Doentes em risco

O acesso dos doentes oncológicos ao tratamento pode estar comprometido. Falta dinheiro, medicamentos, organização e apoios. O alerta é de VÍTOR VELOSO, presidente do Núcleo Regional do Norte da Liga Portuguesa contra o Cancro e cirurgião que dirigiu a delegação do Porto do Instituto Português de Oncologia durante uma década.

Em Portugal, os doentes com diagnóstico de cancro têm acesso ao tratamento mais indicado para o seu caso num tempo aceitável?

_A maior parte sim. Mas uns têm a sorte de fazer tratamento em centros especializados, onde há recursos e equipas altamente treinadas, outros são tratados em centros com pouca casuística e experiência e nesse sentido não têm acesso ao melhor tratamento.

Com os cortes no setor da saúde, a qualidade dos cuidados está mais ameaçada?

_Com certeza que sim. Os hospitais vivem uma situação dramática, têm um défice brutal e o dinheiro que o governo vai disponibilizar não é suficiente para acabar com os problemas. Há hospitais que não têm dinheiro para pagar ao pessoal.

Na sequência da decisão da Roche que suspendeu o fornecimento aos hospitais com maior dívida, o ministro da Saúde deu indicação para substituir os medicamentos da marca por outros, sempre que tal seja possível. Garante que os doentes não correm riscos?

_A maior parte dos medicamentos em causa não podem ser substituídos. A única maneira de resolver o problema é continuar a usá-los e pagar imediatamente à empresa, conforme as indicações do Ministério da Saúde [MS]. Mas se os hospitais não tiverem dinheiro para o fazer, é altamente preocupante para os doentes.

E se outras farmacêuticas fizerem o mesmo?

_Esse risco é real se não se começar a pagar o que se deve. Os doentes com cancro correm sérios riscos de não serem tratados atempada e adequadamente.

E a questão, de que se fala há muito tempo, da suspeita de que os hospitais não comprarão os medicamentos mais eficazes por causa do preço. O que sabe sobre isto?

_Sei que alguns conselhos de administração já decidiram que não vão fornecer determinados medicamentos aos doentes por causa do preço mais elevado.

Quer dizer quais?

_Não o vou fazer aqui.

Também se diz que esse é o lobby da indústria e que haverá certos medicamentos ditos inovadores que não o são de facto...

_Também é verdade. Há medicamentos que aparecem em grandes parangonas na literatura médica e até na imprensa nacional e internacional que, em boa verdade, não acrescentam nada ao que já existe.

Do ponto de vista ético, é aceitável que administradores e médicos neguem o tratamento mais eficaz aos doentes por razões financeiras?

_É inaceitável porque são decisões políticas. O poder político é que tem de determinar até onde se pode ir. Na Holanda, o governo já decidiu que não pode assumir a realização de determinados tratamentos.

Os doentes podem fazer alguma coisa?

_Devem queixar-se e procurar ser tratados nos centros hospitalares que ofereçam mais garantias.

Estudos encomendados pelo MS identificaram demasiados hospitais a tratar cancro, com poucos recursos tecnológicos, pouca experiência e grande dispersão de doentes. Isto não é uma ameaça à qualidade?

_Claro que é. A cura de um doente com cancro depende frequentemente da primeira terapêutica que faz, mas nós sabemos pouco ou quase nada sobre a qualidade dos tratamentos porque os hospitais nunca foram devidamente auditados. O MS nunca levou esse compromisso por diante. Por isso não sabemos onde é que se trabalha melhor, onde é que está a melhor capacidade técnica e de recursos humanos e para onde devem ser referenciados os doentes. O atual governo está preocupadíssimo com os encargos financeiros da saúde, mas também tem de se preocupar com o acesso ao tratamento e com a qualidade.

Criar centros de referenciação oncológica, como está previsto, implica que muitos hospitais deixem de tratar doentes com cancro. Acha que os médicos vão aceitar isso?

