«Com os anos tornei-me mais assertiva»

Depois de vinte anos ao serviço dos Madredeus e de somar mais de mil concertos, Teresa Salgueiro regressa a solo com o primeiro álbum de originais. Na Arrábida, onde gravou O Mistério, fala do novo disco, das razões que a levaram a mudar de rumo, da infância e do percurso de sucesso pelos palcos do mundo. A primeira entrevista, na semana em que retoma a tournée em Portugal.

Pela primeira vez, em 25 anos de carreira, compõe as músicas e escreve as letras. Este álbum foi um desafio maior?

_Foi um grande desafio criar um projeto de raiz e encontrar as pessoas certas, que comungassem do mesmo sonho que eu, o que levou um certo tempo. Durante vinte anos cantei com os Madredeus, numa aventura extraordinária, que me levou a viajar pelo mundo inteiro e com quem me apresentei a muitas culturas e nos melhores palcos. Depois trabalhei em parceria com muitos músicos, interpretando uma série de repertórios e entrando em contacto com linguagens diferentes da música. Mas todos esses trabalhos foram experiências. Agora apresento-me verdadeiramente como solista.

É um reinício com um sabor especial?

_É um novo começo em que, pela primeira vez, escrevo música e comunico através das minhas próprias palavras. Já tinha esta ideia mas só agora foi possível concretizá-la. Nestes anos em todos os projetos em que participei, sempre fui apenas intérprete. Mesmo nos Madredeus tinha um repertório original composto para mim. Em 2007, quando o grupo fez uma pausa, interpretei grandes nomes da música popular brasileira com o projeto Você e Eu, em que percorri o Brasil. Também cantei em várias línguas com o álbum e a tournéeLa Serena. Interpretei canções napolitanas, em Itália, e participei, como voz solista, no álbum Silence Night and Dreams, do compositor Zbigniew Preisner, com espetáculos na Europa. Para além do trabalho Matriz, em que explorei a música tradicional portuguesa, de várias épocas. Nunca parei.

Tem uma nova imagem. Sentiu necessidade de marcar a diferença?

_De certa forma, sim. Foi pela vontade de mudar mas também por uma questão prática. Sou eu que me penteio antes dos espetáculos e estava cansada de apanhar sempre o cabelo. Uma franja resolve o problema de o cabelo ir para onde não deve quando estou no palco.

Neste trabalho recorre a instrumentos novos e a Teresa fica ao piano num dos temas.

_Há novas sonoridades, com a bateria e a percussão. O piano aprendi a tocar em pequenina. É um instrumento que gosto muito. Não o domino a fundo mas sinto-me à vontade e consigo compor através dele.

Foi ao piano que compôs os temas?

_Alguns sim, outros não. Há temas, como A Paixão, em que a melodia da guitarra nasceu no piano. Depende. Mas para compor costumávamos partir de uma ideia, que pode ser uma melodia de voz, uma progressão harmónica ou um ritmo. Só depois surgiram as letras. Cantei quase até ao fim sem palavras, até trabalharmos os arranjos e toda a envolvência musical, mas sabendo o que queria dizer ali. É curioso que muitos temas mantêm o nome de código que lhes dávamos na altura. Procurei sempre encontrar as palavras inspirada pelo que a música sugere, pelas ideias, imagens e tradições que evoca. Sejam elas mais antigas, como é o caso do tema O Cântico, que tem uma melodia arábica.

O Mistério foi gravado na Arrábida. Por alguma razão em especial?

_Andei algum tempo à procura de sítios para gravar. Preferia que o disco não fosse gravado num estúdio convencional porque, por melhores condições técnicas que pudéssemos ter, não deixaria de ser um ambiente frio. E surgiu a oportunidade de gravar no Convento da Arrábida, que é um sítio maravilhoso, de tranquilidade absoluta, com esta envolvência da serra e do mar. Ficámos durante o mês de Agosto, do ano passado, a gravar e a viver em comunidade, alheados do mundo.

Não regressavam a Lisboa ao fim do dia?

