Fábulas e comentários (sobre a Europa)

1. Discussões quantitativas

Uma história (o 3.º sonho de Calvino)

Com o seu sócio está tão envolvido na discussão das percentagens de algo, que não dá pelo que acontece: são engolidos por uma baleia. Dentro do estômago da baleia Calvino continua a discutir percentagens. Percebe, agora, qual o negócio, trata-se da venda de petróleo e de livros. Quem fica com o quê? A discussão está acesa e Calvino empenha-se nela cada vez mais; vira depois as costas ao seu sócio e sai para a rua: observa as pessoas a andarem de um lado para o outro. Os poucos que não estão com pressa, aqueles que param, discutem entre si, percentagens também: 30, não, 37!, não, não, 32! Todos discutem, ele próprio não consegue deixar de repetir, para si próprio: 43%, pelo menos 43%!

Mas ao mesmo tempo existe aquela sensação de que estão todos dentro do estômago da baleia, de que aquelas pessoas que ele vê na cidade, cheios de pressa, de um lado para o outro, a discutir percentagens, e ele próprio, há muito foram comidos.

A sensação, quando se está a discutir o défice dos países, é de que fomos engolidos por algo maior do que nós.

Estranhamente, eu diria, as discussões em redor do défice por vezes fazem-nos pensar em...Deus. (Ou em algo com dimensão semelhante).

Algo que nos tem dentro e que não é uma baleia, mas uma coisa ainda maior e mais importante.

3%, 4%, 3,2%! A discussão dos engolidos continua.

2. A sensação de falta, o desejo

A revolta

Para o rei era fundamental que toda a população, sem excepção, estivesse satisfeita.

Quando apareceu aquele estrangeiro extremamente feliz e com seis dedos em cada mão, o rei ordenou que os médicos do reino implantassem mais um dedo em cada um dos habitantes. E que os médicos fizessem o mesmo uns aos outros. Ninguém invejaria os seis dedos daquele estrangeiro.

Assim se fez. Todos ficaram com seis dedos em cada mão.

No ano seguinte chegou outro estrangeiro - com um ar ainda mais feliz - que tinha sete dedos em cada mão.

O rei de novo ordenou que os médicos do reino implantassem mais um dedo em cada um dos habitantes. Assim foi feito.

No ano seguinte um estrangeiro com oito dedos por mão, que não parava de exibir a sua felicidade, provocou nova implantação geral: oitavo dedo.

No ano seguinte: um estrangeiro com nove dedos. E ainda mais feliz.

A mesma operação. Todos os do Reino ficaram com nove dedos em cada mão. Dezoito no total.

Foi então que no ano seguinte chegou um estrangeiro com o rosto mais feliz que alguma vez fora visto por ali e com cinco dedos em cada mão.

Depois de um momento de hesitação, o rei ordenou aos médicos que cortassem quatro dedos por mão a cada habitante.

Havia um problema, no entanto. Os nove dedos em cada mão dos cirurgiões já não conseguiam operar: os dedos atrapalhavam-se uns aos outros. Já não era possível: teriam de ficar todos com nove dedos em cada mão.

Como o rei não conseguiu dar à população os cinco dedos daquele estrangeiro feliz, rebentou uma revolta, e o rei foi deposto.

Talvez se veja hoje a Europa como aquilo que nos seduziu: primeiro com seis dedos, depois com sete, etc.

Agora, há quem já só exija o regresso aos cinco dedos; de novo, por favor, os cinco dedos!

Mas como tal é difícil.

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