_Vão protestar, mas para bem dos doentes essa postura tem de mudar. É forçoso que acabe. Os hospitais não têm todos de fazer tudo. Têm é de trabalhar em rede e referenciar os doentes aos centros mais adequados em função de cada situação. Os recursos humanos são caros, os meios técnicos também e há poucos médicos em algumas especialidades - na radiologia, por exemplo, há poucos e os poucos que há trabalham para os serviços públicos em part time.

Com o envelhecimento da população, o cancro vai aumentar e a gestão dos recursos continuará no centro do debate. O que o preocupa?

_Mais de setenta por cento dos cancros aparecem precocemente devido aos comportamentos de risco e estilos de vida pouco saudáveis - tabaco, álcool, sedentarismo, stress, poluição ambiental, obesidade. Há que apostar fortemente na educação para a saúde e na prevenção.

E alguns cancros podem ser diagnosticados numa fase inicial...

_Há rastreios eficazes para os cancros do colo do útero, da mama e do cólon.

Portugal já faz o que deve na área da prevenção e diagnóstico precoce?

_De maneira nenhuma. Em relação ao cancro da mama e do colo do útero, a região Centro do país é a única que está razoavelmente bem e vai agora iniciar o rastreio do cancro colo retal. Falta-nos completar os programas na região Norte e o Sul ainda tem algumas zonas que não estão cobertas.

O rastreio do cancro da mama é da responsabilidade da Liga Portuguesa contra o Cancro [LPCC]. O que se sabe sobre este rastreio?

_Cobre 55 por cento da população da região Norte e estamos agora a entrar nos centros urbanos, onde a adesão vai ser um pouco mais difícil. A região Sul é que tem mais áreas a descoberto.

Que benefícios resultaram para as mulheres rastreadas?

_As que tiveram diagnóstico de cancro fizeram tratamento mais cedo. Fez-se mais cirurgia conservadora, menos mastectomias e a mortalidade por cancro da mama diminuiu. É melhor para as doentes. Mas também é mais compensador para o Estado a médio prazo, que vai ter o retorno financeiro do que investe nos rastreios. Os ganhos em saúde não são imediatamente visíveis.

Há quem defenda que as Administrações Regionais de Saúde deviam ser responsáveis por todos os rastreios, incluindo o da mama. O que acha?

_A LPCC está a fazer o rastreio do cancro da mama e bem. Deixem-nos continuar a trabalhar. Penso que nos próximos dois anos vamos ter toda a população rastreada (mulheres entre os 45 e os 69 anos, assintomáticas, devem realizar uma mamografia de dois em dois anos).

Os doentes com cancro continuam a ser discriminados pelas empresas que vendem seguros de saúde?

_Quem tiver um cancro dificilmente encontra uma companhia que lhe faça um seguro. Quando o fazem limitam os plafonds e aplicam uma cláusula que diz que as recidivas já não estão cobertas pela apólice. Não pode continuar.

E no SNS também deixaram de estar isentos do pagamento das taxas moderadoras?

_Os que ganham acima dos seiscentos e poucos euros sim, mas essa medida deve ser revista porque está a ter consequências dramáticas para muitos doentes. O limiar que isenta do pagamento das taxas é baixíssimo. Outro problema é o transporte dos doentes. Há pessoas que não têm como se deslocar para fazer os tratamentos e uma radioterapia que seja interrompida mais de dois dias é uma radioterapia perdida.

Quem é que financia a LPCC?

_A principal fonte é o peditório nacional - só no Norte angariamos cerca de oitocentos mil euros, os portugueses são muito solidários -, temos donativos de particulares e realizamos diversas iniciativas para angariar fundos. As ARS também nos dão uma ajuda. No próximo peditório vamos distribuir folhetos informativos para que todos os portugueses saibam para onde vão os seus donativos. O trabalho dos dirigentes da LPCC é voluntário.

A LPCC não depende da indústria farmacêutica?

_Em nada. Zero! Às vezes concorremos a fundos de fundações que pertencem à indústria farmacêutica e aceitamos o patrocínio, indireto, para algumas campanhas de sensibilização.

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