Eu, que me arrependo...

Se pudesse voltar atrás, voltaria a fazer tudo da mesma maneira? Provavelmente não. Por isso é que nos lembramos dos sentimentos negativos das experiências más. Afinal, a culpa até pode ser uma coisa boa. Quem nunca errou, se arrependeu e aprendeu com isso?

A dada altura da vida, depois de muitas coisas feitas e outras tantas por fazer, toda a gente percebe que errar é humano. Aquele concerto a que não fomos, aquela palavra que não devíamos ter dito, aquele gesto (ir)reprimido, aquela atitude (não) tomada, aquela promessa por cumprir, aquele corte de cabelo desastroso, aquela tatuagem imponderada. Só alguém com uma capacidade de encaixe perfeita poderá dizer que não se arrepende de nada - quanto mais não seja, de nunca ter querido saber que a Páscoa, celebrada na semana passada, é a festa da salvação para os pecadores arrependidos e não o fim de semana grande em que comemos amêndoas de chocolate. A própria culpa, sentimento muito católico, não torna o arrependimento uma coisa má. É simplesmente uma conquista da evolução, que nos permitiu aprender com os erros e preservar a espécie.

«O arrependimento pode ser positivo se a pessoa deixar de incorrer nos mesmos comportamentos e se corrigir algo ou compensar o mal que fez», diz Miguel Lucas, psicólogo clínico, preparador mental de equipas desportivas e autor da Escola Psicologia, o blogue que criou para ajudar a transformar vivências diversas em histórias capacitadoras. «A nosso favor ou contra, em algumas alturas da vida, apodera-se de nós um sentimento de culpa. Se isso nos servir e for adequado, funcionará como elemento para o desenvolvimento pessoal.» Mas a culpa frequente pode levar-nos por maus caminhos. «O remorso corrói, é um ataque ao ego tremendamente destrutivo.» Para Miguel Lucas, seguir em frente, usando a experiência negativa como promotora do crescimento pessoal, é funcional, proveitoso e construtivo.

«Tudo é graça, até os pecados», diz o bispo Pedro José Conti, confiante de que nos dias que antecedem e sucedem a Pascoa muitos católicos aproveitam para reajustar a sua noção de arrependimento, lembrando que Jesus dizia aos pecadores arrependidos para irem em paz porque os tinha perdoado. «Não dá para voltar atrás nem corrigir o mal feito, mas podemos recuperar relações, mudar atitudes, renovar o nosso olhar.» A religião advoga que o crescimento pessoal emerge de alguns erros que cometemos ao longo da vida e, aqui, a psicologia fundamenta-o como ninguém: «O arrependimento e a culpa são dois fatores preponderantes na nossa aprendizagem», diz Miguel Lucas. «O ressentimento e o remorso toldam-nos o raciocínio, aumentam a irritabilidade e a tensão, diminuem o bom humor e geram um impacte negativo no bem-estar.» Uma carga que poucos quererão para si.

PEDRO MEXIA

Trocar o Direito pela poesia

Numa aula particularmente árida, em que escrevia sobre estilicídio - uma lei que obriga os proprietários a edificarem de modo a que a beira do telhado não goteje sobre o prédio vizinho -, Pedro Mexia largou a caneta e concluiu que aquilo não lhe interessava mesmo nada. Ele gostava mesmo era de filosofia e só não se formou nisso porque não se imaginava a dar aulas. Também lhe diziam que quem sobrevivia ao terceiro ano, aquele que frequentava quando pensou em desistir do curso de Direito da Universidade Católica, em princípio teria o curso feito. Mas o jovem aluno ardia por dentro, maldizia a hora em que decidira estudar aquilo. Não queria enfiar-se num escritório a redigir ordens de despejo e já se convencera de que a realidade dos tribunais portugueses não tinha nada do glamour das séries de advogados americanas, apesar de ter gostado de algumas cadeiras. E do ano que passou como advogado oficioso, defendendo gente que roubava autorrádios e burlava cartões de telemóvel.

