As herdeiras do vinho

Elas transportam um legado espiritual e material no seu quotidiano. Algumas vezes por via direta, outras por escolha própria, estas dez mulheres que mostramos são herdeiras de grandes casas vinícolas. E estão prontas para a sucessão. O mundo do vinho é tradicionalmente masculino, e poucas vezes, salvo exceções como a de Dona Antónia Adelaide Ferreira, viu uma mulher aos comandos de uma casa. Estas mulheres já fazem parte de uma nova era e trazem consigo a grande novidade da abertura para o mundo, que há duas gerações era quimérica em Portugal. Sendo assim, representam uma revolução de formato dois em um. O mundo do vinho é hoje totalmente global e pede uma leitura radicalmente diferente da de outrora. Aí estão elas, aquelas com que podemos e devemos contar para construir a próxima geração vinhateira. As nossas princesas do vinho.

Uma herança sem antecedentes

Catarina Vieira

Herdade do Rocim, enóloga

Filha de professora primária do Colégio Moderno, pai engenheiro e militar de carreira, Catarina nasceu em Lisboa, mudando-se depois para Leiria, terra materna e paterna. Era criança de tenra idade quando aconteceu a mudança e foi o acontecimento feliz de a família se ter instalado temporariamente em casa dos avós paternos enquanto aguardava o termo da construção da casa que a fez ter o primeiro contacto com o mundo do vinho. «Lembro-me muito de ir às vinhas com o meu avô Manuel e de brincar na adega», recorda com carinho a jovem enóloga. Em pequenina, queria ser ginasta ou bailarina, mas cedo se lhe pegou a paixão pela terra, num apelo irredutível. Foi isso que ditou a entrada no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, acrescido ao fascínio pelo seu pai, que lhe indicava só por si que a engenharia seria bom caminho.

O grupo Movicortes, fundado e presidido pelo seu pai, José Ribeiro Vieira, cedo viria a albergar a nova vocação da vinha e do vinho. «O meu pai nasceu para ser gestor e líder e eu também quero deixar a minha marca», que só já dento do ISA, em pleno curso, sentiu o «clique» da viticultura. «Devo muito ao Prof. Rogério Castro e ao seu assistente Eng. Amândio Cruz.» Foi para Bolonha fazer o trabalho final de curso e logo que regressou inscreveu-se na pós-graduação da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica do Porto. Esta fez às escondidas do pai. «Ele achava que as filhas estudavam de mais», diz, sorrindo. Já estava comprada a Herdade do Rocim, onde se instalou uma adega moderna seguindo design vanguardista, com custos rigorosamente controlados.

«Estamos todos a trabalhar para o futuro, nada do que temos é para nós; queremos deixar legado.» Ensinamento herdado de seu pai. Os resultados depressa apareceram, crescendo de forma sustentada e colocando o Rocim como marca de um Alentejo especial, «com vinhos mais elegantes que potentes». A relação que tem com Pedro Ribeiro, enólogo da Herdade dos Grous, agradou ao seu pai que, apesar de prematuramente desaparecido, se eternizou no amor pelas suas filhas. «Fazer sempre o melhor que posso», é o seu lema e imperativo.

Vinha de mulheres

Francisca Van Zeller

Bacalhôa Vinhos, relações Públicas

A Quinta do Vale Dona Maria, no Douro, passou de mãe para filha ao longo de três gerações e é daí que Francisca vem. É aí que tem as suas raízes. Solteira ainda, quando casar tem de ser com alguém que respeite e goste do vinho. «A ligação ao vinho é muito importante para mim.»

A primeira vocação de Francisca surgiu aos 5 anos e era treinadora de golfinhos. Depois, veterinária, e depois ainda arquitetura. Foi no meio deste serpentear de possíveis profissões que aos 10 anos a filha de Cristiano e Joana Van Zeller chegou a uma decisão fundadora para o resto da sua vida. «Decidi que ia ser cozinheira de vinhos.» Acompanhou o pai e um enólogo numa prova e como cheiravam, provavam e falavam sobre os vinhos, a infanta convenceu-se que o estavam a cozinhar. Antes de chegar ao vinho, contudo, ainda foi estudar História para Inglaterra, onde fez a licenciatura, com uma curiosa especialização em história da mulher não-ocidental. Chamava «linda terra» a Inglaterra, em pequenina.

