeira em algumas casas de fados, participei nalguns espetáculos na província, as pessoas achavam muita graça, fiz uma passagem de ano, mas coisas pequenas, cantar um, dois, três fados. Depois tive aquela fase em que estive a estudar. Só com 17, 18 anos é que decidi ir para as casas de fados cantar profissionalmente.

Já tinha abandonado os estudos?

_Não totalmente. Ainda estudava à noite no Liceu de Oeiras. Mas estava naquela dúvida se devia ou não continuar a estudar. Depressa percebi que o que queria mesmo era cantar.

Em que momento é que decidiu mesmo que o queria fazer na minha vida era ser cantor?

_Foi com 18 anos. Já ia cantar aos fins de semana a um restaurante que tinha fados, na Cruz Quebrada, e passado muito pouco tempo convidaram-me para cantar no Fado Menor, o antigo Senhor Vinho, onde já tinha cantado quando era miúdo. A primeira pessoa que impulsionou a hipótese de eu lá ir cantar foi o Carlos Zel. Num programa do Joaquim Letria ele falou em mim, depois fui cantar a esse programa dois fados, como uma revelação. E o Alcino Frazão, irmão do Carlos Zel, um dos melhores guitarristas da altura e da história do fado - morreu muito cedo, num acidente -, falou aos donos dessa casa e fui para lá cantar todos os dias. Cumpri o serviço militar e ao mesmo tempo cantava. Havia dias que não conseguia, porque estava muito cansado, tinha de me levantar cedo. O serviço militar naquela altura eram 18 meses, eu sou do terceiro turno de 1987. E pronto, foi uma altura fantástica, tinha guitarristas fantásticos, o Carvalhinho, o Alcino, o Fontes, que quando acabava as noites do Senhor Vinho iam todos para o Fado Menor. Aos poucos fui começando a ser convidado pela Maria da Fé para ir cantar ao Senhor Vinho, ainda muito novo.

Quanto é que se ganhava nessa altura, numa noite de fados, a cantar?

_Acho que era talvez o equivalente a 25 euros agora. Não era nada mau. E comecei assim.

Como é que a sua família reagiu quando lhes disse que queria ser cantor e quando decidiu que não estudava mais?

_Ao princípio, foi complicado, ainda cantava só ao fim de semana. O que era suposto era fazer um curso de desenhador no Arsenal do Alfeite.

Onde o seu pai trabalhava?

_Sim. Mas eu não queria nada daquilo! Lembro-me de passar tardes sentado na oficina, à hora do almoço, e de estar a ouvir o Rui Veloso a cantar o Porto Sentido . Aquele disco, o Mingos e Samurais , marcou-me... Quando era mais novo foi o Paulo de Carvalho que ouvi no Festival da Canção. Queria ser cantor porque queria ser como ele. Ou como o Carlos do Carmo ou como o Rui Veloso. Queria ser uma série de coisas, ligado à música. Só mais tarde é que percebi que tinha de ser eu próprio, ser fadista era a mais-valia que tinha por ter crescido no meio do fado, no meio dos fadistas e no meio dos guitarristas e ter aprendido aquilo tudo.

Quanto tempo é que ainda trabalhou no Arsenal do Alfeite?

_Não chegou a dois anos. Toda a gente se safava à tropa, só eu é que não, mas porque não me quis safar. A tropa foi a possibilidade, a desculpa para sair de lá. E saí!

O que é que fez nesses dois anos?

_Aquelas vedações com borrachas nas portas estanques dos submarinos. Estava numa secção de calafates. Tentei aprender um bocado. Punha aquelas borrachas nas portas estanques, nas vigias, para vedar, e trabalhei no navio-escola Sagres , no convés de madeira onde tudo tinha de ser vedado com uns materiais especiais... Foi engraçado.

Já cheguei a ler, algures nas suas entrevistas, que lhe disseram que era fanhoso e que devia ser operado.

_Sim.

Nunca levou a sério quem lhe disse isso?

_Não, não! Não, porque há muitos cantores fanhosos e são muito bons!

Acha que cresceu depressa de mais?