«Aquilo de que me arrependo mais foi de fazer Direito.» Depois do estágio nunca exerceu uma profissão jurídica e acredita que poderia ter passado aqueles cinco anos a aprender matérias com mais utilidade e interesse para a atividade que entretanto abraçou: escritor, poeta e crítico literário. «Nunca desisti porque não tinha uma boa desculpa. Estava a meio do curso, nunca tinha chumbado a nenhuma cadeira, era um aluno mediano e não sabia que outra coisa gostaria de fazer.» Aguentou-se. O sofrimento não o mataria e deu-lhe capacidade argumentativa e termos jurídicos com que brinca nas suas crónicas. «Felizmente, esqueci-me de tudo. Hoje não sei absolutamente nada sobre Direito.»

PEDRO ROLO DUARTE

Ficar ou partir

A cada convite que teve para sair de Portugal e trabalhar no estrangeiro, Pedro Rolo Duarte disse que não. Não iria, não podia. Tinha demasiado a prendê-lo cá. Pelo menos era isso que pensava na altura. Foi preciso chegar aos 47 anos para descobrir que, afinal, devia ter ido para Barcelona quando teve oportunidade, em 2001. Olhando hoje o estado do país e também a sua vida e o seu percurso profissional, acha que fez mal. «Não tenho tendência para o arrependimento, porque acho sempre que as escolhas que fazemos são acertadas - no momento em que as fazemos, correspondem à nossa vontade. Costumo dizer que só me arrependo do que não fiz. Mas felizmente o meu filho fez por mim agora o que eu não fiz na hora certa.» António Maria partiu recentemente para Barcelona, onde quis estudar.

Pedro nunca teve medo de decidir. Mesmo quando decidiu mal. Por isso o amargo de boca quase não chega para causar desconforto, por mais que defenda que o arrependimento é sempre um sentimento pouco simpático. «Julgo que teria crescido mais se tivesse ido para fora», diz o jornalista, que está a preparar uma nova editora de livros e uma série de entrevistas de fundo para o regresso da revista Playboy. «Acima de tudo, não sinto que por ter ficado esteja hoje numa condição mais feliz. Portugal não estimula, não recompensa nem agradece.» Mas recordando com saudade os tempos em que dirigia o suplemento DNA, a maior extravagância que alguma vez fez. E de que não se arrepende mesmo nada. Ele, como homem pouco dado ao desalento que é, fica por cá a congratular-se com a coragem do filho em seguir um sonho em nome dos dois.

ISABEL MEDINA

Fugir do altar

Foi das decisões com mais peso que alguma vez tomou. A escolha foi sua, não havia outra coisa que quisesse mais na altura do que casar com o homem que amava. Só mais tarde, quando os caminhos da vida se revelaram diferentes dos que sonhara, teve consciência de que teria de adiar o maior desejo de criança e esperar um momento melhor para ser atriz. «Tenho pena que o meu primeiro casamento tenha sido numa idade tão jovem, aos 17 anos, bem como a maternidade, aos 19. Não estou nada arrependida de ser mãe do meu admirável filho, mas talvez tivesse sido melhor para os dois que eu fosse mais velha e mais preparada.» Aos 59 anos, Isabel Medina acredita que tudo o que passou contribuiu para alargar o seu mundo. «Ter casado tão cedo afastou-me de um dos objetivos mais importantes da minha vida, o de ser atriz. Licenciei-me em Filologia Germânica já divorciada, com o meu filho a meu cargo, o que me trouxe responsabilidades para as quais não estava preparada. Atrasou-me a entrada na Escola Superior de Teatro e Cinema porque tinha de trabalhar para os dois.» Entretanto, apresentou ao Ministério da Educação um projeto que lhe permitiu trabalhar com expressão dramática na formação de professores - e foi esse o passo decisivo para entrar no Conservatório e profissionalizar-se. Isabel nunca se tornou prisioneira das dificuldades, por acreditar que tudo é uma grande escola, que fez dela a pessoa em que se tornou. «Navegando em vários mares, perdendo-me e voltando a encontrar-me, tenho em mim um manancial que poderei partilhar com as personagens que vou criando, dando-lhes carne, sangue, ossos, tornando-as verdadeiras.»

