Gente que faz toda a diferença

Numa altura em que todos estamos preocupados com o futuro e com as nossas vidas, há pessoas que passam grande parte do seu tempo a preocupar-se com a vida dos outros. Nas páginas que se seguem, vai encontrar 20 portugueses extraordinários. Homens e mulheres que lutam contra a pobreza, a discriminação, o isolamento, o preconceito, a exclusão social. Em comum têm o facto de serem voluntários e de terem desenvolvido projetos originais de solidariedade. Estas são histórias de pessoas a quem não hesitamos em tirar o chapéu e mostramos como ajudar. Com donativos, conhecimento ou, simplesmente, tempo.

Amadeu Ferreira da Silva

O inventor de natais mais felizes

Era padre na paróquia de Campanhã e o responsável pela obra social naquele enorme e empobrecido território na zona oriental do Porto quando o desabafo de uma velhinha lhe ensombrou o coração. Amadeu Ferreira da Silva, natural de Grijó, em Gaia, foi celebrar o Natal, como de costume, na Associação Nun"Álvares, instituição de apoio social que se mantém a funcionar, e cumprimentou toda a gente. «Como em todas as instituições, eram aquelas ceias de Natal que não são ceias, são almoços. Tínhamos um centro de dia e um ou dois dias antes do Natal fazíamos esse convívio.»

Numa ocasião, porém, ao despedir-se de uma dessas idosas, e a desejar-lhe um Bom Natal, levou com uma flecha gelada na alma. «A velhinha disse-me que o Natal dela era ficar sozinha, comer uma maçã e um molete e ir a chorar para a cama. Aquilo impressionou--me.» E da impressão, Amadeu, que tinha então 46 anos, fez uma obra que perdurou e, este ano, voltará a realizar-se. No próximo dia 24 de dezembro faz 25 anos que se cumpre, sem falhar uma única vez, a consoada, em que todos podem entrar e são bem-vindos, e que se chama Natal dos Sós, fiel ao espírito original. «Pus-me a pensar em como juntar as pessoas, não necessariamente as carenciadas, mas principalmente as que estavam sozinhas», contou Amadeu, agora com 71 anos. Reuniu uma equipa de voluntários que angariava bens alimentares na comunidade, preparava a consoada, fazia animação e, depois da meia-noite, levava a casa de quem precisava. Divulgava na missa e os paroquianos sempre corresponderam. Levavam batatas, vinho, travessas de rabanadas.

O Natal dos Sós fez-se pela primeira vez em 1987. «Muitas pessoas eram idosos da paróquia, mas muita gente vinha de fora», recorda Amadeu Silva, que deixou de ser pároco de Campanhã em 2000 e trabalha, desde então, como capelão na Sé Catedral do Porto. O pároco atual, Fernando Milheiro, e a Associação Nun"Álvares mantiveram a tradição.

Ao longo destes anos, muitas histórias se cruzaram, de solidão e também de solidariedade. Aparecem estudantes estrangeiros, famílias inteiras que deslocam a sua consoada para aquela comunidade peculiar. Gera-se um calor especial. «Um ano, foi lá uma senhora levar rabanadas feitas por ela e, ao ver aquilo tudo, emocionou-se, com as lágrimas a cair-lhe pela cara abaixo.» Hoje, acredita Amadeu, acentuaram-se as razões para manter a tradição. «A solidão é muito maior do que era dantes.»

Texto de Dora Mota

José António Pinto

A Mudar o paradigma social

lida com uma população que está na periferia do porto, sendo essa distância tanto física como afetiva - afinal, o bairro do lagarteiro, onde é assistente social, é conhecido pelas piores razões numa cidade de contrastes. junto ao mar, o porto das moradias apalaçadas. ali, no lado este, a roçar gondomar, estão os bairros sociais de pior fama, a toxicodependência, a prostituição, a pobreza extrema, os caminhos por onde só passa um autocarro e onde josé antónio pinto, o dr. antónio pinto ou, então, como tanta gente o conhece, o «chalana» de campanhã, está quase sempre e cheio de gosto em lá estar.

Tem uma reserva inesgotável de energia e um humor à prova de bala. Tem 47 anos, duas filhas pequenas e uma mulher compreensiva para o facto de a profissão dele ser o que ele é, estruturalmente, embora a sua empregadora, a Junta de Freguesia de Campanhã, remunere apenas as horas de tabela. O resto é pura missão e paixão pelo desafio de mudar o paradigma social. «Se alguém precisa de que eu esteja lá à meia-noite, não vou dizer que saio às cinco e meia.» Visita reclusos e criou, na prisão de Custóias, o projeto Música à Frente das Grades.

No ano passado, guiou o fotojornalista Paulo Pimenta pela miséria da habitação na zona oriental, dando origem à exposição Casas de Tristeza. Em 2009, foi coargumentista no filme de Pedro Neves Os Esquecidos, sobre aquela mesma realidade. «Impressiona-me muito essa questão do desnível, como é que a zona ocidental tem um nível de desenvolvimento e no Lagarteiro há famílias sem dinheiro para comprar um iogurte.»

E no meio dessa teia de fenómenos sociais complexos, as pessoas, cada uma delas em particular a ter a atenção que merece. Natural da Lixa, Felgueiras, diz ser o famoso padre Mário a sua grande inspiração. «Ele falava muito na capacidade de nos indignarmos e, quando eu lhe dizia que estava numa luta, adiantava: "Já devias estar noutra". Dizia que se eu percebesse que só fazendo os outros felizes poderia ser feliz, nunca mais ia parar.»

É comunista assumido e um homem de fé na ciência. «Preciso das ferramentas da sociologia para que me ajudem a compreender estes fenómenos. É evidente que há necessidade de um novo modelo de desenvolvimento económico, mas não posso pedir às pessoas que esperem. Enquanto o capitalismo sucumbe, o que é que elas comem?» Em 2007, tornou-se mestre em Sociologia pela Universidade do Porto (com a tese «A desafeição pelo trabalho: vivência e produto da exclusão social») e está a trabalhar num livro sobre a politização dos pobres.

Texto de Dora Mota

Helena Pina Vaz

A arte de levantar paredes

é uma luta pela habitação digna a que helena pina vaz, diretora da escola internacional de braga, opera nos tempos livres. ela é diretora da delegação portuguesa da habitat for humanity, uma associação humanitária que luta para que famílias em precariedade económica consigam ter uma casa. «começámos em 1996 e estamos prestes a entregar a habitação número cinquenta. vai para uma mãe de três filhos, viúva, que vivia numa garagem de uma vivenda. mas já temos outros projetos em andamento. começámos por atuar apenas no distrito de braga, a nossa sede. desde 2010, expandimo-nos no norte. não conseguimos resolver sozinhos todos os problemas de habitação do país, que são muitos. mas ajudamos.»

