Corrida, fealdade e mortalidade

Correr na cidade

- Sempre gostei de correr no meio da cidade.

- Eis uma competição possível: uma corrida em plena cidade em funcionamento, em que os atletas - os velozes corredores - têm de obedecer às regras dos peões. Parar quando o sinal está vermelho para peões. Avançar apenas quando aparece o sinal verde. Eis uma corrida.

- Qual o atleta que chega primeiro, obedecendo aos sinais para peões?

- Cem metros urbanos, quatrocentos metros urbanos, cinco mil metros urbanos.

- Com a cidade em funcionamento.

- Outra competição possível, com toda a cidade em funcionamento: quem atravessa a cidade em menos tempo?

- Uma corrida, uma competição desportiva com risco de morte, de atropelamento.

- Mas seria uma corrida natural ou, pelo menos, no meio da nova natureza que é a cidade. As corridas em estádios de atletismo decorrem em situações artificiais, parece-me. Tudo parado em redor a admirar e a aplaudir.

- Defender as novas corridas no novo meio natural - as cidades.

- Os corredores urbanos.

- Correr no meio da poluição e com risco de ser atropelado por um carro.

- Uma corrida que se faz sem ter os carros como obstáculo não é uma corrida do século xxi, nem sequer do século xx.

- As corridas de atletismo em estádio são do século xix.

- No mínimo.

- Para a frente, portanto. E viva o progresso!

Os deuses

- Os deuses, eu diria, são aqueles que não sofrem acidentes, não correm esse risco. Porque são imortais. E um acidente é aquilo que nos aproxima da mortalidade, que nos lembra a dor que lembra a morte.

- Portanto, os deuses só têm duas hipóteses: tédio ou prazer.

- Não têm acesso à dor nem ao acidente.

- E isto com o tempo, talvez diminua o prazer do prazer.

- Se não há medo nem risco, o prazer - com o tempo - tornar-se-á entediante - parece-me.

- Eis, portanto, o que é ser imortal: ter todo o tédio possível à sua frente.

- E mortal é aquele que nem sequer tem o tédio como garantido.

- Eis uma definição.

- Tédio, prazer e dor...

- ...e respectivas variações.

- Eis o homem.

Feio é feio

- «Filho feio não tem pai.»

- Como?

- «Filho feio não tem pai.»

- Que frase terrível!

- Sim, é terrível, mas é isso mesmo. E não é apenas filho feio. Acontecimento feio também não tem pai. O zero também não tem pai. Culpa também não tem pai.

- Basta!

- Exactamente.

- E filho belo?

- Filho belo tem mil pais e cem mil avós e assim sucessivamente.

- Muito bem. Beleza e paternidade, fealdade e paternidade.

- Uma síntese.

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