Foi educada na Oporto Business School, anglófona, e depois seguiu para o Royal Holloway College, para estudar História. Ainda queria seguir Política, assunto por que tem paixão. Escreve muito desde a adolescência, sempre para si. «Não sei se conseguiria escrever um grande romance.» Também não tentou. Aos 7 anos, sofreu a que considera ter sido a primeira perda da sua vida. «Foi quando a Quinta do Noval foi vendida.» É uma das mais emblemáticas propriedades do Douro e deixou-lhe as mais ternas memórias, nos tempos de vindima. Não tinha então consciência clara de que a sua família era vinhateira, «aliás foi bastante tarde que me apercebi disso».

Regressada de «linda terra», viveu e trabalhou em Lisboa, cidade de que é grande fã. Ao ingressar na Bacalhôa, para trabalhar nas relações públicas da casa, não se sentiu traidora do seu Douro nem da sua família. «Isso é incondicional.» Mas é peremptória: «Esta é neste momento a minha vida profissional e estou muito bem nela.» Num aniversário, o pai telefonou-lhe e disse-lhe que tinha registado uma marca de vinho e que esse seria um dia o vinho dela, para ela fazer. «Comovi-me muito, foi uma grande e bonita surpresa.» Veremos o que o destino reserva.

Vinho na terra do café

Rita Nabeiro

Monte Mayor, designer

Rita Nabeiro é uma pessoa invulgar porque consegue imprimir um cunho cultural a todas as vertentes do seu trabalho. É verdade que vinho é cultura, mas não é menos verdade que não é propriamente o que transpira do afã de vender, exportar e promover. Tem surpreendido pelo brilho das suas wine talks, sessões de debate que até agora se debruçaram sobre o vinho na música e nas artes plásticas. A arte urbana exerce grande fascínio na designer. Outras sessões se seguirão. As linhas criativas que tem vindo a desenvolver juntamente com o publicitário Carlos Coelho são inovadoras, tanto em termos estritos de criação de marca como também em arrojo, bastante raro no universo vínico. A utilização de novos materiais está também na lista de prioridades e tem vindo a ser seguida de forma consistente. Numa casa que é de cafés vive-se hoje intensamente o vinho.

A seguir ao seu curso de Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, trabalhou quatro meses em Parma, como designer numa agência de publicidade. Veio para cá e continuou a trabalhar em design e de certa forma fez carreira. Começava entretanto o projeto da Adega Mayor, que seria o braço Delta para os vinhos, iniciativa do pai e do avô. A adega foi implantada nos terrenos onde outrora andava de bicicleta, pelo que a ideia de apresentar uma proposta de imagem da empresa apelou muito a Rita Nabeiro. Saiu vencedora, sem favorecimentos familiares. «O meu avô não é de dar privilégios especiais à família», comenta. Com Paulo Laureano, enólogo consultor da Adega Mayor, aprendeu os fundamentos do vinho, «sempre tive muita atração por explorar universos aromáticos e o vinho é todo um mundo novo nesse aspeto».

Hoje Rita é gestora de mão cheia e tem todo o tempo ocupado com as diferentes frentes da empresa. Em Campo Maior, trata dos assuntos financeiros, enoturismo e vinho, enquanto em Lisboa funciona a coordenação comercial e de marketing. «É engraçado, porque tudo aconteceu de uma forma natural, nunca me disseram para fazer isto ou aquilo.» Crescimento orgânico, ou demonstração da máxima «quem sai aos seus...»

O destino marcado

Mafalda Guedes

Sogrape, Herdade do Peso e vinhos do Novo Mundo, gestora

«Para mim, o mais importante é o privilégio de trabalhar todos os dias com o meu pai e o meu avô.» A Sogrape sempre fez parte da família, mas Mafalda Guedes nunca se tinha apercebido do que era afinal estar dentro da empresa. «Tudo tem significado e tudo é feito com carinho.» Está há dois anos na Sogrape, depois de estudar gestão em Oxford, passar por uma consultora internacional e ainda trabalhar num banco em Angola. «Estudar em Inglaterra foi muito importante para aprender mas também a dar valor ao que tinha cá.»

Na sua infância, fez uma redação em que dizia que quando fosse grande queria ser economista e sentar-se na cadeira do seu avô. «Não me lembro de alguma vez ter tido vontade de não trabalhar na Sogrape; foi sempre qualquer coisa que desejei muito.» Em criança, gostava muito de ir com o pai para a empresa nas férias. «Deixava-lhe papéis colados na porta do quarto a pedir para me levar com ele no dia seguinte.» É otimista em relação aos vinhos portugueses e seu sucesso no mundo, dentro e fora do universo Sogrape. Vinhos maus? «Acho que há vinhos menos bons, gosto mais de ver assim.»

