Eles não dão à chave. Dão aos pedais

Pedalar está na moda, mesmo em cidades com valentes inclinações como Lisboa ou o Porto que, até há relativamente pouco tempo, pareciam ser pouco propícias às bicicletas. Isso não são desculpas, dizem os ciclistas urbanos, que fazem da bicicleta o meio de transporte e alertam para os perigos da sedentarização e para as nocivas emissões de carbono, que ameaçam o planeta. Fomos Conhecer esta nova tribo que nos quer pôr a todos a dar aos pedais.

Com um sorriso estampado na cara, Gonçalo Peres, 39 anos, pedala pela subida que o leva até à escola dos filhos, nos Olivais, em Lisboa. Vem sem esgares de esforço ou caretas de sofrimento. A bicicleta tem um atrelado que é uma espécie de cabaninha onde vêm, recostados, o Diego (4 anos) e o Filipe (1 ano). Deve pesar, a carga, mas ele sorri como se estivesse a transportar coisa nenhuma. A mulher, Taíse, já não vem com tão boa cara. Está rosadinha e ofegante e nota-se que a ladeira lhe tirou os bofes. «Ele tenta convencer-me, claro! Aliás, ele tenta convencer todo o mundo a só usar a bicicleta. Mas as subidas custam-me muito.»

Gonçalo fez o caminho inverso ao que é costume. O habitual é que as pessoas andem de bicicleta e, quando têm filhos, a troquem por um carro. Ele não. Primeiro, andava de moto. Quando o Diego nasceu, há quatro anos, não podia levá-lo nas duas rodas motorizadas e, por isso, resolveu comprar uma bicicleta. Talvez a viagem a Copenhaga, Dinamarca, dois anos antes do nascimento do primogénito, tenha ajudado na decisão. «Lá toda a gente anda de bicicleta. Veem-se executivos, novos, idosos, mães e pais com dois e três filhos... e aquela imagem ficou-me gravada na memória.»

Mas isso foi só o início. Gonçalo começou a fazer pequenas viagens, de um quilómetro ou dois. Quando ia para mais longe, levava a scooter: «Nós temos muito bem impregnado o mito de que Lisboa não é uma cidade para se andar de bicicleta, que é a cidade das sete colinas, etc. Fica difícil tentar.» Mas, um dia, decidiu ir de bicicleta do Parque das Nações (onde vive) até à Avenida do Brasil. Saiu de casa uma hora mais cedo, a pensar que levaria quarenta minutos. Demorou vinte. Nem quis acreditar. E pronto. Acabou-se, praticamente, a scooter. A partir daí, é de bicicleta para todo o lado.

Lisboa tornou-se mais curta, ele tornou-se mais magro («perdi uns seis quilos e fiquei em forma») e mais produtivo, porque começar o dia com exercício predispõe para o resto do dia. Depois, nasceu o Filipe. E se um já ia a reboque, passaram a ir os dois. Na escola, houve outros pais a seguirem o exemplo. De tal forma que a diretora até colou um papel na porta a pedir que os carros não estacionem para que as bicicletas possam parar para deixar as crianças.

Gonçalo Peres não é fundamentalista mas é um defensor acérrimo das duas rodas (sem motor). Sublinha as vantagens, não encontra desvantagens (só as que se prendem com distâncias muito grandes, chuvadas fortes ou cargas pesadas), e é capaz de ficar horas a defender a sua «dama». «O mais importante é o aspeto ambiental», diz ele. «A poluição é um perigo invisível. Os pais, sempre tão preocupados com a saúde dos filhos, nem pensam na concentração de gases tóxicos que se acumula nas escolas por causa do para/arranca.»

Depois, claro, há o fator económico, que não é despiciendo. «Antigamente estava sempre a visitar estações de serviço. Agora é um sítio que deixei de frequentar. Vou uma vez a cada dois meses, talvez.» O fator tempo, no seu caso, talvez seja o menos relevante. Afinal, ele já andava de moto e o trânsito não fazia parte da sua vida. Mas não deixa de o referir, para tentar convencer todos os que se deslocam de carro dentro de Lisboa. «Sim, é verdade, os meus familiares e amigos chateiam-se porque eu estou sempre a falar nisto!»