_Não. Acho que cresci devagar de mais. Não sinto a idade que tenho, não me sinto da idade que está no meu BI. Sou muito imaturo em algumas coisas, sinto muita juventude e muita vontade de fazer coisas. Mesmo no meu crescimento artístico e de personalidade, acompanhar a minha arte demorou, foi uma coisa que se foi construindo. A minha timidez, a minha insegurança, tive de trabalhar muito para a ultrapassar nos palcos. Foi, talvez, o meu maior trabalho. Porque para transmitir num palco tudo o que se assimilou é preciso essa serenidade, esse sair de mim mesmo para não deixar que os meus fantasmas se coloquem naquilo que estou a fazer, aqueles medos. Tive de ter humildade suficiente para, quando estou a cantar, pensar só naquilo que estou a fazer, não pensar nos meus egos, nos meus medos, eu não tenho importância nenhuma. Tive de não me dar essa importância para conseguir dar o melhor.

O facto de ter começado neste ritmo das casas de fados tão cedo, aos 18, 19 anos, leva-o para uma vida mais notívaga.

_No fado, a boémia nunca esteve associada a nada de negativo. Inicialmente, estava na tropa e cantava todas as noites, mas, nessa altura, as pessoas ainda não iam muito ouvir fado. O que é que fazia? Mudava de roupa, vestia as minhas calças de ganga - porque tinha de ser fato, gravata e sapatos [ risos! ] - e depois ia sair com os meus amigos. Como eles não ouviam a minha música, nem se identificavam porque não a entendiam, ninguém sabia. Mas depois alguns foram-se aproximando e a perceber que «não era assim tão mau». E começaram a aparecer pessoas de outras áreas musicais e ligadas a meios do teatro. Quando saí da tropa e fui cantar para o Faia, já havia muita gente ligada ao teatro... Às vezes iam só ouvir-me e depois saíam. Era um bocado incómodo para os outros fadistas que lá estavam, mas não podia fazer nada!

Foi o começo do reconhecimento público?

_Começaram a ouvir-me, a interessar-se por um miúdo que cantava e tinha outra forma de estar. E isso foi muito importante para mim. Fazia muitas experiências a cantar, cantava letras novas com fados tradicionais, criava os meus próprios fados. Lembro-me de cantar três fados seguidos e não receber uma palma. Embora tivesse voz e musicalidade, ficava tão intimidado com as pessoas a olhar para mim, outras a baterem com os pratos, outras com a boca cheia de comida, que às vezes desconcentrava-me! Mas isso foi um grande momento de aprendizagem. As casas de fados são o sítio onde se pode mais trabalhar e aprender. Estive quase 15 anos em casas de fados. Foi ótimo para poder crescer artisticamente.

Estava a dizer que quando saía da casa de fados trocava de roupa e...

_Ia para as discotecas!

Quando é que começa o seu problema, já assumido, com as drogas?

_Não gosto muito de falar nisso, porque as pessoas não percebem.

Não percebem?!...

_Não, não percebem. E não gosto de falar. Não vou falar. A única coisa que vou dizer é que tive uma fase da minha vida em que isso aconteceu, mas faz parte do meu passado. Mas também...

...

_... Era álcool, drogas, era tudo. Foi álcool mais até, e outras coisas. Foi um momento de preencher coisas que não sabia preencher com coisas boas. Tinha que ver comigo. Depois, isso acabou por se resolver de uma forma ótima. Claro que me fez passar alguns momentos de sofrimento e criar algum sofrimento nas pessoas que estavam à minha volta. Mas também foi essa mudança, e tudo o que fiz para tomar uma decisão na vida, para poder ter uma carreira e crescer como pessoa, que me deu muito a mim, a quem está à minha volta e ao meu trabalho. Foi mau, mas foi um processo de crescimento que resultou numa coisa menos boa mas que depois se transformou quando abdiquei e me tornei a pessoa que sou agora... E não é só abdicar, chegar lá [ estala os dedos ] não é assim.

É preciso recuperar?

_É preciso recuperar. E toda essa recuperação teve que ver com um trabalho interior, meu e de uma série de pessoas que estão à minha volta que me ajudaram. Continuo a trabalhar isso na minha vida, diariamente. É o que faz de mim uma pessoa melhor, só isso.

Porque é que decidiu assumir? Acha que é uma parte importante da sua vida, que não deve ser escondida?

_Sim, não deve. A única razão por que não gosto de falar disto é apenas pelo facto de as pessoas não entenderem. É uma coisa que só acontece a quem tem os problemas. Mas falo disto todos os dias com os meus amigos e pessoas com quem me relaciono, que têm o mesmo problema. Com as outras pessoas não falo. Isto é uma coisa que funciona por atração, foi uma atração. Vi alguns amigos meus que estavam muito bem, que tinham um sorriso maravilhoso, tinham montes de coisas. Conhecia-as do passado. Pensei: também quero ficar assim, estava farto de sofrer, foi só isso. Por minha vontade, nunca falaria disto. Mas a gente sabe. Aconteceu.

