Cinco lições da internet para escritores

Rui Zink organiza votações online para resolver tramas, Valter Hugo Mãe escreve poemas no telemóvel, José Eduardo Agualusa quer vender contos pela internet. Graças à tecnologia, os escritores parecem ter resolvido um problema: saber o que pensam os leitores. Mas podem ter criado muitos outros. Amanhã comemora-se o Dia Mundial do Livro e arranca a Feira do Livro de Lisboa, no próximo mês a do Porto. Boas desculpas para tentar perceber como a rede está a mudar a literatura.

Há um par de semanas, José Luís Peixoto lançou o seu primeiro e-book. Nenhum Olhar foi originalmente publicado em 2000, agora ganhou vida em formato digital. «Lembro-me de que escrevi algumas partes da história num daqueles computadores da idade da pedra. Várias vezes, o aparelho bloqueava e desapareciam páginas inteiras, porque nesse tempo os programas não gravavam automaticamente o que tinha sido escrito.» Perder uma parte do texto tornou-se tão frustrante que o escritor acabou de escrever o livro à mão. «Ninguém quer voltar a uma ideia que já libertou», explica. Hoje, Peixoto não escreve, dedilha: «Preciso da luz do computador. É como se de alguma forma isso me iluminasse o pensamento.» Romantismo à parte, o aparelho também resolve dúvidas, faz pesquisas, confirma factos. E fá-lo de forma imediata.

A revolução que a tecnologia trouxe à literatura é muito mais do que digitalizar um livro e pô-lo na rede. Mas não deixa de ser um sinal: o papel tende a desaparecer e a dar lugar ao suporte digital. «No espaço de uma ou duas gerações, Guttemberg vai morrer», vaticina Pedro Barbosa, fundador do Centro de Estudos sobre Texto Informático e Ciberliteratura, na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, e um dos principais investigadores do país sobre as relações entre escrita e internet. «Continuaremos a ter livros como os conhecemos hoje, mas apenas para um nicho de mercado. Teremos a mesma nostalgia pelo cheiro do papel impresso que os egípcios tiveram pelo cheiro do papiro, mas, tal como eles, acabaremos por converter-nos. Já não faremos viagens com a mala carregada de livros. Ao invés, leremos as histórias em computadores, telemóveis e tablets

Esse é um primeiro ponto: a literatura está a evoluir para um novo suporte. Mas há outro aspeto fundamental: a literatura também adquiriu uma nova ferramenta. Fazer pesquisa para um livro é mais fácil e mais rápido. Comunicar um livro é muito mais direto. Receber feedback é quase automático. Os escritores já não são só emissores, tornaram-se também recetores. Mas, à medida que as obras se difundem na rede, o modelo de negócio dos livros também se vai alterando. Como vão os escritores sobreviver se a sua produção circular livremente na web?

Há uma revolução no mundo das palavras por causa de uma outra revolução, a tecnológica. Nas próximas páginas, apresentamos - pela voz de vários escritores - algumas transformações essenciais do universo literário. E que no fundo servem para mostrar isto: o computador é o novo suporte, a nova ferramenta e o novo mercado dos autores. Pode ser a sua ruína. Tanto quanto a sua salvação.

Lição 1: pesquisar estimula a imaginação

Valter Hugo Mãe nunca esteve na Ucrânia. Mas quando, em 2008, escreveu O Apocalipse dos Trabalhadores, o escritor descreveu com rigor a cidade de Korostene. Fala de forma tão pormenorizada sobre a estação de comboios, a praça central, as ruas e os edifícios, que um leitor ucraniano o abraçou numa sessão de autógrafos e começou a chorar - o texto tinha feito justiça às suas origens. «Uma das minhas personagens nesse livro era um imigrante de Leste», lembra o autor. «E eu queria que ele fosse originário de algum lugar próximo a Chernobyl, mas que não fosse exatamente uma cidade-satélite de Chernobyl.»

Pesquisou no Google Maps, encontrou uma geografia. Depois leu dados básicos na Wikipedia, viu vídeos no YouTube, procurou imagens em vários motores de pesquisa. Com a ajuda da internet reconstruiu o cenário de um espaço onde nunca tinha posto os pés. «Eu podia ter criado uma cidade imaginária. O [Gabriel] García Márquez, por exemplo, criou uma cidade imaginária para todos os seus livros: Macondo. Mas eu preferi fazer uma pesquisa intuitiva e acabei por encontrar um espaço real que suportava tudo o que eu tinha imaginado. Como conseguiria eu fazer isto se não fosse pela net?»