Trabalha no marketing, em equipa, e gosta. «Sinto que estou a aprender muito, com pessoas muito experientes.» A Herdade do Peso (Alentejo) «é uma marca estratégica para a empresa, sinto o peso da responsabilidade e que se espera muito de mim, não posso senão querer corresponder". Fala muito com o avô, Fernando Guedes. «Gosto muito de ir com ele às vinhas.» Está a fazer uma pós-graduação em enologia na Universidade Católica do Porto, o que lhe está a dar «uma perceção diferente do vinho, tanto em termos teóricos como práticos». Fez a vindima na Quinta da Leda, onde manuseou os equipamentos in loco e participou em todas as manobras. Chile e Argentina também tiveram impacte na jovem gestora. «Sinto muito orgulho no que nós, portugueses, ali fizemos, e somos admirados lá por isso.» Só falta conhecer a Nova Zelândia.

Herança com terroir

Maria de Castro

Quinta da Pellada, enóloga

Maria de Castro estudou biotecnologia na Universidade Lusófona e depois fez pós-graduação em Bordéus. «Enquanto estudante, até tinha alguma inclinação para a investigação, atraía-me.» Mas Maria sai ao pai, Álvaro de Castro: não é de estar entre quatro paredes. «De repente, projetei-me sempre enfiada num laboratório e não gostei.» Ao mesmo tempo, ir diretamente para as vinhas da família e trabalhar com o seu pai tinha de ser só depois de ganhar alguma experiência. «Fui para a DFJ, e foi uma experiência enriquecedora, que hoje considero fundamental para o meu início de carreira.»

Assumir o seu lugar no projeto da Pellada acabou por ser a sua opção de vida. «Achei que não fazia sentido ir começar um projeto individual, quando o meu perfil ideal de vinhos é o da Pellada.» Há um certo choque de feitios, «porque eu e o meu pai somos um bocado parecidos, procuramos as mesmas coisas». Dá o exemplo do trabalho com a casta Terrantez que estão a desenvolver, em que ambos põem muitas esperanças. «O Dão é berço de vinhos naturalmente elegantes, e isso é que é importante garantir.» Tem orgulho na sua região e gosta da popularidade crescente de que está a gozar entre os enófilos portugueses. «No estrangeiro também estamos a conseguir muito bons resultados.»

O repto que Maria sente em termos do trabalho que tem pela frente, é «chegar a mais mercados exteriores, garantir que consolidamos as nossas vendas». O marido trabalha em Lisboa e os filhos frequentam a escola na capital. Maria privilegia a família, mas precisa absolutamente do contacto com a terra, adega e vinhas. «Fico infeliz se passo muito tempo sem ir à Pellada.» O trabalho do vinho é exigente e precisa de cuidados quase quotidianos. É de opinião que temos de recuperar a figura do vigneron, «que é a pessoa ligada à terra e especializada nas suas vinhas, seguindo um estilo próprio de vinhos».

Do marketing para as vinhas

Rita Pinto

Quinta do Pinto, gestora

Formou-se em Gestão na Universidade Católica e entrou para a Unilever, que hoje considera «o emprego da minha vida». Muita gente nova, ambiente eletrizante «e sobretudo uma grande escola profissional». Esteve um ano a fazer estudos de mercado para os diferentes clientes, passando depois para o marketing. «Calhou-me a certa altura a parte alimentar e fiquei sempre com um bichinho e gosto especial por essa área.»

Foram seis anos muito intensos e proveitosos. Passou depois para a Panrico, onde esteve dois anos. Quando o pai de Rita decidiu em 2003 comprar a quinta, em Alenquer, nunca pediu a nenhum dos três filhos que fosse trabalhar para lá. Rita foi a primeira, seguindo-se a mais nova, Ana, que chamou a si os mercados exteriores e o trabalho de promoção. O irmão continua a trabalhar na banca. «O que me cativou foi a terra e aconteceu numa vindima.»

O vinho em si mesmo não apelava muito à gestora. «O clique deu-se a seguir à vindima de 2008.» Estava frio e de repente sentiu que estava ali o seu trabalho futuro. «Ainda estou a aprender, mas estou a sentir-me bem no meu papel, apesar de ser um negócio complexo.» Está a planear a diversificação da oferta, o próximo passo será provavelmente o azeite. «Nós não somos muito competitivos em termos de preço nos vinhos, mas somos diferenciados, especialmente na utilização de castas estrangeiras e mix com castas portuguesas.» A grande cliente familiar é a avô materna, que todos os dias tem mais de uma dúzia de descendentes a almoçar. «Só se serve o nosso vinho», diz com um sorriso, «enquanto que em minha casa é ao contrário, sistematicamente ficamos sem vinho nosso». Rita não tem medo dos insucessos, «o que é preciso é saber recuperar e corrigir trajetórias rapidamente».