_Não. Dormíamos e preparávamos as refeições aqui, completamente mergulhados no disco. Foi uma experiência muito boa, achei que era importante, até para nos conhecermos melhor.

Trouxeram o estúdio às costas...

_Literalmente! Carregámos todo o material e tivemos de montar as salas de gravação e produção, adaptando as instalações que tínhamos ao nosso dispor. Gravámos na parte mais recente, na hospedaria do convento, que tem uma vista fabulosa sobre o oceano. As filmagens foram feitas sobretudo na parte mais antiga, que é do século xvi. Foi um privilégio termos acesso a um local destes. Convidei o António Pinheiro da Silva, com quem trabalhei nos primeiros anos dos Madredeus, para estar connosco e coproduzir o disco. O Jorge Barata gravou e o Rui Lobato, que trabalha comigo desde que saí do grupo, também fez a produção. Tive muita sorte em ter encontrado os músicos que tenho. Demorou, não nos conhecemos todos ao mesmo tempo, mas são pessoas que, além de muito talentosas, compreenderam a minha ideia de criar um universo musical nosso, uma linguagem própria, que concilia as diferentes sensibilidades, percursos e influências, porque cada um de nós vem de áreas muito diferentes.

Como foi a sua saída dos Madredeus?

_Foi uma consequência natural de um processo. Em 2007 os Madredeus fizeram uma pausa, como tinham feito outras no passado, para repensar o projeto e compor. Trabalhávamos a um ritmo de composição de três em três anos, em que produzíamos um repertório novo que depois apresentávamos ao vivo pelo mundo fora. Ao longo dos anos o nosso calendário sofreu muitas alterações - procurávamos ficar 15 dias cá, 15 dias fora - e o próprio grupo teve mudanças na sua formação, com a saída e a entrada de alguns músicos, mas eu fiquei sempre. Até que ao fim daquele ano, que foi muito intenso para mim, porque tive as gravações e as tournées dos projetos em que participei a solo, me foi proposto pelos Madredeus um contrato que eu achei excessivo. Estávamos a equacionar várias possibilidades, como trabalhar em períodos intensivos de três ou quatro meses e depois cada um faria o que entendesse. Mas quando falei com o Pedro Aires [Magalhães], o que ele me propôs foi sete anos de prioridade, sem nenhuma flexibilidade.

Achou muito tempo?

_Pareceu-me um prazo demasiado longo e com condições excessivas, sobretudo quando já estava há vinte anos no grupo. Tinha entrado com 17, já levava mais de metade da minha vida com os Madredeus. Quando o Pedro me falou que era tudo ou nada, eu optei por nada. Não ia conseguir estar de coração pleno mais sete anos. Sempre disse que sim. Sempre me entusiasmei, fui e aprendi o repertório, por várias razões, até pela grande cumplicidade que existia. Mas os músicos com quem eu tinha mais proximidade foram saindo e eu ali fiquei durante anos. Pelo extremo respeito que tinha pelo grupo, pelo trabalho do Pedro e pela sua capacidade em mobilizar as pessoas em torno de uma ideia e, acima de tudo, pelo meu amor à música e pela vontade de corresponder às expetativas do público que, repetidamente, nos recebia de uma forma entusiasta em tantos países. Até ao dia em que tive de dizer não. Tinha de ter tempo também para outros projetos. E saber o que queria fazer pela minha própria cabeça.

Conhece o trabalho dos Madredeus com a nova vocalista?

_Ainda não.

E o que acha de outra voz cantar os temas que a Teresa sempre cantou?

_Pelo que li, por acaso, esses temas já não os cantava há muito tempo, porque são da origem da formação do grupo e só tive a oportunidade de os voltar a cantar na altura em que fizemos uma antologia. São temas aos quais estava muito ligada... Deve ser um pouco estranho ouvi-los cantados por outra pessoa. Por outro lado, não foram compostos por mim, não são da minha autoria. Cada um agora segue o seu caminho. Não devo pronunciar-me sobre o trabalho que fazem.

Já se habituou à condição de viajante?