Sigamos em frente. Quando é sente que deixa de haver preconceito em relação ao fado e o fado se torna na moda que hoje é?

_Durante os anos 1990 houve pequenas coisas, pequenos sinais de mudança. Estou a falar de uma época muito anterior a esta nova geração. Embora as pessoas muitas vezes me considerem da nova geração, não é verdade, sou de uma geração bastante anterior, apanhei aquela fase toda a partir de 1985 a cantar, para além daquelas mais antigas, de 1977 e 79. Primeiro apareceu uma malta mais nova, para aí em 1995, 96, daquele meio mais aristocrata, a Mariana Bobone muito novinha, o Rodrigo Costa Félix, o Miguel Capucho! Malta muito gira, miúdos muito engraçados. Infelizmente ou não, eu era um bocado mais velho do que eles todos. Nessa altura, quando eles apareceram, eu já tinha 20 e tal anos. Eu não era de meio nenhum, no fundo, era de todo o lado. Eles eram os chamados betinhos, na altura eram os betinhos que cantavam fado. Mas foi muito importante que tivessem aparecido, incentivados por fadistas considerados mais de elite, tipo o João Braga.

É quando o fado em Cascais ganha mais predominância do que em Lisboa?

_Engraçado... Nessa fase o fado em Cascais até está a desaparecer. Apanhei essa altura quando era muito miúdo, tinha para aí 10 anos, cantavam o João Ferreira Rosa, o Rodrigo, o Zé Pracana.

Esses sinais de que falava...

_Salvo aqueles fadistas, a Amália, o Carlos do Carmo, pessoas que estavam sempre a tocar lá fora, o fado estava um bocado posto de parte. O meu primeiro disco - gravei em 1994, foi editado em 1995 - foi muito complicado porque não havia sítios na televisão para passar, nas rádios passava muito pouco, era muito difícil dar uma entrevista. As minhas primeiras tournées aconteceram em 1996 e foram na Holanda, França, Galiza, sempre fora de Portugal. Fiz para aí três concertos cá. Havia o Nuno da Câmara Pereira, o António Pinto Basto e os históricos. Alguém de novo era muito complicado. Foi muito complicado. A partir do segundo disco, uma série de jornalistas novos começaram a falar em mim, bastante. E aí começaram a acontecer coisas. Vendi mais discos, comecei a aparecer em alguns programas de televisão. E depois, com o Esta Coisa da Alma , em 1999, ganhei o Prémio Blitz, o Prémio Bordalo Pinheiro e os Globos de Ouro. Só aí percebi a popularidade que tinha ganho. Nos primeiros espetáculos ao ar livre lembro-me de ter uma plateia cheia de pessoas muito mais velhas, para cima dos 60 anos, à frente, mas gente nova lá atrás... Começava os espetáculos e não tinha ninguém na parte da frente do palco. Cantava e as pessoas aproximavam-se. Custava-me imenso. Hoje, antes de o concerto começar já lá está o público, já está tudo à espera...

E já o faz sentir mais seguro?

_Não, sou muito inseguro! Mas tento cada vez mais abstrair-me do que estava à minha volta. Nessa altura fazia os concertos e nem falava. Dizia «boa noite, é um prazer estar aqui». Bem, agora continuo sem falar quase nada... Uma vez vi um espetáculo do Chico Buarque no Canecão e só a meio do concerto é que ele disse duas palavras, fez um sorriso, que ficou marcado no ecrã gigante para aí durante três horas. Foi fantástico. Gostei imenso dessa atitude, porque são formas diferentes de estar no palco. É importante contar a história através da música, não é preciso estar a falar.

Mas continua a sentir esse tipo de inseguranças, o medo das brancas?

_Sim, sinto. Aliás, sempre que entro. Mas passa-me. Cada vez mais, chego lá e já estou noutra.

Alguma vez lhe aconteceu alguma situação absolutamente desagradável?