A Habitat for Humanity constrói e restaura casas a famílias que não têm acesso a crédito bancário, ou a pagar renda. «Tentamos envolver as pessoas, e elas têm de pagar qualquer coisa, nas suas possibilidades. Depois construímos as paredes e o teto de raiz, com a ajuda de voluntários. Mas quem vai habitar a casa também tem de participar na sua construção.» Na maioria dos casos, a seleção é feita com o apoio das redes de assistência das autarquias, mas também são aceites candidaturas particulares. «A pessoa paga uma casa a baixos custos, mas paga mensalmente, dentro das suas possibilidades, nem que seja cem euros.»

Não são raros os dias em que Helena sai da escola direitinha às obras - e ali passa uma grande parte do seu tempo. «Funcionamos em regime de voluntariado e temos programas de intercâmbio com outras delegações da Humanity, em que chegam pessoas do estrangeiro para ajudar nos trabalhos. Também pagam um contributo monetário. Grande parte dos materiais são doados por empresas, ou vendidos a baixo custo. Uma casa pode custar 15 a vinte mil euros, os donativos abatem nesse valor e a família paga o resto, devagar, mas com responsabilidade.»

O dia em que se entrega uma casa a alguém compensa as dores nas costas do trabalho que a casa deu. «Fazemos uma pequena festa por cada casa entregue, e é comovente ver como a vida das pessoas e a sua autoestima começa a mudar.» Helena Pina Vaz tem um lema: «Indignação e ação.» Uma palavra, diz ela, não faz sentido sem a outra. A Habitat for Humanity pode ser apoiada pelo seu trabalho voluntário ou através de uma consignação do IRS. Para saber mais, basta contactar a associaçã o pelo site assoc-habitat.pt.

Texto de Ricardo J. Rodrigues

COMO AJUDAR: Donativos na conta 00350171 0016630343078, da Caixa Geral de Depósitos.

João Maria Cameira

Como salvar uma aldeia

Portela, no concelho de Bragança, é uma aldeia com pouco mais de trinta habitantes, todos eles idosos. Mas há dias em que Portela é um mar de infância. Chegam crianças de todos os lados - em excursão ou com as famílias - para aprender a fazer pão e compotas, visitar os animais da capoeira, diferenciar ervas e chás, perceber o ciclo da criação do ferro ou os cuidados para manter uma horta. «Há cerca de um ano e meio, decidimos transformar Portela em Aldeia Pedagógica», diz João Maria Cameira, geógrafo, funcionário da autarquia local e fundador do projeto Azimute, promotor da ideia. «Os professores, a quem chamamos mestres, são os próprios habitantes.»

Já passaram pela Aldeia Pedagógica da Portela seiscentas pessoas, números redondos. «Isto é bastante positivo, tendo em conta que estamos numa das zonas mais isoladas do

país.» E as visitas, diz João, não são só úteis para quem chega, mas também para quem está. «Criámos este projeto em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian porque é uma forma de combater o envelhecimento e a solidão.» Todos os mestres - a Dona Rosário e a Dona Maria, que fazem o pão, ou a Dona Infância e a Dona Imperatriz, que catalogam as ervas, ou o Sr. Abílio, que mostra o ciclo do ferro, ou a Dona Emília e a Dona Adelina, que mostram a horta e a capoeira - têm entre 65 e 85 anos. «Perguntámos-lhes o que gostavam de receber pelo tempo que gastam a acolher as crianças e a resposta foi unânime: carinho e atenção.»

As visitas são pagas, dois euros por criança, 25 por família. Os primeiros levam para casa o pão que ajudaram a fazer, os grupos têm direito a um cesto com produtos da aldeia. «Não temos qualquer fim lucrativo», esclarece o geógrafo. «Todos os lucros são investidos na compra de produtos que assegurem a continuidade da aldeia pedagógica». Farinha para o pão, fruta para as compotas e os licores, gás para cozinhar, frascos e panelas. «Também pensámos em recuperar as capoeiras, ou construir um forno de raiz, mas concluímos todos - a Azimute, a Gulbenkian e os mestres da aldeia - que esta teria de ser uma experiência autêntica, mesmo que às vezes, por exemplo, a capoeira cheire mal.»

Texto de Ricardo J. Rodrigues

COMO AJUDAR: Pode visitar a aldeia da Portela (marcações com cinco dias de antecedência), passar pela mercearia da aldeia (onde se vendem os produtos locais, postais e serigrafias feitos pela população) ou pode também tornar-se Amigo da Aldeia. http://www.aldeiapedagogica.net/

Celmira Macedo

Uma professora especial num interior rural

Celmira Macedo sentiu na pele, desde muito nova, o desconforto por não ser igual. mesmo que nada tivesse de diferente: nascida em angola, veio para portugal quando tinha 5 anos, e nessa altura «era apontada na rua», estrangeira num país que, afinal, era o seu. vem-lhe desde então a vontade de lutar pelas minorias.

Depois de passar por Leiria, aos 12 anos fixa-se em Trás-os-Montes, Alfândega da Fé, de onde o pai era. Com 15, vai estudar para Bragança, onde se forma como educadora e começa a trabalhar com crianças. A vida de professor obriga a várias deslocações, como os concursos ditam: depois da Madeira, é colocada no Alentejo, para dar apoio a crianças com necessidades educativas especiais, e é então que decide dedicar-se à área. Em 2005, regressada a Bragança e no âmbito do doutoramento, faz um levantamento das necessidades educativas na zona. O que descobriu, conta, «era catastrófico». A rede social era demasiado frágil e para uma terapeuta ocupacional, por exemplo, havia quinhentas crianças.

Em 2007, apresentou os dados à Sub-Região de Saúde de Bragança, que acabou por colocar técnicos nos centros de saúde. Mas Celmira sabia que ainda não era suficiente. Faz uma pausa no doutoramento e, em 2009, abre em Bragança a primeira escola de formação para pais de crianças com necessidades especiais. Dois meses depois, e porque tinha «um leque de problemas para um leque de soluções», fundava a Associação Leque, a funcionar hoje na Alfândega da Fé num espaço da autarquia e da Segurança Social. É lá que recebe diariamente 22 utentes, dos 9 aos 62 anos. De manhã trabalham com os técnicos, de tarde divertem-se nas oficinas organizadas com ajuda de cerca de 12 voluntários. No mesmo espaço, os leques, como gosta de lhes chamar, fazem terapia psicopedagógica, reabilitação psicomotora, cozinham ou aprendem a jardinar.

Há um gabinete de fisioterapia, um centro de atendimento ao professor e outro de apoio à família. Está em construção um lar residencial, já organizaram centros de férias e são, neste momento, uma referência nacional a brilhar no Nordeste Transmontano. Celmira continua a dar aulas no agrupamento de escolas de Alfândega da Fé e também no Instituto Superior de Ciências Educativas de Felgueiras. No próximo ano, realiza mais um sonho antigo: vai lançar uma linha de brinquedos inclusivos para crianças com necessidades especiais.