E é por ser um ciclista urbano convicto que decidiu organizar, na sua Cineteka (um clube de vídeo online, cyber café e loja de cinema), no Parque das Nações, um ciclo de encontros de pessoas que tenham histórias interessantes para contar sobre a sua experiência com a bicicleta. «Já tivemos a história fantástica de um homem que foi até Badajoz com o filho de 7 anos, cada um na sua bicicleta. Foi incrível ouvi-lo contar que o miúdo pedalou quase o tempo todo e que quando estava cansado ele atrelava-o à sua bicicleta e levava-o a reboque. E agora, no dia 11 de maio, vamos ter um casal que foi de Ovar até Macau de bicicleta. Esta é uma excelente forma de "pregar". Contando histórias verdadeiras, que quebram mitos e barreiras! A ver se somos cada vez mais!»

Nuno Gonçalves, 25 anos, gostaria de o ouvir. Aliás, é bem provável que passe pela Cineteka para escutar as histórias de ciclistas aventureiros. Ele próprio já passou por grandes aventuras. Sempre foi ambientalista. Contra os escapes e as chaminés, marchar, marchar. Também por causa disso, habituou-se, desde cedo, a andar nos transportes públicos.

Certo dia, achou que já estava há tempo suficiente sem fazer desporto, encheu o peito de ar e decidiu-se a experimentar ir de bicicleta da Pontinha, arredores de Lisboa, onde vive, até ao Instituto Superior Técnico. Não correu bem. Transpirou, secou, constipou-se. Ficou uma semana de cama. Mas insistiu. E pronto, nunca mais quis outra vida. Já lá vão seis anos. Quatro de caminhos entre a Pontinha e o Técnico, na Alameda D. Afonso Henriques, onde estudava Eletrotecnia, mais dois de viagens entre a Pontinha e o Parque das Nações, onde trabalha, como engenheiro. «Faço tudo em Lisboa de bicicleta. A minha mãe mora em Carcavelos e eu vou ter com ela de bicicleta. Mesmo para deslocações maiores, no país, não necessito de carro. Vou de comboio, alugo um carro, vou de boleia! Não faz sentido investir dez mil euros para usar muito raramente.»

A bicicleta que o trouxe ao nosso encontro tem três anos e 13 mil quilómetros. Está bem rodada. E não é só dos trajetos casa-trabalho, trabalho-casa. Ele vai para todo o lado com ela. Saídas à noite, encontros com amigos, passeatas várias. Até para o Algarve: «A primeira vez foi há cinco anos. Incentivei um colega e fomos. Estivemos para desistir muitas vezes. Foi duro. Demorámos cinco dias. A segunda vez foi no ano seguinte. Fui com outro amigo e demorámos quatro dias. Andávamos cerca de setenta quilómetros por dia. A última vez foi no ano passado. Demorei três dias para chegar e, para cá, fiz em dois dias!»

Tomou-lhe o gosto e, além do uso diário da bicicleta, passou a fazer viagens maiores ao fim de semana, cerca de uma vez por mês. Santarém, Ericeira, Setúbal, Vimeiro, Porto Covo.... «Gosto de desafios. De ver até onde consigo ir. Agora estou a pensar ir com uns amigos à Queima das Fitas de Coimbra. Ainda é só uma ideia... mas já está a fervilhar cá dentro.»

Na estrada, já apanhou alguns sustos mas nunca se magoou a sério. Confidencia que os taxistas e os motoristas dos autocarros nem sempre são amistosos para com quem pedala pela via fora, mas prefere relembrar aquele dia em que um taxista meteu conversa com ele, no trânsito. «Ele gritou: "Eh, você aí! Conhece a Bicicletada?" Disse-lhe que não e ele exclamou: "Então encoste aí à frente, que eu explico-lhe tudo!" Parámos e ficámos a falar. Além de taxista, ele era ciclista de fim de semana. E foi através de um taxista que eu conheci a Massa Crítica [ver caixa].