José Eduardo Agualusa tem o hábito de andar pela rede à procura de fotografias de pessoas que não conhece. Depois imprime-as e prende-as à parede - e por lá ficam durante todo o processo de escrita de um romance. «Imagino-as como minhas personagens e, recorrendo à tecnologia, consigo encontrar rostos para aquilo que eu só tinha concretizado na minha cabeça.» Faz o mesmo com os cenários onde decorrem os enredos.

Agualusa também visita vários fóruns de conversação, para tomar o pulso à maneira como as pessoas comunicam. «Quando escrevi O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio precisava de perceber como falavam as pessoas que viviam nos morros do Rio de Janeiro. Então andei pela net a ler como escreviam. Estas ferramentas de pesquisa solidificaram a minha obra, deram realismo ao que eu tinha imaginado. Isso fortalece a relação do autor com o leitor.»

«A Internet é um potenciador da imaginação, uma nova prótese mental para o criador», explica Pedro Barbosa. E defende que, se o computador se tornou essencial para a ciência, a música ou as artes plásticas, o mesmo acontecerá com os textos. «Há um enriquecimento do discurso por causa de uma nova ferramenta. E isso, a prazo, também cria um novo tipo de discurso, uma forma literária que não poderia existir sem o computador.»

Lição 2: e zás, chegou a ciberliteratura

Em 2001, Rui Zink propôs-se a uma experiência sem precedentes: escrever um livro em que o público decidia o rumo dos acontecimentos. Os Surfistas foi o primeiro e-book português. E é um livro que inaugurou uma nova forma de interatividade: os leitores não só conseguiam abordar o autor como tornarem-se eles próprios coautores da história. «Às segundas, quartas e sextas eu colocava online um capítulo novo e organizava uma votação sobre o que devia acontecer a seguir. Comprometi-me a escrever o livro em tempo real e a respeitar sempre o que as pessoas decidissem, por menos jeito que isso me desse. E cumpri sempre.»

Um dos capítulos termina com uma personagem no meio de uma tempestade na água. E Zink deixou em aberto várias hipóteses: a personagem estava numa barcaça em pleno Atlântico, num rio do Oriente ou na sua própria banheira. «Os leitores escolheram, para surpresa minha, a banheira. Depois disso eu teria de o colocar em casa, falar da família, levá-lo num sentido diferente do que tinha previsto. Mas bom, teve de ser.» Nos primeiros vinte capítulos, não só aceitou as votações como quase todas as sugestões que lhe iam fazendo. «A meio da construção tive de diminuir as opções, para o livro não se tornar um cadáver esquisito. Então fiz aos leitores o que qualquer país democrático faz aos seus cidadãos: dei-lhes falsas alternativas.»

No caso de Patrícia Reis, foi uma troca de e-mails a tornar-se livro. «Estava um dia a conversar com o Fernando Marques da Costa e ele queixou-se de a vida lhe cortar a criatividade. Então eu sugeri que fôssemos construindo uma história a quatro mãos.» Não decidiram nenhum índice, nenhum arranque, nenhuma estrutura. Havia apenas duas personagens em diálogo, Miguel e Clara, e aquela seria a história da separação de um casal. «Tornou-se muito mais uma narrativa do que os havia unido do que daquilo que os tinha afastado», diz a escritora.

Durante cinco meses foram trocando e-mails. Um avançava, o outro retorquia. A meio do processo decidiram trocar de personagens. «Às tantas a mãe da Clara já tinha um amante, o filho indiciava uma sexualidade duvidosa, era preciso pôr termo à história.» E, ao fim de duzentas páginas, uma das personagens gritou «basta!» e os autores deram o livro por encerrado. «Na véspera de Natal de 2011, criei um site e pus o livro online, para download gratuito.» A Nossa Separação foi um presente de Natal para amigos, escrito por e-mail. Em quatro meses, foram feitos dez mil downloads.

«Os textos gerados por computador abrem infinitas possibilidades», sustenta Pedro Barbosa. O investigador dá exemplos: poesia animada por computador ou geração automática de texto. «A verdade é que o computador torna a palavra num átomo, que pode propagar-se até ao infinito. Se introduzirmos na máquina duas palavras as possibilidades combinatórias são apenas duas, se introduzirmos quatro as permutações sobem para 24. Mas com apenas 12 palavras, entramos na ordem dos milhões: são 479.001.600 possibilidades diferentes.»