_Sim, já aconteceu. Umas mais engraçadas, outras menos. Uma vez, estava a fazer um espetáculo na feira de Vinhais, ao ar livre, para aí no dia 2 de fevereiro, com um frio de rachar. E um tipo a fazer um barulho com aquelas coisinhas dos chineses. Passei-me, «estou aqui a fazer um esforço enorme, com este frio, quem está a fazer isso apareça para a gente falar». Aparece-me um tipo enorme, para aí com três metros de altura, mas bêbedo. E a brincar com aquela coisa. E eu «se quiser fazer barulho, pode fazer à vontade» [ risos ]. Mas já me enganei naquelas letras básicas, normalmente quando me engano é numa letra que já canto há vinte anos. Como está interiorizado, não penso. Às vezes não está decorada e está memorizada a nível de sentimentos e a nível de emoções. Falha a letra, mas, com o andar da estrada, tudo bate certo.

Tem truques para descontrair antes de subir ao palco?

_Não. É ficar calado. Não sou daqueles artistas que...

E o que faz para preservar a voz? Tem alguma daquelas mezinhas?

_Não, tento fumar o menos possível.

Ainda fuma?

_Fumo muito ainda. Mas faço ginástica. Mas já não bebo, já não me deito tarde. Deito-me cedo, levanto-me cedo, para aí às nove e meia, dez horas. Mas não faço nada que seja mesmo para proteger a voz, nunca fiz, infelizmente.

Já houve alguma coisa que tivesse recusado fazer no fado, ou a gravar?

_Sim. Muita coisa com que não me identificava, ou que não era bom. Há muita coisa mesmo, porque não faz parte daquilo que acho que tem qualidade. Procuro dar às pessoas aquilo em que acredito. Nunca tive aquela preocupação do gosto fácil, das coisinhas para agradar a gregos e a troianos. É só aquilo em que acredito.

Já recebeu muitos e muitos prémios. Qual é que mais o marcou?

_Marcaram-me os prémios recebidos quando o fado não era ainda considerado. Só depois da morte da Amália é que as pessoas tiveram a noção da dimensão que o fado tinha fora de Portugal, mais uma vez aquele efeito de fora para dentro. Muitas miúdas começaram a cantar os fados da Amália. Mas ser fadista não é só ouvir e cantar os fados da Amália, como ser pintor não é só ver o Picasso, é um conjunto, é uma história.

Porque é que nesse boom do fado surgem mais vozes femininas do que masculinas? Também é por causa de Amália?

_Sim, acho que sim. O fado faz parte da vida e tem sempre altos e baixos, vai crescendo, de vez em quando as pessoas ouvem e vão aparecendo. As editoras foram-se interessando cada vez mais por gente nova a cantar. E depois foram escolhendo, deram oportunidades. No fundo, é preciso ficar no coração das pessoas.

Nas reações, quer do público quer da crítica, houve alguma que o tivesse realmente surpreendido?

_Acho que me surpreenderam todas. Conheço alguns artistas que começaram a sua carreira sob rejeição, que foram criticados e mais tarde foram reconhecidos. Eu tive sorte. A primeira vez que me fizeram uma crítica foi... na TV Guia ! Gravei um disco, para aí com 20, 21 anos, com dois fados. Acho que cantei bem até, já era a minha forma mais adulta de cantar. E o jornalista da TV Guia escreveu, «Melhor disco do ano», uma pessoa, «Pior disco do ano», eu. Fiquei surpreendido. Achei aquilo um bocado exagerado. Tinha uma namorada na altura, era bem alta, entrámos numa discoteca, ela encontrou o tipo e deu-lhe um empurrão [ risos ]. A partir daí foram sempre críticas positivas.

Já está rico com o fado?

_Não, não. Nada que se pareça. Claro que dá para viver. Podia dar mais, se fosse uma pessoa com mais capacidade de gerir. Mas sou muito desorganizado. O importante é que faça uma coisa de que goste e que, ainda por cima, ganhe dinheiro por isso.

Quais são as novas vozes do fado a que vale a pena estar atento? Há por aí alguma Carminho a cantar, escondida?

_A Carminho, falei nela muito no início, sim. Há Gisela João, por exemplo, de que gosto imenso. Estão a aparecer pessoas novas. E estão a aparecer músicos a tocar.

Como é a relação entre vocês, fadistas? Há rivalidades, há amizades, há ambas as coisas?

_Há tudo. É como as pessoas das outras áreas. Embora seja reservado, que não ando por aí a falar com todos. Gosto é de andar mais na rua, no metro.

E faz essa vida tranquila na rua ou o facto de ser conhecido...

_Às vezes é um bocado... No outro dia entrei no metro, porque é muito mais rápido. E as pessoas gritaram «Camané!», depois falaram muito alto, aquelas coisas. Nos anos 1990 passava despercebido. Agora não. Não é aquela coisa da estrela rock ou pop , é uma coisa mais reservada. E as pessoas conhecem-me, sabem que não sou de grandes festividades.