De tudo o que mudou desde que se rendeu à bicicleta, gosta de destacar a liberdade. Antes estava dependente do autocarro, do metro, do comboio, da boleia, da gasolina, do passe, das greves. Agora, está dependente das pernas.

De há seis anos para cá, Nuno nota uma grande diferença na quantidade de bicicletas que circulam pela cidade. Pedalar está na moda: «Se dantes sempre que encontrava alguém de bicicleta sabia quem era... agora já não.» Diz que há mais homens do que mulheres mas que o sexo feminino tem vindo a ganhar cada vez mais terreno. A mãe dele é que não acha muita piada a ter um filho ciclista a cruzar as ruas da cidade: «Temos grandes discussões por causa do capacete. A minha mãe acha que devia ser obrigatório. Eu discordo. Não uso, não gosto e não acho que seja assim tão importante. Esta é, de resto, a grande questão que divide a comunidade. De uma coisa estou certo: nos países onde se tornou obrigatório, o número de ciclistas caiu entre quarenta e sessenta por cento.»

Rute Timóteo, 25 anos, não quer saber disso. Em cima da velhinha bicicleta verde, podem vê-la de saia, de vestido, de calças justas. Podem vê-la toda feminina, com os sapatos de salto na mochila, prontos a serem calçados mal salta do selim. Só não a verão sem capacete. Não tem nada contra quem não usa nem se mete em discussões acesas sobre o assunto. Só acha que a sua cabeça merece proteção. E até tem uma história para contar a esse respeito: «No início, quando comecei a usar a bicicleta em Lisboa, não usava capacete. Mas depois, na altura das primeiras chuvas, tive medo de escorregar e comprei um. Cerca de um mês depois de ter comprado o capacete, caí na Praça Duque de Saldanha e fui direitinha com a cabeça ao chão. Se não tivesse capacete ter-me-ia aleijado muito.»

Rute é do Magoito, perto de Sintra. Quando foi para a faculdade, em 2009, começou a perder horas de vida. Ia de carro do Magoito até Sintra, apanhava o comboio para o Rossio e depois deslocava-se de metro. Duas horas para um lado, duas horas para o outro. Por dia, cerca de quatro horas enfiada em transportes públicos. Três anos disto. Quando, em 2012, terminou o curso de solicitadoria, decidiu que bastava. Arrendou uma casa na zona de Telheiras e passou a deslocar-se de bicicleta: «De Telheiras até à Avenida Almirante Reis, onde trabalho, são 15 minutos. Mais económico não podia ser, faz bem à saúde, poupa-me tempo. Antes, quando saía do trabalho não fazia mais nada a não ser ir para casa. Já sabia que tinha duas horas de caminho pela frente. Agora? Vou à natação, vou à Baixa, vou à Gulbenkian, vou ter com amigos! Até me meti num curso, à noite, porque num instante me ponho em casa.»

As vantagens desta nova forma de deslocação são muitas mas a maior de todas talvez seja a boa disposição que imprime logo pela manhã e a vivência mais intensa da cidade: «As pessoas que andam de bicicleta cumprimentam-se e eu adoro isso. Sorrimos uns para os outros, dizemos "olá", acenamos. Tornamo-nos mais próximos. Como nas aldeias.»

No seu trabalho (é empregada forense, agente de execuções) acham muita graça à menina ciclista. Mas, quando é preciso ir notificar alguém, faz questão de esconder o capacete e deixar a bicicleta bem afastada: «Ainda há preconceito. Como se a bicicleta nos infantilizasse. Quem anda de bicicleta são as crianças e os desportistas. Não parece bem ir para um trabalho sério de bicicleta, descredibiliza-nos. No Norte da Europa tudo anda de bicicleta, do trolha ao executivo de topo. Em Portugal ainda estamos muito longe disso.»