_Ao fim destes anos todos, adaptei-me. É a minha vida. Tive um ritmo muito intensivo e exigente com os Madredeus e, confesso, ao princípio foi complicado. Chegámos a fazer tournées com 120 concertos num só ano. Tínhamos um espetáculo à noite e às oito da manhã do dia seguinte já estávamos no autocarro da tournée para dar mais um concerto noutra cidade. Muitas vezes regressávamos a Lisboa a pensar que íamos descansar por uns dias e tínhamos de voltar para o aeroporto. Dei quase mil concertos com os Madredeus pelo mundo inteiro. Claro que no início vivíamos tudo como uma festa, as viagens, os concertos, as reações do público... Depois tornei-me muito disciplinada e regrada para conseguir aguentar.

Nas duas últimas semanas, apresentou O Mistério em Espanha, Sérvia, Montenegro e México. O ritmo continua a ser extenuante?

_Continua, porque além das viagens há todo um trabalho de produção e promoção que está a ser feito. Mas curiosamente agora não sinto tanto o cansaço. Estou mais descontraída e tento aproveitar um bocadinho para conhecer os sítios por onde vou passando. Durante muitos anos não via nada. Os outros saíam e eu ficava a dormir. Com o novo grupo a dinâmica é diferente. Aliás, os elementos são todos mais novos do que eu. Mas sempre foi, e continua a ser, uma vida muito dedicada ao momento do concerto. Gosto de viajar. Gosto cada vez mais pela oportunidade de conviver e contactar com outras culturas através do fenómeno da música. Apesar de sentir saudades da minha filha, da família e das pessoas que ficam.

Chegou a levar a sua filha em viagem, quando ela era bebé?

_Durante o primeiro ano, sim. Depois desisti porque era muito complicado levá-la. Ela precisava da minha atenção, eu não a podia dar como ela necessitava e sentia-me em falta, dividida. Não conseguia concentrar-me porque estava sempre à espera de ter um bocadinho para ela. E, sobretudo, porque achei que estava a privá-la de tudo o resto, do contacto com os avós e de uma certa estabilidade. Estava a obrigá-la a ter um tipo de vida e a tornar-se num tipo de pessoa que eu não tinha o direito de o fazer. Agora, que é mais crescida, acompanha-me de vez em quando.

Há alguma coisa que nunca dispense de levar na bagagem?

_Nem por isso. Levo a roupa do espetáculo, roupa prática que se amachuque o mínimo possível e que eu até consiga lavar, se for preciso, alguma música e um livro. Mas às vezes levo o livro errado e não me apetece ler. Não costumo levar nada de especial... A não ser as minhas velinhas e o incenso, que cheiram bem e criam um bom ambiente. De resto, procuro repousar, estar bem-disposta, fazer a minha ginástica, esticar-me, pôr o corpo a funcionar, pelo menos no dia do concerto.

E tem por hábito trazer alguma coisa das viagens?

_Ultimamente tenho a tradição de comprar ímanes para a porta do frigorífico [risos]. E a porta já está bem preenchida! Trago os cartazes dos espetáculos, sempre que é possível, e um presente ou algo interessante para a minha filha.

Em criança já gostava de cantar?

_Desde que me lembro de mim, canto e gosto de cantar. Sempre fez parte de mim. Sou filha única, fui para a escola cedo, aos 3 anos, mas fui criada num ambiente familiar, porque as minhas primas moravam no mesmo prédio e passávamos muito tempo juntas. Brincávamos a organizar festivais da canção e a imitar programas de rádio. Elas tinham um gravador pequenino e gravávamos os noticiários, a publicidade, as canções... Era o nosso passatempo favorito. A minha mãe também cantava muito, tinha sempre o rádio ligado. Em casa havia dois discos fundamentais: As Cantigas do Maio, do Zeca Afonso, e O Abandono, da Amália Rodrigues. Ouvia muitas outras coisas mas foram esses dois discos que me inspiraram diretamente e era o repertório que eu cantava quando saía à noite com os amigos.