Texto de Bárbara Cruz

COMO AJUDAR: Ligue 279463420 ou visite http://www.leque.pt/

Beatriz Quintella

A levar o riso aos meninos internados

Beatriz Quintella é um pouco desconcertante quando a encaramos pela primeira vez, porque trata toda a gente com calorosa familiaridade. Para ela é natural ser assim, é o jeitinho típico do Rio de Janeiro e esta carioca, que se tornou cidadã portuguesa há muitos anos, espalha sorrisos e boa energia. Sucede, por outro lado, ser também normal quando se é palhaça de profissão. E ainda quando essa profissão está, há dez anos, exclusivamente direcionada para gerar momentos de felicidade em crianças internadas nos hospitais portugueses: desde que Beatriz criou, em 2002, a Operação Nariz Vermelho já arrancou gargalhadas a 270 mil meninos internados. «Começou na mesa da minha cozinha, entre amigos. Éramos três palhaços e tínhamos o sonho de visitar as crianças nos hospitais, como já fazíamos no Natal e no Dia da Criança», conta a artista de 49 anos, que vive em Lisboa há 22 com o marido e os três filhos. Visitam todos os meninos, mesmo os que estão em isolamento. É fácil imaginar a alegria de uma criança quando vê ao vivo um palhaço, mas essa alegria é especialmente preciosa quando essa criança está privada de quase tudo: casa, família, a escola, poder brincar e correr na rua e até mesmo, muitas vezes, a liberdade de movimentos, por causa do soro e da máscara.

E é essa a missão da Operação Nariz Vermelho - uma companhia de teatro em que trabalham 22 atores e músicos profissionais.

É uma missão simples e radiosa: uma, duas vezes por semana, ou quantas o financiamento permitir, os doutores-palhaços visitam o serviço pediátrico de hospitais e, como se costuma dizer, pintam a manta. Fazem um número em que entra sempre o improviso e toda a gente que está na zona, incluindo os pais e os profissionais de saúde. Em minutos, está toda a gente a rir, a cantar, a dançar, ou a fazer tudo ao mesmo tempo. E a doença, nesses momentos, fica a perder.

A Operação Nariz Vermelho é inspirada no projeto do palhaço norte-americano Michael Cristensen, que foi o primeiro a enfiar o seu nariz vermelho num hospital. Beatriz leu uma entrevista com ele e foi a Nova Iorque fazer formação na sua ONG, a Clown Care Unit. «No início disseram muitas vezes que lugar de palhaço não é no hospital, mas o Michael ensinou-me que o lugar de criança também não.»

Texto de Dora Mota

COMO AJUDAR: Ligue 760305505 (chamada de valor acrescentado) http://www.narizvermelho.pt/.

Bernardo Motta

Mudar vidas com um euro de cada vez

Começou tudo com um e-mail, «extensíssimo», que Bernardo Teixeira Motta, hoje com 28 anos, escreveu aos amigos e conhecidos para explicar a sua ideia: criar um movimento solidário que exigiria dos seus associados apenas um euro por mês, que serviria para ajudar uma causa ou instituição. Enviou-o para 177 destinatários. Recebeu cerca de 3500 respostas, porque houve quem reencaminhasse a proposta. Nem todas eram sérias, até recebeu ameaças. Não esmoreceu. Contactou quem tinha mostrado disponibilidade e organizou um grupo entre os 18 e os 65 anos para montar um esquema através da internet. O Movimento 1 Euro funciona desde janeiro de 2011 e já conta com cerca de dois mil associados.

A trabalhar consigo, Bernardo tem uma coordenadora e uma equipa que gere o site. Usou as suas poupanças para arrancar com o projeto e contou com o auxílio de alguns associados fundadores. Hoje, depende de patrocínios ou dos fundos que arrecada nos eventos que o movimento vai organizando, mas já conseguiu ajudar quase quarenta causas .O sistema é simples: cada associado entra com 12 euros por ano e, mensalmente, escolhe uma das causas que vão a votação para doar o seu euro. É ajudada aquela que tiver acumulado mais votos. Todo o processo é documentado e pode ser acompanhado online. O fundador quis certificar-se de que escolhia um método que evitasse as três maiores desculpas que as pessoas dão para não ajudar: falta de dinheiro, falta de tempo ou a incerteza de que o seu contributo é realmente empregue naquele ato solidário. Daí que o seu movimento dê sempre os bens em falta, e não o valor monetário, além de colocar no site todos os comprovativos da ajuda. Seja pagar um tratamento ou oferecer um computador a uma criança com deficiência. Bernardo acumula a gestão do movimento com um emprego na área de consultadoria, continua a trabalhar para que o número de associados cresça e não esquece o motivo que o levou a entregar-se a esta causa solidária: a perda de um familiar e o sentimento de não ter feito tudo o que estava ao seu alcance para o auxiliar. Tem vindo a gerir essa mágoa e hoje, responde, sente que «cumpriu a sua missão». O maior receio, confessa, era ver-se rodeado de netos sem ter descoberto o sentido da sua vida. Agora, que já ajudou tanta gente, admite: «Se morresse amanhã, morria feliz.»

Texto de Bárbara Cruz

COMO AJUDAR:http://www.movimento1euro.com/

Padre Dâmaso

Reconstruir a vida depois da prisão

Ele há cada coincidência. Herman Lambers nasceu na Holanda, no dia 9 de julho de 1930. Aos 25 anos, quando foi ordenado sacerdote sonhava ser missionário nas ilhas Cook (Polinésia) e escolheu chamar-se Dâmaso, um nome muito comum na antiga Lusitânia. E vá lá saber-se porquê, dois anos depois, o padre Dâmaso veio para Portugal. Foi em 1957. Em 1959, começou a levar os evangelhos e a palavra de Jesus às prisões e em 1962 tornou-se cidadão português. Hoje, com 82 anos, continua a ser a luz e o ombro amigo de muitos reclusos: «São homens normais. Pessoas como nós. O crime não nasce na cadeia, nasce na sociedade. Até lhe digo que há rapazes na cadeia que cometerem crimes menos graves do que muitos homens que estão cá fora, em liberdade. Fico muito revoltado, gostava de que a justiça fosse realmente igual para todos, mas infelizmente não é.»

As desigualdades e a falta de oportunidades que moldam a vida dos mais pobres, incluindo os reclusos, continuam a inquietar o padre Dâmaso: «Fundei O Companheiro (www.companheiro.org) quando me apercebi de que muitos homens não tinham família, amigos, nem um sítio onde dormir ou ficar depois de cumprirem pena. A prisão rouba a liberdade e também sonega os laços afetivos e sociais. À saída, muitos dos ex-reclusos estão sós, e O Companheiro oferece-lhes alguma proteção - alojamento, alimentação, vestuário, calçado, apoio social, jurídico, etc. Também procura arranjar-lhes um trabalho remunerado. Neste momento, abrigamos cerca de cinquenta homens e não temos mais porque as instalações não o permitem.»

O Companheiro nasceu em 1987, mas na sua génese está uma história passada em 1966, quando o padre Dâmaso foi ao estabelecimento prisional da Polícia Judiciária visitar um recluso que havia conhecido na prisão do Linhó, que reincidiu, e lhe disse: «Ó senhor padre, lá fora ninguém me ajudou.» Essas palavras ficaram-lhe gravadas no pensamento e foram o motor para uma vida de entrega aos outros. Dentro da prisão - quando celebra missa, escuta os reclusos ou os conforta - e fora dela - quando os ajuda, e às suas famílias, a reconstruir a vida para lá das grades.