A quem queira começar a dar aos pedais, Rute deixa um conselho prático: cadeados. Sim, no plural. «Uso sempre três cadeados diferentes. Assim, se quiserem cortá-los, têm de usar ferramentas diferentes, o que fica bastante mais difícil.»

Ricardo Cruz, 40 anos, também é ciclista urbano, mas noutra cidade. É professor e trabalha na Maia e no Porto, onde também vive. Pedala 25 quilómetros todos os dias. Fazendo as contas, dá qualquer coisa como quinhentos quilómetros por mês, Seis mil quilómetros por ano. É muita estrada nas pernas.

Em 2011, quando começou a sentir-se mais pesado e com pouco tempo para frequentar ginásios, comprou uma bicicleta BTT e começou a andar esporadicamente, sobretudo no verão. Primeiro ia só do centro do Porto até à Foz, sensivelmente quatro quilómetros. Para a Maia, que são oito, ia de carro. Tinha preguiça. Mas em setembro, no início do ano letivo, passou a deixar o carro em casa. Mas foi em novembro que a vida mudou definitivamente, quando aceitou um desafio para ir até Santiago de Compostela. «Foram 250 quilómetros em quatro dias. Foi muito cansativo mas, no final, pensei: "Eu faço isto! É possível!" A partir daí foi uma reação em cadeia. Comprei uma bicicleta de cidade, mais confortável, comecei a frequentar grupos na internet e a conhecer muitas pessoas. Há como que um conceito tribal que tem a sua piada.»

Hoje, Ricardo tem três bicicletas: uma de cidade, uma de BTT, para fazer caminhos mais acidentados e passeios com mais calma, e outra de estrada para longas distâncias. «Quando percebi que a chuva não era impedimento e que com um impermeável podia perfeitamente continuar a ir de bicicleta, completei este meu processo de transformação. Emagreci uns oito quilos e mudei, por dentro. Vivo muito mais a cidade, as pessoas, olho para as coisas e vejo-as, ao contrário do que acontecia antes. Tornei-me muito menos stressado porque pedalar até casa, no fim de um dia de trabalho, é um excelente descompressor.»

Os alunos olham para ele como o professor cool, que pedala mais do que eles sequer sonham pedalar. O «cota» cheio de genica. E isso, parecendo que não, confere-lhe uma certa aura. Se bem que, no início, e antes de perceberem que se tratava de uma opção e não de uma solução de recurso, chegou a ter olhares piedosos: «Alguns miúdos olhavam-me com comiseração. Perguntavam-me se eu não tinha carro. Agora já tenho alunos que vão de bicicleta! E isso é muito bom!»

Ricardo tem carro, sim, mas está de tal modo convencido, que tomou outra decisão: vai vendê-lo. Não precisa. O professor de Português gosta de perceber que o ciclismo urbano está na moda. E que, com tempo, talvez se ultrapasse o obstáculo cultural, que é muito maior do que o obstáculo das subidas e do trânsito e de todas as outras desculpas que se vão inventando para não se trocar de veículo. «As pessoas dizem que o Porto é muito acidentado. Conversa! Então e São Francisco, nos Estados Unidos? E Ferrara, em Itália? São cidades muito mais complicadas e estão cheias de ciclistas! A questão é só se existe ou não existe o hábito. E em Portugal, infelizmente, não existe. Mas a coisa está a mudar!»

ENTREGAS EM DUAS RODAS (SEM MOTOR)

Há empresas que fazem serviços de estafeta de bicicleta. Dão ao pedal, a todo o gás, carregados com encomendas, às vezes volumes pesados, outras vezes com pedidos urgentes.

Camisola Amarela

Pedro Ventura, 30 anos, sabia que o serviço de estafetas em bicicleta já era uma realidade na maioria das cidades europeias. Por isso, e como gosta de bicicletas, juntou o útil ao agradável e decidiu criar o negócio em Lisboa, em 2009. No início, quase ninguém acreditava nele. Estafetas de bicicleta? Na cidade das sete colinas? Impossível. Mas ele foi provando que era possível. Mais: que este era, de facto, um serviço competitivo e interessante, para todos os que se preocupam com a pegada ecológica. A entrega normal custa 4,50 euros. «Se for para entregar em duas horas, custa 6,50 euros. Se for uma entrega superexpresso fica em nove euros.»