NILTON

Começar a fazer rir mais cedo

Parece impossível que os dias tenham apenas 24 horas e os anos 365 dias. Sobretudo quando há tantas coisas que Nilton gostava de poder fazer outra vez, ou pelo menos ter começado a fazer muito antes. «Arrependo-me especialmente de não ter começado a fazer comédia mais cedo», diz o humorista, comentando que a experiência é algo que se ganha quando já não precisamos dela para nada, e que a ele lhe dava jeito ter experiência para viver tudo de novo. «Não vivo amargurado com isso. Mas gosto tanto do que faço que preferia ter começado mais cedo, porque o sentimento é sempre o mesmo: queria ter feito isto a vida toda.» Nada que o impedisse de olhar em frente, mesmo quando trabalhou como disc jockey e decorador de interiores, esforçando-se até se tornar um humorista de palco. «Não há outra forma. Tudo na vida se combate com força de vontade. A perseverança vence até o arrependimento.»

Nilton escreve comédia, interpreta comédia, respira comédia. O facto de nem sempre ter conseguido viver dela influencia a forma como saboreia cada momento, ciente de que tudo é efémero na profissão. «Neste momento, estou em várias frentes e todas me roubam muitas horas de sono, mas o prazer compensa sobremaneira.» E é fácil perceber esta vontade de parar o tempo: no dia 10 de abril regressou com o Clube da Comédia ao lado de Bruno Nogueira, Francisco Menezes, Aldo Lima, Eduardo Madeira e Óscar Branco; está nas manhãs da RFM com a Carla Rocha e o José Coimbra, num momento de humor que o obriga a acordar às sete da manhã, mas também o desafia diariamente a escrever; e voltou à TV com o programa 5 para a Meia-Noite, agora na RTP1. «Tenho ainda outro projeto, que é o de pagar os impostos a tempo para os governantes poderem gastar à vontade.»

HELENA ISABEL

Apostar na aprendizagem

Nasceu para atuar e cantar, para despertar emoções nos outros. Diz que é uma atriz que por vezes canta, nunca o contrário. E é aqui que entra o maior arrependimento de Helena Isabel: esteve fora de Portugal a trabalhar, nunca a estudar, e tem pena de não ter chegado a fazer formação no estrangeiro. «Voltando atrás e fazendo um pouco o filme da minha vida, talvez me arrependa daquilo que não fiz, como por exemplo ter investido um pouco mais na minha formação», diz a profissional de 60 anos, um dos rostos mais conhecidos do público desde os tempos em que se estreou na televisão, integrando o elenco da primeira telenovela portuguesa, Vila Faia. «O importante é olhar em frente, sem negar o passado, mesmo que às vezes não tomemos decisões acertadas.»

Aos 17 anos iniciou a carreira no teatro (área em que viria a formar-se pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa), passando pela Companhia de Teatro Alegre no Variedades, pela Companhia Laura Alves no ABC, pelo Ádoque (que cofundou) e por grupos independentes como os Bonecreiros e o Grupo 4. Em 1984 entrou no mundo do cinema num filme de António Macedo, Os Abismos da Meia-Noite, que lhe valeu o prémio de interpretação do Instituto Português de Cinema. Fez humor com Herman José, fez mais cinema e mais teatro. Brilhou em quatro Festivais RTP da Canção e consegue manter o charme intacto, agora que grava para uma novela para a TVI, além de continuar em tournée com o espetáculo Encalhadas. «Qualquer erro nos serve para memória futura. Decisões posteriores são naturalmente influenciadas por esta aprendizagem, que passa também pelo que fizemos de menos correto. A vida sem deslizes seria muito enfadonha.»

Encarar o futuro como aprendizes da vida

VÍTOR RODRIGUES, psicólogo, psicoterapeuta, escritor, codiretor e docente na Pós-Graduação de Psicologia da Consciência, na Universidade Autónoma de Lisboa).

Há aspetos positivos no arrependimento?

_Sem dúvida. O arrependimento implica consciência e desenvolvimento moral, coisa praticamente ausente nos chamados psicopatas. Implica capacidade de criticar a própria conduta e, por isso mesmo, é um elemento extremamente importante para a sua modificação. A pessoa que se arrepende do que fez adquire a possibilidade de progredir, aprendendo com a experiência.

É algo que pressupõe sempre uma mudança de atitude?