Texto de Célia Rosa

COMO AJUDAR: Faça um donativo (NIB: 003506970054829193014 ) ou ofereça roupa de cama individual, almofadas, toalhas de banho, loiças, talheres e utensílios de cozinha, utensílios agrícolas, carrinho de mão, galochas (n.º 40 para cima) e luvas.

Helena Presas

Uma vida dedicada aos outros

Desde sempre achou que quando alguma coisa não estava bem devia arregaçar as mangas e tentar resolvê-la. O voluntariado para Helena Presas, 55 anos, surgiu como a coisa mais natural do mundo. «O meu pai sempre passou a ideia de que quando víamos uma coisa que não estava bem devíamos intervir.» Foi por isso que decidiu, com apenas 13 anos, ocupar as férias de verão como voluntária no Centro de Enfermagem de Paço de Arcos. Nunca mais parou. Nem quando o emprego do pai levou a família para o Brasil, onde Helena, aos 17 anos, teve contacto com outras dificuldades. Ajudou crianças nas instituições do Rio de Janeiro e deparou-se com «uma outra realidade da pobreza». Formou-se em Fisioterapia no Brasil e quando regressou a Portugal, em 1982, continuou o voluntariado numa associação de fisioterapia e numa instituição de deficientes motores. Mas para Helena Presas muito precisava de ser mudado no voluntariado. Daí dizer que sempre pensou nos assuntos de forma estratégica.

Passou a coordenar um centro de convívio que viria a ser o Centro Social do Campo Grande. Há cerca de 18 anos, o padre Vítor Feytor Pinto pediu-lhe que desenvolvesse o Núcleo de Voluntariado, o que faz até hoje, e há cerca de dois anos juntou-se à Entrajuda - Apoio a Instituições de Solidariedade Social, onde coordena a bolsa de voluntariado, com cursos de gestão de voluntariado. Além de passar a sua experiência, acerta estratégias e passa a ideia de «um voluntariado mais consciente, para uma cidadania mais ativa».

Mas acha que as potencialidades dos voluntários devem ser mais aproveitadas pelas instituições. «Vem gente de várias áreas e há que aproveitar isso. Há mais diversidade de ideias e trazem outras visões», sublinha a voluntária, que faz visitas a idosos que estão isolados. «Eles precisam de falar com alguém, e com pessoas diferentes, em vez de estarem sempre sós ou só com a televisão.»

Desde há três anos que tem contacto com uma outra realidade: a de pessoas desempregadas, que precisam de se ocupar por estarem afastadas do mercado de trabalho. Helena Presas adianta que «com muito pouco se consegue melhorar a autoestima das pessoas, fazendo-as sentir-se úteis e com isso conseguem ficar mais pró-ativas na procura de emprego».

Texto de Susana Ribeiro

Patrícia Horta

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Em Pemba, Moçambique, ajudou a criar uma minicreche para que as mães pudessem trabalhar e até cuidou de doentes em centros de saúde. Em Barcelona, trabalhou com utilizadores de drogas e doentes alcoólicos. Em Estrasburgo, num bairro social onde viviam pessoas de 56 nacionalidades, voltou a trabalhar numa creche que, para dar resposta aos horários de trabalho atípicos dos pais e das mães migrantes, funciona 24 horas por dia, sábados, domingos e feriados. Mas o projeto que mais mexeu com Patrícia Horta, 31 anos, técnica de reabilitação e inserção social, é o que desenvolve na Associação de Solidariedade Social do Alto da Cova da Moura (www.assacm.pt): «Trabalhamos como um centro comunitário e abrangemos toda a população. A maioria dos moradores são migrantes - de Cabo Verde, de São Tomé, Angola, alguns brasileiros e também da Europa de Leste - e vivem com bastantes carências. As famílias são numerosas, têm poucos recursos, baixa qualificação e dificuldades de integração.»

Acolhem crianças em idade pré-escolar; dão apoio escolar aos alunos do 1.º ciclo; dinamizam projetos para jovens do 2.º e do 3.º ciclos, como o Ginásio Mental; fazem atendimento social e jurídico às famílias; ajudam na legalização; desenvolvem atividades desportivas, musicais e culturais, promovem o desenvolvimento e a qualificação do bairro dando. A Patrícia Horta já coube a honra de ter sido convidada pela Comissão de Bairro (integra as quatro associações da Cova da Moura) para acompanhar o estudo sobre as condições habitacionais: «Foi na Iniciativa Bairros Críticos e foi um privilégio. Entrei em todas as casas, conheci todos os chefes de família, ficámos mais próximos.»

Outro dos projetos emblemáticos é o Nu Kre (que, traduzido do crioulo de Cabo Verde, significa «Nós Queremos»), que Patrícia Horta coordena: «Apoiado pelo Programa Escolhas e desenvolvido em parceria com a associação O Moinho da Juventude e a junta de freguesia da Buraca, desenvolve atividades que visam a inclusão social das crianças e jovens.» Música, dança, desporto, emprego e empreendedorismo são os substantivos que dão corpo, forma e alma à Cova da Moura, um bairro que fervilha de vida. Cinco mil moradores, 125 lojas. Entre elas, restaurantes que servem «a melhor» cachupa e cabeleireiras especialistas na arte das tranças. Quem é que quer experimentar?

Texto de Célia Rosa

COMO AJUDAR: faça um donativo (NIB: 003502300001030840023) ou ofereça brinquedos novos (crianças dos 0 aos 12 anos) para dar já na festa de Natal.

Paulo Ribeiro

O coreógrafo das diferenças

Paulo Ribeiro, coreógrafo de renome no país e no estrangeiro, tinha os requisitos necessários para mudar o universo em redor - e foi isso mesmo que fez. Começou por fazer carreira junto de companhias internacionais e ganhar prémios, ao mesmo tempo que colaborava com a Companhia de Dança de Lisboa e o Ballet Gulbenkian, para o qual criou várias obras até ao ano da sua extinção, em 2005. Dez anos antes, quando fundou a Companhia Paulo Ribeiro e percebeu que a oferta cultural portuguesa se resumia a Lisboa e ao Porto (o resto era um deserto), decidiu descentralizar-se, fazer pelas artes em território nacional e mudar-se com os colegas para Viseu, onde se instalaram e dinamizaram o Teatro Viriato com o apoio da autarquia local. Com jeito, ao longo do tempo, não só gerou um movimento que consegue tocar diferentes públicos como desafia uma camada muito diversa da população da cidade, incluindo lares de terceira idade, casas de correção e pessoas com deficiência. «Somos transversais. O teatro não se limita a apresentar espetáculos: cria um serviço público que é completamente abrangente face às populações que uma cidade e uma região como esta têm», sustenta Paulo. Paralelamente, promove um importante projeto pedagógico junto da comunidade local, Lugar Presente, que inclui aulas regulares de dança e teatro para todos, numa vertente de lazer, além da componente de formação em dança, com o ensino básico articulado até ao 9.º ano. O impacte no tecido educativo da zona resultou estrondoso.