O facto de o fado se ter tornado Património da Humanidade deu-lhe um empurrão ainda maior?

_Deu um empurrão bastante grande, há um interesse cada vez maior. Mas foi a consequência de toda esta última década.

Uma década de ouro, para o fado?

_O fado não seria a música que é hoje se não fosse cantado há cinquenta, há cem anos, por pessoas fantásticas. E a década de 1990 foi muito importante, foi a batalha. Quando comecei a cantar havia o Paulo Bragança, a Mísia, o Zé da Câmara. Tinham mais popularidade do que eu. Era conhecido mais no meio fadista, tinha participado nalguns programas, depois participei em alguns projetos do Filipe La Féria, mas ainda não tinha discos. Houve um encontro de pessoas que fizeram muito pelo fado, embora fossem de estilos completamente diferentes. Os donos das casas de fado, as pessoas ligadas aos meios e às editoras, que eram poucas. E o David Ferreira, uma das pessoas mais influentes no início da minha carreira. O meu convite para gravar para a EMI foi feito a partir de um telefonema da Amália, numa véspera de Ano Novo, para o David Ferreira. Passados dois dias, estava o David mais o João Teixeira a contratar-me para fazer o meu primeiro disco.

Porque é que ela fez esse telefonema?

_Isso tem de perguntar ao David Ferreira! Acho que gostava, achava que eu devia gravar.

Ela chegou a dizer-lhe isso?

_Não, nunca me disse. Quem me disse foi o David. Eu sabia que a Amália ia assistir a alguns espetáculos meus. Numa peça do La Féria ela disse-me que eu cantava como ela, tinha uma atitude, no canto, como a dela. Não sei o que é que ela queria dizer, claro que não cantava como ela. Mas ela revia-se na minha atitude para com o fado. Mais tarde, numa feira de artesanato, fizeram uma homenagem a Amália e ela disse que só queria que fosse eu cantar. Cantei seis fados com a Amália sentada num cadeirão em cima do palco e com os músicos dela! Num fado dei uma volta para conseguir dizer a frase bem dita... A Amália chamou-me à parte e disse-me, no palco, «essa voltinha é minha». Foi uma noite incrível e com uma grande gaffe . A Amália chamou o Fontes Rocha, o Zé Luís e a mim e disse «vamos todos lá para minha casa!»

...As velhas tertúlias em casa de Amália...

_Sim, e eu virei-me para ela e disse «Ó Amália, desculpe lá, não posso ir porque tenho a minha mulher à espera». Ela tinha-me ligado a dizer «vem para casa» e nem sequer fui capaz de lhe dizer «vou a casa da Amália», claro que não ia ficar chateada, ia até ficar contente. Mas não disse nada. São aquelas coisas. E houve outra gaffe . Quando foi lançado o disco O Segredo , da Amália, todos os artistas se aproximaram para as fotografias. Esperei que toda a gente saísse e quando ela ficou sozinha fui dizer-lhe que gostava muito dela. Respondeu-me: «Todos gostam.» Olhei-a com uma cara de maluco... ela assustou-se e disse «não é o seu caso, não é o seu caso». Pensou que tinha ficado chateado. Foram as poucas vezes que estive com a Amália. A primeira, até tirei uma fotografia com ela, tinha 10 anos, no Arreda, em Cascais. Falou sempre bem de mim. Da mesma forma que o Carlos do Carmo.

Já esteve noutros projetos, desde o teatro com o La Féria, aos Humanos, na homenagem ao Variações, no filme do Saura, gravou uma das canções da banda sonora de José e Pilar, já participou em concertos com os Xutos, com os GNR.. .O que é que gostaria de fazer mais? Com quem é que gostaria de cantar?

_Gosto de fazer isto pontualmente. Os Humanos teve um grande impacte. Mas foi só um disco e quatro concertos! Eram canções inéditas do António Variações. Os Humanos foram formados como um grupo fictício para fazer aquele projeto, só, e acabar aí. Foi maravilhoso. Pontualmente, trabalho com pessoas de quem gosto imenso, casos de Sérgio Godinho, Ala dos Namorados, Xutos, Zé Mário...

E há alguma coisa em que gostasse ainda de experimentar?