Memórias carinhosas

Teresa Barbosa

Ninfa, gestora

João Barbosa, pai de Teresa, foi um dos proprietários das grandes Caves Dom Teodósio, em Rio Maior. Com a venda da empresa, João afastou-se por alguns anos da produção de vinho na região. Decide a certo ponto voltar ao jogo do vinho, com as marcas Ninfa (Tejo) e Lapa dos Gaivões (Alentejo), secundado pelos seus filhos, comprando terra e instalando vinha. No primeiro caso, foi o repto de uma cadeia de distribuição que desencadeou a ideia de produzir vinho, no segundo foi um anúncio no jornal de um terreno de dez hectares que foi irrecusável. As memórias de Teresa falam por si: «Lembro-me de ainda criança ir brincar para a Quinta de São João Batista, nos Riachos, e sentir os cheiros na sala das barricas que me ficaram para sempre na memória.»

Hoje os tempos são outros, mas as memórias carinhosas permanecem. Já com a empresa iniciada, foi a família toda - Teresa tem quatro irmãos - fazer o nível 1 da WSET (Wine & Spirits Education Trust). «O meu pai teve 96 pontos, eu fiz o curso mais tarde que todos até com alguma relutância, e tive 92.» Competitiva, desafiou o pai, dizendo-lhe que no próximo nível iria ultrapassá-lo. Quando era pequenina, Teresa queria ser astronauta, depois médica, mas acabou por enveredar pela engenharia do ambiente em Coimbra.

Confessa não ser fácil trabalhar com o pai, mas juntos conseguem levar as coisas para diante. Teresa trabalha o mercado nacional, enfrentando diariamente novos compradores e consumidores. «Dá-me um enorme gozo entrar num restaurante e ver uma garrafa nossa em cima de uma mesa.» Foi estruturante para o que faz hoje o tempo em que trabalhou num restaurante italiano de Coimbra, «aprendi o que era de facto atender pessoas». Fez nessa altura um intervalo nos seus estudos, e ainda trabalhou em duas lojas de acessórios de moda e roupa. «Depois voltei para o curso, com outra atitude.» Hoje, já imersa no assunto do vinho, continua a exigir diferença. «O Lapa dos Gaivões é dos poucos vinhos alentejanos de que gosto porque é fresco e, para mim, os vinhos do Tejo são os melhores.»

A capacidade da multiplicação

Sandra Tavares da Silva

Quinta de Chocapalha, enóloga

Desde criança que o vinho é vivido em casa de Sandra de forma especial. Brincava, desde pequena, na propriedade da família em Alcochete, criando laços que ficaram na sua memória e no seu coração.

O pai, Paulo Tavares da Silva, teve responsabilidades de direção na Adega Cooperativa da Merceana, criando laços importantes com a região de Alenquer, especialmente Aldeia Galega. Aí viria, de resto, a comprar a Quinta de Chocapalha, uma das mais belas e peculiares propriedades da zona, pela conjugação única de solo e clima que apresenta. O labor de seleção de castas, plantação e orientação das vinhas saiu de quem conhece como ninguém a Estremadura. Os espaços de adega, estágio e enoturismo configuram uma pérola da atividade na região, e um exemplo de como na simplicidade pode mesmo estar a solução. É uma sala de visitas, não só da família, mas também de todo este pedaço de território que orla a Grande Lisboa. Apesar do seu estatuto, a jovem Sandra optou por fazer os seus estudos superiores no Instituto Superior de Agronomia, a que juntou um mestrado em enologia em Itália. Para trás ficava uma vida prometedora como modelo, tendo desfilado nas principais passerelles do mundo. «Eu preciso de mexer na terra e de estar perto dela.» Quando regressou de Itália, a única região que não conhecia era o Douro, mas rapidamente se tornou o destino da sua vida adulta. É ainda hoje a enóloga da Quinta do Vale Dona Maria, bem como do projeto Pintas, que detém com o seu marido, Jorge Serôdio Borges. Reparte o seu tempo entre Alenquer, Rio Torto e Vale Mendiz, com igual paixão. «São projetos muito diferentes e revejo-me em todos.» A seguir ao primeiro filho, vieram... dois! Nota forte de maternidade, com os gémeos a aumentar a complexidade da vida de Sandra, mas a que sabe reagir como ninguém, com um sorriso. Moram mesmo junto ao Douro, com as vinhas ao fundo e a sua casa é um verdadeiro centro de acolhimento de jornalistas e críticos estrangeiros, além, claro, dos amigos que são muitos.

