Direito, esquerdo e algumas definições

- ...mas voltemos às questões importantes.

- O importante... quer uma definição? Aquilo a que eu dou atenção, eis o importante. Quer outra definição?

- Ok.

- A definição de definição. Definição significa de-finir. Finir, acabar. Dar uma definição é dizer a última palavra sobre o assunto.

- É, pois, terminar com a conversa.

- Exacto. Conversa finita com a definição.

- Quem define diz ao outro: mais nada tens a dizer sobre este assunto, pois acabei de dizer a última e definitiva palavra sobre a questão.

- Uma conversa entre surdos é uma conversa em que os dois trocam definições.

- Uma definição é definitiva, por excelência.

- Definição definitiva eis uma redundância bem redonda, se assim me posso exprimir.

- E etc. e etc. e tal.

- Muito bem, Vossa Excelência está a ver bem o assunto.

- Seria interessante pensar em definições que iniciam a conversa. - Uma definição inicial, inaugural. Uma de-iniciar.

- Ou uma pré-finição. Uma não-finição. E assim sucessivamente.

- Bem... como estava a dizer: gosto de um pé que não se preocupa apenas em avançar. Gosto de um pé que descobre o caminho... que cada vez que toca o chão abre um novo caminho. Um pé que afasta a floresta para os lados e que faz uma estrada à medida que avança, faz uma estrada humana.

- Eu... para mim... os pés, são um assunto menor, um assunto como dizer... baixo... um assunto baixo, menor.

- É essa a grande função do pé, fazer uma estrada humana no meio da floresta desumana... floresta animalesca e até botânica!

- E até!

- Que a floresta, no fundo, se reparar bem, é botânica selvagem.

- Uma floresta botânica, que surpreendente! Mas falava do pé, não continua?

- ...um jardim botânico é compreensível, mas uma floresta botânica... Uma floresta mansa, digamos, eis o que surpreende.

- E o pé, e o pé?

- ... porque à floresta associamos terríveis animais carnívoros capazes de nos arrancar a cabeça com uma dentada involuntária. Com uma dentada mansa...

- Os animais selvagens são capazes de nos engolir com um apetite manso, um apetite tranquilo.

- Eles são selvagens e cruéis de uma forma natural. Sem esforço.

- Praticam a crueldade como quem pratica fitness ao domingo. São maus e cruéis para manter a forma, para não ganhar barriga... para não se aburguesarem, no fundo. A crueldade animalesca como actividade de lazer.

- Pois bem, sim, mas voltemos aos pés.

- Ok.

- ...o que me interessa agora é pensar como é que alguém, só com um pé, abre caminho humano para os dois lados, o esquerdo e o direito...

- ... no fundo, é uma questão de lateralidade.

- Sim, mas estou a pensar em alguém que atravessa a floresta ao pé-coxinho.

- Ao pé-coxinho?

- Sim... é difícil pensarmos no lado esquerdo e direito de um pé, pois estamos habituados a pensar em pé direito e pé esquerdo, apenas.

- ...o que está ao lado direito do pé direito e o que está ao lado esquerdo do pé esquerdo... Se pensarmos num único pé, por exemplo no pé esquerdo... se pensarmos que o lado esquerdo da floresta está ao lado esquerdo do pé esquerdo tal é normal... agora já é muito estranho pensarmos que o lado direito da floresta está à direita desse pé esquerdo. Porque o lado direito da floresta costuma estar ao lado direito do pé direito. Percebe o problema de quem anda na floresta só com um pé?

- Percebo, embora um desenho ajudasse... de qualquer maneira, o problema que põe é muito relevante, sem dúvida, mas estou atrasado. Vou comprar sapatos.

- Sapatos?

- Dois.

- Aperto-lhe a mão com extrema reverência e digo adeus a Vossa Excelência. Vou para o lado direito do pé direito.

- Muito bem, é o melhor dos caminhos! Adeus, meu caro.

Nota: Gonçalo M. Tavares escreve de acordo com a nova ortografia.

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