Lição 3: olhem para nós

Quando criou a Booktailors, em 2007, Paulo Ferreira tinha uma única certeza: queria trabalhar no mercado dos livros. Tinha estudado e trabalhado em publicidade, mas o interesse literário levou-o a criar uma empresa de consultoria editorial. «Não avaliamos a qualidade dos livros, mas ajudamos as empresas a direcionar os livros para um público-alvo e, no fundo, a vendê-los melhor.» Ou seja, é um especialista no jogo da comunicação e visibilidade da literatura, que na era da internet está a adaptar-se a regras diferentes.

Há cinco anos, os blogues eram um espaço de divulgação incontornável. Então Paulo criou o Blogtailors, uma página totalmente direcionada aos profissionais do mercado editorial. «Começámos com trinta visitas diárias, hoje temos 1200. E posso dizer que noventa por cento dos clientes que angariamos chegam-nos através da net. Hoje, temos uma pessoa a trabalhar em permanência no computador, só para alimentar o blogue. Foi afinal por aqui que nos tornámos notados.»

Enviar e-mails que sejam lidos, promover um livro no Facebook, criar sites e vídeos para ajudar a tornar um livro visível. Estas são algumas das áreas em que a Booktailors trabalha, e que ensina a todos os que frequentam os seus cursos de formação. A empresa criou um workshop de marketing dos livros, que já vai na vigésima edição. E todos os alunos chegaram até eles através do blogue, claro. «Eu não aposto na comunicação em rede por serviço público, faço-o porque assim tenho visibilidade e retorno financeiro.» Próximo passo: criar um site dinâmico sobre escritores. Há de ter pequenas histórias sobre autores, notícias absurdas, curiosidades. O objetivo é, mais uma vez, criar visibilidade. Porque chamar a atenção, assegura o consultor, compensa.

Veja-se o caso de Pedro Vieira, um tipo que trabalhava em livrarias e começou a escrever pequenos textos num blogue, o Irmão Lúcia. «No início não fazia mais do que desenhos. Depois ia escrevendo textos, pequenos, com um teor mais satírico.» Pedro prestava uma atenção particular às subculturas, aos fenómenos suburbanos - e isso fez que fosse notado. Foi contratado como ilustrador da revista Ler e, «às tantas, comecei a ser desafiado para escrever um romance», diz o autor. «Eu não estava habituado a uma escrita tão longa, às tantas parecia que já tinha a cabeça organizada como um blogue, com título e corpo de texto». Última Paragem: Massamá foi publicado em 2011.

Ao mesmo tempo, o canal Q, das Produções Fictícias, convidou-o para fazer uma rubrica num programa de cultura urbana. «Eram crónicas do quotidiano, ilustradas por mim. No fundo, estava a repetir em televisão o que já tinha feito no blogue.» A fórmula parece ter resultado, porque Pedro Vieira teve um programa em que tenta desconstruir a sobriedade do meio literário, o Ah, a Literatura, e é hoje o rosto do talk-showInferno. Tudo isto porque houve um dia um tipo que começou a escrever num blogue as suas irónicas impressões do mundo.

Os circuitos de divulgação alteraram-se - e é em grande medida na rede que os autores se tornam visíveis. José Luís Peixoto já percebeu isso: tem o seu próprio site, uma página de fãs e dois perfis no Facebook. Em Março, o escritor escreveu uma edição inteira da revista de viagens Volta ao Mundo, com textos em várias partes do globo. Depois, anunciou nas redes sociais (como sempre faz) uma conferência sobre essas mesmas viagens, com entrada paga. Teve casa cheia.

Lição 4: não é a literatura que vai morrer, são as livrarias

José Eduardo Agualusa anda com uma ideia na cabeça. Quer criar um site para escritores lusófonos venderem contos por um euro. «Não sou empresário, e por isso nunca coloquei esta ideia de pé. Mas seria uma boa maneira de reunir nomes consagrados com novos talentos. A relação seria benéfica para os autores e para os leitores. Quem não pagava um euro para ler um bom conto? Eu pagava - e acredito que muita gente também.»

Agualusa assegura que, para os escritores, seria um negócio vantajoso. «Repare: um autor ganha dez por cento daquilo que custa de um livro. Se for um consagrado, pode ganhar 18 por cento. Tudo o resto vai para a editora, a distribuidora e o livreiro. Vendendo diretamente, sem intermediários, seria possível ao leitor comprar um produto mais barato e o escritor ganhar mais dinheiro.»