Aos 53 anos, homem viajado e habituado a explorar as dimensões do corpo, o coreógrafo nunca receou abraçar as diferenças. Nunca, a não ser no ano passado, quando o diretor do Grupo Dançando com a Diferença, Henrique Amoedo, o desafiou para criar o espetáculo Desafinado, com intérpretes portadores de deficiência que usam a arte para mudar a imagem limitada que os outros têm deles. «Tinha pouco tempo de criação, não conhecia os intervenientes com quem ia trabalhar e havia a questão de as pessoas terem algumas dificuldades com que não estava habituado a lidar. Nunca tinha trabalhado com portadores de trissomia 21 e tive imenso receio no início», confessa Paulo Ribeiro, entretanto mudado pela experiência: «Acabou por ser fantástico. Foi uma peça feliz e luminosa. É um dos pontos altos da minha vida que me vai acompanhar durante muito tempo.» No dia a dia, é comum sentir-se subjugado por preocupações de caráter prático, acessórias, em que desacredita um bocado da condição humana. Chega a crer que a tendência geral é mais para a estupidez do que para a inteligência. «E depois vejo a forma como o Henrique trabalha com aquelas pessoas todas, o modo como elas se entregam, a comunicação bonita que existe ali dentro, e é muito tocante. Percebemos que o mundo pode ser muito melhor do que aquele que nos põem à frente.»

Texto de Ana Pago

COMO AJUDAR: O trabalho que o Teatro Viriato desenvolve com a comunidade é de índole artística, não social ou de solidariedade. Empresas e privados podem ser parceiros deste projeto fazendo donativos, ao abrigo da Lei do Mecenato. Os interessados podem contactar diretamente o Teatro Viriato (232480110) ou consultar o site oficial: .http://www.teatroviriato.com/pt/menu/amigos-e-mecenas/amigos

Miguel Lacerda

O mergulhador sem limite

Durante a viagem à vela que fez à Austrália em 1997, com um mar de sonho em redor e o fogo da aventura no sangue, Miguel Lacerda teve uma epifania. Seguia no mesmo barco que um grupo de jovens deficientes em cadeiras de rodas, ele para mergulhar na Grande Barreira de Coral e eles, supunha então, para verem os peixes. Ficou siderado quando percebeu que a equipa já mergulhava regularmente como parte de um programa de reabilitação física e tratou de guardar a ideia para a pôr em prática mais tarde, quando regressasse a Cascais. Decididamente, as barreiras encontram-se mais na cabeça das pessoas ditas «normais» do que nas condicionadas, capazes de arranjar forças insuspeitas para seguirem com as suas vidas. «O meu pai, José Ramalhete, foi um dos pioneiros do mergulho em Portugal. Faleceu, tinha eu 2 anos, a fazer caça submarina, de modo que o mergulho passou quase a ser um fruto proibido na minha infância», conta Miguel Lacerda, de 55 anos e mergulhador há mais de quarenta - os suspiros da mãe não o demoveram de querer passar mais tempo na água do que em terra firme. «Esta dedicação nasceu muito por causa do que aconteceu ao meu pai, mas houve sempre mais qualquer coisa a empurrar-me. É uma paixão. Uma vocação.»

Depois de começar cedo a trabalhar no Aquário Vasco da Gama (tinha 15 anos), de fundar o Museu do Mar em Cascais e o da Baleia na Madeira, Miguel continuou a laborar na área da museologia, em projetos de biologia, taxidermia e dermoplastia. Tem cinco livros editados; é convidado a participar regularmente em exposições e debates relacionados com o mar, em Portugal e no estrangeiro; em Cascais, em 2009, recebeu uma medalha de mérito pela defesa da nature za e do meio ambiente. Mas aquela viagem à Austrália não o largava. Cresceu-lhe de tal forma no peito que há dois anos, com o apoio da Câmara de Cascais, lançou o projeto Dive for All. Tornou-se claro para todos que o mergulho para pessoas com deficiência é uma terapia com importantes resultados, que promove a inclusão.

«Não consegui mais cedo porque são necessárias infraestruturas dispendiosas, que exigem tempo. Não é fácil levar estas pessoas até ao mar. Precisamos de mais fatos que se adaptem aos seus problemas, para que as consigamos vestir sem as magoar. E era preciso um centro de mergulho que não existia há 15 anos, foi muito difícil», recorda. Nas duas primeiras edições, uma vez as inscrições abertas, um grupo de cerca de trinta pessoas mergulhou na Piscina Municipal da Abóboda, para se familiarizar com os equipamentos e as técnicas utilizadas, acompanhado por instrutores da Escola Cascais Dive Center. Dessas trinta, porque ainda lhes faltam meios, metade fez o mergulho final no mar da praia da Duquesa. «A maior riqueza do Dive for All é partilharmos um meio acessível a todos, mas que a maioria ainda considera um bicho-de-sete-cabeças», resume Miguel, maravilhado com os resultados. «À partida, tudo é dificuldade.» Eles levam-nos para dentro de água, fazem-nos sentir que podem tudo e são recompensados com um sorriso que não tem explicação. «É um daqueles momentos em que percebemos que viemos a este mundo para fazer alguma coisa», diz.

Texto de Ana Pago

COMO AJUDAR: Uma vez anunciadas as datas da iniciativa para 2013, os interessados podem inscrever-se como voluntários através do e-mail dcre@cm-cascais.pt, para ajudar os mergulhadores a vestirem os fatos e na distribuição das águas.

Irmã Elvira Nadais

Todos têm direito a uma vida condigna

Crianças descalças e com fome, adultos indocumentados, pessoas analfabetas e doentes, barracas em vez de casas, esgotos que corriam viela a baixo, lixeiras a céu aberto, ratos por todo o lado. Os moradores do Bairro do Fim do Mundo, na Galiza, em Cascais, viviam na pobreza extrema - sem dinheiro, habitação, informação, acesso à educação e à saúde. E ao fundo o azul do mar.