Hoje, a Camisola Amarela são oito pessoas. A grande maioria em part-time. As bicicletas normais carregam quatro quilos mas também têm uma Bullitt, uma bicicleta preparada para transportar volumes, cedida pela Douro Bike, que leva até 75 quilos. Com o crescimento do negócio, Pedro Ventura teve de deixar as pedaladas e dedicar-se em exclusivo à gestão. «Alguém tinha de ficar com a parte chata. Mas é sinal de que a empresa está a crescer, assim como o número de clientes preocupados com as questões ambientais.»

E por falar em ambiente: a Camisola Amarela foi distinguida com uma menção honrosa pelos Green Project Awards, o que ajudou a dar crédito a esta filosofia que privilegia a circulação com zero por cento de emissão carbónica.

www.camisolaamarela.com

914424256

Lisboa

Roda Livre

Era um apaixonado por bicicletas e a vida profissional não lhe corria de feição. Juntou um ingrediente ao outro, polvilhou com um pedaço de empreendedorismo e assim nasceu a Roda Livre, Serviço de Estafeta em Bicicleta.

Nuno Silva começou por se limitar ao Porto e a Matosinhos. Hoje, já chega a Leça e Gaia. Além dele, a tempo inteiro, tem mais dois estafetas na empresa, com horários rotativos. «Cada um faz mais de cinquenta quilómetros por dia. Costumo dizer que é o emprego ideal porque também há ginásio gratuito.»

A Roda Livre tem um ano de vida mas já evoluiu e não foi só na extensão do percurso a Leça e Gaia. No início só transportavam carga até um máximo de cinco quilos, em bicicletas normais. Agora, com a parceria com a Douro Bike, têm também a cargo bike Bullitt.

Há três tabelas de preços, para este serviço de estafeta a pedal: «Todas as encomendas são entregues no próprio dia. Se for uma entrega normal, garantimos que será entregue até às 18h30 desse dia e o pagamento é de 4,50 euros. Se for uma entrega mais premente, que tenha de chegar ao destino em duas horas, são seis euros. Se for mesmo uma urgência, garantimos a entrega numa hora e aí o custo é de oito euros. Mas damos mesmo prioridade máxima. Vamos a pedalar a todo o gás!» O objetivo é continuar a crescer e ter mais Bullitts, para que cada estafeta possa levar mais carga de cada vez.

www.rodalivre.pt

915008934

Porto

BIKE BUDDY

O meu companheiro de estrada

Façamos de conta que agora eu queria ir para todo o lado de bicicleta (eu querer até queria, mas falta-me a coragem... e força nas pernas). O que fazer? A quem pedir ajuda? Pois bem. A MUBI (Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta) tem uma solução à medida. Chama-se Bike Buddy. Traduzido à letra significa qualquer coisa como «companheiro das bicicletas». São utilizadores experientes de bicicleta em contexto urbano que acompanham o novato e dão-lhe umas boas luzes sobre o assunto.

Contactei então a MUBI e pedi um Bike Buddy. Tive de preencher um pequeno formulário online, onde incluí o percurso pretendido. Muito bem. Do Parque das Nações (onde vivo) até ao edifício do Diário de Notícias, no Marquês de Pombal (onde está a redação da Notícias Magazine). Quando cliquei na tecla «Enviar» encolhi-me na cadeira: em que é que me estou a meter? As coisas que uma pobre alma tem de fazer para ganhar a vida!

Antes de contar a viagem, dizer que a bicicleta para mim é um veículo de fim de semana. E que podem passar-se muitos (mas mesmo muitos) sábados e domingos em que não dou aos pedais. Na verdade, quando lhe peguei, para ir ter com o «meu» Bike Buddy, tive de lhe sacudir o pó e afastar uma ou duas teias de aranha.