_... Dos GNR gostei imenso também. Fiz, uma vez, dois concertos diferentes, no São Luiz. Um, com a Orquestra Sinfónica, em que cantei os standards do Cole Porter, música brasileira, Jobim, Chico Buarque. E depois o Outras Músicas , com as bandas de rock. Há dias, cantei na RFM um tema dos Ornatos Violeta com guitarra e viola, ninguém estava à espera! É uma grande porcaria, mas vale a pena ouvir [ risos ]. De vez em quando dá-me prazer descansar um bocadinho daquilo que faço. Neste concerto no CCB, no dia 30, vou ter como convidado o Mário Laginha que fez algumas músicas deste novo disco, e também os Dead Combo. Gravámos o Vendaval , uma homenagem ao Tony de Matos, que é um dos cantores irreverentes que estava à frente do seu tempo. E vamos cantar o tema hino do canal Q, que é o Inquietação , do Zé Mário Branco. Há coisas que gosto de fazer fora do fado, mas não são a minha música.

Sérgio Godinho, Fausto, Zé Mário Branco. Já gostavam de fado ou converteu-os?

_O Zé Mário já estava convertido quando o conheci. Adora fado e conhece o fado no seu todo, converteu-se com o Marceneiro. Ele só não gostava daquelas coisinhas de revista, daqueles fadinhos um bocadinho brejeiros.

Esta sua associação com o Zé Mário e também com a Manuela de Freitas tem dado alguns grandes sucessos. Esta é uma parceria para manter?

_Sempre. Fazem parte do meu trabalho. Neste disco, o Zé Mário não teve a oportunidade de participar, porque é um best of . A maior parte do trabalho é dele. Aliás, todos os temas, excetuando esses tais com os Dead Combo e os temas novos que gravei agora. Convidei o Mário Laginha, que era compositor de uma das músicas, e ele produziu os três temas e fica maravilhoso: o Ai Silvina, Silvininha , o Ai Margarida e o Gola Alta . O Silvininha é um tema engraçado, é mais um Alain Oulman...

É mais um dos inéditos?

_É.

Já lhe ia perguntar como é que esses inéditos lhe foram parar às mãos. Quantos é que ainda restam?

_Muitos. São tão bons que vão ter de sair noutro disco, este é um best of e não pode ter tanta coisa para as pessoas se baralharem. Foi o Nicolas [filho de Oulman] que mos ofereceu. Confiou em mim, gosta imenso de me ouvir cantar. Acho que não se enganou, desde o Sei de Um Rio . Este Silvininha , é assim uma coisa...

Dos principais poetas nacionais, qual é que mais gosta de cantar?

_Dos letristas de fado que fizeram fados para mim, a Manuela de Freitas, a Aldina Duarte, o José Luís Gordo, o João Monge... Depois há aqueles que fui buscar, o Luís Macedo, um poeta que estava associado às músicas da Amália. Conheci a filha dele, trabalha no Quénia onde pai era embaixador. Ofereceu-me todos os textos do pai, que tinha guardados. Depois há o David Mourão Ferreira e o Pessoa. Não há disco nenhum que não tenha dois, três fados do Pessoa. Mas também do Antero de Quental, do Teixeira de Pascoaes, do Eugénio de Andrade.

Como é o seu processo de interiorização de um fado até o cantar?

_É preciso cantar a letra com a música, encontrar o registo emocional. Muitas vezes, apenas pensado. Depois faço uma gravação com os músicos, há sempre um gravadorzinho. E começo a trabalhar aquilo na minha cabeça, até que um produtor faz os arranjos. Simplifica-se cada vez mais até fazer daquilo uma canção. Eu tenho de a interpretar, transmitir a emoção, mas sem me exibir, sem haver exibições vocais. A melhor maneira de servir uma canção não é servir-se da canção, é servir a canção. Se nós formos servir-nos da canção, as pessoas ouvem o pino e as cambalhotas que o artista dá. Isso não é nada, isso não é cantar. Cantar é servir as canções.

É um fadista puro? Gosta da inovação ou de manter a tradição?

_Sou um fadista. Tudo o que tenho vem do fado. Só sou cantor porque sou fadista. E quando faço fado, faço fado. Quando canto fado, é fado. O fado tem caraterísticas e procuro respeitá-las.

Qual é o seu fado preferido?