Celebração no feminino

Maria Manuel Poças Maia

Poças, viticultura

Desde muito nova teve contacto com o Douro, e sempre teve a certeza de que teria uma profissão que a ligasse à natureza. Agricultura ou veterinária, eram as duas únicas hipóteses de estudos para a jovem Maria Manuel Maia, pertencente à quarta geração da que é ainda hoje uma casa produtora de vinho do Porto cem por cento portuguesa e que mantém a família unida. A opção recaiu na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, curso de engenharia agrária. Apesar de ir com a família para as quintas de Santa Bárbara, perto da Régua, e Vale de Cavalos, em Freixo de Numão, só se apercebeu da beleza da viticultura quando estava na universidade. Ao mesmo tempo, crescia-lhe dentro «o orgulho de trabalhar no que os meus antepassados me tinham deixado». Foi contudo só já em funções na empresa, enquanto única e total responsável pela viticultura, que se apercebeu com plenitude da herança familiar que lhe estava confiada.

É de opinião que as vinhas durienses precisam de inovação e adaptação aos perfis dos vinhos que ali se produzem. «Ainda é preciso pensar a fundo o que estamos de forma geral a fazer no Douro». Fala com propriedade, já que a Poças foi das casas que mais cedo se voltou para os vinhos de mesa, a par dos tradicionais vinhos do Porto. Dentro de seis anos completam um século de existência, «praticamente tudo mudou, até na propriedade, no tempo da fundação praticamente nenhuma casa de vinho do Porto detinha diretamente vinhas». Além disso, não havia vinhos do Douro (mesa). «O controlo familiar é hoje mais intenso, porque a família cresceu e diversificou-se, gerindo os diferentes departamentos.»

No centenário, Maria Manuel gostava de fazer «uma grande festa», celebrando a família e o êxito alcançado. Sobre um mundo ainda muito povoado de homens, concorda que é «a única mulher no ativo, mas a mulher foi o elemento base da empresa». Refere-se às duas filhas do fundador Manoel Poças Júnior, Maria Teresa Poças e Cacilda Poças. Celebração do feminino.

A gestão marca a diferença

Madalena Sacadura Botte

Quinta da Bica, gestora

Quando frequentava o curso de comunicação empresarial no Instituto Superior de Ciências empresariais, em Lisboa, Madalena não imaginava nem que a sua profissão se desenvolveria no tema do vinho, nem que se mudaria de armas e bagagens para Santa Comba de Seia. Ainda estagiou como jornalista, durante cinco anos trabalhou em assessoria de imprensa e em 2006 estudou gestão de turismo no Rio de Janeiro. «Depois, foi altura de ajudar a minha mãe na gestão e desenvolvimento comercial dos nossos vinhos.»

A intenção de se mudarem para a Quinta da Bica até foi sugerida pelo seu marido, logo após o casamento. Hoje têm duas filhas pequeninas e todas as semanas conseguem estar juntos na casa que sempre foi espaço de reunião familiar, férias e fantasia. Enquanto trabalhava num banco, Madalena ia consolidando a estratégia comercial da casa, ao mesmo tempo que impulsionava o enoturismo. Acabou por deixar a atividade bancária para se dedicar exclusivamente às funções comerciais que vinha desenvolvendo. Atualmente exportam setenta por cento da produção e o mercado interno requer muita atenção. «Em cinco anos apenas, tudo mudou no Dão. Lembro-me de começar a trabalhar na quinta e de os vinhos do Dão não estarem nas preferências dos consumidores.»

Entretanto, o mercado despertou para as mais-valias da elegância e equilíbrio dos vinhos daquela região. «Agora o mercado está em expansão, apesar das dificuldades que são de todos conhecidas.» O enoturismo é a grande aposta, «é aqui em casa que os nossos vinhos se mostram melhor e é aqui também que as pessoas os podem conhecer plenamente». Estão prestes a lançar um novo vinho, Vinhas Velhas 2007, o que se prevê que aconteça ainda em novembro. A produção total é de sessenta mil garrafas, o que não é muito mas que para Madalena «representa o cuidado extremo que pomos no vinho que produzimos». E remata: «É assim que marcamos a nossa diferença.»

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