Quando nos encontrámos, em frente ao Oceanário, ele vinha com uma bicicleta de estrada, levezinha, pneus finos, luzes, cadeados, capacete. Eu trazia a minha bicicleta de passeio (nem sei que outra designação dar-lhe), cestinha à frente, sem luzes, sem cadeado e sem capacete. Não era preciso ter mais que dois olhos na cara (na verdade até um bastava) para se perceber claramente que ali iam «o expert» e «a amadora».

Fomos junto ao rio, ou melhor, junto às toneladas de contentores que praticamente não nos deixaram vislumbrar o rio. Lamentámos aquela enormidade, como não podia deixar de ser, e aspirámos profundamente o CO2 que saía dos vários camiões que iam passando por nós. A lateral à Rua da Cintura do Porto de Lisboa tem pouco trânsito mas, quando tem, é sempre em grande.

Filipe Pinto tem todas as cautelas. Anda com as luzes ligadas, para ser bem visto, evita os passeios, privilegia as ciclovias, defende o capacete. Já apanhou alguns sustos mas estranho seria se não apanhasse, ele que vai todos os dias de Alfragide (onde vive) para o Parque das Nações (onde trabalha), e vice-versa, já lá vai um ano: «Para casa demoro 45 minutos num dia bom, para o trabalho levo 38 minutos, mais ou menos. A técnica é circular sempre pela zona de planalto de Lisboa para evitar as subidas íngremes.»

Até Santa Apolónia, portei-me como uma valente. Não custou nada. Só fiquei com sérias dúvidas sobre se isto de andar de bicicleta pela cidade fará bem à saúde. Já passaram dois dias e parece que ainda sinto gases dos escapes presos no pulmão direito. Aqueles camiões devem dar cabo do aparelho respiratório de qualquer ciclista... Mas já que estamos a fazer de conta... façamos de conta que não.

Confesso que a perspetiva de subir a Avenida da Liberdade estava a enervar-me desde o primeiro minuto. Eu já a subi a correr, na Corrida de São Silvestre, e posso garantir que não foi agradável (a meio pensei mesmo que ia falecer). Quando chegámos aos Restauradores e ouvi o meu Bike Buddy, de sorriso sardónico, perguntar: «Então? Preparada?» Senti um baque no peito. Olhei para a inclinação da avenida (4,5 por cento) e comecei a transpirar. Ai, mãezinha, porque é que não escolhi outro percurso qualquer?

Afinal, foi uma surpresa. Quer dizer, fomos num passo de caracol, eu deixei de conversar (se me tapassem a boca estou segura de que rebentaria) e fui gemendo baixinho. Ele fingia que não percebia o meu esforço mas ia dizendo um «está quase... está mesmo quase» que lá me ia motivando. As paragens nos semáforos tinham um lado bom e outro mau. O bom era o de poder respirar fundo e acalmar as pulsações. O mau era o de ter de recomeçar, sem balanço. Quando chegámos à porta do Diário de Notícias, uma hora depois da partida, fiquei surpreendida: já está? Não doeu (quase) nada! A sério. Foi muito menos difícil do que estava à espera. Ainda assim, soube-me bem ter um carrinho à minha espera, para poder voltar para casa. É que há hábitos que são mesmo tramados de mudar.

OUTRAS PEDALADAS

Os BTT

Um amigo desafiou-o a fazer o ride Alvalade-Porto Covo. Hugo Duarte, 37 anos, começou a preparar as pernas. Devagarinho, sem grandes aventuras. Um mês depois, já estava habituado às suas voltinhas e, se num fim de semana não conseguia ir, ficava danado. «O bichinho apanhou-me e nunca mais me largou.»

De tal forma que começou a ir sozinho e a inscrever-se em provas. Sete meses depois, já estava mais do que preparado para o tal ride Alvalade-Porto Covo: «A prova é mítica, tem milhares de participantes e há centenas de pessoas a receber-nos em Porto Covo. Não é uma prova com tempos, não é para ganhar ou perder, é para participar.»