_O arrependimento é uma consciencialização necessária à atitude de querer modificar o comportamento. Costumo dizer que a redenção pelos erros cometidos consiste em fazer melhor, consciente e intencionalmente. Imaginemos que se trata do arrependimento de uma pessoa que cometeu um erro danoso a terceiros ou à sociedade alargada: só é preciso recorrer a punições legais se houver razões para crer que elas são necessárias para protegê-los. Ora, se temos a certeza de que alguém está realmente arrependido, a punição deixa de ser necessária, salvo se tivermos razões para pensar que pode reincidir. É aí que fornecem garantias os comportamentos de «redenção», com ações mais corretivas. O arrependimento é condição para a mudança, mas pode não ser suficiente.

Há pessoas que se arrependem, mas voltam a cometer os mesmos atos...

_Sim. Alguns perpetradores de violência doméstica, por exemplo. Por isso o arrependimento é uma necessária tomada de consciência e pode pressupor alguma tendência de mudança, mas não é suficiente para garantir essa mudança. No romance Os Miseráveis, de Vítor Hugo, o protagonista Jean Valjean não somente se arrepende de erros passados, como pratica efetivamente atos que revelam grandeza de caráter e uma série de benefícios para a sociedade, coisa que o verdadeiro «miserável», o infame Javert, comissário da polícia, não sabe admitir.

O arrependimento pode matar, se não se aproveitar o potencial do processo?

_Sem dúvida. O arrependimento precisa de ser complementado com algo de positivo, como a decisão de mudar e atos efetivos nesse sentido. De contrário, tende a retirar-nos energia e a baixar-nos a autoestima até limites perigosos (depressão profunda, por exemplo). Mais do que pensarmos em nós como autores de erros passados, é saudável pensarmo-nos como aprendizes da vida que farão melhor no futuro.

Alguns arrependimentos famosos

Nicole Kidman - A tão prometida juventude custou-lhe a expressão do rosto e a atriz de 44 anos reconheceu que entrou em guerra contra as rugas com botox e se arrependeu do resultado. «Agora que já não uso, voltei a poder mexer a testa», brinca Kidman.

Tom Cruise - Aos 49 anos, o ator arrepende-se de algumas atitudes que prejudicaram a sua imagem junto da opinião pública, nomeadamente da mediática declaração de amor que fez à mulher, Katie Holmes, saltando no sofá de Oprah Winfrey.

Leonardo DiCaprio - Em entrevista à Vanity Fair, em que anunciou não gostar da fama, DiCaprio disse arrepender-se de ter sido Jack Dawson em Titanic, sem se importar com o facto de ter sido aquele papel a cimentar a sua reputação em Hollywood.

Steven Spielberg - Em 2002, quando E.T. - O Extraterrestre celebrou vinte anos, o realizador lançou em DVD uma edição do filme com algumas modificações que irritaram o público, como substituir as armas dos polícias por walkie talkies. «Vivi para me arrepender disso. Fiquei dececionado por roubar às pessoas a memória que tinham.»

Daniel Radcliffe - Foram três anos de dependência em que todos os dias bebia sozinho. Soube que tinha de parar após uma noite que o apagou durante oito horas, altura em que apelou aos amigos para o ajudarem a largar o vício de que muito se arrepende. «Não bebo desde agosto de 2010, aquilo estava a destruir-me», confessa o ator de 22 anos.

L.A. Reid - O empresário dispensou Lady Gaga quando a artista ainda era nova no mundo do espetáculo, sem imaginar o êxito estrondoso que viria a ser a sua carreira. «Mandá-la embora foi a pior coisa que fiz na vida», reconhece hoje.

Lady Gaga - Por sua vez, numa entrevista dada ao locutor de rádio Howard Stern, a cantora admitiu ter sido viciada em drogas e afirmou arrepender-se de cada linha de cocaína que cheirou. «Nunca toquem nisso. É o diabo», avisa os fãs.

Axl Rose - Tinha uma relação tempestuosa com Erin Everly, mas arrependeu-se imediatamente depois de ter pedido o divórcio à ex-mulher. «Choro de todas as vezes que me lembro de como nos tratávamos», revela o vocalista da banda Guns N' Roses.

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