Nos primeiros anos da década de setenta do século passado, quando a irmã Elvira Nadais ali chegou, também montou um barracão de contraplacado com telhas de lusalite, onde começou por cuidar dos doentes e das crianças, incluindo as ciganas. A seguir ao 25 de Abril, com a descolonização, as barracas multiplicaram-se, as crianças em risco também e a pobreza aumentou. Mas a irmã Elvira acreditava que era possível mudar a vida daquelas pessoas. O mais difícil estava feito: todos confiavam na freira que ensinava a ler e a escrever, que tratava dos doentes, diligenciava a vacinação de crianças, tratava do registo e legalização dos indocumentados, arranjava medicamentos, mercearias, subsídios até. Finalmente, na década de noventa, as barracas do Bairro do Fim do Mundo deram lugar aos prédios amarelos do Bairro Novo do Pinhal, onde a irmã Elvira, com o apoio da sua congregação - Filhas de Maria Auxiliadora-Salesianas - e da Câmara Municipal de Cascais, instalou o Centro Social Nossa Senhora de Fátima (http://www.salesianas-por.net/fmaportugalcasas.html). Ali funciona um jardim-de-infância, um centro de dia para idosos e um centro de apoio escolar para crianças e jovens. E ali mora a irmã Elvira. Partilha a casa com duas irmãs e trabalham as três para a comunidade. Aos 75 anos, quase cinquenta anos depois de ter deixado a casa dos pais, nas Caldas de São Jorge (Santa Maria da Feira), para entrar como noviça na Casa de Formação das Irmãs Salesianas, no Monte do Estoril, a irmã Elvira Nadais não para. Os moradores do Bairro Novo do Pinhal, sobretudo os mais vulneráveis, sabem que podem continuar a contar com ela: para os visitar em casa, para os acompanhar nas deslocações aos hospitais, para lhes providenciar roupa, alimentos, medicamentos, assistência e tudo o que precisarem. Para os informar e esclarecer sobre os seus direitos e para lhes relembrar dos seus deveres.

Texto de Célia Rosa

COMO AJUDAR: Faça um donativo (NIB 00100000 2095561 0001 56) ou ofereça equipamento desportivo (fatos de treino, calções, meias e T-shirts) para os atletas da equipa de futsal (tamanhos dos 8 aos 12 anos). A Ludeca precisa de material escolar diverso.

Joaquim Sá

Um homem diferente

Leia-se neste título o diferente como antónimo de indiferente porque é talvez essa a melhor forma de definir Joaquim Sá, 50 anos, funcionário da secretaria da Escola Secundária de Caldas da Rainha. Um homem diferente que não consegue manter-se indiferente. Há três décadas ajuda quem precisa, sem olhar a géneros, nacionalidades, raças, nem cedendo a burocracias, preconceitos, incompreensões ou imposições. Tinha 20 anos quando, na zona histórica de Caldas da Rainha, se deparava demasiadas vezes com um grupo de jovens e menos jovens que ali parava, ao abandono. Jovens como ele, mas sem futuro. Nem presente. Sentiu que tinha de fazer alguma coisa. E escreveu-lhes uma carta. Uma tentativa de aproximação, com uma mensagem de esperança e um apelo à mudança de vida. Resultou e Joaquim começou a ajudá-los como podia, com comida e roupa que ia recolhendo aqui e ali. Desde então fez desta a sua causa. Nos primeiros anos, foi ele sozinho, na rua. Depois juntou-se-lhe D. Zezinha, dona de uma loja junto ao Parque D. Carlos I, que, com os donativos alimentares angariados por Joaquim, cozinhava almoço e jantar diários. Sete ou oito anos dentro de portas, que se fecharam quando a senhora deixou de ter condições para manter aberto o estabelecimento. Joaquim e os seus comensais voltaram à rua, mas a resposta alimentar não faltou, com a ajuda da D. Zezinha que até hoje tem sido cúmplice de Joaquim na sua missão. A procura foi crescendo e a ajuda também e em 2002 a autarquia cedeu-lhes um espaço devoluto . Assim nasceu a De Volta a Casa que, com a ajuda de utentes e voluntários, transformou uma casa em ruínas numa casa a sério. «Chegámos a ter cinquenta e tal pessoas à refeição e criámos outras valências. higiene pessoal, encaminhamento para serviços de saúde, apoio burocrático para obtenção de documentos ou do RSI, por exemplo. O nosso objetivo tem sido sempre mudar vidas, ajudar as pessoas a encontrar o seu caminho e não só dar um prato de comida.» Apesar disso, após oito anos de uma relação algo conturbada com a autarquia que queria impor regras com as quais Joaquim não concordava - «"queriam que funcionássemos como a segurança social, que não admitíssemos imigrantes de Leste ou acabássemos com os arrumadores. Esse não é o meu papel. Eu ajudo quem me pede ajuda» -, a 3 de janeiro de 2011, depois de uma «ceia de Natal excecional e inesquecível», a associação De Volta a Casa voltou para a rua. E Joaquim continuou, continua, a sua missão: servir duas refeições por dia a quem não tem o que comer. Para isso, conta com a ajuda de vendedores do mercado, de pastelarias e padarias, de alguns restaurantes, do quartel e da escola e pode contar também com a sua.

Texto de Catarina Pires

COMO AJUDAR: Ligue 964668240 ou escreva para avac.casa@gmail.com.

João Brites

Transformar é possível

João Brites tem 22 anos e uma imensa vontade de transformar o mundo. Estudante de Economia da Universidade Nova de Lisboa, com 16 anos começou a sua própria transformação, ao deixar a natação de alta-competição para seguir a verdadeira paixão - o break dance. As ruas de Palmela, a sua vila, foram a escola. Os amigos, em grupo, foram os mentores, com treinos intensivos, à medida da vontade. Nunca a ideia de voluntariado lhe tinha passado pela cabeça, mas quando deu por si era isso que fazia ao realizar demonstrações e workshops desta dança urbana a convite de escolas e associações do seu concelho.

A experiência revelou-se transformadora para o João, que se tornou melhor aluno e com vontade de se envolver em projetos que fizessem a diferença. Um deles, em 2009, foi o Global Changemakers, um programa do British Council que promove a partilha de experiências entre jovens ativistas, empreendedores sociais e voluntários. João ficou entre os sessenta escolhidos para um encontro em Londres. Destes, seis teriam o «privilégio» de representar as gerações futuras em Davos, onde estariam cara a cara com Kofi Annan, Bill Gates ou Bill Clinton. Brites esteve lá, com mais cinco jovens do Iraque, Botswana, Japão, Canadá e Sri Lanka.

Foi então que começou a esboçar-se a Transformers. Desafiado a dar uma ideia de transformação da sociedade, João inspirou-se na sua experiência do break dance. E se, através daquilo que mais gostam, os jovens pudessem intervir na sociedade? A ideia transformou-se, quando mais cabeças foram convidadas a pensar. Tomou forma de associação e em 2010 já estava no terreno. «Nove em cada dez jovens não estão envolvidos socialmente. Não porque sejam indiferentes, mas porque não sabem que podem fazer a diferença e é aí que entra a Transformers.» Promovendo o «encontro» entre os mentores e os jovens que querem aprender e desenvolver-se. «Os mentores são os nossos verdadeiros super-heróis. Não são apenas treinadores ou professores, são exemplos a seguir.» A entrar no terceiro ano de atividade, em Lisboa e no Porto, a Transformers não trabalha só com jovens em risco, quer envolver todo o tipo de miúdos. Com projetos em 22 instituições, com 350 jovens, 51 mentores e 37 atividades que vão das artes ao desporto, à música ou à dança, «tudo é feito com base no voluntariado e com grande espírito de compromisso.» Tendo como principal mecenas a Fundação EDP, a Transformers exorta-o a participar, como mentor ou beneficiário.