Estava completo o «vício», que alia o desporto à natureza e ao convívio. Hugo começou a estipular novos objetivos, cada um mais ambicioso do que o anterior. Já foi a Fátima e, no final dos 150 quilómetros, ele e os amigos (alguns nem sequer eram católicos) não conseguiram evitar a comoção. «No ano passado, fui a Santiago de Compostela. Liguei para uma associação e juntei-me a eles. Não conhecia ninguém mas fui. E foi inesquecível.»

A mulher já se acostumou, as filhas já sabem que o pai vai, todos os fins de semana, subir serras, descer desfiladeiros e meter-se em trilhos malucos. Criou com os amigos o grupo IZIRIDE e diz que isto do BTT o mudou por fora e por dentro. O corpo secou, a alma apaziguou-se. O advogado assegura que não há melhor anti-stress do que este.

Os ciclistas de fim de semana

Com a correria do dia a dia e dois filhos pequenos, seria difícil imaginá-la a circular de bicicleta. Rita Marrafa de Carvalho, 35 anos, jornalista, não se imagina nessa lufa-lufa, na cidade das sete colinas: «Lisboa não é uma cidade bike friendly», desabafa. Se a ouvissem, os ciclistas urbanos bem tentariam fazer-lhe a «lavagem cerebral».

De resto, ela já não pedalava com regularidade desde que, na adolescência, deixou de ser cool andar de bicicleta. Foi preciso ter filhos para voltar a dar ao pedal. «Eles gostam muito e eu aproveito para, ao fim de semana, passar tempo de qualidade com eles.»

Tem bicicleta própria mas, como não dispõe das cadeirinhas para transportar os filhos, prefere alugar uma em Belém, no Belém Bike. Meia hora custa três euros e Rita leva a Mariana, de 7 anos, atrás, e o Miguel, de quase 2, à frente: «É diferente de andar a pé. Cansa menos e é mais divertido. O Miguel vai à frente, sente-se o rei, tipo Titanic, «I"m the king of the world!». Gosta de vocalizar com os solavancos do empedrado. Vai o tempo todo a fazer tremer a voz com os ressaltos do caminho. Nós as duas rimo-nos. Também é engraçado ver que toda a gente olha, porque somos três macacos numa bicicleta.»

Os triciclistas

Chegou aos 60 anos sem saber andar de bicicleta. Um desgosto. E não estava a ver-se sexagenária com duas rodinhas de aprendizagem ou uma mão fiel a segurar-lhe o selim, como se faz com as crianças. Quando se é pequenino, uma queda faz parte. Quando se é mais crescido, é melhor evitar esses voos. Definitivamente, Zita Morais sentia que o seu tempo tinha passado e que a bicicleta estava fora de alcance. Foi então que a filha lhe ofereceu um triciclo. No fundo, uma bicicleta igual às outras, em tamanho, mas com duas rodas grandes atrás, para manter o equilíbrio.

Zita teve uma espécie de epifania. Poder passear à beira-rio, sentir a brisa da manhã ou aquele calor morno de um final de tarde no verão, cumprimentar a vizinhança, ir às compras e trazer tudo na cesta grande que o triciclo tem atrás: «Até os meus netos eu transporto, à vez. A mais nova, sobretudo, adora ir na bicicleta com a avó.»

Assim, sem saber andar de bicicleta, pode ter o mesmíssimo prazer: «Foi uma sensação de liberdade muito grande. No início também senti alguma vergonha porque toda a gente olhava para mim. Deviam dizer "olha a velha maluca!". Mas isto de ter 60 anos também é bom por isto: não queremos nem saber! O que é que isso me importa se estou feliz da vida no meu triciclo?!»