_Todos [risos]! Os fados tradicionais, o Cravo , o Mouraria , o Menor , o Sagitário , por exemplo, que canto como um fado das Horas, com um poema da Manuela de Freitas. Gostei muito do Sei de Um Rio , do Este Silêncio , do Zé Mário, o Não me Entendo , do Zé Luís Gordo e do Zé Mário Branco, daquele fado lindíssimo que é a Senhora do Livramento , com um poema do Zé Luís Gordo e a música da marcha do Marceneiro. Não consigo dizer qual é o meu fado preferido.

E como é que consegue escolher fados para um disco, por exemplo, como este, que supostamente tem os melhores?

_Não escolhi! Não consigo. Uma coisa é fazer um disco e está feito. Este é uma coletânea, um best of , e é uma aflição tão grande estar a escolher os meus temas... Foi um grupo de pessoas na EMI, mais o David Ferreira. A única coisa que eu escolhi foram os inéditos. Claro que já existem outros temas do Oulman que também mais tarde sairão em disco. Embora o disco que vá fazer a seguir ainda não vá incluir nenhum desses temas.

E para quando é que é o novo disco?

_É para gravar. Quero fazê-lo já há muito tempo. Está pensado, está escrito. Não posso falar dele.

Como é que é hoje a vida do Camané? Um dia normal seu?

_Nesta altura, por exemplo, tenho entrevistas e tenho de promover o disco. Mas gosto de ir ao cinema, de ver os noticiários na televisão, de me informar de tudo o que está à minha volta, de estar com os meus amigos, tudo e mais alguma coisa.

Lê muito?

_Muito, não. Sou um bocado preguiçoso para ler. Só se precisar de ler para ir buscar poesia para cantar, aí não há preguiça nenhuma. Estou a ler um livro sobre a música brasileira, que tem que ver com aquela fase da história da música brasileira, que é do Nelson Motta. Estou a gostar imenso.

Como é que está a olhar para o país, neste momento que estamos a viver? Acompanha a situação política, económica?

_Sim, é muito triste o que está a acontecer. Tenho imensas pessoas, colegas, que estão sem trabalho. Eu não me posso queixar, mas crise está cá e vai durar.

Sente-se até na venda de discos?

_Sim, mas isso já se sentia antes. Quando comecei a gravar, em 1995, vendiam-se muitos discos em Portugal, foi a altura do grande boom . Eu vendi muito pouco, para aí 1500 discos. O meu primeiro disco de platina, o Sempre de Mim , foi quando já não se vendiam discos em Portugal, vendeu 36 mil ou coisa assim.

Participou no concerto contra a troika. Acha que é importante, também, que pessoas com notoriedade se manifestem publicamente contra o que está a acontecer?

_Acho que sim. A questão não é ser só ser contra a troika , é ser contra toda esta política que a troika veio provocar, a forma como tudo está a ser feito. O ministro das Finanças alemão disse que nós tínhamos inveja. Mas quando foi a Segunda Guerra houve quem emprestasse dinheiro à Alemanha e essas dívidas foram perdoadas. Eles foram muito ajudados e não estão a dar a mesma oportunidade que lhes foi dada.

O fado pode ser uma canção de intervenção também?

_Sim, o fado é uma música que intervém a vários níveis. É uma música que obriga à reflexão, aos sentimentos. Havia muitos fados de intervenção social antes do 25 de Abril. O fado de Peniche, por exemplo, que a Amália cantou, do David Mourão Ferreira, tem que ver com os presos políticos.

O que achou de voltar a usar a Grândola como forma de protesto?

_A Grândola é das melhores canções nacionais, mete respeito. A primeira vez que ouvi a Grândola senti um peso enorme. Os políticos têm de respeitar, têm de se pôr em sentido, é um sinal... Aquilo é uma coisa que vem de dentro, senão não funciona. E a Grândola foi ouvida.

Quantos discos tem em casa?

_Tenho muitos. Alguns de vinil. Aquilo que eu mais gosto, tenho. Tive de juntar os meus discos aos discos da minha mulher. Gosto muito de outros estilos musicais, não oiço só fado, sempre ouvi muitos discos. Os de vinil trouxe de casa dos meus pais.

Ouve os seus discos?

_Não. Só quando estão para sair. Recebo-os e ao fim de um ano já não os tenho, fui dando a este e àquele. Mas não os oiço. Quando aquilo está feito, já saiu para as lojas, acabou-se. Houve alturas em que ia à net para me lembrar de alguns temas. Agora, por exemplo, vou ter de recorrer a isso porque alguns temas já não os canto há tempo.

Não canta ainda alguns fados?