Foi a partir dessa altura que descobriu a sua voz?

_Até aí não tinha propriamente consciência da minha capacidade de cantar. Acima de tudo, o que recordo é o gosto, o prazer imenso que sentia quando cantava. Nasci em Lisboa mas cresci na Amadora e quando vim estudar para Lisboa fiquei fascinada a descobrir a cidade que ainda hoje amo. Adorava ir ao Martinho da Arcada, percorrer Alfama, o Bairro Alto e ao fim de semana quando saíamos todos juntos pediam-me para cantar. Estávamos à mesa no restaurante, eu cantava, aplaudiam, fazia-se silêncio e cantava outra vez. Esses momentos começaram a ser a coisa mais importante, apesar de serem completamente espontâneos. Podiam acontecer ou não. Nunca houve um compromisso. Foi assim que o Rodrigo Leão e o Gabriel Gomes me ouviram no Bairro Alto e me convidaram a fazer uma audição para um grupo que na altura ainda não tinha nome.

Nestes anos de tournées há algum episódio que a tenha tocado?

_É difícil destacar um, foram tantos, mas posso falar de um episódio recente. Levámos O Mistério a Ljubljana [capital da Eslovénia] e a reação da crítica e do público foi fantástica. A sala estava cheia, as pessoas foram muito calorosas, apesar de não conhecerem o disco, porque ainda não estava disponível em lado nenhum. Não sabiam ao que iam nem percebiam a língua. Até me perguntaram se era de propósito que o espetáculo se chamava O Mistério.

De onde vem o nome O Mistério?

_Um dos temas do disco chama-se assim e quando chegou o momento de dar um nome ao projeto achei que era a palavra que melhor representava o trabalho. Tudo o que escrevi faz parte de uma reflexão sobre a dimensão humana diante do mistério que é a vida. Todos nós sabemos que jamais poderemos saber tudo, que o mistério faz parte da realidade. Essa nossa consciência de que nunca se saberá tudo sobre nada, nem sobre nós mesmos, dá-nos a noção da nossa fragilidade mas também da nossa força e criatividade, da nossa capacidade de sonhar e de cumprir os nossos ideais. Porque é através das nossas ações que podemos melhorar um pouco o estranho mundo dos homens em que vivemos.

Tem o sonho de vir a trabalhar com algum músico?

_A Mariza Monte, que é uma pessoa que eu admiro muito, como cantora e produtora, e pela forma como foi construindo o seu caminho. Também sou fã dos U2, do Bono, mas nem ouso pensar nisso. Já tive a sorte de ser convidada por pessoas que admiro muito.

Como o José Carreras e o Caetano Veloso?

_Sim, e cujos duetos estão no disco Obrigado. Com o Caetano não gravámos o tema juntos. Eu gravei em Lisboa e ele na Baía. Mas quando fiz a tournée do Você e Eu no Brasil, fiz a primeira parte de um espetáculo dele em São Paulo. No final juntei-me a ele e ao seu violão e cantámos juntos dois ou três temas. Foi tão bonito! Gosto muito de o ouvir, é um cantor extraordinário! Esse sonho já tive a felicidade de o cumprir.

E a colaboração com o compositor Preisner?

_É um compositor fabuloso, adoro o trabalho dele! Fui convidada para gravar o disco Silence Night and Dreams e fizemos a estreia no magnífico teatro da Acrópole, em Atenas. Um concerto que apresentámos também em Londres, Paris e Plock e que gostaria de trazer a Portugal.

A sua voz é conhecida pela potência e doçura. A Teresa também tem essas duas facetas: a calma e o vulcão?

_[Risos] Nunca ninguém me tinha dito as coisas dessa maneira! Se calhar, com os anos, sou cada vez mais assim. Afetuosa e serena mas também assertiva e aguerrida quando é preciso. Acho que temos de fazer valer os nossos pontos de vista e lutar pelos nossos ideais, tentando sempre seguir pelo melhor caminho. Sabendo que da discussão nasce a luz. Eu acredito no diálogo.

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