Texto de Catarina Pires

COMO AJUDAR: Saiba mais em www.projectotransformers.org ou pelos números 968 750 837.

Marília Felippe

A mulher dos mil instrumentos

Desde pequena que Marília Felippe brinca com a música. Gostava muito de cantar, tanto que trocava de bom grado as bonecas pela participação regular em coros infantis. Depois, já adolescente e com os estudos às costas, continuou a guardar tempo para dedicar a crianças hospitalizadas, em projetos em que brincava com elas e lhes contava histórias. «Tive uma relação especial com a música desde muito cedo e, talvez por ser uma pessoa assim musical, achei sempre importante apostar nesta vertente», explica Marília, que entretanto se tornou educadora e sentiu necessidade de procurar formação específica na área, para oferecer o melhor às crianças das escolas onde trabalhava. «A música traz muito relaxamento e passa uma mensagem alegre que me motiva», sustenta. Entre o básico que aprendeu como educadora, os rasgos de criatividade, os workshops sucessivos, as pessoas com quem se foi cruzando e a formação que fez em música para crianças, acabou por inventar uma arte muito própria que distribui com o coração nos hospitais onde, aos 34 anos, continua a fazer voluntariado.

«Toco para os pequenos com panelas, colheres de pau e construo instrumentos com todo o tipo de materiais reciclados, incluindo garrafas e latas», precisa a criativa, motivada. No último ano e meio, uma vez a cada 15 dias, Marília assegura sessões no Hospital Garcia de Orta, em Almada, no Hospital Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, no São Bernardo, em Setúbal, e no São Francisco Xavier, em Lisboa. Foi em abril de 2004 que o projeto Hora da Música arrancou pela mão da Fundação do Gil, contando com um grupo de músicos experimentados para criar ateliers que sensibilizam as crianças para a magia dos sons. A educadora adora este espírito de partilha. «Julgo que a maior riqueza é despertar um sorriso numa criança. Às vezes, elas começam o encontro tristonhas, cansadas, abatidas por estarem ali, mas depois proporcionamos-lhes aquela hora de bem-estar e saímos todos melhores», conta. Não precisa de saber fazer malabarismos com cinco ovos nem de investir tanto de si que fique sem tempo para o resto. «É muito bom. Enriquece-me muito esta troca. Há dias, um bebé não parava de chorar e acabou por adormecer com a música. Para mim é quase uma necessidade.» Dinheiro nenhum no mundo paga uma emoção assim.

Texto de Ana Pago

COMO AJUDAR: NIB 003201580020450022191 ou 003505570003420053079. Ou carregue

o Cartão Presente do Gil com 15, 25, 50, 100 ou 150 euros. Ao valor do carregamento, acresce dois euros por cartão, que serão doados à fundação. Informações no site www.cartaodogil.unibanco.pt.

António Barão

O bom filho à casa torna

Há cerca de dez anos que António Barão, 54 anos, é o presidente da direção da Casa dos Rapazes (www.casadosrapazes.com), uma instituição, em Faro, que acolhe sessenta crianças e jovens entre os 6 e os 18 anos que foram para ali encaminhados por decisão das comissões de proteção de menores ou dos tribunais de família. Mas há cinquenta anos que o dirigente conhece a instituição: «Esta foi a minha casa. Entrei aqui com 5 anos, sai quando fui para a tropa.»

António Barão não se lembra do dia em que, pequenino e por razões de carência económica da família, ali chegou. Mas as memórias mais antigas são de pânico. Era o mais pequeno no meio de dezenas de rapazes institucionalizados por causa da pobreza ou da pequena criminalidade. Malnutrido, sem mimo, colo ou qualquer apoio técnico, aguentou a disciplina férrea e estudou. Também cultivou amigos, aprendeu a desenvencilhar-se e, já homem, fez-se à vida. Funcionário no Governo Civil de Faro e depois na Comissão de Coordenação Regional do Algarve, António Barão é casado, tem um filho e dois netos. É o atual presidente do Farense, clube onde jogou futebol amador desde os 18 anos, e que foi a ponte neste regresso à Casa dos Rapazes: «Convidaram-me para vir dar umas aulas de futebol aos miúdos. Fiquei.»

Do dia em que voltou a entrar e dos que se seguiram já António Barão guarda muitas lembranças: «Foi emotivo. Vi com agrado que a instituição tinha melhores condições mas também senti que havia um mundo de coisas para fazer no sentido de promover a integração escolar e social das crianças e dos jovens que acolhe. Tive a convicção de que podia melhorar e que precisava de se abrir à comunidade e às famílias.»

Assim foi. Longe dos tempos da política asilar, hoje a Casa dos Rapazes cuida da educação e formação de sessenta crianças e jovens, todos rapazes, todos privados da família natural (por incapacidade ou a impossibilidade desta em assumir as funções parentais). Prepara-os para o futuro. Com boas condições de alojamento e alimentação, com o afeto possível numa instituição, com apoio educativo, psicológico e social. Todos frequentam as escolas de Faro e têm um projeto de vida definido: «Aqui não há crianças para adotar, todas têm vínculo à família. E a maioria vai passar o Natal a casa. As poucas que não têm essa possibilidade são acolhidas em casas de famílias nossas amigas.»

É grande a rede de solidariedade da Casa dos Rapazes. O empreendedorismo do seu presidente também. Em dez anos, mudou a cara e a alma do lar e arranjou as verbas necessárias para a construção de duas creches e um jardim-de-infância, que são referência de qualidade em Faro e fonte de receita da instituição. No próximo ano, serão inauguradas as instalações do 1.º ciclo: «A Casa dos Rapazes é uma referência em Faro, mas ainda acredito que é possível fazer mais e melhor. Esta também é a minha casa. Faço uma gestão com base na razão e no coração.»

Texto de Célia Rosa

COMO AJUDAR: Faça um donativo (NIB 003600 32991 00007007 62) ou ofereça perfumes, after shaves e desodorizantes (os presentes de Natal mais desejados pelos jovens mais velhos).

Maria Gaivão

Usar o râguebi para esbater as diferenças

Diz-se que o râguebi é um desporto violento mas, para Maria Gaivão, ele tem sido a tábua de salvação de umas boas dezenas de crianças. «Dificilmente haverá uma atividade mais completa em termos de autodomínio e integração. Aqui cabem altos e baixos, gordos e magros, brancos, negros e ciganos. E todos precisam uns dos outros», diz. Foi por isso que, há seis anos, fundou a Escolinha de Râguebi da Galiza, no antigo bairro do Fim do Mundo, actual Galiza,um dos mais problemáticos de Cascais.

Pela escolinha já passaram mais de 250 crianças - e há 130 em atividade este ano. São miúdos de todas as etnias, com fracos rendimentos económicos, alguns chegam de famílias com histórias de violência ou crime, outros de contextos de pobreza, desemprego, precariedade. «Integramo-los em equipas consoante o escalão etário. E assinamos um contrato com eles. Nós asseguramos a formação, os equipamentos e os lanches. Eles têm de se comprometer a uma certa regularidade e a esforçarem-se para ter um bom aproveitamento escolar.» Além dos treinos, os rapazes e as raparigas da Galiza têm de marcar presença nas salas de estudo que a Santa Casa da Misericórdia de Cascais providencia no bairro. Os resultados escolares, garante Maria Gaivão, são animadores.