Os cicloturistas

Zero emissões, um ano, dois amigos, três continentes, quatro rodas (duas bicicletas). Alexandre Páris, 29 anos, foi um dos mentores de um projeto que, em 2009, pretendeu provar que é possível fazer viagens de grande distância sem produzir poluição. Uma grande aventura, a dois: «Começámos por Espanha, depois França, a seguir apanhámos o barco para a Tunísia. Queríamos entrar na Líbia mas não nos deixaram e então voltámos para a Europa: Itália, Grécia, Albânia, Macedónia, Turquia, Irão, Turquemenistão, Usbequistão, Tajiquistão. Terminámos junto à fronteira da China.»

Foram 13 mil quilómetros de aventura. Não chegaram a fazer um ano em viagem, como inicialmente previsto, porque ao fim de oito meses já tinham percorrido os três continentes a que se tinham proposto e porque o orçamento estava à beira do fim. «Gastámos quatro mil euros cada um. Não é muito se pensarmos que tínhamos de dormir e comer fora todos os dias. Dá uma média de dez euros por dia.»

Alexandre afiança que não há melhor meio de transporte do que a bicicleta para fazer amigos: «Quando viajamos de carro vamos numa espécie de bolha, que nos protege e nos afasta dos outros. Quando viajamos de bicicleta estamos expostos a tudo. E o contacto com as pessoas é muito maior.»

Ao longo dos 13 mil quilómetros, muita coisa aconteceu. Tiveram cinquenta furos, alguns acidentes, outros tantos sustos e mais um sem-número de peripécias: «Uma vez o Tiago teve um acidente e ficou inconsciente. De outra vez, estávamos a fazer campismo selvagem e alguém chamou a polícia. Só que estávamos na Turquia... e não apareceu um polícia ou dois. Veio uma brigada militar com armas e lanternas apontadas para nós. Não foi fácil comunicar com eles e explicar-lhes que éramos apenas turistas.»

SAIBA MAIS

Massa Crítica

www.massacriticapt.net

Uma Massa Crítica é um passeio no meio da cidade para celebrar o uso da bicicleta. Realiza-se sempre na última sexta-feira de cada mês às 18h00. A MC permite aos participantes circular com mais segurança e facilidade, marcando a sua presença no espaço público pelo número e densidade da concentração. Este site dá a conhecer os vários passeios nas várias cidades do país.

MUBI

http://mubi.pt

A MUBI é uma associação cívica formada por ciclistas que promove a bicicleta como meio de transporte utilitário e recreativo. Tem feito das tripas coração para conseguir o reconhecimento social e legislativo da bicicleta como parte integrante do trânsito na via pública, bem como na promoção e defesa de medidas que restabeleçam a competitividade natural da bicicleta para deslocações em meio urbano.

O projeto Bike Buddy foi criado por esta associação bem como a iniciativa mais recente «Sexta-feira de bicicleta» (http://sextadebicicleta.mubi.pt), que pretende encher as ruas de bicicletas, todas as sextas-feiras de 2013.

Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores da Bicicleta

www.fpcub.pt

Promove a defesa do ambiente e do património natural e histórico, através da defesa da bicicleta como meio de transporte sustentável. Tem os eventos de estrada, de cidade e de BTT, bem como notícias sobre tudo o que às bicicletas diga respeito.

Lisbon Cycle Chic

www.lisboncyclechic.com

É um site acusado, por vezes, de ser elitista. O problema é do «chic». E de não aparecerem lá fotos do pessoal mais radical, que usa licras e capacete. A ideia do site é mais cool do que isso. Mostra pessoas a fazerem da bicicleta o seu meio de transporte, vestidas normalmente, seja de fato, seja num estilo informal. O Lisbon Cycle Chic também organiza piqueniques e outros passeios e, tal como os outros sites, exerce pressão para que as bicicletas passem a ter um lugar de maior destaque nas ruas de Lisboa.

Cicloficinas

http://cicloficina.wordpress.com

Uma ideia gira e muito útil para os ciclistas urbanos do país. Basicamente é um serviço de assistência mecânica prestado, por voluntários, à população ciclista. Há várias cicloficinas no país e cada uma tem o seu horário, regras e serviços disponíveis.

Ciclovias

www.ciclovia.pt

Para saber onde é que há ciclovias em Portugal.

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