_Sempre me aconteceu isso, sempre. Há fados que estão tão bem gravados, são versões tão definitivas... Sempre tive o cuidado de cantar e criar um reportório meu. Foram raras as vezes que gravei nos meus discos temas que não são meus ou que fizeram parte da carreira de outros artistas. Há alguns casos pontuais, como o Fado da Sina , o Acordem as Guitarras , o Mouraria ou o Penélope . Há coisas que me sinto bem a cantá-las e não as gravo, só as canto ao vivo. Como o Abandono , da Amália.

O que é que mudou no Camané entre aquela primeira Grande Noite do Fado e este disco que vai sair agora?

_Acho que continuo a ser o mesmo. Tenho um lado que é meu. Houve muita coisa que mudou com os anos, mas aquela alegria de criança continua cá dentro, quando faço as coisas, quando me entusiasmo com o meu trabalho. Quanto mais tempo passa, mais me sinto uma pessoa feliz com aquilo que faço. E isto vem do trabalho, vem de uma série de coisas que me fazem feliz. O que é que mudou? Mudou a responsabilidade. Mas a responsabilidade é de ser aquela pessoa que melhor pode fazer este trabalho.

Consegue ver a sua vida sem cantar fado?

_Não. Nunca consegui.

Perguntas de algibeira

Uma cena de um filme que o tenha marcado?

_ Casablanca . A cena final. Aquele nevoeiro...

Uma música para namorar?

_São tantas... Strangers in the Night ...

O que é que ainda vê na TV?

_Vejo algumas séries e notícias. Via o Mad Men , adorava. E o Segurança Nacional !

Quanto tempo passa por dia a ler jornais?

_Muito pouco. Vejo mais telejornais. E às vezes leio algumas coisas no Público e no Diário de Notícias .

-De quanto em quanto tempo vai ver o seu email?

_Às vezes esqueço-me. Às vezes vou todos os dias. Outros dias estou uma semana sem lá ir.

A última vez que chorou?

_Há seis meses.

Um país que lhe falte visitar?

_Vários, mas adorava conhecer Indonésia, Vietname, Timor. Timor principalmente. E a Índia, adorava.

É dependente das novas tecnologias?

_Não. Quer dizer... Uso telemóvel. Mas não sou dependente! Já não vivia sem telemóvel, infelizmente é assim. Mas tenho muitas dificuldades nessas coisas.

Um sítio para passar a reforma?

_Espero não chegar à reforma. Isto é: espero não me reformar. Espero não ter de me reformar. Só se viver para cima dos 100 anos.

Bastidores

Declaração de interesses: aprecio a voz e o fado de Camané há muito tempo, conheço a sua evolução e a sua história. A entrevista foi mais fácil por isso? Não. Camané é tímido, fechado, difícil de pôr a falar e a contar coisas da sua vida que ainda se desconheçam. Pensa o que vai dizer, faz pausas, silêncios amiúde. Tinha pedido duas horas de conversa mas declinado amigavelmente a hipótese de almoço, não fosse deixá-lo mais intimidado, mais fechado. Acabou por se fazer tudo em hora e meia devido a um contratempo com a caldeira lá de casa, mas não foi preciso fazer uma segunda ronda. Correu melhor do que esperava? Sim, muito melhor. Camané até começou por me mostrar como Marceneiro e Amália cantaram de forma tão diferente o mesmo fado, trauteando-os. Deixou-se ir, na viagem da infância ao seu dia a dia atual, até começar a lembrar episódios sucessivos que ilustram várias fases da carreira. O pior foi depois editar esta entrevista e reduzi-la para caber no espaço definido (e já com enormes exceções). Eis pois um dos retratos mais completos de um dos maiores fadistas nacionais. E isto não é fã a falar. É um facto.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Quem ameaça a União Europeia?

Em 2017, os gastos com a defesa nos países da União Europeia tiveram um aumento superior a 3% relativamente ao ano anterior. Mesmo em 2016, os gastos militares da UE totalizaram 200 mil milhões de euros (1,3% do PIB, ou o dobro do investimento em proteção ambiental). Em termos comparativos, e deixando de lado os EUA - que são de um outro planeta em matéria de defesa (o gasto dos EUA é superior à soma da despesa dos sete países que se lhe seguem) -, a despesa da UE em 2016 foi superior à da China (189 mil milhões de euros) e mais de três vezes a despesa da Rússia (60 mil milhões, valor, aliás, que em 2017 caiu 20%). O que significa então todo este alarido com a necessidade de aumentar o esforço na defesa europeia?