Patrícia Reis consegue ver outra vantagem nos livros que se vendem na rede. «A sobrevivência das obras nas livrarias é muito diminuta. Um trabalho é lançado, colocado, tem um tempo de vida curto na livraria e depois desaparece completamente.» Com a internet, a permanência está assegurada. «Além de que não é preciso pagar espaço numa montra para aparecer, ou uma página de publicidade numa revista. Os novos autores podem ter mais hipóteses, porque a net é democrática. Vão vender o livro diretamente se conseguirem criar uma tendência à volta dele.» E isso, diz a escritora, faz-se com vídeos, pequenas provocações em blogues e nas redes sociais. Enfim, um modelo totalmente novo de comunicação das obras.

O maior problema, aponta Valter Hugo Mãe, é a exportação dos livros. «A plataforma digital é democrática, sim, mas também é anglófona. Temo que deixemos de ter uma mão-cheia de bons escritores a escrever em português e passemos a ter uma série de escritores medíocres a escrever em inglês.» Valter antevê uma replicação dos livros pela rede sem pagamento de direitos, um pouco o que aconteceu com a música. «Se não recebermos direitos também vai ser-nos difícil fazer traduções. E aí corremos um sério perigo: que a única literatura capaz de transpor fronteiras seja aquela que o governo de um determinado país selecionar para exportar. Mas condicionar a exportação literária de um país a uma cartilha governamental é perigosíssimo.»

Lição 5: os escritores vão tornar-se figuras pop?

Há vinte anos, os músicos viviam dos discos que vendiam. Mas, com a internet, a música passou a circular livremente e os músicos passaram a sobreviver de concertos. Hoje, ao contrário do que acontecia há duas décadas, não há artistas que sobrevivam longe dos palcos. Como viverão os escritores se as suas obras começarem a circular gratuitamente na rede?

Valter Hugo Mãe não tem medo de assumir que é a proximidade do leitor que tem de ser paga. «Em Portugal, ao contrário de países como o Brasil ou os Estados Unidos, um autor é convidado para ir a uma escola, uma biblioteca ou uma conferência e não é pago. Isso, claro, vai ter de mudar.» E diz que, se por um lado a web encurta a distância entre autor e leitor, por outro há uma distância que não pode ser transposta sem custos: a da presença física. «Há cafés que eu deixei de frequentar porque as pessoas vinham constantemente falar comigo, há alturas em que preciso de recolhimento para poder criar. Estarmos ali, despendermos o nosso tempo para estar ali, tem custos para o nosso trabalho.»

Rui Zink alinha pela mesma batuta: «Eu não sou contra a prostituição, mas tenho de ser bem pago. A ideia de que um escritor gosta de estar com leitores é mentira. Chegar a uma biblioteca e dizer "gosto muito de estar aqui na Trofa" consome um autor, estar sempre a sorrir consome um autor, porque parece que está em campanha - e isso retira-lhe a espinha.» A internet pode muito bem estar a potenciar o que Zink chama a «missmundialização» da figura do escritor. E Agualusa vaticina isto: «As editoras vão desaparecer, as livrarias vão desaparecer e passaremos a ter os escritores, os leitores e o agente, que se encarregará de tratar das traduções e agendar os espetáculos.»

José Luís Peixoto vai por outro caminho. Acabou o lançamento do seu e-book comovido, a dizer que amava os seus leitores. Não nega a necessidade de recolhimento para escrever - e nessas alturas isola-se - mas também não parece ter qualquer problema em estabelecer proximidade. Mesmo que receba centenas de mensagens no Facebook, tenta responder a todas, porque, diz ele, são os seus leitores que o colocaram onde está. Isso não quer dizer que aceite todos os convites para falar publicamente.

Independentemente do grau maior ou menor de mediatização dos escritores, todos concordam com isto: ainda há de haver livros durante muitos anos. Nem que seja em alfarrabistas ou lojas de antiguidades. «O que me aborrece verdadeiramente», afirma José Luís Peixoto, «é que, ainda que o livro sobreviva, vamos perder para sempre o mistério dos manuscritos. Mas talvez um dia surja uma arqueologia informática que permita recuperar as hesitações, os avanços e os recuos do autor, as palavras que ele apagou e substituiu.» Pode ser que esses arqueólogos arranjem pelo menos maneira de chegar ao iPhone de Valter Hugo Mãe, que é onde ele escreve poemas. E ao computador de Agualusa, ao portátil de Pedro Vieira, ao site de Zink ou à caixa de mensagens de Patrícia Reis.

Produção de Fernanda Brito (www.fernandabrito.com), maquilhagem de Marta Cruz. A Notícias Magazine agradece ao Hotel Fonte Cruz (www.fontecruzhoteles.com), em Lisboa, a cedência do espaço para as imagens, e à ASUS (pt.asus.com) a cedência de material informático.

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