As viagens de autocarro para participar nos jogos são, às vezes, uma dor de cabeça. Há um escalão feminino, os rapazes jogam em sub-8, sub-10, sub-12, sub-14 e sub-16. Também há uma equipa de «Megabambies», para as crianças dos 3 aos 6. «Garantir a viabilidade económica do nosso projeto obriga a uma grande ginástica, e a um grande empenho.» Maria vai somando vitórias. Angariou treinadores em regime de voluntariado, assinou protocolos para treinar nos campos do agrupamento escolar do Estoril, contratou um fisioterapeuta para dar assistência médica às várias equipas. O campo de jogos, esse, tem de ser alugado. «Também ajudámos a abrir uma escolhinha de râguebi em São João da Talha, numa zona complicada do concelho de Loures.» Há muito mais para fazer, não se cansa de dizer Maria.

Texto de Ricardo J. Rodrigues

COMO AJUDAR:

João Sá Nogueira

Uma casa longe de casa

O engenheiro químico de 74 anos que militou na Juventude Católica, viveu a Guerra do Ultramar em Moçambique e trabalhou 36 anos na indústria do papel nunca concebeu a vida sem envolvimento cívico e intervenção social. Quando em Portugal as questões ambientais eram ainda exóticas, João Sá Nogueira ajudou a fundar a CAIPA (Comissão da Associação Industrial Portuguesa para o Ambiente), o que o despertou para o conceito de desenvolvimento sustentável. «Havia uma frase de que eu gostava muito e que dizia que este mundo não foi herdado dos nossos pais, mas emprestado pelos nossos filhos. É fundamental esta perspetiva. Quando lutamos pela proteção do ambiente, estamos a lutar também pelas pessoas.» Na década de 1990, a discussão aprofundou-se e alargou-se aos conceitos de cidadania participada e responsabilidade social das empresas, também embrionários à época no nosso país e daí nasceu o GRACE (Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial), a que João Sá Nogueira presidiu de 2000 a 2004, ano em que resolveu aposentar-se. Sol de pouca dura, ou muita, se pensarmos que a missão a que se dedicou tem ajudado muitas famílias de crianças hospitalizadas a ficarem junto delas, com a tranquilidade e dignidade necessárias.

Em 2004, era apenas um sonho, mas com João Sá Nogueira à frente da Fundação Infantil Ronald McDonald, no ano seguinte foi lançada a primeira pedra da Casa Ronald McDonald, em Lisboa. O sonho tornou-se realidade em 2008, junto ao Hospital D. Estefânia, dando apoio a famílias carenciadas que vivem longe da capital e não têm onde ficar. «Temos capacidade para dez famílias, que encontram aqui uma casa longe de casa, onde podem partilhar alegrias e tristezas, criar laços de solidariedade e ajudar os seus filhos doentes.».

O desafio não ficou, no entanto, concluído. Continua a norte, onde, apesar de alguns obstáculos, João Sá Nogueira espera inaugurar no final do próximo ano a Casa Ronald McDonald do Porto, junto ao Hospital de São João, com capacidade para 12 famílias. «A crise não pode paralisar-nos, temos de saber ultrapassar as dificuldades acrescidas, acreditando no país e em nós próprios, e andando para a frente.»

Texto de Catarina Pires

COMO AJUDAR: Fazendo um donativo (NIB 00330000 4523718034905); colocando um donativo nas caixas-mealheiro da FIRM existentes nos restaurantes McDonald"s( R ) do país; ligando para o 760300405 (custo: 0,60 euros + IVA; 0,48 euros revertem para a FIRM)

Sofia Mexia Alves

Voluntária desde pequenina

Porto, Angola, Moçambique e Cabo Verde. Crianças com paralisia cerebral, em risco, emigrantes em situação irregular, Banco Alimentar e até a venda de Natal da paróquia. Este tem sido o mundo de Sofia, embora resumi-lo assim seja redutor, porque não conta toda a história rica de formação, tutoria, amparo, amizades e partilha de afetos e histórias de vida. Sofia Mexia Alves, psicóloga de 26 anos nascida em Toulouse e natural do Porto, é voluntária desde que se lembra e quando começou, não conseguiu mais parar.

Trabalhar para melhorar a vida de uma comunidade era algo natural e que fazia por instinto. Entre aqueles países e todas as instituições onde conseguiu ser útil a outros com menos sorte do que a sua, está quase toda a sua vida. Sofia está agora a trabalhar na Câmara Municipal do Sal, em Cabo Verde, e não sabe para onde a levará o destino, mas tem uma certeza: «Quando tomamos esta decisão de ser missionários, de sair em missão pelos outros - dentro ou fora do país - não há limites.»O trabalho da mãe, que trabalhava na área da intervenção do consumo de substâncias, influenciou-a. «Ela levava-me para a Comunidade Terapêutica desde pequenina, eu passava lá vários dias das minhas férias e tempos livres e aquilo sempre me pareceu natural... a terapia, as dinâmicas de grupo, as estratégias de mudança pessoal. Tive oportunidade de contactar e acompanhar pessoas com problemas, mas também ver e testemunhar a sua reabilitação. E acho que essas experiências foram as que mais definiram o meu percurso de vida», conta Sofia. Ao estudar Psicologia na Universidade Católica do Porto, entrou no programa de serviço comunitário do curso e trabalhou na Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral e ainda no centro comunitário Educar e Prevenir do Bairro de São João de Deus, onde as 48 horas previstas acabaram por estender-se por três anos. Aderiu ao GAS"África, o grupo de voluntariado e ação social em África da Universidade Católica, há seis anos e chegou a ser presidente, até ter estacionado na ilha do Sal. Até quando, ainda não sabe, mas sabe que o seu habitat natural é estar onde é preciso no mundo. O combustível está-lhe na alma. «Move-me a expetativa e a ânsia de mudar vidas para melhor.»

NOTA: O GAS"Africa é um grupo de voluntariado e ação social de jovens de todos os cursos da Universidade Católica do Porto.

Texto de Ricardo J. Rodrigues

COMO AJUDAR: Faça um donativo (NIB 017000000009719510135) e consulte o site www.gasafricaporto.page.tl.

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Daniel Deusdado

"Petróleo, não!" Nesta semana já estivemos perto

1. Uma coisa é termos uma vaga ideia de quão estupidamente dependemos dos combustíveis fósseis. Outra, vivê-la em concreto. Obrigado aos grevistas. A memória perdida sobre o "petróleo" voltou. Ficou a nu que temos de fugir dos senhores feudais do Médio Oriente, das oligopolísticas, campanhas energéticas com preços afinados ao milésimo de euro e, finalmente, deste tipo de sindicatos e associações patronais com um poder absolutamente desproporcionado.